Continuando, apesar da descontinuidade, mais um conto… Desta vez, é o do Raoni!
A Casa
- Sim, pois não? Moro sim. Logo vi. Quando é gente de outras bandas a gente sabe. Todo mundo conhece todo mundo aqui. Sei sim, pode dizer. Aquela ali em frente? Bem, já faz um tempo que… A moça vem sozinha, não é casada? Sei, as coisas andam mudadas, mas uma hora acaba acontecendo. O tempo vai passando e afinal, homem não muda, sempre foi tudo igual. O jeito é levar… Oh meu filho, não cumprimenta os outros não? Essa é… Como é que é? Renata, é? A Renata está querendo alugar a casa.
- A casa? Mesmo? Mas ela sabe que…?
- Não começa com história menino.
- Deixa disso, mãe! De qualquer jeito ela vai ficar sabendo.
- A moça não quer entrar pra uma xícara de café? Não, quê isso, imagina. Venha, a gente toma um cafezinho e eu te conto. É melhor tomar consciência dos fatos por nós do que dar ouvido às falácias dessa gente aí. Oh, filho, pegue um dinheirinho com o seu pai e vá buscar alguns biscoitinhos daqueles pra gente. Pode entrar, fica a vontade. Não repara a bagunça. Casa com muito menino não para em ordem. Esse é meu marido. Vida mansa, né meu bem. Aposentou, graças a Deus. Mais de 50 anos trabalhando duro nas estradas a fora. É, transportava de tudo. É, tempos difíceis, quatro meninos, lavando roupa pra fora… Ah, mas o que Deus tira Ele devolve em descanso. Senta aí querida, vou passar um cafezinho.
_ A moça gosta de televisão? Eu posso ligar. Deve estar passando a novela. Pra ser sincero eu não agüento novela. Tudo a mesma ladainha. Vez ou outra eu ligo pra passar o tempo, oh vida besta! He! He! Fico olhando algumas paisagens. Tem umas que passam em uns lugares bacanas, né. Me dá saudade da minha época de estradeiro, dias e noites nesse Brasil a dentro. Aquilo sim. Tomava todo o suor da gente, mas me sentia livre no mundo, cada dia num lugar. Essa vida agora só dá preguiça. Que saudade. É só preguiça. He! He! Mas a moça tem parente aqui no bairro? Não? É mesmo? Aqui na vizinhança? Mas qual casa, essa aqui do lado? Hum, sei. Bem, olha!Não gosto de me intrometer, nem de falar da vida alheia, mas é que…
_Com açúcar ou você prefere adoçante? Ah, sim, querida. Aqui está a colherzinha.
_ A moça, bem. Quer alugar a casa.
_ É, ela disse. Tem de saber com a imobiliária. Está sim, uma imobiliária do centro. “Sweet Home’, acho que é isso, né, bem. A casa estava sob a administração dela. Agora não sei mais se deve estar…
_ Vai saber. Não para ninguém naquela casa. Os últimos três moradores que vieram depois do sumiço deles não ficaram mais que uma semana. Disseram que recebiam ameaças, que havia alguma coisa na casa que devia valer muito, mas que não faziam ideia do que era. Mas tem alguém que queria muito essa coisa e ameaçou de tudo pra consegui-la. Acho que deve ser coisa do velho. Sem lucro, sei lá se essa imobiliária ainda quer alguma coisa com essa casa.
_ Não, como a moça viu, a casa é muito boa. Uma mansão mesmo. Tem de tudo, sauna, piscina, jardim de inverno…
_ É, eles sumiram. Foi pouco depois que o menino foi preso.
_ Poderia, ao menos, ter sido esclarecido o real motivo da vinda daqueles sujeitos engravatados. É tudo muito estranho e difícil de acreditar. Um menino de boa família, bem educado, novo, um menino ainda, ter feito o que disseram por aí.
_ Depois que o avô morreu as coisas desandaram. Sujeito bravo, com ele as coisas deviam ser no laço curto. Sim morava um casal, um menino e o avô. Ninguém nunca soube se o casal era pai do menino. Mas que a mulher era filha do velho, era. Ele foi político, corrupto, dizem. Mexeu com muita coisa errada, muita gente morreu por causa da cobiça dele. Veio fugido do nordeste, trouxe a neta com ele e mais o menino. Foi a única vez que ele conversou com a gente da vizinhança. Os caminhões de mudança parados aí na porta, atravancando a rua. Ele olhou pra gente e disse “não extravexe não minha gente, esse incomodo não passa de umas horas”. E a gente mal sabia que, dali pra frente, as coisas iriam só piorar. O homem chegou depois, já se comportando como marido da mulher.
_ Não gosto nem de lembrar. Da madrugada que tivemos de passar em claro, eu me apegava com a Nossa Senhora nos ampare, nos livre disso tudo… Ah, meu filho, que demora só para ir à padaria. Trouxe os biscoitos?
_ Trouxe mãe, os biscoitos e o tio que veio saber da moça que quer alugar a casa. Ele está vindo.
_ Dá o troco para o seu pai e faça um favor pra moça, vá buscar na casa de sua tia o telefone da imobiliária que está com a casa aqui do lado.
_ Boa tarde. Encontrei esse pestinha no caminho e vim. É ela? Ah, Renata. O prazer é todo meu. Então você quer alugar a casa… mas eles já te contaram? Não? Pois então vou te contar. Assim foi como tudo isso se sucedeu. Eu vi com os meus próprios olhos. Você precisava ver a cara deles. Sempre de narizes empinados, metidos a besta. Agora a família toda com a fuça na lama. Lembra quando deram aquela festa, irmã? Todos de terno, as mulheres, damas de longo chegando, descendo daqueles carrões. Aquelas limusines? Música fina, violinos, comida gostosa. Minha mãe – faro esperto – reconheceu todo o bufê, só pelo cheiro. E tiveram o despeito de não convidar ninguém da vizinhança. Nem o próprio primo, não, que mora ali na esquina. Sim, o dono do açougue. Foi há uns oito meses, os homens com as caras encapuzadas chegaram já arrombando a porta, depois entraram na casa procurando alguma coisa que não encontraram e ficaram putos e quebraram tudo o que viram pela frente, tudo. Sorte a deles que tinham ido ao cemitério velar o avô morto.
_ Pois é moça, aconteceu, para a nossa surpresa, o inesperado. Ele morreu. Morreu engasgado com uma bala toffe, sua sobremesa favorita. Veja bem, um homem do diabo aquele assassino que era gostar de adoçar a boca com balinhas de caramelo. Não estou dizendo que esses desalmados não podem apreciar prazeres adocicados, não! Mas é que dizem que ele, ao chegar ao recheio do dropes, não mastigava, mas o chupava com vagareza, e dizia: "isso é a coisa única que Deus fez de bom"- e cuspia o resto.
_ Morreu engasgado com uma balinha. Acredita? Quando chegaram estávamos todos na rua especulando aquela barbaridade. Reagiram friamente. Entraram e depois de meia hora saíram com alguns pertences e foram se hospedar num hotel. Quando terminou a reforma, eles voltaram colocaram cerca elétrica no muro. A única coisa boa nisso tudo é que eles compraram todos os filhotes da Mary killer, minha pity bull.
_ Sim, voltaram. E, pelo o que disseram, eles não podiam deixar a cidade porque estavam sob investigação da policia federal. E que eles estavam devendo até a alma, mas não se desfizeram da casa. Depois de muito tempo confinados na casa e vendido todo o patrimônio do velho, eles sumiram… Como foi que eles fizeram isso, ninguém comprova, mas gente pra dizer dou-minha-cara-a-tapa-se-não-for-verdade é o que mais tem. Eu até que gostava deles, nunca me fizeram mal nenhum, mas que tem coisa errada nesta história tem, sempre teve. Não levaram nem os móveis da casa, e os cachorros tiveram de soltar para não morrerem de fome. Eles uivavam tristes que dava dó. Coitados, os animais não têm culpa das barbaridades dos homens.
_ Só depois de alguns meses que chegou a notícia de que estavam, muito bem de vida, morando no exterior e iriam alugar a casa. Nós até pensamos em mudar para lá, mas não fomos, porque estavam cobrando um preço muito alto, e, também, não tem nada melhor do que viver sob o teto que é nosso. Como eu te disse, vieram três moradores que não chegaram a desfazer todas as malas. Não agüentaram a…
_ Oh mãe, a tia está vindo com o número do telefone.
_ Obrigado meu filho.
_ Boa tarde! É você a moça que quer alugar a casa?
_ É sim, ela se chama Renata. Esta é minha irmã, querida.
_ O prazer é meu. Quê isso, não foi nada. Precisando, estou às ordens. Aqui está o número do telefone da imobiliária. De nada meu anjo. Afinal, você muda quando?