10 de junho
Duas idéias me vêm ao pensamento, agora que o processo do leitorado começa, o processo real, efetivo. A idéia de responsabilidade e a idéia de negligência. Apensas a estas duas, mais duas outras: respeito e consideração. Apesar de aparentemente sinônimas, estas últimas guardam nuances semânticas, que apenas numa situação real se podem perceber. Claro, tudo isso dependendo do enfoque subjetivo de quem está envolvido. De outra forma não faria sentido. Vou deixar as duas primeiras para o fim, para depurar, talvez, o ácido perceber de seu contrário, deflagrado que foi pelas atitudes daqueles de quem se esperaria exata e absolutamente o contrário do que, de fato, aconteceu. Começando, então, com a “consideração”, sou obrigado a olhar, mais uma vez para a decisão institucional que me proibiu de receber, como seria de meu direito, numa lógica outra que não aquela associada à idéia de “alteridade planetária” (!), o meu salário. É evidente que ser leitor é um projeto meu, pessoal, particular, desde há muito. É claro que fiz o que pude e o que tive de fazer para poder estar sempre “no páreo” do rateio das vagas para leitores, espalhadas mundo afora, às expensas do Itamarati e das Universidades que explicitam o desejo de ter em seus quadros, ainda que temporariamente, um estrangeiro falante da língua portuguesa, em sua “variante” brasileira. Implicitamente, propõe-se aqui, ainda que eu não vá desenvolvê-lo, o questionamento se ainda cabe considerar a Língua Portuguesa falada no Brasil uma “variante” de sua similar falada na Europa. Vale dizer, falada em Portugal. Isto posto, cumpre salientar que apesar da pessoalidade do desejo, da “particularidade” do desejo, o leitorado foi, é e continuará sendo, um projeto acadêmico-profissional de intercâmbio, com possibilidades de evolução desse quadro de relações, para outro mais amplo: aquele que se desenvolver através de convênios entre as universidades envolvidas – a que cede o leitor e a que o recebe. Logo, não caberia, sob hipótese alguma, apelar para a letra da lei, em sua mais estreita interpretação – porque sem nenhum embasamento jurídico, moral e ético que a sustente – para negar ao profissional envolvido um direito constitucional: receber por seu trabalho. Em tempo: enquanto Leitor de Português, na Universidade de Zagreb, eu vou TRABALHAR, vou dar aulas, atender alunos, promover atividades culturais e acadêmicas, interagir com a universidade que me recebe e a representação diplomática do Brasil em Zagreb. Um a zero, então, para a “desconsideração” exata e diametralmente contrária em relação àquilo que seria esperado de uma instituição séria, que, de fato, se importa com a performance profissional, acadêmica e científica de um seu docente, em terras estrangeiras. Infelizmente, e com boa dose de vergonha, não é este o caso aqui, de forma alguma. Onde é que ficou o pagamento por este MEU trabalho??? A resposta, taxativa, se houver, está guardada a sete chaves em algum escaninho do “patrimônio” cultural ainda e sempre tão vilipendiado…