Mistérios

Não sei se estou atingindo um grau avançado de loucura, se o fato de estar fazendo muito frio – mesmo para o outono croata -exerce alguma influência, ou se isso é apenas impressão. O fato é que adoro chá! E aqui tenho praticado um pouco mais esta “arte”, ficando mais atento aos sabores e odores, bem como ao ritual da espera e da degustação. Uma delícia… Pode ser que isso seja considerado “coisa de velho”: não me importo.

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O fato é que, de uns dias pra cá, tenho percebeido que, quando a chaleira apita – enfim consegui comprar uma chaleira que apita: espécie de fetiche culinário que me perseguia -, o som vai diminuindo na medida em que me aproximo do fogão. Já tentei chegar de sopetão: não adianta, percebo a mesma coisa. Já tentei também entrar na cozinha com as luzes apagadas: a mesma reação. Estranho… muito estranho…! Nada como um pouco de graça pra comemorar o dia lindo que o outono de Zagreb nos oferece hoje. Ugodan vikend za vas!

Do diário – 1

8 de junho

Muito bem. A viagem demorou, mas saiu. Finalmente. Depois de meses de espera, o visto foi emitido, o bilhete aéreo foi emitido e eu, finalmente, estava autorizado a sair do Brasil e começar aquilo para que me preparei durante meses. Nada mais natural que ficar feliz, mas a dose necessária do glamour da notícia se foi com a espera. Zagreb estava mais próxima. Outras preocupações: a bagagem, a conexão em Paris, a imigração no aeroporto da capital croata. O processo de um leitorado começa com a publicação do edital pela Capes. Depois das inscrições uma pré-seleção escolhe três curricula e os envia à universidade em que o posto foi aberto. Os professores nesta/desta universidade são quem, afinal de contas, selecionam o leitor. Depois de escolhido, este futuro leitor recebe uma carta convite que pode aceitar ou não. Daí os contatos com a embaixada do país que vai recebê-lo, a tramitação de documentos, a emissão do bilhete aéreo, a viagem. Assim, depois de tudo, parece muito simples, e é. De fato, é simples, mas a burocracia diplomática no Brasil e na Croácia não tinham, quando da previsão desse quando, dado as suas decisivas cartadas. Como se diz por aí, ainda não “tinha mostrado as garras”. Ainda havia muito por vir…

Do diário – 2

10 de junho

Duas idéias me vêm ao pensamento, agora que o processo do leitorado começa, o processo real, efetivo. A idéia de responsabilidade e a idéia de negligência. Apensas a estas duas, mais duas outras: respeito e consideração. Apesar de aparentemente sinônimas, estas últimas guardam nuances semânticas, que apenas numa situação real se podem perceber. Claro, tudo isso dependendo do enfoque subjetivo de quem está envolvido. De outra forma não faria sentido. Vou deixar as duas primeiras para o fim, para depurar, talvez, o ácido perceber de seu contrário, deflagrado que foi pelas atitudes daqueles de quem se esperaria exata e absolutamente o contrário do que, de fato, aconteceu. Começando, então, com a “consideração”, sou obrigado a olhar, mais uma vez para a decisão institucional que me proibiu de receber, como seria de meu direito, numa lógica outra que não aquela associada à idéia de “alteridade planetária” (!), o meu salário. É evidente que ser leitor é um projeto meu, pessoal, particular, desde há muito. É claro que fiz o que pude e o que tive de fazer para poder estar sempre “no páreo” do rateio das vagas para leitores, espalhadas mundo afora, às expensas do Itamarati e das Universidades que explicitam o desejo de ter em seus quadros, ainda que temporariamente, um estrangeiro falante da língua portuguesa, em sua “variante” brasileira. Implicitamente, propõe-se aqui, ainda que eu não vá desenvolvê-lo, o questionamento se ainda cabe considerar a Língua Portuguesa falada no Brasil uma “variante” de sua similar falada na Europa. Vale dizer, falada em Portugal. Isto posto, cumpre salientar que apesar da pessoalidade do desejo, da “particularidade” do desejo, o leitorado foi, é e continuará sendo, um projeto acadêmico-profissional de intercâmbio, com possibilidades de evolução desse quadro de relações, para outro mais amplo: aquele que se desenvolver através de convênios entre as universidades envolvidas – a que cede o leitor e a que o recebe. Logo, não caberia, sob hipótese alguma, apelar para a letra da lei, em sua mais estreita interpretação – porque sem nenhum embasamento jurídico, moral e ético que a sustente – para negar ao profissional envolvido um direito constitucional: receber por seu trabalho. Em tempo: enquanto Leitor de Português, na Universidade de Zagreb, eu vou TRABALHAR, vou dar aulas, atender alunos, promover atividades culturais e acadêmicas, interagir com a universidade que me recebe e a representação diplomática do Brasil em Zagreb. Um a zero, então, para a “desconsideração” exata e diametralmente contrária em relação àquilo que seria esperado de uma instituição séria, que, de fato, se importa com a performance profissional, acadêmica e científica de um seu docente, em terras estrangeiras. Infelizmente, e com boa dose de vergonha, não é este o caso aqui, de forma alguma. Onde é que ficou o pagamento por este MEU trabalho??? A resposta, taxativa, se houver, está guardada a sete chaves em algum escaninho do “patrimônio” cultural ainda e sempre tão vilipendiado…

Do diário – 3

12 de junho

Quanto à negligência e à responsabilidade, era de se esperar do Itamarati que, além de proceder ao processo de pré-seleção dos curricula a serem avaliados pelas instituições interessadas em leitores, tomasse todas as atitudes atinentes ao caso. Ledo engano! Quanta ingenuidade. Além de uma carta-convite (com data de validade  limitada) e algumas mensagens protocolares trocadas, nada mais se conseguiu perceber que pudesse ser considerada uma atitude institucional pertinente. Nenhuma atitude. O modo verbal mais utilizado pelos “servidores públicos” que trabalham neste órgão de representação diplomática é o imperativo. Faça isso. Verifique aquilo. Providencie tal coisa. Certifique-se de tal possibilidade. Mandar, mandar, mandar. Nada mais que mandar. Não fosse por certa experiência, o processo teria desandado de vez, dado que a irresponsabilidade de representantes diplomáticos croatas, em solo tupiniquim, fez com que um processo que poderia levar de 20 a 3 dias, durasse dois meses e meio. Com direito a envio para o estrangeiro de documentação equivocada, por que não conferida. Com direito também a cobranças de taxas pagas pela cotação do dólar, no dia do pagamento. E para completar, com direito a ligação telefônica mal-educadamente concluída no meio de uma conversa.

            As controvérsias são (e serão!) muitas. As experiências relatadas nesse tipo de processo variam, á claro, como variam as emoções de quem está nelas envolvido. Ao fim e ao cabo, a confirmação de um bilhete aéreo, a chegada de um passaporte carimbado – o famigerado visto que, inexplicavelmente demorou quase três meses. Parece tão simples: um carimbo e uma assinatura, numa página verde, de um caderninho também verde que, a partir de agora muda de cor: o passaporte brasileiro é azul. Isso é que é modernidade: a adoção da cor mais protocolarmente utilizada em documentos estrangeiros que garantem a um cidadão qualquer, o direito de ir e vir por terras, por vezes, nunca dantes imaginadas; ou só conhecidas através de filmes, fotografias, reportagens televisivas e quejandos.

Do diário – 4

14 de junho

O que fica disso tudo? Um misto esquisito de emoções, reações e sentimentos. Tudo misturado, o que se vê é a morte irreversível de um glamour, como dito antes, que, se não é absolutamente necessário (e não o é!), faz com que uma experiência destas se transforme em matéria de ficção. Isto é exatamente o que está a acontecer aqui – para plagiar o sotaque da Língua que se quer ainda possuidora de uma variante falada apenas sob os tristes trópicos de Lévi-Strauss. Vai saber se é assim mesmo. Começa então uma nova etapa. A chegada, a passagem pela imigração, a recepção ainda no aeroporto. Tudo envolto numa névoa azulada que transita entre o sonho, a realidade e a ilusão. Não há medo. Não há uma esperança ingênua de perfeição, mas uma expectativa: como é que vai ser? Se, de um lado, ficaram meses de espera, de angústia, de medo e de insegurança para trás; adiante, o que se vê, nítida e desarmadamente é um vasto horizonte de expectativas várias, a possibilidade infinita de realização incomensurável de planos que, por mais mirabolantes que possam parecer à primeira vista, revestem-se de uma objetividade que transcende a própria razão humana. As palavras, mais uma vez, não são suficientemente capazes de traduzir isso. Não há explicações plausíveis.

            Pois então, no burburinho de um domingo de maio, sete dias antes do dia das mães, a chegada a um aeroporto simples e despretensioso – de fato, a cidade transmite esta mesma impressão em sua grandiosidade simples, histórica e secular. A guerra acontecida há quase quinze anos parece não ter conseguido destruir a marca peculiar de um espírito pitoresco, de um país ainda exótico para mim, com uma língua estranha, quase absolutamente consonantal. Uma cidade que, no dia seguinte, o primeiro de uma série de, mais ou menos, setecentos e trinta outros que virão, abre-se iluminada, ventilada, ensolarada, verdejantes em suas inúmeras em suas inumeráveis praças e parques e seus costumes peculiares, como, de resto, toda e qualquer cidade mundo afora,. Mas isso já é assunto para uma próxima vez. Fica uma certeza, os tais mais de setecentos dias que virão, não tenham dúvida, virão!!!

Feriados

8 de outubro. Dia do Parlamento. Feriado Nacional. As bandeiras perambulam pelos céus croata, já de um azul esmaecido pelos ventos outonais que chegam dos Alpes, dos Cárpatos, de outros inimagináveis lugares desse planeta que anda tão judiado… Dizem que é o progresso, o desenvolvimento, a superação e as melhores condições… Não tenho elementos para discutir isso, pelo menos, aqui e agora. O fato é que as bandeiras croatas estão por aí, soltas no ar, desfraldando seus cubos vermelhos e brancos, emoldurados por um azul sem descrição. Os croatas são nacionalistas… e muito! Nacionalistas para o bem e para o mal, como se costuma dizer… Celebram e cultuam a sua pátria, não sem um certo exagero, elogiando e valorizando as belezas naturais que, diga-se de passagem, não são poucas. São nacionalistas quando usam as bandeiras soltas pelas janelas domésticas, civis e laicas, nas datas nacionais, nos feriados religiosos e nas festas universais em que caiba um pouquinho de civismo… Claro que usam a bandeira nacional nas partidas de water polo, de handball e de basquete, obviamente no famigerado ludopédio – tradução esdrúxula para o “popular” (será que é mesmo???) football ou, na língua dos já citados (e outros!) futebol. Ai que coisa chata esse tal de futebol… Pena que a gente não possa dizer o mesmo, na mesma intensidade “do lado debaixo do Equador”… Mas não tem nada não. O nacionalismo causa suas situações esquisitas – para não falar irritantes – quando uma vendedora, de nariz empinado, peito estufado e usando um Inglês muito pior do que o meu, aponta o cartão de débito do banco croata que uso aqui e diz que na Croácia, “a nossa moeda é a kuna, o senhor entende?”. Não tem a menor graça, esta situação, para quem não esteve aqui, naquele momento. Antes eu tentara comprar umas camisetas, pagando com cartão de crédito (internacional, do Banco do Brasil, claro!). Nem a vendedora que me atendeu nem a citada gerente conseguiram fazer a “maquininha” funcionar. Com esse cartão posso comprar na França, na Inglaterra, na Turquia, na África, até na China, mas não na Croácia… Tirem as próprias conclusões, vocês que me leem, se é que alguém me lê…

A saudade continua apertando. Eu fico inventando coisas para fazer e pensar, tentando despistar esse sentimento tão complexo. O sentimento é universal, como universais são suas causas e, até, suas consequências (saudade do trema…). Só não é universal a palavra. Esta é patrimônio único da Língua Portuguesa, de Camões e Fernando Pessoa, Drummond e Cornélio Penna, Clarice e Lygia, Agustina e Sophia… tantos e tantas…