Primeira

 

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A bandeira do arcoíris era feita de papel e as faixas de cores coladas com fita adesiva e grampeadas. A percussão, formada de latas de tinta. Os bastões eram pedaços de cabo de vassoura. Os cartazes ream pedaços de caixa de papelão desmanchadas, escritas com tinta de aquarela e/ou com pincel atômico. As palavras de ordem eram criativas e montadas ao sabor do momento: “E daí, eu também sou travesti”, “Cidadão, pensa direito, com educação não existe preconceito”, “Eu amo homem, amo mulher, tenho direito de amar quem eu quiser”. Cada uma delas acompanhada por um ritmo diferente do “som” que as latas, um tanto amassadas depois do pequeno trecho percorrido, produziam, chamando a atenção dos passantes, de quem chegava e de quem estava às janelas dos/nos sobradões. Alguns motoristas acompanavam a latomia com a buzina. Uma algazarra organizada. E eu estava lá, segurando meu guarda-chuva colorido (também com as cores do arcoíris)! Uma forma participativa de dar apoio à marcha contra homofobia que, infelizmente, tem grassado pelos campi de Mariana e Ouro Preto. Muita coisa triste e ruim e agressiva tem se passado e, aos poucos, a gente vai tomando conhecimento e vai se indignando. De quebra, os estudantes faziam reinvindicações a favor da educação brasileira. A marcha fou uma das manifestações de apoio à greve dos docentes… É ter fé e esperança de que alguma coisa aconteça “de fato”.

Cadê o filme?

Foi no dia seis, na virada do dia. A notícia (já esperada) chegou… de repente. Contradição? Sim, por que a vida é contaditória, assim como a morte. Inexplicável, apesar de esperada. Como disse o poeta, “a indesejada das gentes”. Foram 55 anos, nove meses e seis dias de convivência. Aas turbulências e as concordâncias, inumeráveis. Os divertimentos e as tristezas, da mesma forma. Muitas lições e contradições. Nos momentos finais, a expressão, cândida e sincera, às vezes pomposa e retórica, davam notícia de sua performance como ser humano. Aquela dúvida crucial que sempre me acompanhou desde uma noite perdida no tempo, enquanto procurávamos, um amigo e eu, pelo local onde estaria sendo velado o pai dele, num sábado à noite que foi encoberto pela notícia inesperada, eu fiquei olhando para aquele homem sozinho. Literalmente abandonado numa sala obscura de um velório público, sem nem uma vela, sem ninguém. E eu perguntei: para onde foi o sorriso e a dor, a esperança e os equívocos, a respiração? Aquele sopro que o bebê solta e que foge do corpo assim, sem “explicação”. Essa dúvida me assalta, de novo, desde a manhã do domingo, seis de maio. Constato agora, estupefato, que foi no mesmo dia que Maria Luíza, com quem pouco convivi, mas cheguei a conhecer um pouco, também se foi. Meu pai morreu. A vida parece suspensa. Até quando, não sei dizer… penso que não será precisoo saber. Cadê o filme?

Parábola triste

 

Não sei quem é o autor. Recebi numa mensagem de um amigo. A contundência é inquestionável e me vi na situação descrita pelo velho da história. É triste, mas inegável…

O ano é 2020 D.C., ou seja, daqui a nove anos, e uma conversa entre
avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:
- Vovô, por que o mundo está acabando?
A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom
vem a resposta:
- Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.
- Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?
O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres
elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito
culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam
as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo
e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam
as pessoas a pensar.
- Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?
- Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes
professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos
alunos.
- E como foi que eles desapareceram, vovô?
- Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial,
que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô
não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os
políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de
avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação.
Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados.
Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais
interessados conseguiam aprender alguma coisa. Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer “eu estou pagando e você tem que me ensinar”, ou “para que estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você” ou ainda “meu pai me dá mais de mesada do que você ganha”. Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na
qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”. O professores eram vítimas da violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo. Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. “Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular”, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de idéias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério. Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se
tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos,
jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão – enfim, pessoas sem nenhuma formação ou contribuição real para a sociedade.

ATENÇÃO: Qualquer semelhança com a situação deste País ultrajado e
saqueado por políticos quadrilheiros e mafiosos, não é mera
coincidência.

Retorno

 

Reproduzo aqui um texto do colega Flávio Rezende, com meus pitacos em vermelho, como já fiz outras vezes. O texto dele (mantido aqui na íntegra, sem nenhuma “intervenção” de minha parte) me deu coceira no cérebro e eu decidir coçar-me, intrometendo-me em seara alheia, por solidariedade e concordância. O texto dele foi-me enviado por e-mail, por ele mesmo!

 

A mediocridade ainda é necessária

Flávio Rezende
escritorflaviorezende@gmail.com
     Para que possamos viver cada vez melhor em nossa amada casa, o planeta Terra, precisamos estar sempre em processo evolutivo. Diante desta necessidade, surgem muitas discussões no entorno do assunto, com uns achando que a materialidade exagerada não se constitui em evolução, uma vez que leva o ser a escravidão em torno de objetos e de posses, afastando o mais importante, sua essência espiritual da divindade. (A dúvida persiste e é marca da inteligência humana. Se bem que, às vezes, isso a que denominamos “inteligência” não seja dessa forma percebido tão claramente.)
     Tem ainda aqueles que não estão interessados em espiritualidade e querem mesmo é que mais e mais objetos sejam inventados, facilitando cada vez mais a vida do homem, ao ponto dele não precisar mais fazer quase nada a não ser apertar botões e ter acesso a um mundo de informações, entretenimento virtual, comidas em casa e, já uma realidade, sexo com bonecos e afeto com aparelhinhos diversos. (Eis um exemplo disso que pode ser confundido com “inteligência”. Os índices e ícones do que se convencionou chamar de conforto, felicidade, comodidade e quejandos não podem, simplesmente, ser tomados em grau absoluto, fazendo tábula rasa da diversidade!)
     Como devemos sempre respeitar a vontade de cada um, vamos indo cada qual com sua posição. (Não é isso respeito à liberdade indivisual e à diversidade, como dito acima?) Diante desta questão e de muitas outras, temos pessoas em vários níveis. Umas que só reproduzem comportamentos e repetem opiniões alheias (Infelizmente esse “padrão” tem grassado na face do planeta…) e, outros, com discernimento próprio e pesquisas pessoais em várias direções. A vida na Terra sempre foi assim, com pessoas de nível elevado vivendo junto com outros que são chamadas por uns de boi de presépio ou de Maria vai com as outras. (Feliz ou infelizmente, cada um tem direito à sua opinião!)
     Recentemente, ao ler um estiloso e bem escrito artigo sobre Baudelaire, o realmente inspirado escritor chamou outros escritores aqui da cidade de medíocres. (Atenção, etimologicamente, como bem sabe o Flávio, tem o sentido de mediano, comum, que está na média… A pejoração vem – ou pode vir – depois, só depois!!! Afinal, linguagem e discurso são universos concorrentes, em todos os sentidos!) A palavra é pesada, mas, seu julgamento pode ser verdadeiro. Entre outros companheiros de escritos, citou meu nome, provocando reflexões em meu ser. Depois de pensar um pouco, cheguei à conclusão de que nós, os medíocres, também temos nossa importância e merecemos ocupar espaços literários e jornalísticos. (O que seria da realidade se não fossem suas duas faces? Moedas não têm face única, dia e noite, branco e preto, a duplicidade é condição mínima de existência da ideia de equilíbrio…)
     Levando em conta que a grande maioria da população não é tão avançada em termos de letramento e de aprofundamento em textos mais bem escritos, (Como “medir” isso? Parâmetros não são convencionados? O que é, no fundo, no fundo, mais bem escrito ou menos bem escrito? Evoé, subjetividade!)  tendo certa dificuldade de compreender o pensamento daqueles mais inteligentes, cabe aos ditos medíocres exercerem seus tributos de escrevinhadores de uma maneira mais próxima da média, contribuindo assim para que muitos possam ter acesso e entendimento a reflexões diversas. (Tenho preguiça e quase nenhuma paciência com quem “se julga” mais “inteligente”. Mais uma vez, parece-me absurdo elevar o “relativo” à categoria axiomática de “absoluto”!)
     Pode ser um consolo ou a simples aplicação do “jogo do contente”, aquele em que Pollyanna Whittier, uma jovem órfã utilizava como filosofia de vida, tendo sempre uma atitude otimista, encontrando algo para se estar contente, em qualquer situação. (Síndrome de Pollyanna pode, sim – e é disso sintoma –, ser arma de fracos e covardes, presunçosos que não acreditam que um dia também vão ser esquecidos e virar pó!) Fraco para uns e entendível e claro para outros, não devemos, nós – os medíocres – nos intimidar diante de colocações públicas de nossas fragilidades literárias, afinal, acredito que nós também somos necessários. (Amigo, medíocres são os que conseguem ver bem “além do jardim”, para blaguear certo filme instigante de tempos outros…!)

Flávio Rezende, escritor, jornalista e ativista social em Natal/RN

Antes de ir dormir…

A dona abre um sorriso confiado e diz que a História não pode ser falseada para se criar a ficção. Será que ela sabe a dimensão da bobagem que ela falou? Do outro lado da página, alguns leitores deslumbrados (o nome dela é muito citado, ela publica nas melhores “editoras” e quase ninguém pergunta de fato o que ela pensa… mídia… Mas ela está lá, na página de um jornal, feliz, crente que sabe muita coisa e mais crente ainda em seu próprio potencial para a imortalidade na/da existência humana. E pensar que descobriram que a Bastilha, quando de sua famosa “queda”, abrigava meia dúzia de gatos pingados, ao que parece, nenhum deles de muita “importância” para a Revolução francesa… E depois querem que leve a sério o que a dona disse…

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Lá, naquele lugar, encravado numa outra área que, de tão feia, não me lembro o nome… Pois é, lá mesmo, desenvolveram (compraram de alguma matriz estrangeira, pouco importa) um programa que distribui os encargos de maneira racional, evidentemente sem a pretensão de ser perfeita. Mas distribui. A demanda é chegada e processada pelo tal programa. Afinal, naquele lugar, ainda que não tão seria e completamente assim, entende-se que quem está lá dentro, lá está para trabalhar. Já em outros lugares, a semana continua sendo dividida em duas partes estanques, em nome da”liberdade” e da “autonomia”… Vai entender…

******

O difícil não é tentar entender o que se passa. O mais difícil é encontrar ponto de equilíbrio entre a falta de paciência de um lado e a cabeça dura de outro. Mistura explosiva que, com os anos, mostra mais ainda de suas idiossincrasias. E as circunstâncias que colocam um cristão no meio desses dois portentos da existência humana se ri. De foice na mão, a indesejada das gentes (por que será que é assim se o fim é líquido e certo, ainda que por circunstância…?) espera e ausculta, anunciando-se diariamente, em doses homeopáticas. E começa a surgir certa indignação controlada, porque atávica ao ser humano. Ah… a vida!

Besteirol

Nos dias que correm, as calamidades “intelectuais” são tantas que na “academia” alguém há de dizer que a bobagem abaixo (que recebi por e-mail e repasso literalmente) faz sentido em nome da globalização e da pós-modernidade…

Ai que preguiça…

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Análise literária da música AI SE EU TE PEGO, por Edmilson Borret, professor de Português

Já que professor de literatura sou, dediquei alguns minutos do meu precioso tempo para me debruçar sobre a letra desse “fenômeno” de crítica e público que assola as rádios e tv’s, não só do Brasil, mas também do mundo: “Ai, se eu te pego”, desse grande artista chamado Michel Teló. Uma letra de música tão profunda, filosófica e poética como essa merece, sem sombra de dúvida, uma análise literária mais esmiuçada… Então vamos lá!

Delícia, delícia
Assim você me mata”

Nos versos acima, nota-se de imediato que o eu lírico expressa metaforicamente seu deleite sexual, chegando mesmo – pode-se dizer – a um estado de clímax sexual, um orgasmo. Entretanto, à medida que avançamos na leitura da letra da música, percebemos logo no verso seguinte uma ideia parodoxal que nos leva a constatar que talvez o eu lírico, através de um eufemismo muito bem elaborado, aponte para uma das práticas difundidas na tradição literária ocidental, principalmente a partir do Romantismo. Observem o verso:
“Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego”
A anáfora presente nesse verso, com a repetição da interjeição “ai”, mais uma vez denota a ideia de deleite, de clímax sexual. Entretanto, através do papel hipotético conferido pela conjunção condicional “se”, percebe-se que o eu lírico não chegou, de fato, a um enlace, a uma conjunção carnal com o objeto de seu desejo: o “ai se eu te pego” signicando algo como “ai, como eu gostaria de te pegar” ou “ai, se eu pudesse te pegar” (levando-se em consideração também o neologismo já absorvida pela linguagem coloquial quando ele usa o verbo “pegar” para significar o ato sexual).
Ou seja: se, nos dois primeiros versos, o eu lírico expressa seu deleite, seu clímax sexual, seu orgasmo; mas, logo imediatamente, nos dá dicas de que o enlace sexual não ocorreu de fato, somos forçosamente levados a considerar que o eu lírico é…
UM PUNHETEIRO DE MARCA MAIOR !!!!!!!

E essa porcaria vende, meus amigos!!!!

Polêmica

O texto abaixo, eu recebi de um amigo. Não sei se “cientificamente” procede, mas a argumentação parece sólida. Daí resolvi partilhar!

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Colesterol não é o Inimigo que você foi induzido a crer

01/06/2011

Cirurgião especialista em cardiologia admite enorme erro!

Por Dr. Lundell Dwight, MD

Nós os médicos com todos os nossos treinamentos, conhecimento e autoridade, muitas vezes adquirimos um ego bastante grande, que tende a tornarmos difícil admitir que estamos errados. Então, aqui está. Admito estar errado…

Como um cirurgião com experiência de 25 anos, tendo realizado mais de 5.000 cirurgias de coração aberto, hoje é meu dia para reparar o erro de médicos com este fato científico.Eu treinei por muitos anos com outros médicos proeminentes rotulados como “formadores de opinião.” Bombardeado com a literatura científica, sempre participando de seminários de educação, formuladores de opinião que insistiam que doença cardíaca resulta do fato simples dos elevados níveis de colesterol no sangue.

A terapia aceita era a prescrição de medicamentos para baixar o colesterol e uma severa dieta restringido a ingestão de gordura. Este último é claro que insistiu que baixar o colesterol e doenças cardíacas. Qualquer recomendação diferente era considerada uma heresia e poderia possivelmente resultar em erros médicos.

Ela não está funcionando! Estas recomendações não são cientificamente ou moralmente defensáveis. A descoberta, há alguns anos que a inflamação na parede da artéria é a verdadeira causa da doença cardíaca é lenta, levando a uma mudança de paradigma na forma como as doenças cardíacas e outras enfermidades crônicas serão tratados.

As recomendações dietéticas estabelecidas há muito tempo ter criado uma epidemia de obesidade e diabetes, cujas consequências apequenam qualquer praga histórica em termos de mortalidade, o sofrimento humano e terríveis consequências econômicas.

Apesar do fato de que 25% da população tomar caros medicamentos a base de estatina e, apesar do fato de termos reduzido o teor de gordura de nossa dieta, mais americanos vão morrer este ano de doença cardíaca do que nunca. Estatísticas do American Heart Association, mostram que 75 milhões dos americanos atualmente sofrem de doenças cardíacas, 20 milhões têm diabetes e 57 milhões têm pré-diabetes. Esses transtornos estão a afetar pessoas cada vez mais jovens em maior número a cada ano.

Simplesmente dito, sem a presença de inflamação no corpo, não há nenhuma maneira que faça com que o colesterol se acumule nas paredes dos vasos sanguíneos e cause doenças cardíacas e derrames. Sem a inflamação, o colesterol se movimenta livremente por todo o corpo como a natureza determina. É a inflamação que faz o colesterol ficar preso.

A inflamação não é complicada – é simplesmente a defesa natural do corpo a um invasor estrangeiro, tais como toxinas, bactéria ou vírus. O ciclo de inflamação é perfeito na forma como ela protege o corpo contra esses invasores virais e bacterianos. No entanto, se cronicamente expor o corpo à lesão por toxinas ou alimentos no corpo humano, para os quais não foi projetado para processar, uma condição chamada inflamação crônica ocorre. A inflamação crônica é tão prejudicial quanto a inflamação aguda é benéfica.

Que pessoa ponderada voluntariamente exporia repetidamente a alimentos ou outras substâncias conhecidas por causarem danos ao corpo? Bem, talvez os fumantes, mas pelo menos eles fizeram essa escolha conscientemente. O resto de nós simplesmente seguia a dieta recomendada correntemente, baixa em gordura e rica em gorduras poli-insaturadas e carboidratos, não sabendo que estavam causando prejuízo repetido para os nossos vasos sanguíneos. Esta lesão repetida cria uma inflamação crônica que leva à doença cardíaca, diabetes, ataque cardíaco e obesidade.

Deixe-me repetir isso. A lesão e inflamação crônica em nossos vasos sanguíneos é causada pela dieta de baixo teor de gordura recomendada por anos pela medicina convencional.

Quais são os maiores culpados da inflamação crônica? Simplesmente, são a sobrecarga de simples carboidratos altamente processados (açúcar, farinha e todos os produtos fabricados a partir deles) e o excesso de consumo de óleos ômega-6 (vegetais como soja, milho e girassol), que são encontrados em muitos alimentos processados.

Imagine esfregar uma escova dura repetidamente sobre a pele macia até que ela fique muito vermelho e quase sangrando. Faça isto várias vezes ao dia, todos os dias por cinco anos. Se você pudesse tolerar esta dolorosa escovação, você teria um sangramento, inchaço e infecção da área, que se tornaria pior a cada lesão repetida. Esta é uma boa maneira de visualizar o processo inflama tório que pode estar acontecendo em seu corpo agora.

Independentemente de onde ocorre o processo inflamatório, externamente ou internamente, é a mesma. Eu olhei dentro de milhares e milhares de artérias. Na artéria doente parece que alguém pegou uma escova e esfregou repetidamente contra a parede da veia. Várias vezes por dia, todos os dias, os alimentos que comemos criam pequenas lesões compondo em mais lesões, fazendo com que o corpo responda de forma contínua e adequada com a inflamação.

Enquanto saboreamos um tentador pão doce, o nosso corpo responde de forma alarmante como se um invasor estrangeiro chegasse declarando guerra. Alimentos carregados de açúcares e carboidratos simples, ou processados com óleos omega-6 para durar mais nas prateleiras foram a base da dieta americana durante seis décadas.

Esses alimentos foram lentamente envenenando a todos.

Como é que um simples bolinho doce cria uma cascata de inflamação fazendo-o adoecer?

Imagine derramar melado no seu teclado, ai você tem uma visão do que ocorre dentro da célula. Quando consumimos carboidratos simples como o açúcar, o açúcar no sangue sobe rapidamente. Em resposta, o pâncreas segrega insulina, cuja principal finalidade é fazer com que o açúcar chegue em cada célula, onde é armazenado para energia. Se a célula estiver cheia e não precisar de glicose, o excesso é rejeitado para evitar que prejudique o trabalho.

Quando suas células cheias rejeitarem a glicose extra, o açúcar no sangue sobe produzindo mais insulina e a glicose se converte em gordura armazenada.

O que tudo isso tem a ver com a inflamação? O açúcar no sangue é controlado em uma faixa muito estreita.

Moléculas de açúcar extra grudam-se a uma variedade de proteínas, que por sua vez lesam as paredes dos vasos sanguíneos. Estas repetidas lesões às paredes dos vasos sanguíneos desencadeiam a inflamação. Ao cravar seu nível de açúcar no sangue várias vezes por dia, todo dia, é exatamente como se esfregasse uma lixa no interior dos delicados vasos sanguíneos.

Mesmo que você não seja capaz de ver, tenha certeza que está acontecendo. Eu vi em mais de 5.000 pacientes que operei nos meus 25 anos que compartilhavam um denominador comum – inflamação em suas artérias.

Voltemos ao pão doce. Esse gostoso com aparência inocente não só contém açúcares como também é cozido em um dos muitos óleos omega-6 como o de soja. Batatas fritas e peixe frito são embebidos em óleo de soja, alimentos processados são fabricados com óleos omega-6 para alongar a vida útil. Enquanto ômega-6 é essencial – e faz parte da membrana de cada célula controlando o que entra e sai da célula – deve estar em equilíbrio correto com o ômega-3.

Com o desequilíbrio provocado pelo consumo excessivo de ômega-6, a membrana celular passa a produzir substâncias químicas chamadas citocinas, que causam inflamação. Atualmente a dieta costumeira do americano tem produzido um extremo desequilíbrio dessas duas gorduras (ômega-3 e ômega-6). A relação de faixas de desequilíbrio varia de 15:1 para tão alto quanto 30:1 em favor do ômega-6. Isso é uma tremenda quantidade de citocinas que causam inflamação. Nos alimentos atuais uma proporção de 3:1 seria ideal e saudável.

Para piorar a situação, o excesso de peso que você carrega por comer esses alimentos, cria sobrecarga de gordura nas células que derramam grandes quantidades de substâncias químicas pró-inflamatórias que se somam aos ferimentos causados por ter açúcar elevado no sangue. O processo que começou com um bolo doce se transforma em um ciclo vicioso que ao longo do tempo cria a doença cardíaca, pressão arterial alta, diabetes e, finalmente, a doença de Alzheimer, visto que o processo inflamatório continua inabalável.

Não há como escapar do fato de que quanto mais alimentos processados e preparados consumirmos, quanto mais caminharemos para a inflamação pouco a pouco a cada dia. O corpo humano não consegue processar, nem foi concebido para consumir os alimentos embalados com açúcares e embebido em óleos omega-6.

Há apenas uma resposta para acalmar a inflamação, é voltar aos alimentos mais perto de seu estado natural. Para construir músculos, comer mais proteínas. Escolha carboidratos muito complexos, como frutas e vegetais coloridos. Reduzir ou eliminar gorduras omega-6 causadoras de inflamações como óleo de milho e de soja e os alimentos processados que são feitas a partir deles. Uma colher de sopa de óleo de milho contém 7.280 mg de ômega-6, de soja contém 6.940 mg. Em vez disso, use azeite ou manteiga de animal alimentado com capim.As gorduras animais contêm menos de 20% de ômega-6 e são muito menos propensas a causar inflamação do que os óleos poli-insaturados rotulados como supostamente saudáveis.

Esqueça a “ciência” que tem sido martelada em sua cabeça durante décadas. A ciência que a gordura saturada por si só causa doença cardíaca é inexistente. A ciência que a gordura saturada aumenta o colesterol no sangue também é muito fraca. Como sabemos agora que o colesterol não é a causa de doença cardíaca, a preocupação com a gordura saturada é ainda mais absurda hoje.

A teoria do colesterol levou à nenhuma gordura, recomendações de baixo teor de gordura que criaram os alimentos que agora estão causando uma epidemia de inflamação.

A medicina tradicional cometeu um erro terrível quando aconselhou as pessoas a evitar a gordura saturada em favor de alimentos ricos em gorduras omega-6. Temos agora uma epidemia de inflamação arterial levando a doenças cardíacas e a outros assassinos silenciosos.

O que você pode fazer é escolher alimentos integrais que sua avó servia (frutas, verduras, cereais, manteiga, banha de porco) e não aqueles que sua mãe encontrou nos corredores de supermercado cheios de alimentos industrializados. Eliminando alimentos inflamatórios e aderindo a nutrientes essenciais de produtos alimentares frescos não-processados, você irá reverter anos de danos nas artérias e em todo o seu corpo causados pelo consumo da dieta típica americana.

O ideal é voltarmos aos alimentos naturais e muito trabalho físico (exercícios).

[Ed. Nota: Dr. Dwight Lundell é ex-Chefe de Gabinete e Chefe de Cirurgia no Hospital do Coração Banner, Mesa, Arizona. Sua prática privada, Cardíaca Care Center foi em Mesa, Arizona. Recentemente, Dr. Lundell deixou a cirurgia para se concentrar no tratamento nutricional de doenças cardíacas. Ele é o fundador da Fundação Saúde dos Humanos, que promove a saúde humana com foco na ajuda às grandes corporações promover o bem estar.]

Ele é o autor de A Cura para a Doença Cardíaca e A Grande Mentira do Colesterol

“Me arrependo de coisas que disse, mas jamais de meu silêncio” ( Xenocratis )

Intervalo

Fazendo uma pausa no que já está lento (a publicação dos contos), para relaxar no início do final de semana:

A ONU enviou uma carta para cada país com a questão:
Por favor, diga honestamente qual é a sua opinião sobre
a escassezde alimentos no resto do mundo.

A pesquisa foi um fracasso.
Os Europeus não entenderam o que era escassez.
Os africanos não sabiam o que era alimento.
Os cubanos não entenderam o que era opinião e os argentinos,
o significado de por favor.
Os norte-americanos nem imaginam o que seja resto do mundo.
Enquanto isso, o congresso brasileiro está debatendo o que é honestamente.

PS: desconheço a autoria!
Poderá também gostar de:
Inteligência e espírito
Seminário 1
Perdidos no tempo

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Relógio

Quem sou eu

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Mais um conto

Hoje é dia da Mara!

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A vida de Romeu

Bom, meu nome é Rodolfo, morava em uma casinha aos fundos da casa do senhor Romeu, homem velho, solitário e amargurado. Meu pai, antes de mim, havia trabalho para o Sr. Romeu, de motorista, há alguns anos ele faleceu e eu assumi o lugar dele. Moramos eu, minha esposa Ângela, minha mãe Rosa e meus dois filhos, Ana Maria e Matheus. Minha mãe trabalha na cozinha da casa, minha esposa é secretária do Sr. Romeu. Ele é um bom homem, salvo seus acessos de loucura, pelo menos uma vez na semana. Minha mãe, como de costume, prepara um chá de 7 ervas e dá a ele, para que se acalme. Ele bebe o chá e vai dormir. Nunca compreendi o porquê de aquele homem estar sozinho e amargurado. Não tem filhos, não tem mulher, não tem ninguém. Certa vez minha mãe me contou uma história, disse que um dia eu entenderia porque o Sr. Romeu havia se tornado o homem que é. Tinha mais ou menos 15 anos, demorou muito, mas hoje eu compreendo.

Lembro-me da minha mãe contando que o Sr. Romeu havia se refugiado naquela estranha casa, no alto de uma colina, aqui na Pensilvânia. Ela me disse: é o amor, Rodolfo, só ele é capaz de transformar um homem dessa maneira. Ele tinha mulher e filho, morava em uma casinha próxima ao lago Mississipi, mas aí houve uma tragédia e só ele sobreviveu, sua casa pegou fogo, ele estava trabalhando, sua mulher e seu filho estavam na casa e não conseguiram sair. Depois disso ele mandou construir essa casa e se enclausurou, não deu mais chance pra vida, quando se mudou pra essa casa ele contratou seu pai e eu para trabalharmos pra ele, e estamos desde então.

Sempre fui muito grato ao Sr. Romeu por tudo o que ele fez para a minha família, por ter nos acolhido e nos dado trabalho, e depois que meus filhos nasceram, ele permitiu que continuássemos na casinha dos fundos. Desde que eu compreendi o sofrimento dele, compreendi também toda aquela estrutura estranha da casa que ele mandara construir, por que o telhado fica na parte debaixo da casa? Por que a casa é sustenta por uma pilastra? Porque o jardim é sobre a garagem? – Ele simplesmente não queria sair da casa!

O Sr. Romeu é um homem muito precavido, amedrontado até. Em sua casa há elevadores, escorregadores – opção para sair da casa o mais rápido possível –, as portas e janelas abrem para baixo, para facilitar sua abertura, há saídas de emergência em todos os cômodos da casa, há uma piscina que nunca foi usada, há guincho, caixas e mais caixas de primeiros socorros, há um tablado rolante, boias. O Sr. Romeu construiu quase uma fortaleza contra os ataques repentinos da falta de destreza e dos efeitos da natureza. Não seria o fogo, nem a chuva que o levariam desta vida. Eu, no lugar dele, preferiria já ter ido, pois não aguentaria viver nessa solidão, principalmente por ter perdido mulher e filho.

Todos os dias ele me dava dinheiro e me pedia para comprar flores, rosas brancas, três dúzias delas, e todos os dias, à exceção dos dias em que ele tinha suas crises de loucura, ele despetalava as flores e jogava ao vento, sempre na direção sul, sempre às 21h, hora que, segundo a minha mãe, o filho dele havia nascido. As flores eram para eles, todos os dias, no mesmo horário, uma forma de mostrar que, embora eles tivessem partido, o momento em que a sua mulher havia dado a luz, este momento que seria lembrado e agraciado com flores, e não seus túmulos.

Romeu, a cada dia que se passava, se transformava em um homem mais e mais solitário, cada vez mais se excluía, se enclausurava em seu quarto, e qualquer um que tentasse um contato, tinha por vezes a cara atrás da porta.

Eu, como um simples motorista, nunca tinha me atrevido a perguntar qualquer coisa que fosse para ele. Temia o que ele pudesse pensar, temia a sua resposta. Temia a minha dispensa. Temia-o e simplesmente calava-me. Preferia o silêncio dele, mesmo que eu quisesse perguntar a ele de o culpado do incêndio havia sido ele, mesmo que ele não estivesse na casa, mas minha ínfima presença ali, naquele quarto não fazia nenhuma diferença, a não ser se eu não conseguisse encontrar as três dúzias de rosas brancas.

Certa vez, saí para comprar as rosas, fui às três floriculturas próximas a casa, em nenhuma delas encontrei as rosas, pensei: “Levo rosas amarelas, são quase brancas, indicam tranquilidade”. Não para o Romeu. Cheguei e entreguei as rosas, ele me olhou, como quem, se pudesse e conseguisse, mataria alguém, e nesse caso, eu. Ele despedaçou as rosas, não sobrou nem os espinhos, gritou dezenas de horrores e pediu que eu me retirasse. Minha mãe correu para ver o que estava acontecendo, minha mulher continha meus filhos para que eles não entrassem no quarto e vissem o Sr. Romeu naquele estado. Saí com os olhos estatelados, pernas bambas, boca seca, coração aos gritos e mãos frias. Ângela segurou-me. Levou-me para casa, preparou um chá. Tomei. Deitei. Dormi.

Quando amanheceu minha mãe veio ao meu quarto e me chamou. Contou-me que o Sr. Romeu havia machucado as mãos com os espinhos das rosas, e pediu-me que fosse a cidade tentar encontrar as tais rosas brancas. Estava destruído da noite anterior, mas não podia simplesmente dizer não.

Saí, fui a uma cidadezinha vizinha, encontrei as rosas. Três dúzias de rosas brancas. – Não, dê-me seis dúzias, compensaria o dia anterior. Andei mais um pouco pela cidadezinha, não a conhecia bem, mas sabia que era ali que os túmulos da mulher e do filho do Sr. Romeu estavam. Encontrei o cemitério. Encontrei os túmulos. “Mãe e Mulher amada”; “Filho e neto amado”. Havia flores novas, rosas brancas, por coincidência. Então depositei mais duas rosas nos túmulos. Quando estava indo embora ouvi uma voz: “Senhor…”. E mais uma vez, dessa vez mais próxima: “Senhor”. Olhei para trás e uma senhora já estava prestes a tomar-me pelo braço. “Foi o Sr. Romeu quem lhe mandou depositar as flores naqueles túmulos?”. Acenei que não com a cabeça. Ela abaixou a cabeça, como se sentisse não ser ele o mandatário das flores. Ela ia se virando quando eu disse que trabalhava na casa dele, e que embora não fosse ele quem mandara depositar as flores, de um jeito torto ele era o responsável. Ela sorriu amavelmente e começou a caminhar na direção dos túmulos. Não pude conter minha curiosidade e perguntei quem era ela. “Sou a mãe do Romeu”.

Não sabia que a mãe do Sr. Romeu ainda era viva. Uma bela senhora com seus noventa e poucos anos. Voltei pra casa e fiquei pensando nisso. Entreguei as rosas a minha mãe. Não poderia voltar ao quarto do Sr. Romeu depois do acontecido. Nenhuma palavra eu disse a ninguém sobre o que ocorrera naquela tarde. Tomei para mim uma promessa: descobriria o que havia acontecido se não fosse pelo Romeu, seria por sua mãe.

No dia seguinte voltei ao cemitério, e lá estava ela, sentada sobre a lápide. Vi que uma lágrima escorreu pela sua face. Aproximei-me e entreguei-lhe um lenço. Ela agradeceu. Então a convidei para um chá em um restaurante próximo dali. Disse que queria conversar sobre o seu filho. Ela acenou que sim com a cabeça, sorriu com aquele mesmo sorriso, deu-me o braço e acompanhou-me.

“Chovia muito quando Romeu saiu de casa. Ninguém sabia pra onde ele havia ido. Ele pegou o carro e saiu. Soube que ele e sua esposa brigaram antes, mas não sei como foi, sei o recado que estava em minha secretária. ‘Por favor, venha aqui, o Romeu enlouqueceu. ’ Não sei o que ele fez, só sei que não foi algo bom.”

Aconteceu tudo muito rápido. Disse ela. Recebi a mensagem e corri pra casa deles. Cheguei e a casa já estava em chamas. Liguei para os bombeiros. Não sabia se tinha alguém dentro da casa ainda, nem podia imaginar a possibilidade de realmente estar lá.

Será que ele sabia o que estava acontecendo? Passou essa pergunta em minha cabeça. Veio a resposta. Ela disse que tentou falar com ele, mas sem sucesso. Disse que tentou encontrá-lo de todas as maneiras, mas foi tudo em vão.

Poderia ele ter sumido assim? Sem se importar com nada? Sem se preocupar com sua esposa e seu filho? Conheço o Sr. Romeu há muitos anos, e sei que ele é um homem amedrontado, mas achava que isso ocorrera devido à perda da família. Não compreendi.

A senhora continuou a história. Disse que saiu a procura dele, na esperança de encontrá-lo. Ligou para o celular, para o trabalho dele. Foi aos bares em que ele costumava ir. Mas não o encontrou. Já se passara mais de 2 horas após o incêndio. E Romeu ainda estava sumido. Contou-me que ele só aparecera no dia do enterro. “Ele olhava de longe, sem coragem de chegar mais perto.” E eu estava lá. Esperando para poder segurar a sua mão e secar suas lágrimas. Completou.

Já estava tarde, eu precisava retornar à casa de Romeu. Despedi-me da senhora. Ao longo da estrada de volta a casa, fiquei refletindo sobre tudo o que aquela senhora havia me contado. Não conseguia acreditar em nada daquilo. Não me parecia ser lógico uma pessoa abandonar sua família dessa forma, mesmo que essa pessoa fosse o Sr. Romeu.

Chegando a casa, dirigi-me ao quarto do Sr. Romeu. Ele estava deitado em sua cama, com aquele fúnebre silêncio. Chamei-o. Ele respondeu, e disse que eu poderia entrar. Sentei-me em uma cadeira que se encontrava do lado esquerdo da sua cama. Então comecei a contar-lhe do meu dia. Contei-lhe sobre a senhora que encontrara nos túmulos. Contei sobre o incêndio e pedi que ele me contasse o que havia acontecido.

Jamais imaginei que eu tivesse essa conversa com o Sr. Romeu, mas eu fui acometido por uma vontade imensa de entender o que havia acontecido de fato na vida dele, que não pude me conter.

“Meu caro Rodolfo, seu pai, antes de você, foi meu motorista, um homem de minha inteira confiança. Meu único amigo. Ele nunca teve a coragem de me perguntar isso. Na verdade, ninguém nunca demonstrou coragem para me perguntar isso. Acho que eu vivi tanto tempo preso em mim mesmo que perdi a vontade de conversar com alguém, mas agora que você perguntou. Eu lhe contarei.”

A sua história foi parecida com a da senhora, ao menos no inicio. Ele disse que chegara a casa com muita chuva caindo do céu. Disse que quando entrara não avistara a sua mulher, apenas um bilhete dizendo que ela fora ao mercado com o filho para fazer compras. Disse que estava testando alguns complementos da fábrica onde trabalhava. Testou os complementos, deixou um bilhete pra esposa e saiu. Daí então não sabia de mais nada.

Assim, após rodar alguns quilômetros de carro, contando certo tempo, voltou a casa, mas quando chegou perto, viu a confusão. Bombeiros, polícia, os vizinhos, jornais locais. Era uma confusão total. Ele disse que entrou no carro e continuou a rodar, até que a gasolina do carro acabou. Ele parou perto de uma ribanceira. Chorou por horas a fio, tentou pular, mas algo o puxara para trás. Resolvera voltar.

Ao contrário do que a mãe dele achava, e que eu comecei a achar, Romeu não sumira por não saber ou por saber o que tinha acontecido, ele sumira por ser ele o culpado pelo incêndio em sua casa. Porque o que ele testava eram os mesmos complementos que hoje ele vendia, complementos para a rede elétrica. E como não podia testar na fábrica, levava para a casa.

Logo, Romeu não era a vítima, era o executor. Essa revelação chocou-me. Fiz como se fosse levantar-me da cadeira. Ele fez que não com a mão. Disse para que eu permanecesse ali. E então fiquei. Imóvel e atônito. Escutei as explicações da história. Que ele precisava ganhar dinheiro. Que tinha prometido à esposa e ao filho que eles teriam tudo do bom e do melhor. Que eles teriam a casa mais diferente do bairro. O carro mais luxuoso. Prometeu que a mulher teria muitas empregadas, e que assim ela seria tratada como rainha. E que seus planos tinham dado errado. Lágrimas começaram a escorrer do rosto dele. E ele concluiu. “E foi isso que aconteceu”. Era toda a história. Acabara. Mas não…

A final, eu ouvi outra parte da história, e nem tudo tinha se completado. Levantei-me, pus minha mão no ombro do Sr. Romeu e perguntei o que estava escrito no bilhete. E o porquê de sua esposa achar que ele estava ficando louco. E ele me disse. “É filho, achei que não perguntaria isso.” Aí ele me contou. E lágrimas escorreram do meu rosto. Disse que tinha escrito no bilhete pra esposa não se preocupar, porque ele já estava dando um jeito na vida deles, que ele tinha pegado alguns objetos na fábrica para pode completar o seu experimento e concluir os complementos de rede que ele estava montando. E que ele iria pedir demissão. Que ela não se preocupasse que tudo daria certo. Que não era pra ela mexer em nada. Que ele tinha ido dar uma volta de carro pra dar tempo de tudo funcionar perfeitamente. E que ele levaria pra ela uma coisa que ela gostava muito. E que ele a amava mais que tudo na vida. Perguntei o que ele estava levando pra ela, e ele me disse que eram as três dúzias de rosas brancas, rosas que ele nunca pôde dar a ela.

Saí do quarto. E tudo fez sentido. Ele em sua solidão e amargura. Não se perdoara pelo que acontecera com sua família. Fugiu de todos e de tudo que pudesse lembrar a mulher e o filho. Não tinha fotos na casa, nem nada que remetesse a alguma lembrança da vida dos três. Sabia que aquilo não me deixaria jamais.

Passado alguns meses, o Sr. Romeu me chamou e pediu que eu comprasse as rosas, pediu que eu prometesse comprar todos os dias sem falta, as três dúzias de rosas brancas. Disse que sempre fiz e que continuaria a fazer, e que não deixaria passar nenhum dia sem comprar as rosas, fosse dia de trabalho ou folga. Fui comprá-las. Quando voltei entrei no quarto dele e deixei as rosas sobre a mesa de cabeceira. Às 21h ele me chamou. Pediu ajuda para despetalar as rosas. Pegou um monte de pétalas e jogou para cima. E caiu. Caiu em meus braços. Partira dessa vida. Fora encontrar com o filho e com a mulher. Foi ser feliz.

E eu? Eu continuo no mesmo lugar. E todos os dias eu compro três dúzias de rosas brancas, tiro suas pétalas e às 21h eu as jogo na direção sul, para agraciar o momento do nascimento do filho do Sr. Romeu e de forma nenhuma para lembrar a morte dos três.