Hoje é dia da Mara!
A vida de Romeu
Bom, meu nome é Rodolfo, morava em uma casinha aos fundos da casa do senhor Romeu, homem velho, solitário e amargurado. Meu pai, antes de mim, havia trabalho para o Sr. Romeu, de motorista, há alguns anos ele faleceu e eu assumi o lugar dele. Moramos eu, minha esposa Ângela, minha mãe Rosa e meus dois filhos, Ana Maria e Matheus. Minha mãe trabalha na cozinha da casa, minha esposa é secretária do Sr. Romeu. Ele é um bom homem, salvo seus acessos de loucura, pelo menos uma vez na semana. Minha mãe, como de costume, prepara um chá de 7 ervas e dá a ele, para que se acalme. Ele bebe o chá e vai dormir. Nunca compreendi o porquê de aquele homem estar sozinho e amargurado. Não tem filhos, não tem mulher, não tem ninguém. Certa vez minha mãe me contou uma história, disse que um dia eu entenderia porque o Sr. Romeu havia se tornado o homem que é. Tinha mais ou menos 15 anos, demorou muito, mas hoje eu compreendo.
Lembro-me da minha mãe contando que o Sr. Romeu havia se refugiado naquela estranha casa, no alto de uma colina, aqui na Pensilvânia. Ela me disse: é o amor, Rodolfo, só ele é capaz de transformar um homem dessa maneira. Ele tinha mulher e filho, morava em uma casinha próxima ao lago Mississipi, mas aí houve uma tragédia e só ele sobreviveu, sua casa pegou fogo, ele estava trabalhando, sua mulher e seu filho estavam na casa e não conseguiram sair. Depois disso ele mandou construir essa casa e se enclausurou, não deu mais chance pra vida, quando se mudou pra essa casa ele contratou seu pai e eu para trabalharmos pra ele, e estamos desde então.
Sempre fui muito grato ao Sr. Romeu por tudo o que ele fez para a minha família, por ter nos acolhido e nos dado trabalho, e depois que meus filhos nasceram, ele permitiu que continuássemos na casinha dos fundos. Desde que eu compreendi o sofrimento dele, compreendi também toda aquela estrutura estranha da casa que ele mandara construir, por que o telhado fica na parte debaixo da casa? Por que a casa é sustenta por uma pilastra? Porque o jardim é sobre a garagem? – Ele simplesmente não queria sair da casa!
O Sr. Romeu é um homem muito precavido, amedrontado até. Em sua casa há elevadores, escorregadores – opção para sair da casa o mais rápido possível –, as portas e janelas abrem para baixo, para facilitar sua abertura, há saídas de emergência em todos os cômodos da casa, há uma piscina que nunca foi usada, há guincho, caixas e mais caixas de primeiros socorros, há um tablado rolante, boias. O Sr. Romeu construiu quase uma fortaleza contra os ataques repentinos da falta de destreza e dos efeitos da natureza. Não seria o fogo, nem a chuva que o levariam desta vida. Eu, no lugar dele, preferiria já ter ido, pois não aguentaria viver nessa solidão, principalmente por ter perdido mulher e filho.
Todos os dias ele me dava dinheiro e me pedia para comprar flores, rosas brancas, três dúzias delas, e todos os dias, à exceção dos dias em que ele tinha suas crises de loucura, ele despetalava as flores e jogava ao vento, sempre na direção sul, sempre às 21h, hora que, segundo a minha mãe, o filho dele havia nascido. As flores eram para eles, todos os dias, no mesmo horário, uma forma de mostrar que, embora eles tivessem partido, o momento em que a sua mulher havia dado a luz, este momento que seria lembrado e agraciado com flores, e não seus túmulos.
Romeu, a cada dia que se passava, se transformava em um homem mais e mais solitário, cada vez mais se excluía, se enclausurava em seu quarto, e qualquer um que tentasse um contato, tinha por vezes a cara atrás da porta.
Eu, como um simples motorista, nunca tinha me atrevido a perguntar qualquer coisa que fosse para ele. Temia o que ele pudesse pensar, temia a sua resposta. Temia a minha dispensa. Temia-o e simplesmente calava-me. Preferia o silêncio dele, mesmo que eu quisesse perguntar a ele de o culpado do incêndio havia sido ele, mesmo que ele não estivesse na casa, mas minha ínfima presença ali, naquele quarto não fazia nenhuma diferença, a não ser se eu não conseguisse encontrar as três dúzias de rosas brancas.
Certa vez, saí para comprar as rosas, fui às três floriculturas próximas a casa, em nenhuma delas encontrei as rosas, pensei: “Levo rosas amarelas, são quase brancas, indicam tranquilidade”. Não para o Romeu. Cheguei e entreguei as rosas, ele me olhou, como quem, se pudesse e conseguisse, mataria alguém, e nesse caso, eu. Ele despedaçou as rosas, não sobrou nem os espinhos, gritou dezenas de horrores e pediu que eu me retirasse. Minha mãe correu para ver o que estava acontecendo, minha mulher continha meus filhos para que eles não entrassem no quarto e vissem o Sr. Romeu naquele estado. Saí com os olhos estatelados, pernas bambas, boca seca, coração aos gritos e mãos frias. Ângela segurou-me. Levou-me para casa, preparou um chá. Tomei. Deitei. Dormi.
Quando amanheceu minha mãe veio ao meu quarto e me chamou. Contou-me que o Sr. Romeu havia machucado as mãos com os espinhos das rosas, e pediu-me que fosse a cidade tentar encontrar as tais rosas brancas. Estava destruído da noite anterior, mas não podia simplesmente dizer não.
Saí, fui a uma cidadezinha vizinha, encontrei as rosas. Três dúzias de rosas brancas. – Não, dê-me seis dúzias, compensaria o dia anterior. Andei mais um pouco pela cidadezinha, não a conhecia bem, mas sabia que era ali que os túmulos da mulher e do filho do Sr. Romeu estavam. Encontrei o cemitério. Encontrei os túmulos. “Mãe e Mulher amada”; “Filho e neto amado”. Havia flores novas, rosas brancas, por coincidência. Então depositei mais duas rosas nos túmulos. Quando estava indo embora ouvi uma voz: “Senhor…”. E mais uma vez, dessa vez mais próxima: “Senhor”. Olhei para trás e uma senhora já estava prestes a tomar-me pelo braço. “Foi o Sr. Romeu quem lhe mandou depositar as flores naqueles túmulos?”. Acenei que não com a cabeça. Ela abaixou a cabeça, como se sentisse não ser ele o mandatário das flores. Ela ia se virando quando eu disse que trabalhava na casa dele, e que embora não fosse ele quem mandara depositar as flores, de um jeito torto ele era o responsável. Ela sorriu amavelmente e começou a caminhar na direção dos túmulos. Não pude conter minha curiosidade e perguntei quem era ela. “Sou a mãe do Romeu”.
Não sabia que a mãe do Sr. Romeu ainda era viva. Uma bela senhora com seus noventa e poucos anos. Voltei pra casa e fiquei pensando nisso. Entreguei as rosas a minha mãe. Não poderia voltar ao quarto do Sr. Romeu depois do acontecido. Nenhuma palavra eu disse a ninguém sobre o que ocorrera naquela tarde. Tomei para mim uma promessa: descobriria o que havia acontecido se não fosse pelo Romeu, seria por sua mãe.
No dia seguinte voltei ao cemitério, e lá estava ela, sentada sobre a lápide. Vi que uma lágrima escorreu pela sua face. Aproximei-me e entreguei-lhe um lenço. Ela agradeceu. Então a convidei para um chá em um restaurante próximo dali. Disse que queria conversar sobre o seu filho. Ela acenou que sim com a cabeça, sorriu com aquele mesmo sorriso, deu-me o braço e acompanhou-me.
“Chovia muito quando Romeu saiu de casa. Ninguém sabia pra onde ele havia ido. Ele pegou o carro e saiu. Soube que ele e sua esposa brigaram antes, mas não sei como foi, sei o recado que estava em minha secretária. ‘Por favor, venha aqui, o Romeu enlouqueceu. ’ Não sei o que ele fez, só sei que não foi algo bom.”
Aconteceu tudo muito rápido. Disse ela. Recebi a mensagem e corri pra casa deles. Cheguei e a casa já estava em chamas. Liguei para os bombeiros. Não sabia se tinha alguém dentro da casa ainda, nem podia imaginar a possibilidade de realmente estar lá.
Será que ele sabia o que estava acontecendo? Passou essa pergunta em minha cabeça. Veio a resposta. Ela disse que tentou falar com ele, mas sem sucesso. Disse que tentou encontrá-lo de todas as maneiras, mas foi tudo em vão.
Poderia ele ter sumido assim? Sem se importar com nada? Sem se preocupar com sua esposa e seu filho? Conheço o Sr. Romeu há muitos anos, e sei que ele é um homem amedrontado, mas achava que isso ocorrera devido à perda da família. Não compreendi.
A senhora continuou a história. Disse que saiu a procura dele, na esperança de encontrá-lo. Ligou para o celular, para o trabalho dele. Foi aos bares em que ele costumava ir. Mas não o encontrou. Já se passara mais de 2 horas após o incêndio. E Romeu ainda estava sumido. Contou-me que ele só aparecera no dia do enterro. “Ele olhava de longe, sem coragem de chegar mais perto.” E eu estava lá. Esperando para poder segurar a sua mão e secar suas lágrimas. Completou.
Já estava tarde, eu precisava retornar à casa de Romeu. Despedi-me da senhora. Ao longo da estrada de volta a casa, fiquei refletindo sobre tudo o que aquela senhora havia me contado. Não conseguia acreditar em nada daquilo. Não me parecia ser lógico uma pessoa abandonar sua família dessa forma, mesmo que essa pessoa fosse o Sr. Romeu.
Chegando a casa, dirigi-me ao quarto do Sr. Romeu. Ele estava deitado em sua cama, com aquele fúnebre silêncio. Chamei-o. Ele respondeu, e disse que eu poderia entrar. Sentei-me em uma cadeira que se encontrava do lado esquerdo da sua cama. Então comecei a contar-lhe do meu dia. Contei-lhe sobre a senhora que encontrara nos túmulos. Contei sobre o incêndio e pedi que ele me contasse o que havia acontecido.
Jamais imaginei que eu tivesse essa conversa com o Sr. Romeu, mas eu fui acometido por uma vontade imensa de entender o que havia acontecido de fato na vida dele, que não pude me conter.
“Meu caro Rodolfo, seu pai, antes de você, foi meu motorista, um homem de minha inteira confiança. Meu único amigo. Ele nunca teve a coragem de me perguntar isso. Na verdade, ninguém nunca demonstrou coragem para me perguntar isso. Acho que eu vivi tanto tempo preso em mim mesmo que perdi a vontade de conversar com alguém, mas agora que você perguntou. Eu lhe contarei.”
A sua história foi parecida com a da senhora, ao menos no inicio. Ele disse que chegara a casa com muita chuva caindo do céu. Disse que quando entrara não avistara a sua mulher, apenas um bilhete dizendo que ela fora ao mercado com o filho para fazer compras. Disse que estava testando alguns complementos da fábrica onde trabalhava. Testou os complementos, deixou um bilhete pra esposa e saiu. Daí então não sabia de mais nada.
Assim, após rodar alguns quilômetros de carro, contando certo tempo, voltou a casa, mas quando chegou perto, viu a confusão. Bombeiros, polícia, os vizinhos, jornais locais. Era uma confusão total. Ele disse que entrou no carro e continuou a rodar, até que a gasolina do carro acabou. Ele parou perto de uma ribanceira. Chorou por horas a fio, tentou pular, mas algo o puxara para trás. Resolvera voltar.
Ao contrário do que a mãe dele achava, e que eu comecei a achar, Romeu não sumira por não saber ou por saber o que tinha acontecido, ele sumira por ser ele o culpado pelo incêndio em sua casa. Porque o que ele testava eram os mesmos complementos que hoje ele vendia, complementos para a rede elétrica. E como não podia testar na fábrica, levava para a casa.
Logo, Romeu não era a vítima, era o executor. Essa revelação chocou-me. Fiz como se fosse levantar-me da cadeira. Ele fez que não com a mão. Disse para que eu permanecesse ali. E então fiquei. Imóvel e atônito. Escutei as explicações da história. Que ele precisava ganhar dinheiro. Que tinha prometido à esposa e ao filho que eles teriam tudo do bom e do melhor. Que eles teriam a casa mais diferente do bairro. O carro mais luxuoso. Prometeu que a mulher teria muitas empregadas, e que assim ela seria tratada como rainha. E que seus planos tinham dado errado. Lágrimas começaram a escorrer do rosto dele. E ele concluiu. “E foi isso que aconteceu”. Era toda a história. Acabara. Mas não…
A final, eu ouvi outra parte da história, e nem tudo tinha se completado. Levantei-me, pus minha mão no ombro do Sr. Romeu e perguntei o que estava escrito no bilhete. E o porquê de sua esposa achar que ele estava ficando louco. E ele me disse. “É filho, achei que não perguntaria isso.” Aí ele me contou. E lágrimas escorreram do meu rosto. Disse que tinha escrito no bilhete pra esposa não se preocupar, porque ele já estava dando um jeito na vida deles, que ele tinha pegado alguns objetos na fábrica para pode completar o seu experimento e concluir os complementos de rede que ele estava montando. E que ele iria pedir demissão. Que ela não se preocupasse que tudo daria certo. Que não era pra ela mexer em nada. Que ele tinha ido dar uma volta de carro pra dar tempo de tudo funcionar perfeitamente. E que ele levaria pra ela uma coisa que ela gostava muito. E que ele a amava mais que tudo na vida. Perguntei o que ele estava levando pra ela, e ele me disse que eram as três dúzias de rosas brancas, rosas que ele nunca pôde dar a ela.
Saí do quarto. E tudo fez sentido. Ele em sua solidão e amargura. Não se perdoara pelo que acontecera com sua família. Fugiu de todos e de tudo que pudesse lembrar a mulher e o filho. Não tinha fotos na casa, nem nada que remetesse a alguma lembrança da vida dos três. Sabia que aquilo não me deixaria jamais.
Passado alguns meses, o Sr. Romeu me chamou e pediu que eu comprasse as rosas, pediu que eu prometesse comprar todos os dias sem falta, as três dúzias de rosas brancas. Disse que sempre fiz e que continuaria a fazer, e que não deixaria passar nenhum dia sem comprar as rosas, fosse dia de trabalho ou folga. Fui comprá-las. Quando voltei entrei no quarto dele e deixei as rosas sobre a mesa de cabeceira. Às 21h ele me chamou. Pediu ajuda para despetalar as rosas. Pegou um monte de pétalas e jogou para cima. E caiu. Caiu em meus braços. Partira dessa vida. Fora encontrar com o filho e com a mulher. Foi ser feliz.
E eu? Eu continuo no mesmo lugar. E todos os dias eu compro três dúzias de rosas brancas, tiro suas pétalas e às 21h eu as jogo na direção sul, para agraciar o momento do nascimento do filho do Sr. Romeu e de forma nenhuma para lembrar a morte dos três.