A última condição do amor descrito por Freud requer que a mulher seja desacreditada sexualmente de alguma maneira. Pode ser uma prostituta ou simplesmente uma mulher casada e um tanto frívola. Este aparente paradoxo de uma mãe-substituta que é moralmente impecável e também maculada reflete a descoberta pela criança da sexualidade adulta e da cumplicidade da mãe no ato. O resultado é uma dicotomia na imagem que a criança tem da mãe e que logo perturbará as relações do homem com outras mulheres. Elisa é, claramente, a figura composta da mãe. Ela simboliza a “madona virginal”, a inacessível divindade do altar, durante os dez anos de matrimônio com Matos Miranda. Esta época representa o primeiro conceito da mãe como a imagem da pureza. Com seu casamento com Torres Nogueira, porém, Elisa comete um ato de infidelidade que a deixa desacreditada sexualmente, ou profanada. Depois, ela confirma sua nova identidade como mulher licenciosa ao aceitar um amante. Esta nova relação, porém, não atormenta José Matias apesar de que desta vez a ligação é ilícita e, portanto, de significado mais sensual. E precisamente a existência do aspecto predominantemente físico que explica a segunda mudança na atitude de José Matias. Ao passo que Torres Nogueira era igualmente rival e ideal inatingível – a quintessência do homem integral que José Matias não é – o Apontador de Obras Públicas representa o lado exclusivamente físico do amor. Nem tem nome particular. O amante é, como Matias, incapaz de cumprir todos os aspectos do papel masculino. Ele representa o lado suprimido de José Matias, seu alter ego físico. Os dois não competem; complementam-se. O gesto do amante no cemitério expressa homenagem, mas também simboliza o encontro e a integração, por fim, da alma e do corpo polarizados quando, ironicamente, a união já não pode ter lugar.
Apesar de “José Matias” exemplificar um caso quase clinicamente perfeito de impotência psíquica, nada deve a Freud. Não se pode falar de nenhuma influência freudiana porque Freud não publicou nada sobre o problema até duas décadas depois de aparecer o conto português. “José Matias é a criação de Eça de Queirós – criação original e de aguda percepção psicológica, embora provavelmente represente uma projeção da subconsciência do autor e não uma percepção consciente. A literatura frequentemente serve de depósito para motivos e impulsos que o ser humano não quer ou não pode confrontar abertamente na vida verdadeira. “José Matias” é, antes de tudo, obra literária na qual Eça emprega com maestria todos os recursos mais característicos de sua arte estética e narrativa – linguagem viva e espirituosa, acerto nos traços descritivos, originalidade imaginativa das personagens e da intriga, e fino humor que dá o tom tão especial à composição. Possui, porém, valores para além dos puramente literários ou técnicos.
Por meio da elaboração de uma história singular de amor cortês no século XIX, Eça consegue expor os diversos aspectos recônditos de uma aberração psicológica ainda não reconhecida nem estudada pelos especialistas médicos da época. José Matias é, de fato, um “doente”, como afirma o narrador, mas sua enfermidade provém da sua incapacidade de oferecer o amor completo que Elisa lhe inspira. Ele não foge das materialidades do casamento mas do terrível pecado que a união física representa para ele. Vive e morre atormentado por uma natureza enfezada e por um amor desequilibrado. Não é o amor que o destrói, é a falta de amor.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COELHO, Jacinto Prado. As ideias e as formas. Ocidente. Lisboa, v. XXVIII, n. 95, p. 40-43, maio 1946.
QUEIRÓS, José Maria Eça de. Contos. Porto: Lello & Irmão, s/d.
FERRO. Túlio Ramires. O conceito de civilização nos contos de Eça de Queirós. Porto: Porto Editora, s/d.
FREUD, Sigmund. On creativity and the uneonscious. New York: Harper, 1958.
MARTINS, António Coimbra. Eça e ETA. Bulletin des études français. Lisboa, n. 5, 1967, p. 287-325.
ROUGEMONT, Denis de. Love in the Western World. Trad. Montgamcry Belgion. New
York: Pantheon, 1956.
SIMÕES. João Gaspar. Eça de Queirós: o homem e o artista. Lisboa: Rio dc Janeiro, Dois Mundos, 1946.
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Gosto – terceira parte
Quando José Matias recusa casar-se com Elisa depois da morte de Matos Miranda, o narrador confessa, com rara honestidade, sua confusão total e sua inabilidade de encontrar uma explicação psicologicamente válida. Em breve, porém, vence sua perplexidade e declara que o ato de José Matias é devido a um excesso de espiritualismo e ao receio das materialidades do casamento e das realidades fortes da vida. Quando, depois do casamento de Elisa e Torres Nogueira, Matias não consegue recobrar a sublime felicidade dos primeiros dez anos de sua paixão, o narrador não vacila em explicar a razão: José Matias vê na mocidade, força e paixão física de Torres Nogueira uma ameaça contra seu ideal espiritual, em contraste com Matos Miranda, figura velha e doente e portanto sem força varonil. Se é verdade, porém, que Torres Nogueira é um distúrbio porque introduz um elemento erótico na abstração espiritual que Elisa representa para José Matias, então a situação com o Apontador de Obras Públicas deveria produzir um trauma muito pior. Não obstante, sucede tudo ao contrário. Em vez de hostilidade, José Matias só parece sentir curiosidade e simpatia. De novo, o narrador está pronto com sua explicação:
Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na alcova de Elisa publicamente, pela porta da igreja, e para outros fins humanos além do amor — para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas este era meramente o amante, que ele nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que os dois corpos se unissem. (p. 256)
Primeiro o narrador estabelece uma distinção entre os dois maridos, usando como base o poder físico de cada um: Matos Miranda é velho, doente e fraco; Torres Nogueira é o epítome de juventude e força bruta. Agora, porém, aparecem aliados em oposição ao Apontador, que assume um papel puramente sexual. Anteriormente, o sofrimento de José Matias fora atribuído à intromissão do fator sexual. Agora, numa inversão total, o narrador decide que José Matias aceita gostosamente a nova situação porque quer que o corpo de Elisa seja tão bem servido como sua alma. São contradições que provam a confusão do narrador com respeito ao caráter e à conduta de José Matias. Não o compreende, mas para não desmentir a imensa estima que tem de si mesmo como pensador altamente racional e lógico, vê-se obrigado a fingir uma certeza que em realidade está bem longe de sentir.
Então, porque é que Eça o escolhe como narrador? Porque, por exemplo, não escreveu como autor onisciente ou usando o ponto de vista de Nicolau da Barca, amigo íntimo de José Matias e portanto possuidor de um conhecimento mais profundo do protagonista? A conclusão plausível é a de que Eça não quis oferecer uma revelação mais penetrante do seu protagonista, e que o narrador serve, em parte, para afastar o leitor de José Matias e, talvez, o autor mesmo de sua criação literária. De fato, a viva personalidade do narrador funciona frequentemente como distração, desviando a atenção do leitor de maneira que examine menos cuidadosamente as ações de José Matias e aceite como certas as conclusões do narrador. Em realidade, porém, essas conclusões contêm contradições que não são resolvidas e provocam perguntas que precisam ser esclarecidas se o conto vai ceder todas as riquezas de sua temática complexa.
Na sua teoria da evolução psicológica das emoções do amor, Sigmund Freud afirma que o instinto do amor é o resultado de um desenvolvimento gradual que tem origem na infância. Essa evolução começa quando a criança se dá conta de que existe um mundo alheio, de outros seres, e focaliza seu carinho sobre a mãe. Porque a mãe ama o pai, este se torna não só num ideal que deve ser imitado, como também num rival que inspira ciúmes e hostilidade. Estas atitudes mudam devido à educação e à barreiras impostas pela sociedade, e, gradualmente, o objeto original de amor é substituído pela irmã e depois por outras mulheres parecidas com a mãe e com a irmã. Com a transferência do afeto a evolução normal fica completa. Quando, porém, algum estorvo interrompe esta progressão natural, o resultado é uma desordem erótica que emerge mais tarde, na pessoa já adulta, como no caso de José Matias, que ilustra manifestações neuróticas características de impotência psíquica. Esta condição anormal é definida por Freud como a dissociação das duas correntes da emoção erótica – a ternura e a sexualidade. O homem, que oculta na subconsciência um amor incestuoso e portanto proibido, não pode ter uma relação completa com nenhuma mulher digna de respeito porque com esse tipo de mulher só é capaz de expressar sentimentos de ternura. A relação fica eroticamente Ineficaz, sem o estímulo sexual que o completaria.
Não é preciso salientar as manifestações de semelhante desligamento no amor de José Matias por Elisa. Os diversos exemplos, ao discutir o tema do amor cortês, estão aí! O amor de José Matias é “pura adoração”, “transcendentalmente desmaterializado”. Para o narrador, o amor platônico de Matias prova que ele é “desvairadamente espiritualista”. Para Freud, seria uma manifestação da resposta emocional restrita que Elisa inspira nele devido a sua neurose. Como ela é uma substituta pelo objeto de amor incestuoso reprimido, a satisfação sexual é impossível. Puxado por um amor puro e um amor carnal, José Matias tem que procurar um objeto sexual menos estimável para satisfazer os impulsos sensuais que não pode expressar com a mulher amada. Durante o casamento de Elisa e Torres Nogueira, José Matias leva uma vida dissoluta, não só porque é uma maneira de fugir, mas porque assim afirma sua natureza física. Num ato culminante de abandono, ele aparece numa cena curiosa, à frente de um grupo de mulheres com quem não sente nenhuma inibição erótica:
Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancolicamente, posto na frente, sobre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do Sol! (p. 248)
Matias conduz as mulheres à colina onde fica a Igreja da Braça, num ato simbólico que deverá reconciliar sua natureza dividida. Mas o gesto fracassa. Nas palavras do narrador, “todo este alarido não lhe dissipou a dor”. Também não o ajudou a estabelecer uma relação normal com Elisa.
Freud também fala das condições subconscientes que determinam a escolha da amada. A condição mais Importante exige a presença de um participante ofendido. A mulher substitui a mãe, e o partícipe ofendido representa o pai. É evidente que Matos Miranda é um modelo paterno. O narrador fala da vida resguardada de Elisa “por imposição paternal do marido” e, em outro lugar, menciona o “regime paternal do Matos Miranda”. Torres Nogueira também representa a figura do pai, mas ao contrário de Matos Miranda que a velhice elimina como ameaça, Torres Nogueira exemplifica o pai novo e viril, rival pelo afeto da mãe. É também o ideal que o filho tenta imitar. Estas fantasias da subconsciência explicam o sofrimento de José Matias durante os anos do segundo casamento de Elisa. Ele compreende que não pode competir com Torres Nogueira, o homem completo que oferece a Elisa o elemento sexual do amor que ele não lhe pode dar. Torres Nogueira força José Matias a dar-se conta de sua insuficiência, e a confrontação com essa realidade o devasta. Ele se vê, como devia ser, em Torres Nogueira. Realmente os dois homens só se diferenciam na cor dos cabelos: José Matias é louro e Torres Nogueira é moreno, um recurso literário bem convencional que Eça emprega frequentemente nas suas obras para contrastar o predomínio de aspectos físicos ou espirituais nas personagens. Do resto, José Matias e Torres Nogueira são reflexos um do outro em tudo, tanto em caráter como em posição social. Ainda que se já possível perceber, implícita, certa oposição, de ordem comportamental, entre eles.
Gosto–segunda parte
Para expressar esta dicotomia em “José Matias”, Eça ressuscita um dos mitos capitais da literatura ocidental, de origem na poesia provençal do século XII. Essencialmente, ele escreve uma versão moderna de amor cortês. Todos os elementos principais que denotam o caráter especial do amor cortês aparecem neste conto escrito, aliás, na época em que prevaleciam os conceitos intelectuais contrários do naturalismo e do positivismo. A primeira regra na prática de amor cortês era obediência à sua lei por cima das outras, incluindo a promessa matrimonial e a lealdade feudal. O amante assumia a posição subserviente de vassalo e prometia homenagem eterna a sua dama. Assim procede José Matias desde o momento em que avista Elisa e sente um amor que ó “forte, profundo, absoluto, submisso e sublime”. Por todo o resto da sua vida ele dedica-se total e exclusivamente à sua paixão. Mesmo quando não vê a mulher amada, José Matias sente sua presença espiritual.
Janta sozinho, mas com velas e flores na mesa, escutando a voz da invisível Elisa. Adorna quarto, carruagens e camarote na ópera com luxo digno da companheira ausente. Todas as ações que revelam outro aspecto de amor cortês – a importância da ausência no desenvolvimento do amor cortês é, essencialmente, amor de nostalgia que vive do próprio poder entusiasta e nem precisa conhecer a amada. O único contato pessoal entre José Matias e Elisa acontece durante os primeiros dez anos da sua relação, quando se encontram no jantar dos domingos na casa da tia de José Matias. O resto do tempo, vivem separados pelo muro que divide suas casas vizinhas – uma convenção que já existe no século XIII como símbolo do amor impedido. A distância é essencial para que o amor possa atingir a mais alta espiritualidade sem a ameaça devastadora de realização. José Matias ama Elisa com um amor que se não desilude nem se farta, porque permanece “suspenso, imaterial, insatisfeito”.
Segundo Denis de Rougemont, o amor passional na Europa surgiu como reação à doutrina matrimonial do Cristianismo. O casamento representava uma transação meramente material por meio da qual um nobre adquiria a riqueza da mulher e a mulher conseguia segurança e proteção. Era um contrato que só implicava uma união física. No conto de Eça, todas as referências ao matrimônio compreendem uma associação física ou procriadora. Torres Nogueira, segundo marido de Elisa, aparece como simples possuidor carnal, um “bruto”. Falando da recompensa que José Matias vai receber depois da morte de Matos Miranda, o primeiro marido de Elisa, o narrador antecipa “um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos…” Mas José Matias recusa as materialidades do casamento, “as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis mess, os meninos berrando no berço molhado”. Em resumo, o matrimônio representa uma relação material, física, totalmente incompatível com os ideais do amor puro, do amor espiritual que não se realiza.
No amor cortês, portanto, é preciso evitar a consumação do amor e por isso tem que existir alguma obstrução. Paradoxalmente, apesar do menosprezo com que é visto, o estado matrimonial da amada funciona como o obstáculo mais eficaz. Casada, Elisa é inacessível e, por conseguinte, é o objeto perfeito do amor cortês. Quando cai a barreira protetora encarnada por Matos Miranda, José Matias fica sem defesa. Imediatamente abandona sua posição vulnerável e só regressa quando Elisa, repudiada por ele, casa com Torres Nogueira e restaura o impedimento indispensável. Então José Matias pode recomeçar a adorar a mulher ideal livre do perigo de possessão. Na verdade, o verdadeiro objetivo do amor cortês não era a mulher como ser humano, mas como ente ideal, símbolo do conceito da perfeição mais pura. Visto que tal sublimação da mulher incitava um amor contrário ao casamento, a partir do século XII a Igreja lutou contra essa ameaça, tentando desviar a corrente para um canal mais aceitável – para a adoração da Virgem Maria. A diversão triunfou, em parte porque a poesia lírica já então expressava o sentimento religioso da época, empregando a retórica devocional. Os objetos profanos eram idealizados em termos religiosos, com a palavra “adorar” no lugar de metáfora predominante e sinônimo de “amar”. A atitude de José Matias para com Elisa é descrita sempre em termos devocionais, e ela é constantemente associada com a Virgem sublimada. Usa-se a mesma figura para descrever a reação de José Matias quando Elisa se casa com Torres Nogueira.
O sentimento deste extraordinário Matias era o de um monge, prostrado ante uma imagem da Virgem em transcendente enlevo – quando, de repente, um bestial sacrílego sobe no altar e ergue obscenamente a túnica da imagem.
A angústia de José Matias a partir das segundas núpcias de Elisa é outro exemplo do mito, visto o sofrimento constituir uma parte capital do ritual do amor cortês. Para alcançar plena consciência de si mesmo, o amor-paixão tinha que incluir padecimento, ainda mais talvez do que êxtase. É a experiência paradoxal da doença que deleita, da “ferida que dói e não se sente”, de Camões e Petrarca. Segundo Rougemont, Tristão, o paradigma do amante cortês, não ama Isolda, mas o amor mesmo. Para além do amor, ama a morte. Isolda é só um pretexto. O instinto de morte é transfigurado pelo mito que lhe confere um fim espiritual. Destruir-se, desprezar a felicidade, é o caminho para a salvação e para alcançar uma vida superior. Portanto, o amor cortês tem que seguir o rumo do padecimento para atingir sua verdadeira meta – a morte. José Matias, de fato, renuncia toda a possibilidade de felicidade mundana e, finalmente, a própria vida. Não se destrói duma maneira rápida ou dramática, mas por um processo lento de degeneração. Ele próprio levanta os obstáculos contra seu amor e rejeita a vida. No final, fica apenas a morte para oferecer à sua paixão como ato de preito.
Jacinto do Prado Coelho afirma que no fim do conto Eça “exalta liricamente o idealismo amoroso, depois de tê-lo aviltado com diabólica serenidade”. Ê verdade que a última imagem que permanece na mente do leitor é a do amante carnal de Elisa colocando um ramo de violetas na cova do amante espiritual – a matéria prestando a homenagem final ao espírito. A última impressão que é dada de Matias – magro, alcoólico, esfarrapado, sub-repticiamente a manter sua vigília noturna frente a casa de Elisa, enquanto o Apontador de Obras Públicas faz sua visita diária “enfiando regaladamente o portão, bem vestido, bem calçado, de luvas claras, com aparência de ser infinitamente mais ditoso naquelas obras particulares do que nas Públicas”. Finalmente, é a relação ilegítima e física que goza um contentamento sereno. O amante espiritual, ao contrário, leva uma existência sórdida e clandestina e sofre uma morte degradante.
E óbvio que o tom do conto é ambivalente, como se Eça não estivesse certo de sua própria atitude para com José Matias. Existem várias ambiguidades que não são resolvidas, apesar de que o narrador dá a impressão de que a história de José Matias, embora singular, fica completamente esclarecida por ele. É uma impressão errônea. O primeiro enigma que se deve salientar diz respeito à perspectiva empregada por Eça. Falta completamente o ingrediente capital de revelação confidencial principalmente porque o narrador não é amigo íntimo de José Matias. Suas explicações representam geralmente interpretações subjetivas de um homem cuja vaidade o obriga a julgar-se sabedor de tudo, mesmo do que realmente não compreende. Cada vez que José Matias faz alguma coisa inesperada, o narrador fabrica uma nova teoria que ele então considera a única, a perfeita explicação lógica do caso. A verdade, porém, é que ele nunca compreende José Matias.
Gosto
Há livros e textos e filmes e músicas dos quais a gente jamais se esquece. Seja por dever de ofício, seja por algum incidente “negativo”, seja simplesmente porque a gente gostou deles. Punto i basta. Na obra de Eça de Queriós, encontrei dois textos que até hoje me tocam profundamente – “José Matias”, conto, e O crime do Padre Amaro, romance. Os motivos são vários. Os aspectos quase inumeráveis, as explicações múltiplas. Aqui escrevo um texto sobre o conto. Da primeira leitura, ficou impressão estranha; das demais, o apuro do escritor ofereceu-me momentos de reflexão e delícia. Sim, delícia. O conto é delicioso. Vai aí, então, o que eu escrevi sobre ele!
JOSÉ MATIAS: amores impossíveis(?)
Tem-se escrito muito com respeito à visão pessimista do amor expressa por Eça de Queirós nas suas obras de ficção. Segundo Túlio Ramires Ferro, o amor nas obras de Eça causa perturbação social e conduz à degeneração. João Gaspar Simões opina que o amor em Eça é criminal, condenatório ou impossível e que Eça manifesta uma “estranha apreensão quanto à legitimidade do amor sexual”. (SIMÕES, 1945, p. 531) A interpretação mais negativa, porém, é dada por Antônio Coimbra Martins, que atribui a Eça um conceito salubre e destrutivo do amor:
Para o romancista, em resumo, o verdadeiro apelo do amor é degradante. Um obstáculo de natureza social, religiosa ou mesmo material afasta-nos do fruto proibido e baixamento convidativo. Outros, mais ou menos disfarçados, vão colher o fruto às escondidas… mas o verdadeiro resultado do amor são traições, mortes, incestos, heranças perdidas… Toda a obra de Eça o diz: o amor é o pecado original. (MARTINS, 1967, p. 324)
Para Coimbra Martins os contos são igualmente representativos dessa atitude acrimoniosa, com a exceção de “O defunto” que ele considera a única composição em toda a obra fictícia de Eça onde o amor se salva. O juízo, porém, é inexato, pelo menos com respeito aos contos. Nos contos, Eça não desacredita o amor; o que condena é a incapacidade do home de aceitar o amor como compromisso total de todo seu ser, físico e espiritual. É verdade que em alguns dos contos o amor conduz à infelicidade ou à degradação, mas unicamente porque a emoção que sentem os personagens é incompleta. Carece do equilíbrio sadio que provém do desenvolvimento simultâneo das duas facetas da natureza humana – o espírito e a matéria. Já nas Prosas bárbaras Eça se refere à divisão de alma e corpo. Mais tarde, em contos como “No moinho”, “Um poeta lírico” e “As singularidades duma rapariga loira” ele elabora temas de amores frustrados e relações falhadas por lhes faltarem um dos dois elementos vitais. O conto mais interessante, porém, em que Eça trata da polarização completa dos duplos aspectos humanos e das consequências do desequilíbrio resultante é “José Matias”, sem dúvida uma das obras mais complexas e mais originais de Eça.
O conto, inicialmente publicado em 1897, três anos antes da morte de Eça de Queirós, relata o caso intrigante de um homem que, durante vinte anos, se prostra espiritualmente diante da mulher amada, consagrando a vida à sua paixão, mas recusando implacavelmente a posse física do objeto de tanta devoção . Por duas vezes, a divina Elisa se encontra viúva e pronta a premiar o admirador dedicado e, por duas vezes, José Matias foge dela, regressando só depois de ela voltar a ser esposa ou amante de outro homem.
A narração, escrita na primeira pessoa, apresenta a perspectiva de um antigo condiscípulo universitário de José Matias. A ponto de sair para o funeral de José Matias, o narrador encontra um amigo a quem convence de acompanhar o cortejo ao cemitério. Enquanto a procissão avança, o narrador fala com seu companheiro. Não se trata tanto de um diálogo como de um monólogo dramático. Só se ouve a voz do narrador. O companheiro permanece invisível e silencioso durante todo o conto, embora se dê a compreender que ele também toma parte na conversa. O narrador frequentemente comenta sobre as aparentes observações e reações do amigo. Como resultado desta técnica, o leitor transcende o seu papel passivo e parece participar diretamente na história que está a ouvir, como se tomasse o lugar do companheiro. Ê o narrador também que interpreta os acontecimentos e os personagens do conto. Ele define José Matias como “um doente, …atacado de hiper espiritualismo … um ultra-romântico” que só aceita um amor espiritual porque reconhece a relação incompatível que existe entre os sonhos e a vida, entre a imagem Ideal do amor e o desengano que encerra a realização do amor.
Amanhã tem mais!
Semelhanças
Numa das muitas sequências narrativas de Os maias, o narrador de Eça de Queirós aproxima Maria Eduarda e Calos da Maia. A sutileza ferina do autor envolve as duas personagens em eflúvios românticos para, num golpe fatal, “cortar o barato” do casal com a revelação de que são irmãos. Isto não se dá logo no começo desta “célula” dramática. Aos poucos, insidiosamente, a pena do autor evoca a voz narrativa para, bem ao sabor romântico/naturalista, enunciar a terrível revelação. Na adaptação televisiva, coube a Marília Pera o papel de Maria Monforte, a que volta para fazer desandar o enlace do casal de protagonistas. Tudo muito elegante, trágico, solene. O tempo que envolve as escolas concorrentes na construção do romance não deixa de explicitar suas marcas mais recorrentes, de maneira única, inconfundível: o estilo de Eça. Verdadeira delícia, gozo lento e saboroso que cai, como vaso de procelana da mão de faxineira estabanada ou criança traquinas. Paf… Miríades de cacos se espalham e o “que era vidro se quebou”! A deceoção é grande, mas não supera o prazer da revelação e do ritmo da própria narrativa. Romance é isso.
Em outro momento, do lado de cá do Atlântico, algumas décadas depois de Eça, há passagem semelhante em outro romance. Apenas isso, semelhante. A menina “danadinha” envolve o primo numa cena de sedução em plena festa de noivado deste. A noiva é sua prima também. O mal está feito e tudo parece caminhar para um dramalhão sem final melancólico quando, do nada, Dr. Arnaldo, o pai da moça devassa, revela, abruptamente, que o suposto primo é, na verdade, irmão desta. Já adivinharam? Pois é… Nelson Rodrigues. O romance é o primeiro volume (de dois) de Engraçadinha. Diminutivo, no mínimo, ambíguo na pena do ferino Nelson. A sua marca é a esta “diferença”. Não há elegância, como em Eça, mas não há vulgaridade. É tudo rasgado. O leitor se divide entre o susto quase envergonhado e a gargalhada sacana… Escritor danado esse Nelson Rodrigues. Romance digno de ser comparado com Eça, sim senhor, sem a menor pretensão de estabelecer níveis hierárquicos de “valor”, como os mais sisudos da academia gostam de fazer. Falo por prazer de falr, pelo prazer de ler e comentar. se isso não é um passo de crítica, digam-me, por caridade, o que é…
O que os dois têm em comum? Eu diria que, entre tantas outras qualidades, o talento de criar uma cena, de imprimir ritmo e clima adequados para o que desejam dizer, cada um a seu modo. Uma coisaa os une, arriscaria afirmar… O naturalismo de sua “dicção” narrativa. Ambos são naturalistas, cada um a seu modo. Os dois dissecam o ser humano e a sociedade de maneira impiedosa. Um de maneira elegante, outro de maneira descarada (será que existe antonímia entre esses dois adjetivos? preguiça de consultar o “pai dos burros”!). Um cria o clima e, ao final, revela o que mais interessa, quebrando esse mesmo clima, sem destoar no tom da melodia narrativa. O outro não tem papas na língua e reproduz o mais corriqueiro e coloquial “deixa que eu falo”. Ambos são implacáveis. Ambos são impagáveis. Admiro os dois!