Mais um conto

Hoje é dia da Mara!

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A vida de Romeu

Bom, meu nome é Rodolfo, morava em uma casinha aos fundos da casa do senhor Romeu, homem velho, solitário e amargurado. Meu pai, antes de mim, havia trabalho para o Sr. Romeu, de motorista, há alguns anos ele faleceu e eu assumi o lugar dele. Moramos eu, minha esposa Ângela, minha mãe Rosa e meus dois filhos, Ana Maria e Matheus. Minha mãe trabalha na cozinha da casa, minha esposa é secretária do Sr. Romeu. Ele é um bom homem, salvo seus acessos de loucura, pelo menos uma vez na semana. Minha mãe, como de costume, prepara um chá de 7 ervas e dá a ele, para que se acalme. Ele bebe o chá e vai dormir. Nunca compreendi o porquê de aquele homem estar sozinho e amargurado. Não tem filhos, não tem mulher, não tem ninguém. Certa vez minha mãe me contou uma história, disse que um dia eu entenderia porque o Sr. Romeu havia se tornado o homem que é. Tinha mais ou menos 15 anos, demorou muito, mas hoje eu compreendo.

Lembro-me da minha mãe contando que o Sr. Romeu havia se refugiado naquela estranha casa, no alto de uma colina, aqui na Pensilvânia. Ela me disse: é o amor, Rodolfo, só ele é capaz de transformar um homem dessa maneira. Ele tinha mulher e filho, morava em uma casinha próxima ao lago Mississipi, mas aí houve uma tragédia e só ele sobreviveu, sua casa pegou fogo, ele estava trabalhando, sua mulher e seu filho estavam na casa e não conseguiram sair. Depois disso ele mandou construir essa casa e se enclausurou, não deu mais chance pra vida, quando se mudou pra essa casa ele contratou seu pai e eu para trabalharmos pra ele, e estamos desde então.

Sempre fui muito grato ao Sr. Romeu por tudo o que ele fez para a minha família, por ter nos acolhido e nos dado trabalho, e depois que meus filhos nasceram, ele permitiu que continuássemos na casinha dos fundos. Desde que eu compreendi o sofrimento dele, compreendi também toda aquela estrutura estranha da casa que ele mandara construir, por que o telhado fica na parte debaixo da casa? Por que a casa é sustenta por uma pilastra? Porque o jardim é sobre a garagem? – Ele simplesmente não queria sair da casa!

O Sr. Romeu é um homem muito precavido, amedrontado até. Em sua casa há elevadores, escorregadores – opção para sair da casa o mais rápido possível –, as portas e janelas abrem para baixo, para facilitar sua abertura, há saídas de emergência em todos os cômodos da casa, há uma piscina que nunca foi usada, há guincho, caixas e mais caixas de primeiros socorros, há um tablado rolante, boias. O Sr. Romeu construiu quase uma fortaleza contra os ataques repentinos da falta de destreza e dos efeitos da natureza. Não seria o fogo, nem a chuva que o levariam desta vida. Eu, no lugar dele, preferiria já ter ido, pois não aguentaria viver nessa solidão, principalmente por ter perdido mulher e filho.

Todos os dias ele me dava dinheiro e me pedia para comprar flores, rosas brancas, três dúzias delas, e todos os dias, à exceção dos dias em que ele tinha suas crises de loucura, ele despetalava as flores e jogava ao vento, sempre na direção sul, sempre às 21h, hora que, segundo a minha mãe, o filho dele havia nascido. As flores eram para eles, todos os dias, no mesmo horário, uma forma de mostrar que, embora eles tivessem partido, o momento em que a sua mulher havia dado a luz, este momento que seria lembrado e agraciado com flores, e não seus túmulos.

Romeu, a cada dia que se passava, se transformava em um homem mais e mais solitário, cada vez mais se excluía, se enclausurava em seu quarto, e qualquer um que tentasse um contato, tinha por vezes a cara atrás da porta.

Eu, como um simples motorista, nunca tinha me atrevido a perguntar qualquer coisa que fosse para ele. Temia o que ele pudesse pensar, temia a sua resposta. Temia a minha dispensa. Temia-o e simplesmente calava-me. Preferia o silêncio dele, mesmo que eu quisesse perguntar a ele de o culpado do incêndio havia sido ele, mesmo que ele não estivesse na casa, mas minha ínfima presença ali, naquele quarto não fazia nenhuma diferença, a não ser se eu não conseguisse encontrar as três dúzias de rosas brancas.

Certa vez, saí para comprar as rosas, fui às três floriculturas próximas a casa, em nenhuma delas encontrei as rosas, pensei: “Levo rosas amarelas, são quase brancas, indicam tranquilidade”. Não para o Romeu. Cheguei e entreguei as rosas, ele me olhou, como quem, se pudesse e conseguisse, mataria alguém, e nesse caso, eu. Ele despedaçou as rosas, não sobrou nem os espinhos, gritou dezenas de horrores e pediu que eu me retirasse. Minha mãe correu para ver o que estava acontecendo, minha mulher continha meus filhos para que eles não entrassem no quarto e vissem o Sr. Romeu naquele estado. Saí com os olhos estatelados, pernas bambas, boca seca, coração aos gritos e mãos frias. Ângela segurou-me. Levou-me para casa, preparou um chá. Tomei. Deitei. Dormi.

Quando amanheceu minha mãe veio ao meu quarto e me chamou. Contou-me que o Sr. Romeu havia machucado as mãos com os espinhos das rosas, e pediu-me que fosse a cidade tentar encontrar as tais rosas brancas. Estava destruído da noite anterior, mas não podia simplesmente dizer não.

Saí, fui a uma cidadezinha vizinha, encontrei as rosas. Três dúzias de rosas brancas. – Não, dê-me seis dúzias, compensaria o dia anterior. Andei mais um pouco pela cidadezinha, não a conhecia bem, mas sabia que era ali que os túmulos da mulher e do filho do Sr. Romeu estavam. Encontrei o cemitério. Encontrei os túmulos. “Mãe e Mulher amada”; “Filho e neto amado”. Havia flores novas, rosas brancas, por coincidência. Então depositei mais duas rosas nos túmulos. Quando estava indo embora ouvi uma voz: “Senhor…”. E mais uma vez, dessa vez mais próxima: “Senhor”. Olhei para trás e uma senhora já estava prestes a tomar-me pelo braço. “Foi o Sr. Romeu quem lhe mandou depositar as flores naqueles túmulos?”. Acenei que não com a cabeça. Ela abaixou a cabeça, como se sentisse não ser ele o mandatário das flores. Ela ia se virando quando eu disse que trabalhava na casa dele, e que embora não fosse ele quem mandara depositar as flores, de um jeito torto ele era o responsável. Ela sorriu amavelmente e começou a caminhar na direção dos túmulos. Não pude conter minha curiosidade e perguntei quem era ela. “Sou a mãe do Romeu”.

Não sabia que a mãe do Sr. Romeu ainda era viva. Uma bela senhora com seus noventa e poucos anos. Voltei pra casa e fiquei pensando nisso. Entreguei as rosas a minha mãe. Não poderia voltar ao quarto do Sr. Romeu depois do acontecido. Nenhuma palavra eu disse a ninguém sobre o que ocorrera naquela tarde. Tomei para mim uma promessa: descobriria o que havia acontecido se não fosse pelo Romeu, seria por sua mãe.

No dia seguinte voltei ao cemitério, e lá estava ela, sentada sobre a lápide. Vi que uma lágrima escorreu pela sua face. Aproximei-me e entreguei-lhe um lenço. Ela agradeceu. Então a convidei para um chá em um restaurante próximo dali. Disse que queria conversar sobre o seu filho. Ela acenou que sim com a cabeça, sorriu com aquele mesmo sorriso, deu-me o braço e acompanhou-me.

“Chovia muito quando Romeu saiu de casa. Ninguém sabia pra onde ele havia ido. Ele pegou o carro e saiu. Soube que ele e sua esposa brigaram antes, mas não sei como foi, sei o recado que estava em minha secretária. ‘Por favor, venha aqui, o Romeu enlouqueceu. ’ Não sei o que ele fez, só sei que não foi algo bom.”

Aconteceu tudo muito rápido. Disse ela. Recebi a mensagem e corri pra casa deles. Cheguei e a casa já estava em chamas. Liguei para os bombeiros. Não sabia se tinha alguém dentro da casa ainda, nem podia imaginar a possibilidade de realmente estar lá.

Será que ele sabia o que estava acontecendo? Passou essa pergunta em minha cabeça. Veio a resposta. Ela disse que tentou falar com ele, mas sem sucesso. Disse que tentou encontrá-lo de todas as maneiras, mas foi tudo em vão.

Poderia ele ter sumido assim? Sem se importar com nada? Sem se preocupar com sua esposa e seu filho? Conheço o Sr. Romeu há muitos anos, e sei que ele é um homem amedrontado, mas achava que isso ocorrera devido à perda da família. Não compreendi.

A senhora continuou a história. Disse que saiu a procura dele, na esperança de encontrá-lo. Ligou para o celular, para o trabalho dele. Foi aos bares em que ele costumava ir. Mas não o encontrou. Já se passara mais de 2 horas após o incêndio. E Romeu ainda estava sumido. Contou-me que ele só aparecera no dia do enterro. “Ele olhava de longe, sem coragem de chegar mais perto.” E eu estava lá. Esperando para poder segurar a sua mão e secar suas lágrimas. Completou.

Já estava tarde, eu precisava retornar à casa de Romeu. Despedi-me da senhora. Ao longo da estrada de volta a casa, fiquei refletindo sobre tudo o que aquela senhora havia me contado. Não conseguia acreditar em nada daquilo. Não me parecia ser lógico uma pessoa abandonar sua família dessa forma, mesmo que essa pessoa fosse o Sr. Romeu.

Chegando a casa, dirigi-me ao quarto do Sr. Romeu. Ele estava deitado em sua cama, com aquele fúnebre silêncio. Chamei-o. Ele respondeu, e disse que eu poderia entrar. Sentei-me em uma cadeira que se encontrava do lado esquerdo da sua cama. Então comecei a contar-lhe do meu dia. Contei-lhe sobre a senhora que encontrara nos túmulos. Contei sobre o incêndio e pedi que ele me contasse o que havia acontecido.

Jamais imaginei que eu tivesse essa conversa com o Sr. Romeu, mas eu fui acometido por uma vontade imensa de entender o que havia acontecido de fato na vida dele, que não pude me conter.

“Meu caro Rodolfo, seu pai, antes de você, foi meu motorista, um homem de minha inteira confiança. Meu único amigo. Ele nunca teve a coragem de me perguntar isso. Na verdade, ninguém nunca demonstrou coragem para me perguntar isso. Acho que eu vivi tanto tempo preso em mim mesmo que perdi a vontade de conversar com alguém, mas agora que você perguntou. Eu lhe contarei.”

A sua história foi parecida com a da senhora, ao menos no inicio. Ele disse que chegara a casa com muita chuva caindo do céu. Disse que quando entrara não avistara a sua mulher, apenas um bilhete dizendo que ela fora ao mercado com o filho para fazer compras. Disse que estava testando alguns complementos da fábrica onde trabalhava. Testou os complementos, deixou um bilhete pra esposa e saiu. Daí então não sabia de mais nada.

Assim, após rodar alguns quilômetros de carro, contando certo tempo, voltou a casa, mas quando chegou perto, viu a confusão. Bombeiros, polícia, os vizinhos, jornais locais. Era uma confusão total. Ele disse que entrou no carro e continuou a rodar, até que a gasolina do carro acabou. Ele parou perto de uma ribanceira. Chorou por horas a fio, tentou pular, mas algo o puxara para trás. Resolvera voltar.

Ao contrário do que a mãe dele achava, e que eu comecei a achar, Romeu não sumira por não saber ou por saber o que tinha acontecido, ele sumira por ser ele o culpado pelo incêndio em sua casa. Porque o que ele testava eram os mesmos complementos que hoje ele vendia, complementos para a rede elétrica. E como não podia testar na fábrica, levava para a casa.

Logo, Romeu não era a vítima, era o executor. Essa revelação chocou-me. Fiz como se fosse levantar-me da cadeira. Ele fez que não com a mão. Disse para que eu permanecesse ali. E então fiquei. Imóvel e atônito. Escutei as explicações da história. Que ele precisava ganhar dinheiro. Que tinha prometido à esposa e ao filho que eles teriam tudo do bom e do melhor. Que eles teriam a casa mais diferente do bairro. O carro mais luxuoso. Prometeu que a mulher teria muitas empregadas, e que assim ela seria tratada como rainha. E que seus planos tinham dado errado. Lágrimas começaram a escorrer do rosto dele. E ele concluiu. “E foi isso que aconteceu”. Era toda a história. Acabara. Mas não…

A final, eu ouvi outra parte da história, e nem tudo tinha se completado. Levantei-me, pus minha mão no ombro do Sr. Romeu e perguntei o que estava escrito no bilhete. E o porquê de sua esposa achar que ele estava ficando louco. E ele me disse. “É filho, achei que não perguntaria isso.” Aí ele me contou. E lágrimas escorreram do meu rosto. Disse que tinha escrito no bilhete pra esposa não se preocupar, porque ele já estava dando um jeito na vida deles, que ele tinha pegado alguns objetos na fábrica para pode completar o seu experimento e concluir os complementos de rede que ele estava montando. E que ele iria pedir demissão. Que ela não se preocupasse que tudo daria certo. Que não era pra ela mexer em nada. Que ele tinha ido dar uma volta de carro pra dar tempo de tudo funcionar perfeitamente. E que ele levaria pra ela uma coisa que ela gostava muito. E que ele a amava mais que tudo na vida. Perguntei o que ele estava levando pra ela, e ele me disse que eram as três dúzias de rosas brancas, rosas que ele nunca pôde dar a ela.

Saí do quarto. E tudo fez sentido. Ele em sua solidão e amargura. Não se perdoara pelo que acontecera com sua família. Fugiu de todos e de tudo que pudesse lembrar a mulher e o filho. Não tinha fotos na casa, nem nada que remetesse a alguma lembrança da vida dos três. Sabia que aquilo não me deixaria jamais.

Passado alguns meses, o Sr. Romeu me chamou e pediu que eu comprasse as rosas, pediu que eu prometesse comprar todos os dias sem falta, as três dúzias de rosas brancas. Disse que sempre fiz e que continuaria a fazer, e que não deixaria passar nenhum dia sem comprar as rosas, fosse dia de trabalho ou folga. Fui comprá-las. Quando voltei entrei no quarto dele e deixei as rosas sobre a mesa de cabeceira. Às 21h ele me chamou. Pediu ajuda para despetalar as rosas. Pegou um monte de pétalas e jogou para cima. E caiu. Caiu em meus braços. Partira dessa vida. Fora encontrar com o filho e com a mulher. Foi ser feliz.

E eu? Eu continuo no mesmo lugar. E todos os dias eu compro três dúzias de rosas brancas, tiro suas pétalas e às 21h eu as jogo na direção sul, para agraciar o momento do nascimento do filho do Sr. Romeu e de forma nenhuma para lembrar a morte dos três.

Outro conto

Continuando, apesar da descontinuidade, mais um conto… Desta vez, é o do Raoni!

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A Casa

- Sim, pois não? Moro sim. Logo vi. Quando é gente de outras bandas a gente sabe. Todo mundo conhece todo mundo aqui. Sei sim, pode dizer. Aquela ali em frente? Bem, já faz um tempo que… A moça vem sozinha, não é casada? Sei, as coisas andam mudadas, mas uma hora acaba acontecendo. O tempo vai passando e afinal, homem não muda, sempre foi tudo igual. O jeito é levar… Oh meu filho, não cumprimenta os outros não? Essa é… Como é que é? Renata, é? A Renata está querendo alugar a casa.

- A casa? Mesmo? Mas ela sabe que…?

- Não começa com história menino.

- Deixa disso, mãe! De qualquer jeito ela vai ficar sabendo.

- A moça não quer entrar pra uma xícara de café? Não, quê isso, imagina. Venha, a gente toma um cafezinho e eu te conto. É melhor tomar consciência dos fatos por nós do que dar ouvido às falácias dessa gente aí. Oh, filho, pegue um dinheirinho com o seu pai e vá buscar alguns biscoitinhos daqueles pra gente. Pode entrar, fica a vontade. Não repara a bagunça. Casa com muito menino não para em ordem. Esse é meu marido. Vida mansa, né meu bem. Aposentou, graças a Deus. Mais de 50 anos trabalhando duro nas estradas a fora. É, transportava de tudo. É, tempos difíceis, quatro meninos, lavando roupa pra fora… Ah, mas o que Deus tira Ele devolve em descanso. Senta aí querida, vou passar um cafezinho.

_ A moça gosta de televisão? Eu posso ligar. Deve estar passando a novela. Pra ser sincero eu não agüento novela. Tudo a mesma ladainha. Vez ou outra eu ligo pra passar o tempo, oh vida besta! He! He! Fico olhando algumas paisagens. Tem umas que passam em uns lugares bacanas, né. Me dá saudade da minha época de estradeiro, dias e noites nesse Brasil a dentro. Aquilo sim. Tomava todo o suor da gente, mas me sentia livre no mundo, cada dia num lugar. Essa vida agora só dá preguiça. Que saudade. É só preguiça. He! He! Mas a moça tem parente aqui no bairro? Não? É mesmo? Aqui na vizinhança? Mas qual casa, essa aqui do lado? Hum, sei. Bem, olha!Não gosto de me intrometer, nem de falar da vida alheia, mas é que…

_Com açúcar ou você prefere adoçante? Ah, sim, querida. Aqui está a colherzinha.

_ A moça, bem. Quer alugar a casa.

_ É, ela disse. Tem de saber com a imobiliária. Está sim, uma imobiliária do centro. “Sweet Home’, acho que é isso, né, bem. A casa estava sob a administração dela. Agora não sei mais se deve estar…

_ Vai saber. Não para ninguém naquela casa. Os últimos três moradores que vieram depois do sumiço deles não ficaram mais que uma semana. Disseram que recebiam ameaças, que havia alguma coisa na casa que devia valer muito, mas que não faziam ideia do que era. Mas tem alguém que queria muito essa coisa e ameaçou de tudo pra consegui-la. Acho que deve ser coisa do velho. Sem lucro, sei lá se essa imobiliária ainda quer alguma coisa com essa casa.

_ Não, como a moça viu, a casa é muito boa. Uma mansão mesmo. Tem de tudo, sauna, piscina, jardim de inverno…

_ É, eles sumiram. Foi pouco depois que o menino foi preso.

_ Poderia, ao menos, ter sido esclarecido o real motivo da vinda daqueles sujeitos engravatados. É tudo muito estranho e difícil de acreditar. Um menino de boa família, bem educado, novo, um menino ainda, ter feito o que disseram por aí.

_ Depois que o avô morreu as coisas desandaram. Sujeito bravo, com ele as coisas deviam ser no laço curto. Sim morava um casal, um menino e o avô. Ninguém nunca soube se o casal era pai do menino. Mas que a mulher era filha do velho, era. Ele foi político, corrupto, dizem. Mexeu com muita coisa errada, muita gente morreu por causa da cobiça dele. Veio fugido do nordeste, trouxe a neta com ele e mais o menino. Foi a única vez que ele conversou com a gente da vizinhança. Os caminhões de mudança parados aí na porta, atravancando a rua. Ele olhou pra gente e disse “não extravexe não minha gente, esse incomodo não passa de umas horas”. E a gente mal sabia que, dali pra frente, as coisas iriam só piorar. O homem chegou depois, já se comportando como marido da mulher.

_ Não gosto nem de lembrar. Da madrugada que tivemos de passar em claro, eu me apegava com a Nossa Senhora nos ampare, nos livre disso tudo… Ah, meu filho, que demora só para ir à padaria. Trouxe os biscoitos?

_ Trouxe mãe, os biscoitos e o tio que veio saber da moça que quer alugar a casa. Ele está vindo.

_ Dá o troco para o seu pai e faça um favor pra moça, vá buscar na casa de sua tia o telefone da imobiliária que está com a casa aqui do lado.

_ Boa tarde. Encontrei esse pestinha no caminho e vim. É ela? Ah, Renata. O prazer é todo meu. Então você quer alugar a casa… mas eles já te contaram? Não? Pois então vou te contar. Assim foi como tudo isso se sucedeu. Eu vi com os meus próprios olhos. Você precisava ver a cara deles. Sempre de narizes empinados, metidos a besta. Agora a família toda com a fuça na lama. Lembra quando deram aquela festa, irmã? Todos de terno, as mulheres, damas de longo chegando, descendo daqueles carrões. Aquelas limusines? Música fina, violinos, comida gostosa. Minha mãe – faro esperto – reconheceu todo o bufê, só pelo cheiro. E tiveram o despeito de não convidar ninguém da vizinhança. Nem o próprio primo, não, que mora ali na esquina. Sim, o dono do açougue. Foi há uns oito meses, os homens com as caras encapuzadas chegaram já arrombando a porta, depois entraram na casa procurando alguma coisa que não encontraram e ficaram putos e quebraram tudo o que viram pela frente, tudo. Sorte a deles que tinham ido ao cemitério velar o avô morto.

_ Pois é moça, aconteceu, para a nossa surpresa, o inesperado. Ele morreu. Morreu engasgado com uma bala toffe, sua sobremesa favorita. Veja bem, um homem do diabo aquele assassino que era gostar de adoçar a boca com balinhas de caramelo. Não estou dizendo que esses desalmados não podem apreciar prazeres adocicados, não! Mas é que dizem que ele, ao chegar ao recheio do dropes, não mastigava, mas o chupava com vagareza, e dizia: "isso é a coisa única que Deus fez de bom"- e cuspia o resto.

_ Morreu engasgado com uma balinha. Acredita? Quando chegaram estávamos todos na rua especulando aquela barbaridade. Reagiram friamente. Entraram e depois de meia hora saíram com alguns pertences e foram se hospedar num hotel. Quando terminou a reforma, eles voltaram colocaram cerca elétrica no muro. A única coisa boa nisso tudo é que eles compraram todos os filhotes da Mary killer, minha pity bull.

_ Sim, voltaram. E, pelo o que disseram, eles não podiam deixar a cidade porque estavam sob investigação da policia federal. E que eles estavam devendo até a alma, mas não se desfizeram da casa. Depois de muito tempo confinados na casa e vendido todo o patrimônio do velho, eles sumiram… Como foi que eles fizeram isso, ninguém comprova, mas gente pra dizer dou-minha-cara-a-tapa-se-não-for-verdade é o que mais tem. Eu até que gostava deles, nunca me fizeram mal nenhum, mas que tem coisa errada nesta história tem, sempre teve. Não levaram nem os móveis da casa, e os cachorros tiveram de soltar para não morrerem de fome. Eles uivavam tristes que dava dó. Coitados, os animais não têm culpa das barbaridades dos homens.

_ Só depois de alguns meses que chegou a notícia de que estavam, muito bem de vida, morando no exterior e iriam alugar a casa. Nós até pensamos em mudar para lá, mas não fomos, porque estavam cobrando um preço muito alto, e, também, não tem nada melhor do que viver sob o teto que é nosso. Como eu te disse, vieram três moradores que não chegaram a desfazer todas as malas. Não agüentaram a…

_ Oh mãe, a tia está vindo com o número do telefone.

_ Obrigado meu filho.

_ Boa tarde! É você a moça que quer alugar a casa?

_ É sim, ela se chama Renata. Esta é minha irmã, querida.

_ O prazer é meu. Quê isso, não foi nada. Precisando, estou às ordens. Aqui está o número do telefone da imobiliária. De nada meu anjo. Afinal, você muda quando?

Retorno

Depois do intervalo momesco – com direito a show de vandalismo e babaquice; assassinato na praia, outra morte de adolescente por (aparentemente) descaso de hospital e absoluto silêncio de militância médica e gay por conta dos absurdos veiculados pela “Vênus platinada” em horário nobre – segue mais um conto do seminário, desta vez, é o da Aline. A coisa vai devagar e sempre, pra não faltar a referência italiana: pianno, pianno se va lontano… Desculpem se a ortografia está errada…

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A espera

Eduardo era um jovem de 19 anos, tinha uma vida muito confortável, estudava no melhor colégio da cidade, morava no litoral e tinha tudo o que queria, porém era muito solitário, não tinha muitos amigos e nem muita relação com seus pais e familiares. Não ligava muito para isso, a vida que eles levavam, tanto sua família quanto as pessoas ao seu redor era muito fútil para o seu modo de ver a vida. Sua enorme paixão era a praia, passava todo o seu tempo livre ali, surfando horas e horas, ele tinha uma relação muito forte com o mar. E foi ali, no seu porto seguro, a praia que ele conheceu Manoela, surfava todos os dias assim como ele, sempre se encontravam mas nunca haviam se falado ate aquele dia, em que ela se aproximou dele e se apresentou. Ela era assim, espontânea e muito comunicativa, cheia de sonhos e idealizações,cabelos desgastados pelo sol, chegavam a ser brancos, e um sorriso embaraçador. Manoela era o seu inverso, falava muito e contava muito historias da sua vida e da sua comunidade, ela morava no subúrbio da cidade, mas não demonstrava infelicidade em relação a esse aspecto, pelo contrario, sempre trazia historias e alegrias de morar la.

Desde então era assim, Eduardo encontrava Manoela todos os dias na praia, conversavam e riam sobre tudo. Quando ele se deu conta já estava tomado por um sentimento muito forte em relação a Manoela, um sentimento que não sabia descrever e não sabia medir. O que lhe tirava o sono todas as noites era saber se ela sentia o mesmo por ele, tímido como só ele era não iria perguntá-la. Até que um dia Manoela, de forma impulsiva, sua principal característica , lhe deu um beijo e disse que ele era muito importante para a vida dela e que Eduardo já fazia parte da sua historia, desde então os dois não se largavam mais. Manoela era tudo que e Eduardo precisava, companheira e divertida, fazia de sua vida uma diversão, tirou ele daquele cubo escuro em que vivia, onde nada tinha sentido ou razão. Ele a deixava calma e serena e ela dava outro sentido a sua vida, enfim um completava o outro. E assim seguiram os anos, Eduardo já não sabia mais viver sem Manoela, e ela não sabia mais viver sem ele. Eram mais que namorados, se tornaram cada vez mais companheiros e confidentes um do outro.

Numa tarde de verão normal, os dois como sempre faziam, foram juntos surfar, o mar estava muito perigoso nesse dia, porem não impediu de que eles entrassem para o surf. Eduardo sentiu em um determinado momento que deveria sair, mas Manoela insistiu em ficar, ele acabou cedendo. Esse é o erro que ele leva com ele, o mar carregou sua doce Manu. O desespero lhe tomou conta, ele gritava seu nome , gritava ajuda mas era tarde demais, o seu porto seguro havia levado sua vida e não havia mais volta. E começam-se as buscas, passaram -se um mês de procura e nada foi encontrado. Aquele lugar que era o seu refúgio, onde os dois se encontraram e tiveram as sensações pela primeira vez, levou aquela que já era um pedaço dele mesmo.

Eduardo se pegou pensando o que seria da sua vida a partir daquele dia, sentiu-se perdido e sozinho novamente. Desde então sua vida foi uma eterna tristeza, aquele velho e obscuro cubículo de vida era a sua casa novamente. Manoela era a única que o entendia, que o fazia sorrir e chorar , era a razão para ele dormir e acordar, enfim de viver. O que faria então? Desistia de procurá-la?Esqueceria que ela existiu? Então decidiu ir atras da sua felicidade, pegou um barco e na primeira ilha distante da costa foi a que ele ficou, ali construiu uma pequena cabana e o que ele mais necessitava. Eduardo mora ate hoje nesse lugar, fica a espera dela, a sua felicidade, o seu sentido para viver e acredita que um dia o mar, esse que a trouxe para ele um dia , aquele que foi testemunha de tudo de bonito que eles viveram possa trazê-la de volta.

Seminário 2

Como prometido, começo a publicação de todos os contos, resultado do seminário de narrativa. Os textos estão LITERALMENTE intactos. Não fiz edição ou revisão. O primeiro é da Jeovânia. Parabéns pra ela!

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A casa amarela

Bem vindos à casa dos sonhos!

Quero dizer a vocês que sonhar é possível até mesmo acordado.

Pensando bem posso afirmar que meus sonhos começam quando estou dormindo, mas este acontecimento perdura durante o dia, quando o sonho vale a pena ser sonhado.

Tenho mais a dizer que são dias, meses intermináveis, os momentos de “fleches” que mostram copiosamente os detalhes realizados durante momentos valiosos a serem arquivados na nossa memória. Semana passada aconteceu, estava a passar próximo de um lago e veio a viagem gostosa do sonhar acordada, mas com um triz de observação senti que algo estava estranho aos nossos ouvidos, gente cantando música brasileira va o lago passava mal, ele vomitava, parecia compadecer da ressaca de alguns estrangeirismos, estranhos a nossa gente, saciar e vangloriar a língua dos outros, e a nossa língua? “Fala Brasil”, deu um “flash”, tive um “flashback” e fiz um “backup” de tudo que passava por ali, com tudo isso optei por flesches, copiei em pedaços a nossa musica, a nossa cultura, queremos embebedar dos importados na ilusão de ser gente chic, prefiro falar flesches, bem brasileiro em som e magia e na pronúncia rasteja o S de sol. Raiou outro dia na praça chega o contador de estórias, daqueles bons de piada de dar risada. Estes Aqueles favoritos a pque faz parar a correria das mulheres em vésperas de festas nas cidades interioranas. Você nem percebe, lá estão as crianças, jovens, idosos e as mulheres, contando suas anedotas e agente chora e ri e leva para dormir o riso, depois acorda e pode até mesmo dar uma de louco, ri só, sozinho. Bom! Afirmo, melhor ainda é sonhar com as estrelas, lua, sol, dia e noite e com gente fazendo festa. Ah! Não, não podemos reclamar até mesmo quando alguém permitir, isso não é fantástico?!

Bom dia a casa dos sonhos!

Quero dizer a vocês que sonhar é possível até mesmo acordado.

Pensando bem, posso afirmar que meus sonhos começam quando estou dormindo, mas este acontecimento perdura durante o dia, quando o sonho vale a pena ser sonhado.

Então, hoje voltei naquele lago e pesquei algumas peças do sonho, puxei da memória o desenho da minha casa no lago.

Um lugar perfeito para planejar a morada dos sonhos, rico em beleza natural, decoração para todos visitantes e aberta as sugestões de todos aqueles que permitem sonhar.

O projeto em fase de discussão abre para cada olhar observador uma tessitura de opiniões individuais, uma fonte de conclusões, trabalho e sugestões das melhores possíveis, para um empreendimento admirado por todos. Neste plano inicial, o canto direito do lago ficaria a casa e seus pertences decorativos equilibrados para recepcionar os amigos. A parte principal deste projeto a casa ficaria dentro do lago, lado direito e sustentada por fortes cabos de aço, que mais parecem braços gigantes para não deixá-la ir embora quando as chuvas chegarem com toda a sua bravura.

No sonho, a casa é desenhada com dois pavimentos, sendo o primeiro com cozinha e sala para visitantes, um banheiro e jardim e o segundo com três quartos confortáveis, com poucos móveis, permitindo mais leveza e comodidade para descansar e curtir este balanço de idéias. Para dizer dos detalhes mais sofisticados diria do teto todo transparente de vidro, para captar todos os mistérios que a natureza nos oferece. Pensa! Está chovendo, você vê a chuva chegar e sair escorregando pelo teto na maior brincadeira. Se estiver o tempo escuro, pode brincar de esconder atrás das nuvens, feito criança contando carneirinhos. Quando chegar o inverno o frio toma conta de esfumaçar todo o vidro do teto e janelas com seu bafo e desenha vários personagens de variados tamanhos. Quando o verão aparecer, é tempo de pular da cama bem cedinho e sair correndo para tudo acontecer, de brincadeiras á trabalho, pois o sol é como leão da selva, ele chega arrastando tudo, cheio de garra e energia.

E a noite também é bem vinda traz estrelas, lua e São Jorge o guerreiro montado em seu cavalo com espada e muita tranqüilidade.

A cada dia um sonho novo, uma pincelada diferente aqui e ali, cada um que comenta coloca seu dedo para produzir detalhes de uma casa amarela, que perambula na cabeça de muita gente do pequeno Vilarejo, perto de Sabará.

Outro dia uma amiga ligou, queria saber qual o melhor lugar para os livros e dizia eles são os preferidos dos cantinhos, dos lugares mais silenciosos.

Agora chegou o momento da consultoria maior, a pessoa preparada para tomar decisões que pode construir ou apagar sonhos…

Na próxima semana, já está marcado o encontro com o arquiteto, que o Sr.Oliveira indicou como o melhor para este tipo de projeto inédito, uma casa dentro de um lago sustentada por cabos de aço, plano perigoso. Mas, o nome cotado é o Sr. Justinis Franco, engenheiro, arquiteto ,

Formado na Universidade de Coimbra, conceituado por muitos profissionais como um dos melhores da região em projetos inusitados. Marcamos o primeiro encontro para acertamos detalhes da obra. Ao encontrarmos, primeiramente tomamos um café com sabores incrementados. Ele pediu a moça da “cafeteria Nosso Sabor”, um café sabor de menta, outro de gengibre, nada do nosso paladar costumeiro, o cafezinho com gosto de café brasileiro. E, foi o primeiro gole, elogiei falsamente, sem trégua para o segundo gole, veio logo á primeira pergunta? Qual é o tamanho da área para a construção da sua casa? Arregalei os olhos, senti um vermelho pular no meu rosto, fiz sinal de engasgo, para testar a voz, pois me senti muda e tonta, tudo embaralhava diante dos meus olhos. Pedi um instante… E, então não lembra? Meu Deus! Pensei; tenho de dizer e falei, Senhor Justinis Franco, não se trata de uma área de terreno, mas sim de um lago. Lago? Que lago? Um lago muito interessante Sr.Justinis, fica a dois quilômetros deste Vilarejo, lá encontro muita paz, inclusive nos meus sonhos… abasteço de felicidade ao sonhar com este projeto. Sim!. A senhora já disse tudo, eternamente em paz, pois já morreu antes mesmo de realizar este sonho, este projeto de gente louca, por acaso morar em cima de um lago é a solução para encontrar a paz? Pode responder, por favor: Confesso, é loucura demais, mas pensa bem, ser astronauta, não é louco, pular de pára-quedas é demais, fazer travessias, ser alpinistas… . Senhora! Por favor, esqueça este projeto maluco ou procure outro Arquiteto. Não! Sr. Justinis, por favor … Ele disse tchau! Saiu esbravejando; mando á conta das minhas horas perdidas… Não quero conversa, não tenho paciência com gente maluca. Mas, é apenas um orçamento. É? Meu orçamento tem preço. A conta vai chegar e a senhora trata de pagar. Afinal, até meu título de Doutor é de Coimbra. Quanto será? Meu Deus, realmente tenho que pagar? Aqui, nós pagamos até para apagar nossos sonhos, e caro!

Este Dr.Justini, amiga, disse á moça da cafeteria, é sem paciência, ele foi logo respondendo com maior indelicadeza á senhora, ás vezes os Doutores atropelam as pessoas.

Saí, fui caminhando em direção ao lago, ele estava longe, junto da minha futura casa amarela.

Vieram as férias e fui viajar para o nordeste, queria conhecer algumas praias lindas, mais lindas de tanto falar. E, os dias foram passando, desliguei um pouco do projeto da casa, que de certa maneira aborreci, o bastante. Eu aguardava pelos acontecimentos, na beira da praia uma verdadeira maravilha!. Estava silencioso o vento, mas ouvi vozes diferentes, prestei atenção, passavam por perto, um guia turístico com seus fregueses a comentarem de uma casa inédita, em cima da árvore. Suspirei! E, vieram os “flashes”, o sol já havia aquecido meu cérebro e trouxeram á tona a casa amarela, quis acompanhá-los para conhecer á casa construída na copa da árvore.

Árvore e casa, robustas e maravilhosas! Tudo estava perfeito por fora, pois infelizmente não conseguimos vê-la por dentro, o proprietário tinha viajado para sua terra natal, a Alemanha. Procurei saber seu nome: é o Sr. Wolff, como é conhecido por estes arredores baiano. Então, decidi adiar minha volta, para esperá-lo, quero poder entrar em cada canto misterioso desta casa azul. Azul? Ela é mesma azul, ou apenas imaginei por estar em direção ao céu da Bahia de todos os Santos. Seria vertigem ver um Senhor de cabelos grisalhos engolido pela altura da janela. Parei por algum momento e pus a imaginar que o Sr.Wolff, havia chegado, pensei o que fazer para que sentisse minha aflição de falar com ele.

Neste intervalo lembrei-me do telefone do rapaz, o guia turístico, aquele que decorava todas palavras em diversos idiomas que cabiam dentro da casa para levar ao conhecimento dos turistas. Assim completei a ligação, falei do meio anseio sobre o projeto da minha futura casa, amarela, exclusiva como morar juntos dos pássaros, seria morar ao lado dos peixes de várias cores e tamanhos. O rapaz, passou notícia e seu número de telefone. Sabe o quanto fiquei contente, ao testar o número do seu celular e logo ele atendeu. Como havia pensado seu idioma seria complicado para eu entender e poder contar o que pretendia conversar, e ele sem entender desligou. Pensei no interprete e ele, veio muito rápido. O rapaz precisava saber do assunto e eu contei com tanta mansidão que estranhei meu comportamento,sem ansiedade. Quando terminei, ele estava com tanta estranheza que perguntei, você está bem? Você acha que vou dizer ao Sr.Wolf, que seu próximo projeto de construir uma casa em um lago foi roubado. Mas, não, este projeto é só meu, inclusive nunca encontrei um projetista para realizar meu sonho, um que pudesse dizer que é possível, realizar este sonho. Vamos fale com ele, por favor! Liguei, expliquei tudo, ele deu um sorriso, maroto, até mesmo esquisito para gente muito séria. E, disse: Caro Osmar, diga a este sonhador que paguei caro pelo meu e seu sonho, já que vivemos na busca do mesmo ideal. Quando falei com você que ia para Alemanha, infelizmente tive que mentir, pois tive um pesadelo na noite anterior á viagem, este pesadelo mostrava exatamente a pessoa com o mesmo projeto da casa no lago, amarrada por forte cabo de aço, a casa tinha teto de vidro, portas largas e um jardim também flutuante, maravilha. Sabe amigo, o chuveiro, com energia solar e banheira também, talvez no inverno não funcione muito bem , pois é um lugar bem frio no interior de Minas Gerais. Olha, Sr. Wolff, lembra do nome da cidade, sim, fica num Vilarejo ao lado de uma pequena cidade Sabará. Sabará? Por quê tanto espanto? Você guia turístico não nunca ouviu falar desse local, este nome é inesquecível. Sr. Wolff este lugar já tem dono, não senhor, ele já esta pago. O quê? Conversa aqui, alô, alà, sai de lá, vem pra cá, vou pra lá, vamos dividir o sonho e nunca pararmos de sonhar. Fleches, o qual traduzo no meu português brasileiro, apenas escrevo como sai o som da boca de nos mestiços, mistura fina, mistura rara, samba no pé , fé e Nosso Senhor do Bonfim.

Gosto – final

A última condição do amor descrito por Freud requer que a mulher seja desacreditada sexualmente de alguma maneira. Pode ser uma prostituta ou simplesmente uma mulher casada e um tanto frívola. Este aparente para­doxo de uma mãe-substituta que é moralmente impecável e também ma­culada reflete a descoberta pela criança da sexualidade adulta e da cum­plicidade da mãe no ato. O resultado é uma dicotomia na imagem que a criança tem da mãe e que logo perturbará as relações do homem com ou­tras mulheres. Elisa é, claramente, a figura composta da mãe. Ela simboliza a “madona virginal”, a inacessível divindade do altar, durante os dez anos de matrimônio com Matos Miranda. Esta época representa o primeiro con­ceito da mãe como a imagem da pureza. Com seu casamento com Torres Nogueira, porém, Elisa comete um ato de infidelidade que a deixa desa­creditada sexualmente, ou profanada. Depois, ela confirma sua nova iden­tidade como mulher licenciosa ao aceitar um amante. Esta nova relação, porém, não atormenta José Matias apesar de que desta vez a ligação é ilí­cita e, portanto, de significado mais sensual. E precisamente a existência do aspecto predominantemente físico que explica a segunda mudança na atitude de José Matias. Ao passo que Torres Nogueira era igualmente rival e ideal ina­tingível – a quintessência do homem integral que José Matias não é – o Apontador de Obras Públicas representa o lado exclusivamente físico do amor. Nem tem nome particular. O amante é, como Matias, incapaz de cum­prir todos os aspectos do papel masculino. Ele representa o lado suprimido de José Matias, seu alter ego físico. Os dois não competem; complementam-se. O gesto do amante no cemitério expressa homenagem, mas também sim­boliza o encontro e a integração, por fim, da alma e do corpo polarizados quando, ironicamente, a união já não pode ter lugar.

Apesar de “José Matias” exemplificar um caso quase clinicamente per­feito de impotência psíquica, nada deve a Freud. Não se pode falar de ne­nhuma influência freudiana porque Freud não publicou nada sobre o pro­blema até duas décadas depois de aparecer o conto português. “José Ma­tias é a criação de Eça de Queirós – criação original e de aguda percepção psicológica, embora provavelmente represente uma proje­ção da subconsciência do autor e não uma percepção consciente. A literatura frequentemente serve de depósito para motivos e im­pulsos que o ser humano não quer ou não pode confrontar abertamente na vida verdadeira. “José Matias” é, antes de tudo, obra literária na qual Eça emprega com maestria todos os recursos mais característicos de sua arte estética e narrativa – linguagem viva e espirituosa, acerto nos traços descritivos, originalidade imaginativa das personagens e da intriga, e fino humor que dá o tom tão especial à composição. Possui, porém, valores para além dos puramente literários ou técnicos.

Por meio da elaboração de uma história singular de amor cortês no século XIX, Eça consegue expor os diversos aspectos recônditos de uma aberração psicológica ainda não reco­nhecida nem estudada pelos especialistas médicos da época. José Matias é, de fato, um “doente”, como afirma o narrador, mas sua enfermidade pro­vém da sua incapacidade de oferecer o amor completo que Elisa lhe ins­pira. Ele não foge das materialidades do casamento mas do terrível peca­do que a união física representa para ele. Vive e morre atormentado por uma natureza enfezada e por um amor desequilibrado. Não é o amor que o destrói, é a falta de amor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COELHO, Jacinto Prado. As ideias e as formas. Ocidente. Lisboa, v. XXVIII, n. 95, p. 40-43, maio 1946.

QUEIRÓS, José Maria Eça de. Contos. Porto: Lello & Irmão, s/d.

FERRO. Túlio Ramires. O conceito de civilização nos contos de Eça de Queirós. Porto: Porto Editora, s/d.

FREUD, Sigmund. On creativity and the uneonscious. New York: Harper, 1958.

MARTINS, António Coimbra. Eça e ETA. Bulletin des études français. Lisboa, n. 5, 1967, p. 287-325.

ROUGEMONT, Denis de. Love in the Western World. Trad. Montgamcry Belgion. New

York: Pantheon, 1956.

SIMÕES. João Gaspar. Eça de Queirós: o homem e o artista. Lisboa: Rio dc Janeiro, Dois Mundos, 1946.

Gosto – terceira parte

Quando José Matias recusa casar-se com Elisa depois da morte de Matos Miranda, o narrador confessa, com rara honestidade, sua confusão total e sua inabilidade de encontrar uma explicação psicologicamente válida. Em breve, porém, vence sua perplexidade e declara que o ato de José Matias é devido a um excesso de espiritualismo e ao receio das materiali­dades do casamento e das realidades fortes da vida. Quando, depois do ca­samento de Elisa e Torres Nogueira, Matias não consegue recobrar a subli­me felicidade dos primeiros dez anos de sua paixão, o narrador não vacila em explicar a razão: José Matias vê na mocidade, força e paixão física de Torres Nogueira uma ameaça contra seu ideal espiritual, em contraste com Matos Miranda, figura velha e doente e portanto sem força varonil. Se é verdade, porém, que Torres Nogueira é um distúrbio porque in­troduz um elemento erótico na abstração espiritual que Elisa representa para José Matias, então a situação com o Apontador de Obras Públicas deveria produzir um trauma muito pior. Não obstante, sucede tudo ao contrá­rio. Em vez de hostilidade, José Matias só parece sentir curiosidade e sim­patia. De novo, o narrador está pronto com sua explicação:

Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na alcova de Elisa publicamente, pela porta da igreja, e para outros fins humanos além do amor — para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas este era meramente o amante, que ele nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que os dois cor­pos se unissem. (p. 256)

Primeiro o narrador estabelece uma distinção entre os dois maridos, usan­do como base o poder físico de cada um: Matos Miranda é velho, doente e fraco; Torres Nogueira é o epítome de juventude e força bruta. Agora, po­rém, aparecem aliados em oposição ao Apontador, que assume um papel puramente sexual. Anteriormente, o sofrimento de José Matias fora atri­buído à intromissão do fator sexual. Agora, numa inversão total, o narra­dor decide que José Matias aceita gostosamente a nova situação porque quer que o corpo de Elisa seja tão bem servido como sua alma. São contra­dições que provam a confusão do narrador com respeito ao caráter e à conduta de José Matias. Não o compreende, mas para não desmentir a imensa estima que tem de si mesmo como pensador altamente racional e lógico, vê-se obrigado a fingir uma certeza que em realidade está bem lon­ge de sentir.

Então, porque é que Eça o escolhe como narrador? Porque, por exem­plo, não escreveu como autor onisciente ou usando o ponto de vista de Nicolau da Barca, amigo íntimo de José Matias e portanto possuidor de um conhecimento mais profundo do protagonista? A conclusão plausível é a de que Eça não quis oferecer uma revelação mais penetrante do seu protagonista, e que o narrador serve, em parte, para afastar o leitor de José Matias e, talvez, o autor mesmo de sua criação literária. De fato, a viva personalidade do nar­rador funciona frequentemente como distração, desviando a atenção do lei­tor de maneira que examine menos cuidadosamente as ações de José Ma­tias e aceite como certas as conclusões do narrador. Em realidade, porém, essas conclusões contêm contradições que não são resolvidas e provo­cam perguntas que precisam ser esclarecidas se o conto vai ceder todas as riquezas de sua temática complexa.

Na sua teoria da evolução psicológica das emoções do amor, Sigmund Freud afirma que o instinto do amor é o resultado de um desenvolvi­mento gradual que tem origem na infância. Essa evolução começa quando a criança se dá conta de que existe um mundo alheio, de outros seres, e focaliza seu carinho sobre a mãe. Porque a mãe ama o pai, este se torna não só num ideal que deve ser imitado, como também num rival que ins­pira ciúmes e hostilidade. Estas atitudes mudam devido à educação e à bar­reiras impostas pela sociedade, e, gradualmente, o objeto original de amor é substituído pela irmã e depois por outras mulheres parecidas com a mãe e com a irmã. Com a transferência do afeto a evolução normal fica com­pleta. Quando, porém, algum estorvo interrompe esta progressão natural, o resultado é uma desordem erótica que emerge mais tarde, na pessoa já adulta, como no caso de José Matias, que ilustra manifestações neuróticas características de impotência psíquica. Esta condição anormal é definida por Freud como a dissociação das duas correntes da emoção erótica – a ternura e a sexualidade. O homem, que oculta na subconsciência um amor incestuoso e portanto proibido, não pode ter uma relação completa com ne­nhuma mulher digna de respeito porque com esse tipo de mulher só é ca­paz de expressar sentimentos de ternura. A relação fica eroticamente Ine­ficaz, sem o estímulo sexual que o completaria.

Não é preciso salientar as manifestações de semelhante desligamento no amor de José Matias por Elisa. Os diversos exemplos, ao discutir o tema do amor cortês, estão aí! O amor de José Matias é “pura adoração”, “transcendentalmente desmaterializado”. Para o narrador, o amor platônico de Matias prova que ele é “desvairadamente espiritualista”. Para Freud, seria uma manifestação da resposta emocional restrita que Elisa inspira nele devido a sua neurose. Como ela é uma substituta pelo objeto de amor inces­tuoso reprimido, a satisfação sexual é impossível. Puxado por um amor pu­ro e um amor carnal, José Matias tem que procurar um objeto sexual me­nos estimável para satisfazer os impulsos sensuais que não pode expressar com a mulher amada. Durante o casamento de Elisa e Torres Nogueira, José Matias leva uma vida dissoluta, não só porque é uma maneira de fugir, mas porque assim afirma sua natureza física. Num ato culminante de abandono, ele aparece numa cena curiosa, à frente de um grupo de mulheres com quem não sente nenhuma inibição erótica:

Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais tor­pes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancolicamente, posto na frente, sobre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do Sol! (p. 248)

Matias conduz as mulheres à colina onde fica a Igreja da Braça, num ato sim­bólico que deverá reconciliar sua natureza dividida. Mas o gesto fracassa. Nas palavras do narrador, “todo este alarido não lhe dissipou a dor”. Também não o ajudou a estabelecer uma relação normal com Elisa.

Freud também fala das condições subconscientes que determinam a es­colha da amada. A condição mais Importante exige a presença de um par­ticipante ofendido. A mulher substitui a mãe, e o partícipe ofendido representa o pai. É evidente que Matos Miranda é um modelo pa­terno. O narrador fala da vida resguardada de Elisa “por imposição paternal do marido” e, em outro lugar, menciona o “regime paternal do Matos Mi­randa”. Torres Nogueira também representa a figura do pai, mas ao con­trário de Matos Miranda que a velhice elimina como ameaça, Torres No­gueira exemplifica o pai novo e viril, rival pelo afeto da mãe. É também o ideal que o filho tenta imitar. Estas fantasias da subconsciência explicam o sofrimento de José Matias durante os anos do segundo casamento de Elisa. Ele compreende que não pode competir com Torres Nogueira, o ho­mem completo que oferece a Elisa o elemento sexual do amor que ele não lhe pode dar. Torres Nogueira força José Matias a dar-se conta de sua insuficiência, e a confrontação com essa realidade o devasta. Ele se vê, co­mo devia ser, em Torres Nogueira. Realmente os dois homens só se dife­renciam na cor dos cabelos: José Matias é louro e Torres Nogueira é moreno, um recurso literário bem convencional que Eça emprega frequentemente nas suas obras para contrastar o predomínio de aspectos físicos ou espirituais nas perso­nagens. Do resto, José Matias e Torres Nogueira são reflexos um do outro em tudo, tanto em caráter como em posição social. Ainda que se já possível perceber, implícita, certa oposição, de ordem comportamental, entre eles.

Gosto–segunda parte

Para expressar esta dicotomia em “José Matias”, Eça ressuscita um dos mitos capitais da literatura ocidental, de origem na poesia provençal do século XII. Essencialmente, ele escreve uma versão moderna de amor cor­tês. Todos os elementos principais que denotam o caráter especial do amor cortês aparecem neste conto escrito, aliás, na época em que preva­leciam os conceitos intelectuais contrários do naturalismo e do positivismo. A primeira regra na prática de amor cortês era obediência à sua lei por cima das outras, incluindo a promessa matrimonial e a lealdade feudal. O amante assumia a posição subserviente de vassalo e prometia homenagem eterna a sua dama. Assim procede José Matias desde o momento em que avista Elisa e sente um amor que ó “forte, profundo, absoluto, submisso e su­blime”. Por todo o resto da sua vida ele dedica-se total e exclusivamente à sua paixão. Mesmo quando não vê a mulher amada, José Matias sente sua presença espiritual.

Janta sozinho, mas com velas e flores na mesa, escutando a voz da invisível Elisa. Adorna quarto, carruagens e camarote na ópera com luxo digno da companheira ausente. Todas as ações que revelam outro as­pecto de amor cortês – a importância da ausência no desenvolvimento do amor cortês é, essencialmente, amor de nostalgia que vive do próprio poder entusiasta e nem precisa conhecer a amada. O único contato pessoal entre José Matias e Elisa acontece durante os primeiros dez anos da sua rela­ção, quando se encontram no jantar dos domingos na casa da tia de José Matias. O resto do tempo, vivem separados pelo muro que divide suas casas vizinhas – uma convenção que já existe no século XIII como símbolo do amor impedido. A distância é essencial para que o amor possa atingir a mais alta espiritualidade sem a ameaça devastadora de realização. José Matias ama Eli­sa com um amor que se não desilude nem se farta, porque permanece “sus­penso, imaterial, insatisfeito”.

Segundo Denis de Rougemont, o amor passional na Europa surgiu como reação à doutrina matrimonial do Cristianismo. O casamento representava uma transação meramente material por meio da qual um nobre adquiria a riqueza da mulher e a mulher conseguia segurança e proteção. Era um con­trato que só implicava uma união física. No conto de Eça, todas as referên­cias ao matrimônio compreendem uma associação física ou procriadora. Tor­res Nogueira, segundo marido de Elisa, aparece como simples possuidor car­nal, um “bruto”. Falando da recompensa que José Matias vai receber depois da morte de Matos Miranda, o primeiro marido de Elisa, o narrador antecipa “um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos…” Mas José Ma­tias recusa as materialidades do casamento, “as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis mess, os meninos berrando no berço molhado”. Em resumo, o matrimônio representa uma relação material, física, totalmente incompatível com os ideais do amor puro, do amor espiri­tual que não se realiza.

No amor cortês, portanto, é preciso evitar a consu­mação do amor e por isso tem que existir alguma obstrução. Paradoxalmen­te, apesar do menosprezo com que é visto, o estado matrimonial da amada funciona como o obstáculo mais eficaz. Casada, Elisa é inacessível e, por conseguinte, é o objeto perfeito do amor cortês. Quando cai a barreira pro­tetora encarnada por Matos Miranda, José Matias fica sem defesa. Imedia­tamente abandona sua posição vulnerável e só regressa quando Elisa, repu­diada por ele, casa com Torres Nogueira e restaura o impedimento indispen­sável. Então José Matias pode recomeçar a adorar a mulher ideal livre do pe­rigo de possessão. Na verdade, o verdadeiro objetivo do amor cortês não era a mulher como ser humano, mas como ente ideal, símbolo do conceito da perfeição mais pura. Visto que tal sublimação da mulher incitava um amor contrário ao casamento, a partir do século XII a Igreja lutou contra essa ameaça, ten­tando desviar a corrente para um canal mais aceitável – para a adoração da Virgem Maria. A diversão triunfou, em parte porque a poesia lírica já então expressava o sentimento religioso da época, empregando a retórica devocional. Os objetos profanos eram idealizados em termos religiosos, com a pala­vra “adorar” no lugar de metáfora predominante e sinônimo de “amar”. A atitude de José Matias para com Elisa é descrita sempre em termos devocionais, e ela é constantemente associada com a Virgem sublimada. Usa-se a mesma figura para descrever a reação de José Matias quando Elisa se casa com Torres Nogueira.

O sentimento deste extraordinário Matias era o de um mon­ge, prostrado ante uma imagem da Virgem em transcendente en­levo – quando, de repente, um bestial sacrílego sobe no altar e ergue obscenamente a túnica da imagem.

A angústia de José Matias a partir das segundas núpcias de Elisa é outro exemplo do mito, visto o sofrimento constituir uma parte capital do ri­tual do amor cortês. Para alcançar plena consciência de si mesmo, o amor-paixão tinha que incluir padecimento, ainda mais talvez do que êxtase. É a ex­periência paradoxal da doença que deleita, da “ferida que dói e não se sente”, de Camões e Petrarca. Segundo Rougemont, Tristão, o paradigma do amante cortês, não ama Isolda, mas o amor mesmo. Para além do amor, ama a morte. Isolda é só um pretexto. O instinto de morte é transfigurado pelo mito que lhe confere um fim espiritual. Destruir-se, desprezar a felicidade, é o caminho para a salvação e para alcançar uma vida superior. Portanto, o amor cortês tem que seguir o rumo do padecimento para atingir sua verda­deira meta – a morte. José Matias, de fato, renuncia toda a possibilida­de de felicidade mundana e, finalmente, a própria vida. Não se destrói du­ma maneira rápida ou dramática, mas por um processo lento de degenera­ção. Ele próprio levanta os obstáculos contra seu amor e rejeita a vida. No final, fica apenas a morte para oferecer à sua paixão como ato de preito.

Jacinto do Prado Coelho afirma que no fim do conto Eça “exalta liri­camente o idealismo amoroso, depois de tê-lo aviltado com diabólica sere­nidade”. Ê verdade que a última imagem que permanece na mente do leitor é a do amante carnal de Elisa colocando um ramo de violetas na cova do amante espiritual – a matéria prestando a homenagem final ao espírito. A última impressão que é dada de Matias – magro, alcoólico, esfarrapado, sub-repticiamente a manter sua vigília no­turna frente a casa de Elisa, enquanto o Apontador de Obras Públicas faz sua visita diária “enfiando regaladamente o portão, bem vestido, bem cal­çado, de luvas claras, com aparência de ser infinitamente mais ditoso na­quelas obras particulares do que nas Públicas”. Finalmente, é a rela­ção ilegítima e física que goza um contentamento sereno. O amante espiri­tual, ao contrário, leva uma existência sórdida e clandestina e sofre uma morte degradante.

E óbvio que o tom do conto é ambivalente, como se Eça não estivesse certo de sua própria atitude para com José Matias. Existem várias ambigui­dades que não são resolvidas, apesar de que o narrador dá a impressão de que a história de José Matias, embora singular, fica completamente escla­recida por ele. É uma impressão errônea. O primeiro enigma que se deve salientar diz respeito à perspectiva empregada por Eça. Falta completa­mente o ingrediente capital de revelação confidencial principalmente porque o narrador não é amigo íntimo de José Matias. Suas explicações represen­tam geralmente interpretações subjetivas de um homem cuja vaidade o obriga a julgar-se sabedor de tudo, mesmo do que realmente não compre­ende. Cada vez que José Matias faz alguma coisa inesperada, o narrador fa­brica uma nova teoria que ele então considera a única, a perfeita explica­ção lógica do caso. A verdade, porém, é que ele nunca compreende José Matias.

Gosto

Há livros e textos e filmes e músicas dos quais a gente jamais se esquece. Seja por dever de ofício, seja por algum incidente “negativo”, seja simplesmente porque a gente gostou deles. Punto i basta. Na obra de Eça de Queriós, encontrei dois textos que até hoje me tocam profundamente – “José Matias”, conto, e O crime do Padre Amaro, romance. Os motivos são vários. Os aspectos quase inumeráveis, as explicações múltiplas. Aqui escrevo um texto sobre o conto. Da primeira leitura, ficou impressão estranha; das demais, o apuro do escritor ofereceu-me momentos de reflexão e delícia. Sim, delícia. O conto é delicioso. Vai aí, então, o que eu escrevi sobre ele!

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JOSÉ MATIAS: amores impossíveis(?)

Tem-se escrito muito com respeito à visão pessimista do amor ex­pressa por Eça de Queirós nas suas obras de ficção. Segundo Túlio Ramires Ferro, o amor nas obras de Eça causa perturbação social e conduz à dege­neração. João Gaspar Simões opina que o amor em Eça é criminal, condenatório ou impossível e que Eça manifesta uma “estranha apreensão quanto à legitimidade do amor sexual”. (SIMÕES, 1945, p. 531) A interpretação mais negativa, porém, é dada por Antônio Coimbra Martins, que atribui a Eça um conceito salubre e destrutivo do amor:

Para o romancista, em resumo, o verdadeiro apelo do amor é degradante. Um obstáculo de natureza social, religiosa ou mes­mo material afasta-nos do fruto proibido e baixamento convida­tivo. Outros, mais ou menos disfarçados, vão colher o fruto às escondidas… mas o verdadeiro resultado do amor são traições, mortes, incestos, heranças perdidas… Toda a obra de Eça o diz: o amor é o pecado original. (MARTINS, 1967, p. 324)

Para Coimbra Martins os contos são igualmente representativos dessa atitude acrimoniosa, com a exceção de “O defunto” que ele considera a única com­posição em toda a obra fictícia de Eça onde o amor se salva. O juízo, porém, é inexato, pelo menos com respeito aos contos. Nos contos, Eça não desacredita o amor; o que condena é a incapacidade do ho­me de aceitar o amor como compromisso total de todo seu ser, físico e es­piritual. É verdade que em alguns dos contos o amor conduz à infelicidade ou à degradação, mas unicamente porque a emoção que sentem os persona­gens é incompleta. Carece do equilíbrio sadio que provém do desenvolvimen­to simultâneo das duas facetas da natureza humana – o espírito e a matéria. Já nas Prosas bárbaras Eça se refere à divisão de alma e corpo. Mais tarde, em contos como “No moinho”, “Um poeta lírico” e “As singularidades duma rapariga loira” ele elabora temas de amores frustrados e relações falha­das por lhes faltarem um dos dois elementos vitais. O conto mais interessan­te, porém, em que Eça trata da polarização completa dos duplos aspectos humanos e das consequências do desequilíbrio resultante é “José Matias”, sem dúvida uma das obras mais complexas e mais originais de Eça.

O conto, inicialmente publicado em 1897, três anos antes da mor­te de Eça de Queirós, relata o caso intrigante de um homem que, durante vin­te anos, se prostra espiritualmente diante da mulher amada, consagrando a vi­da à sua paixão, mas recusando implacavelmente a posse física do objeto de tanta devoção . Por duas vezes, a divina Elisa se encontra viúva e pronta a premiar o admirador dedicado e, por duas vezes, José Matias foge dela, re­gressando só depois de ela voltar a ser esposa ou amante de outro homem.

A narração, escrita na primeira pessoa, apresenta a perspectiva de um antigo condiscípulo universitário de José Matias. A ponto de sair para o fu­neral de José Matias, o narrador encontra um amigo a quem convence de acompanhar o cortejo ao cemitério. Enquanto a procissão avança, o narra­dor fala com seu companheiro. Não se trata tanto de um diálogo como de um monólogo dramático. Só se ouve a voz do narrador. O companheiro per­manece invisível e silencioso durante todo o conto, embora se dê a com­preender que ele também toma parte na conversa. O narrador frequentemen­te comenta sobre as aparentes observações e reações do amigo. Como resultado desta técnica, o leitor transcende o seu papel passivo e parece participar diretamente na história que está a ouvir, como se tomasse o lu­gar do companheiro. Ê o narrador também que interpreta os acontecimentos e os personagens do conto. Ele define Jo­sé Matias como “um doente, …atacado de hiper espiritualismo … um ultra-romântico” que só aceita um amor espiritual porque reconhece a relação incompatível que existe entre os sonhos e a vida, entre a imagem Ideal do amor e o desengano que encerra a realização do amor.

 

Amanhã tem mais!