Diário de viagem 7– sexta

 

Quem diria… A coordenadora agradou. Texto doce, calmo, claro, abrangente e quase sem os ademanes acadêmicos de praxe. Uma delícia quase ofuscada pelo misto de ogro e sapo. Um sujeito asqueroso, com pronúncia insuportável, lendo texto sem a menor graça, sem sentido. Saí no meio da última comunicação: a da senhora de cabelos brancos e uma experiência que tem feito escola. Sala cheia e atenção silenciosa. Mas saí: total ignorância sobre o assunto.  Foi a chave de ouro. Pensei em ficar para a conferência de encerramento, mas encerrei expediente mais cedo. Voltei para o hotel para me preparar para um jantar maranhense.

O jantar: peixe e camarão, arroz de cuxá, purê de batatas e farofa com farinha seca (a amarela). Creme de bacuri como sobremesa. Delícia. Na volta, um grupo de bumba meu boi dançando em praça pública: turbilhão de cores e energia, um espetáculo para olhos e ouvidos. Arrepio. Projeto reviver. Gratuito, numa das pracinhas do centro histórico, o mesmo que está abandonado, literalmente largado numa cidade que se alcunha de “ilha do amor”. Soube hoje que São Luís corre o risco de perder o título de patrimônio da humanidade: dinheiro da Unesco que flui pelo bueiro da ganância e da imoralidade de alguém que deve, agora, estar dormindo ou festejando alguma coisa por aí… Volto amanhã para a mesmice de sempre. Valeu a pena.

Diário de viagem 6 – quinta

 

Finalmente o dia da apresentação. Faz quase trinta anos que experimentei pela primeira vez a ansiedade da chegada do dia de apresentar um trabalho num congresso. A primeira vez jamais foi esquecida: éramos cinco à mesa e duas pessoas assistindo. Uma delas era minha “desorientadora” de doutorado; a outra, um amigo, ou melhor, ex-amigo. Hoje não sei por onde ele anda: “enlouqueceu” – clinicamente falando – e foi aposentado por invalidez… triste ironia.

Pois não ficou muito diferente. Os “notáveis” só se assistem uns aos outros ou, quando muito, por dever de ofício e obrigação de mútuo favor, aos orientandos dos “pares”. Uma confraria… A madame ficou até o fim da “apresentação” de seu ex-aluno. Havia alguma coisa estranha naquele rapaz, muito estranha. Comecei a ler e com dez minutos ela se retirou enfadada. Mais uns e outros fizeram o mesmo trajeto. Minha ex-aluna e sua orientadora, minha colega, ficaram até o fim, mas nem sequer manifestaram o mínimo desejo de dizer alguma coisa. Menos mal. Mesmo tendo saltado cinco parágrafos, gastei mais tempo que o outro, que veio me cumprimentar ao final. Elogiou protocolarmente e se retirou. Agora estou aqui, a pensar na futilidade disso tudo e um tanto ansioso por ter trocado de pasta com um ex-colega do sul. Peguei a dele por acaso…

Diário de viagem 5 – quarta

 

Dia de “folga acadêmica”. É a primeira vez que vejo isso, um congresso com um dia inteirinho… livre. O chato que conversava durante a conferência de abertura, falando mal de tudo e de todos ofereceu minicurso hoje. Dia especial então… para quem esteve de folga, como eu.

Passeio a Alcântara. A aventura começa atravessando mar aberto num catamarã pequeno e leve, com vinte e cinco pessoas. Imagina… ondas de mais ou menos três metros de altura, sob um sol escaldante e uma mulher passando mal, de tanto que o tal catamarã se jogava. A chegada é bucólica e… quente. Ladeiras não tão íngremes como as mineiras e quase o mesmo abandono que o centro histórico da capital. Tudo muito simples e abandonado, com exceção da primeira Sé, cujas ruínas lembram as missões jesuíticas no norte do Rio Grande do Sul. Há uma curiosidade arquitetônica: as duas ruínas do que teriam sido os dois palácios que seriam construídos para Dom PedroII, que nunca pôs os seus pezinhos reais naquela ilha. Ficaram pela metade… as construções e assim ficaram arruinadas: coisas de cultura… Na igreja mais conservada, com símbolos maçônicos (no lugar da rosácea há uma pequena janela em forma de olho). No topo do altar dois compassos cruzados, estrelas e a coroa do rei no lugar da barba de um bode. O “olho que tudo vê” capta a luz solar que é dirigida diretamente para o sacrário, apenas uma vez no ano entre julho e agosto. Um “evento”. Rosinha, melando os dedos com um picolé que se desintegrava por causa do calor, explicava tudo, até a história da fonte que foi roubada, mesmo pesando quatro toneladas. A “relíquia” foi encontrada por uma arquiteta maranhense, num restaurante do Rio de Janeiro. Em Alcântara também tem uma igreja de Nossa Senhora do Rosário dos pretos. Uma teteia de ingenuidade artística. Três imagens de São Benedito, uma de Santa Efigênia, São Raimundo Nonato (sabiam que ele é o protetor das grávidas?), Nossa Senhora do bom parto… uma graça! O melhor ainda estava por vir… o almoço no restaurante Tijupá, com o papo do Cláudio, uma simpatia! Eu recomendo! Na volta, um banho com as ondas mais altas ainda e as risadas debochadas de aborígenes, duas “locais” e dois casais de turistas. Eles acreditavam que nós, os espanhóis e eu, estávamos com raiva e debochavam, como debochavam… Uma pobreza. Mas o final da tarde foi dourado  com a alta da maré e eu caminhando para secar a roupa… Alcântara agradou!

Diário de viagem 4 – terça

Meio dia de atividades “acadêmicas”… Meu estômago anda fraco e com o calor que faz por aqui… Algumas gostas de chuva amenizaram o caldeirão da tarde de céu cinza e carregado, baixo, gordo… logo dissipado pelo vento constante. Vento que fez Jorge desistir do passeio de barco a Alcântrara. A recepcionista de seu hotel o alertou sobre os perigos do vento que faz o barco jogar e “rodar”. Vou vencer o quase medo e vou amanhã, com fé em Deus e pé na tábua.

Almoço no shoping. Um andar só, amplo e alto. Corredores largos e iluminação abundante. Por dentro um frescor mecânico delicioso, já lá fora… Tudo muito simples e… vazio. Quase ninguém comprando, pouca gente andando pra lá e pra cá. Uma lonjura só, fui de ônibus. Estarrecido, com as condições dos ônibus. Se em Belo Horizonte reclamam… as pessoas deveriam passar um dia aqui. Um dia só é suficiente para se constatar que a família Sarney não quer mesmo nada com a sua própria terra, para além de dominar os meios de comunicação e coronelizar a céu aberto a “política” estadual. Uma pena. Quem sai perdendo é a população e os turistas, como eu, que gostam de andar de ônibus, a pé, para sentir o cheiro e o pulsar da cidade… Uma experiência inolvidável e reveladora! Foi uma experiência e tanto. Até me senti bem esperto usando a vantagem da integração no Terminal da praia grande, bem em frente ao Centro Histórico – abandonado e sujo… Você desce de um ônibus e entra no outro, por trás, sem pagar. Não há novidade, mas me “senti em casa”… Ainda que pense que jamais viveria aqui: muito quente.

À tarde, a sessão. Jorge, Elza e Gilda. O primeiro não me agradou: trocou alhos por bugalhos, e com pose de “phdeus”! A segunda, uma senhora quatrocentona, nos modos e na aparência. Divertidíssima em sua apresentação atravessada por comentários jocosos e passagens hilárias de sua longa trajetória transatlântica: pesquisa lá e dá aulas aqui. A terceira, o encanto de sempre. E a mesma verve daquela que homenageou o escritor na “antessala” do congresso. Muita lábia e a humildade estudadas: comum a quem não larga o osso! Valeu a pena pelas risadas durante os comentários, depois das apresentações. Punto i basta!

Diário de viagem 3 – segunda

 

Primeira sessão de fato “acadêmica”. Quando o campus da universidade ficar pronto, vai ficar até interessante. Prédios de apenas dois ou três andares, formas regulares em posições angulares diferenciadas e jardins. Por enquanto é só poeira, entulho, máquinas, tapumes e mato seco, mas quando ficar pronto… A surpesa ficou por conta do extremo conforto do auditório. Iluminação adequada, acústica razoável e amplidão marrom e bege. Claro está que o som do videoclipe apresentado pela conferencista não funcionou… Pena. A ex-ministra, catedrática de Literatura Portuguesa no Porto, fez a leitura de um texto amplo, abrangente, ousado, bem ao gosto lusitano; mesmo tendo começado de maneira claudicante. Quase uma chatice, o começo. Ficou mesmo a vontade de ver os dois filmes anunciados pela conferencista. Palmas e a saída da audiência. Nada de perguntas, nada de comentários, nada de provocações. Nisso é que dá esses congressos “internacionais” gigantescos. Ninguém ouve ninguém, ninguém fala com ningém, as “ideias” não têm continuidade… Os rapapés sobejam… As falas cifradas e os conluios ocorrem quase que espetacularmente. Parece que a moda agora é se fazer acompanhar por orientandos de pós-graduação. Importante: tem de ser de “pós-graduação”! Além disso, outra característica importante: o fato de estar acompanhado do tal de orientando tem que ser anunciado num tom de voz entre o histérico e o dramático. Não tão alto que todo mundo escute, mas o suficiente para que ouvidos alheios ao derredor possam escutar e se incomodar. Parece que a patuleia começou a acreditar que esta atitude dá “crédito”… Coisas de celebridade instantânea…

A comida. Arroz de cuxá. Se entendi direito. Um prato feito com arroz miúdo, escuro. Mistura de uma folha (a vinagreira), temperos e camarão. Uma delícia. Certa amiga já disse que não sirvo para referência em relação a comidas pois gosto de tudo. Mas sou do tipo que come o que  não conheço para saber se gosto ou não… Faz sentido, uai! A experiência do primeiro almoço “local” completa o ciclo aberto com os sucos e sorvetes de frutas locais: cajá, cupuaçu, caju… O sorvete de tapioca encheu minha boca de saliva… delícia!

Diário de viagem 2 – domingo

 

O centro histórico. Relíquias de um passado que certifica a primeira e única(?) interferência “completa” dos franceses na terra brasilis. Ainda colônia portuguesa, os franceses aqui aportaram e edificaram a cidade. Curiosamente, a maior parte dos azulejos que recobre os casarões do “centro histórico” é portuguesa. Azulejos que estão roucos de tanto gritar por socorro. Casarões ocos, caindo aos pedaços, ruas sujas, praças sem muito conforto. Uma pena. Uma grande pena: um sítio tão delicadamente traçado, elegantemente edificado, solitariamente exposto aos olhares curiosos de turistas embasbacados por um calor de 35 graus… Dizem que, por aqui, no inverno, a temperatura não chega aos vinte graus. Sempre acima… Credo!

Abertura. Palácio Cristo Rei, bem em frente à praça Gonçalves Dias. A loura, com cabelo bem esticado pelo calor da “chapinha”, trajando azul turqueza com ombreiras recamadas de lantejoulas prateadas, pequena bolsinha toilette rosada e sapatos de salto bem alto: um tipo! Indignada, ela criticava os motoristas de taxi da cidade que não sabem onde fica o “palácio”. Parece até que no resto do rincão nacional isso não acontece. Vá lá! No salão, caras e bocas, mesmo com a ausência notável de algumas figuras carimbadas, outras figurinhas, apenas faltavam. Mas as expressões de surpresa e “alegria” pipocavam aqui e ali. Chego à conclusão de que meu tempo passou, de que nada disso me interessa mais, que a importância desses rituais é zero, por vazia… completamente vazia… Na homenagem ao escritor recentemente falecido, a técnica retórica do ritmo oral e da entonação “dramática” fez das laudas um panegírico até emocionante. Ladina, a oradora estudou bem as pausas e os olhares. A linguagem do corpo, contida, marcou a coerência entre intenção e gesto: uma lição a ser aproveitada (pelos incautos!), por conta conhecimento e relacionamento dela com o homenageado. Plagiando-a: “Bem haja José Saramago”!

Diário de viagem 1

Oito dias atrás… Chegava eu à capital do Maranhão sem a menor ideia do que poderia acontecer. Resolvi anotar alguma coisa que passo a colocar aqui. Uma semana de anotações esparsas. As fotos estarão em minha página no Facebook ainda hoje! Isto é, se a preguiça deixar. Bom passeio!

 

Um calor miserável. Trinta e dois graus e um vento quente, úmido, pesado. Bem diferente das minas gerais em tempos de secura. Os vidros do galpão sujos, mãos sujas que encostavam para ver quem está dentro. Confusão, balbúrdia… o prédio “oficial” do aeroporto está em obras. Caiu o teto. Dois galpões funcionam como prédio de embarque e desembarque… cada um na sua! Vi o primeiro hoje, em São Luís, uma ilha (eu não me lembrava desta aula de geografia brasileira). Capital do Maranhão. O motorista de taxi, com nome de anjo, mas com tom “crente” –  Samuel –, de uma simpatia inesperada depois de um dia de esterótipos: domésticas indo para Buenos Aires, casal em lua de mel indo para Caldas Novas e família, com marido bem “macho” indo para não sei onde… A manhã começou cedo. Mas São Luís tem um “clima” legal, ao que parece. Pizza de carne seca e mozzarella. Eu trocaria por queijo de coalho, ou similar, da região. No lugar da cebola branca, cebola rocha: toques de gourmet…como eu sou metido… O pessoal do hotel, de uma simpatia comedida, mas não consegue dar conta de solucionar o problema com a internete, que não funciona… claro (!?!). As primeiras impressões são sempre dúbias, no mínimo dúbias. Pouco se sabe de fato, as informações são sempre dadas por locais que têm um parâmetro um tanto convencionado por estereótipos: querem agradar e não há mal nenhum nisso. Pensei de ficar irritado, nervoso, mas não… Nem o sono, nem o descaso dos funcionários da TAM, nem o olhar de soberba dos aeroviários que viajam de graça ocupando vagas que poderiam dar mais conforto para passageiros que “pagaram” pela passagem. E o Malvino hein???

 

Semelhanças II

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20 de julho, foi o “dia do amigo”. Há tantos “dias” ano afora, todos os anos… Isso daria matéria para um romance ou, quem sabe, para uma pesquisa de História. A História dos dias especiais. Falando nisso, perguntei a uma colega do curso de História se ela conhecia alguma obra intitulada História do dinheiro. Alguém já parou para pensar, como eu – bem, pensar é um verbo elegante aqui- que, de fato, ao fim e ao cabo, o dinheiro não existe, é praticamente uma abstração? Pois é… Posso estar perdendo o juízo, mas penso nisso. E sempre que penso nisso, lembro-me de um livro do Michel Foucault: Ceci n’est pas un pipe. Tradução possível: Isso não é um cachimbo. O interessante é que o tal livro traz na capa (pelo menos, na tradução que li, em priscas eras…) um desenho de um cachimbo desenhado sobre um flip sharp – nem sei se é assim mesmo que se escreve!. Pois é. Desenho e título se contradizem e aí está todo o charme e o achado do autor, que admiro pacas … Hum, que antigo!

O interessante é que dessa ideia me alimento quando penso na convencionalidade do dinheiro. Vejam bem, não estou a me referir ao “conceito” de dinheiro, mas ao “objeto” dinheiro. Quem foi o inventor da “moeda” e da “nota”? Se é que houve mesmo um… Como foi que começou essa história de que um pedaço de papel e/ou um objeto metálico têm esse ou aquele “valor”. Os marxistas de plantão vão logo “zoar” comigo. Antiquado ou não, gostaria muito de saber dessa “origem”, se é que é possível determinar uma! Daí eu passaria a especular sobre o “dia do dinheiro”! Na verdade, é delírio, quase alucinação – sem a ajuda de psicotrópicos -, que dinheiro, de fato, não existe? Que convenção mais sofismática essa de estabelecer um “valor” para pedaços de papel e moedinhas metálicas… Mais um fato: fazer cada uma dessas peças, em qualquer “moeda”, até prova em contrário, custa mais. Há um romance português que narra a trajetória de uma nota de banco. (Joaquim Paço d’Arcos, Guimarães Editores, 1962) O autor dá vida a uma nota de banco e maravilha-nos com o realismo da sua escrita. para esta obra: uma boa “nota”!). Trajetória inusitada que reflete o que pensa o bicho homem e o que faz com o dinheiro. Metáfora mais que instigante, numa proposta narrativa cujo foco se volta para o passar de mão em mão da nota. As situações, entre inusitadas e banais, fazem o leitor pensar sobre o uso do dinheiro e, mais, pensar nas relações interpessoais que uma mísera “nota” estabelece, urde e articula… Interessantíssimo. Se não me engano, já escrevi alguma coisa em outra ocasião, no meu blogue… Vai saber… A gente se repete…

Palavras…

A palavra “coisa” é um bom bril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma ideia. Coisas do português.
A natureza das coisas: gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma “coisificar”. E no Nordeste há “coisar”: “Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?”.
Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as “coisas” nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. “E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios” (Riacho doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, “coisa” também é cigarro de maconha. Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: “Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já.” E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a coisinha.
Na literatura, a “coisa” é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O coisa, em 1943. A coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A força das coisas, e Michel Foucault, As palavras e as coisas.
Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de “a coisa”. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trem que lá vem a “coisa”.
“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (…)”. A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. “Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca.” Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas. Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta “Alguma coisa acontece no meu coração”, de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).
Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim! Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem “Coisinha de Jesus”.
Coisa, também, não tem tamanho. Na boca dos exagerados, “coisa nenhuma” vira “coisíssima”. Mas a “coisa” tem história na MPB.
No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré (“Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar”), e A Banda, de Chico Buarque (“Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor”), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou. Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: “Coisa linda / Coisa que eu adoro”.
Cheio das coisas

As mesmas coisas, coisa bonita, coisas do coração, coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o “rei das coisas”. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas. Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, “são tantas coisinhas miúdas”). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade (“ô coisinha tão bonitinha do pai”). Todas as coisas e eu é título de CD de Gal. “Esse papo já tá qualquer coisa… Já qualquer coisa doida dentro mexe.” Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: “Alguma coisa está fora da ordem.”
Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.
A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: “Agora a coisa vai.” Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!
Coisa à toa
Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema “Eu, Etiqueta”, Drummond radicaliza: “Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente.” E, no verso do poeta, “coisa” vira “cousa”.
Se as pessoas foram feitas para ser amadas, e as coisas para serem usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas mas.
Mas, “deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida”, cantarola Fagner em “Canteiros”, baseado no poema “Marcha”, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: “amarás a Deus sobre todas as coisas”.

Entendeu o espírito da coisa?

Lá e cá!

Recebi mensagem de um amigo português, reproduzindo crônica de autor conterrâneo… dele. Miguel de Sousa Tavares é o nome do gajo. Já li dele um romance: Equador. O texto que segue, aparentemente, é uma crônica, publicada não sei onde. O amigo que a enviou para mim não citou as fontes. Por isso destaquei logo o nome de seu autor. Li, entre boquiaberto e gargalhante. Seria cômico, de fato, se não fosse trágico. Sem a menor sombra de dúvida, a interlocutora não é brasileira… Não teria nenhuma das dúvidas que teve por saber, já, o caos que se instalou nos trópicos… Parece genética (nas duas direções)! Vejam lá!

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“Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:
- É sempre assim, esta auto-estrada?
- Assim, como?
- Deserta, magnífica, sem trânsito?
- É, é sempre assim.
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.
- E têm mais auto-estradas destas?
- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. – respondi, rindo-me.
- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.
- E porque são quase todos espanhóis?
- Vêm trazer-nos comida.
- Mas vocês não têm agricultura?
- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
- Mas para os espanhóis é?
- Pelos vistos…
Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas porque não investem antes no comboio?
- Investimos, mas não resultou.
- Não resultou, como?
- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
- Mas porquê?
- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não ‘pendula’; e, quando ‘pendula’, enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de ‘modernidade’ foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.
- E gastaram nisso uma fortuna?
- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos…
- Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério!
- E o que fizeram a esses incompetentes?
- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa… e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.
Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.
- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.
Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta…
- Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína – aliás, já admitida pelo Governo – porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo…
- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.
Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada…
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar – ou nem isso?
- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.
Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.
Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:
- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!”