Para romance 3 – Razões

“Encontrei a razão e o motivo para escrever. Ele é alto, muito alto. Cabelos avermelhados, arrepanhados num rabo de cavalo muito bem preso. O resto recortado e grande, emoldurado por dois olhos cor de avelã e a boca, carnuda e vermelha. Malares proeminentes completam o quadro viril que vai ostentado por uma musculatura bem definida e forte, sem exagero. Veste-se de maneira comum, sem estereótipos ou gestos estudados. A primeira impressão é de força e poder. Mãos grandes, pernas possantes, costas largas e voz doce. Contrastes… Escreveu durante os anos de convivência com Daniel os seus seis cadernos. Jamais se tocaram. Quando Daniel chegou, ele serviu-se de mais chá e retomou a escrita. Onze anos haviam se passado e muita coisa mudou. Os cadernos meticulosamente guardados, ostentavam numeração seguida. O quatro era o mais volumoso, mas o sexto parecia conter informações mais consistentes. Não sei exatamente de onde tirei essa ideia. Talvez, depois da conversa com Daniel, esse insight tenha acontecido. Samuel era russo de origem e viveu muito tempo sob o sol da Toscana, onde conheceu Vera, com quem quase se casou. Ali começaram as especulações dos outros editores. Daniel me conta que Samuel o amava “à distância”. Isso não era amor platônico. Misto de respeito, medo e insegurança, Samuel não sabia outro modo de se fazer feliz a não ser sendo o arrimo de Daniel. A rima, nos nomes, ajudava a composição quase melancólica da história de amor que os dois viveram. Sem sexo, sem ciúmes, sem planos. Os anos passarm entre as viagens à Itália, na vindima; à Grécia depois do verão, e à América do Sul, para o negócio do vinho. Sempre juntos. A investigação policial que se espraiou sobre aqueles meses de tormento, explica a ausência às duas últimas apresentações do grupo de teatro de que tanto gostavam. Interessaava-me mais ler os cadernos. Samuel conheceu o detetive por conta de um rapaz português que se apresentou à cafetina, gerente de um bar sórdido, perto da estação ferroviária. O “alfacinha” vinha atrás do tal cantor de fado que desaparecera. Ele disse ter chegado da América do Norte, depois de passar boa parte da juventude trabalhando numa casa de campo, no norte de Portugal. Contou uma história esquisita sobre a família, masi esquisita ainda, com quem passou os últimos quatro anos. O cantor de fado não me interessa. A história do rapaz português também não. Os outros editores se ocupariam disso, com prazer. Estava interessado nos cadernos de Samuel. Isso é que me ocupava o pensamento enquanto andava na direção da estação de trem.

Personagens de um romance bem escrito, Daniel e Samuel, a cafetina, o cantor de fado, o rapaz português e o detetive, o grupo formava o dramatis personae de uma história que eu gostaria de ter escrito. Só de pensar na descrição de Samuel, ficava excitado. Fantasias se alimentavam das palavras do livro que a cada página fascinava mais e mais. Um livro que se diferenciava de últimos que tinha lido. Uma história bem contada, bem escrita, sem a preocupação de “inventar moda”. Uma história bem contada. Trama bem urdida que excitava e consumia a atenção, fascinando a mente na busca de continuar seguindo as linhas como pistas para solução de um enigma. Mas não havia enigma. Havia Samuel e seus seis cadernos: esse era o enigma, se assim se pode dizer. Cada página do livro fazia com que aumentasse a curiosidade pelo que poderia vir a ser o outro livro: o que nasceria da edição dos cadernos. Olhar para os cadernos era um exercício diário de prazer: como sonhar com Samuel. Tentar estabelecer contato com essa possante mão de homem russo, a escorregar entre as pernas, num aperto sôfrego que fazia tremer. O prazer era muito grande. Só as muitas páginas de um livro, talvez, fossem capazes de estabelecer uma descrição condigna. Páginas de um livro. Esse era o universo do tormento de Samuel. E eu, no rastro de sombra que esse homem deixava atrás de si, seguia, melancólico, buscando encontrar fios de meada para começar outra trama. Ele merecia isso. Eu é que não sei se seria capaz de fazê-lo! O fato de ser descrito como russo pouco importava. Mas esse mesmo fato alimentava a fantasia: o mito do homem russo. Cheirava a força e sensualidade, uma sensualidade envolta em neve e peles, no meio do vento frio que agora sopra e faz a janela bater. Virilidade. Bate a janela e levanto os olhos para ver que horas são. Deixo o caderno de número três aberto e vou preparar chá…”

Três vidas

“A presença física não é prova de nada. O lugar onde vivemos é o lugar que habitamos em espírito. E, em espírito, nunca regressei. Estou espalhado pelas almas de todas as pessoas que conheci, de todas as coisas que, por lhes ter tocado, modifiquei. Irás aprender isso com o tempo. Um homem não é uma entidade, são muitas e, se não nos decidimos, a tempo certo, por uma delas, acabamos em retalhos.”

Parece até trecho de livro psicografado por algum medium, ao sopro do espírito desencarnado de alguém importante, ou simplesmente caridoso. Até parece… Mas só “parece”! Esse é o trecho que está à página 135 de As três vidas, romance João Tordo, o mais novo enfant gaité da cultura de letras em Portugal. Ele ganhou o prêmio literário José Saramago de 2009. Daqui a duas semanas vou conhecê-lo, aqui em Zagreb. Um rapaz jovem, que escreve, dizem, muito parecido com Paul Auster. Li Paul Auster, mas não me lembro direito de sua escrita. Pelo sim, pelo não, deixo a nota, ainda que essa “coisa” de “escreve parecido a”, acrescente, na verdade, pouquíssimo, ao prazer da leitura de quem quer que seja. Antes de mais nada… ler!

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As três vidas é um romance interessantíssimo, em que Portugal aparece apenas como referência espacial/contextual para duas ou três personagens que circundam e que se relacionam com o protagonista da narrativa. Isso chama a atenção. Sem malabarismos verbais, sem a invencionice de escrever tudo em minúsculas, sem o arroubo de não pontuar frases em parágrafos caudalosos e imensos, João Tordo “conta” uma história. Há quem torça o nariz para esse tipo de “atitude” literária. Os “pós-modernos” de plantão não vão gostar, de jeito nenhum – mesmo que se possa aproximar João Tordo de Paul Auster. Mas quem gosta de “Literatura” vai aplaudir. Não digo aplaudir de pé, mas aplaudir. O rapaz escreve bem, sim, de verdade, e constrói uma NARRATIVA de muito bom gosto, do tipo que faz a gente pensar, do tipo que propõe novos ângulos de abordar a realidade, com procedimentos de escrita que em nada e por nada ficam a dever alguma coisa. Texto que flui, história que envolve, seduz, emociona. Há algum mal nisso? Ando com saudades de “Literatura” e ainda há tanto para ler…! A saudade, porém, não me impediu de sentir prazer ao ler as páginas desse romance mais que bom! A passagem que citei deixou-me emocionado, depois de um pouco atordoado. Senti-me inteiro nela. Vi-me como diante de um espelho. Creio que qualquer pessoa que sai de seu local de origem e passa a viver em outros lugares, mesmo que por tempo limitado – ou exatamente por isso! – vai constatar o que constatou a personagem principal de As três vidas: um rapaz que, por precisar de trabalho/dinheiro para cuidar da mãe doente, depois do falecimeto do pai, se envolve com uma família estranhíssima. Filosofia, política, espionagem e existencialismo, eu diria, podem ser algumas das referências culturais que amoldam o relato ficcional, de grau superior, do/no livro. Quem puder ler… vai gostar!

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Mais uma surpresa boa

Cal, de acordo com o Dicionário Houaiss, é um substantivo feminino: pó branco constituído principalmente de óxido ou hidróxido de cálcio, usado na construção civil, em fluidos de perfuração, em cerâmicas, na clarificação de óleos, em tintas, revestimento contra fogo, tratamento de água, na manufatura de papel, como adstringente, etc. Qualquer produto (pulverulento, pastoso etc.) resultante da hidratação da cal virgem. Etimologicamente, a palavra vem do latim vulgar – cals (derivado do acusativo) que, por sua vez, vem do latim calx, calcis – cal, pedra de cal, com origem no grego kháliks; provindo pelo espanhol cal. A viagem é longa. De tudo fica um pouco: logo, pode-se acreditar quando dizem que “cal queima”!

A ideia de fim, de morte, de consumição, não passa ao largo quando se pensa nessa palavra. Pensar na palavra, pensar com a palavra. Isso é poesia! É isso o que faz José Luis Peixoto em seu livro Cal. Título sugestivo, sui generis, instigante e inesperado, dado que trata, em sua maior parte, da velhice, aquele período em que tudo parece se acabar, queimar no próprio calor da vida que vai se extinguindo lentamente. Inexorável destino da humanidade! São 17 contos, três poemas e uma peça teatral sobre a velhice. Velhice. Alguma coisa que assusta e instiga, alguma coisa que faz com que muita gente sinta medo; alguma coisa que não agrada a muita gente. Alguma coisa de inevitável!

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A imagem da capa, na edição que li, funde duas fotografias: a mão engelhada de uma pessoa velha e uma parede caiada. Como se a pele daquela mão tivesse a mesma natureza da superfície rugosa daquela parede. Corpo e casa à mercê do tempo, como sinais de uma memória que é sempre o ponto de partida para os textos de José Luís Peixoto. Sejam eles contos, poemas, crônicas ficcionalizadas ou peças de teatro. Cal, editado pela Bertrand é o sexto livro de prosa de Peixoto e reúne 17 contos publicados em jornais e revistas, uma peça teatral. Todos com um tema comum: a velhice; naquilo que tem de belo, de melancólico, de exaltante ou de trágico. No fundo, o autor juntou textos dispersos que só fazia sentido recuperar pelo fato de serem atravessados por unidade temática forte, determinante. O autor sempre escreveu bastante sobre a velhice (há velhos em todos os seus textos), porque é “uma idade muito importante e muito subvalorizada”. O seu interesse literário não se centra na velhice em si mesma, com a sua sabedoria, os seus sobressaltos e rituais, “mas mais na passagem entre as várias idades e a forma como se lida com isso.” Em Cal, à semelhança dos outros livros, os velhos vivem quase sempre num meio rural que José Luís conhece bem, porque viveu até ao fim da adolescência na aldeia de Galveias (concelho de Ponte de Sor). As figuras curvadas que trabalham no campo, fenecem ao desalento da escuridão das casas, vendem uma burra aos ciganos como quem vai para o cadafalso, ou acreditam que a sua horta de sempre cresce no espaço limpo e puro de uma enfermaria hospitalar (ainda que nem sempre, infelizmente, seja assim!). Tudo é, muitas vezes colagem exata de pessoas que o autor conheceu, ou de quem ouviu falar. Há mesmo nomes reais que assomam às páginas, dando uma dimensão humana fortíssima às histórias, várias delas com um assumido cunho autobiográfico: “De certo modo, quis preservar, através da escrita ficcional, a dignidade das pessoas que me fizeram ter consciência de que a velhice não é só uma questão de decadência física. Às vezes é também o exacto contrário disso.”, diz o autor! Há razões mais subterrâneas que levaram Peixoto a escolher o título: Cal. “Não foi só a identificação com o Alentejo, não foi só a brancura, não foi só a ideia de uma espécie de cristalização das casas, que as conserva e as paralisa no tempo. Foi também a noção de que a cal é uma matéria perigosa, uma pedra que ao colocar-se dentro de água ferve, queima e se cai nos olhos cega.” Metáfora perfeita, também, do que é a escrita. Eduardo Prado Coelho diz que “a grande força de José Luís Peixoto está no modo como narra histórias que se dobram para dentro da sua própria loucura e no fio puríssimo de luz com que as vai reunindo e salvando do esquecimento”. Palavras de sabedoria. O texto de José Luis não desmente a acuidade do olhar do crítico. Como fio puríssimo de luz, uma ausência presente atravessa os gestos e as emoções destas figuras. Em cumplicidade com a morte, a vida torna-se mais límpida, talvez mais pura. A luz – força redentora de suas personagens –, é certamente um dos fios condutores do texto. Quem gosta da escrita deste autor português, irá certamente reencontrar palavras e frases ao estilo daquelas que podem ser a razão de se gostar do estilo de escrita de José Luís Peixoto, um estilo bastante característico e que desperta no leitor determinados sentimentos que fazem pensar e reviver memórias ou detalhes esquecidos ou que estão adormecidos. Para quem não conhece, fica a recomendação, com a condição de aconselhar apenas às pessoas que queiram ler algo que lhes faça refletir ou que estejam à procura de algo calmo, estejam à procura de encontrar pessoas simples e com elas reviver determinados momentos das suas vidas, momentos distintos, acontecimentos distintos, personagens semelhantes, mas distintas. Poesia, para dizer tudo numa única palavra.

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Teste

No texto abaixo há parênteses vazios. Eles podem ser preenchidos com as palavras (em croata!) que estão na lista que segue o texto. Isto é uma brincadeira: tente preencher os parênteses com a palavra correta e mande para mim, de volta, como comentário. Vamos brincar um pouquinho!

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Se você quer chegar mais (   ) ao seu (   ), vá de (   ). O trânsito nas (   ) pode fazer com que os (   ) se atrasem. Como você ainda não comprou o seu carro… Da mesma forma, fica mais prático confirmar o seu (   ) com o (   ) usando o telemóvel. Se for esperar para telefonar do seu escritório, a (   ) pode colocar outra pessoa em seu (   ). Na verdade, tudo poderia ser resolvido num (   ). Você tomaria um gostoso café com leite e o seu agente, um chá de limão. Por aqui, tudo se resolve nos (   ). Não vá se esquecer de confirmar a (   ) com o seu (   ), o consultório dele fica bem no caminho da loja de (   ), onde você vai comprar o presente de (   ) de seu quase (   ), o (   ) do (   ) de sua cunhada! No (   ), você encontra todos os (   ) de que precisa. Vá até lá com a receita do médico e leve tudo ao (   ) onde sua (   ) está internada. Ela andou muito (   ) e vai ficar na clínica por mais uns três ou (   ) dias, para fazer (   ) exames. Não deixe de levar alguns (   ): ela gosta de ler, preferencialmente (   ) russa. A biblioteca da (   ) tem uma bela coleção de romancistas russos. Depois de tudo resolvido, você pode pensar no planejamento da (   ) de férias. A reserva no hotel na (   ) que você escolheu tem que ser feito com antecedência: não vá se esquecer, (   ) pensão! Você pode ir de avião ou de (   ), mas eu preferiria ir de carro, você pode parar quando (   ). Bem, eu vou indo que as (   ) de holandês ainda não acabaram e tenho que (   ) muito. Tenha um bom dia!

(1) učiti / (2) sastanak / (3) brže / (4) autobus / (5) ured /          (6) plaži / (7) vlakom / (8) želite / (9) lijekove / (10) igračaka / (11) baka / (12) tajnik / (13) odvjetnikom / (14) konzultacije / (15) mobitel / (16) nećaka / (17) čaj s limunom / (18) bolnicu / (19) kafić / (20) mjesto / (21) ambulante /                                    (22) kava s mlijekom / (23) sin/ (24) više / (25) rođendan /     (26) tramvaj / (27) knjige / (28) književnosti / (29) nastavu /   (30) četiri / (31) pola / (32) stomatologom /                                 (33) putonavje / (34) Sveučilišna / (35) bolestan / (36) kafićima / (37) brat / (38) ulicama

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Sempre poesia

Esse texto, hoje, pode ser difícil para muita gente. Impossível prever ou calcular… Faz um tempo que venho ensaiando falar mais de literatura, meu “campinho”. Sempre sou vencido pela síndrome de Macunaíma: ai que preguiça. De mais a mais, não é todo mundo que tem “saco” de ler tudo o que se escreve por aí. Vá lá… Venço os dois: a preguiça e o desinteresse alheio e escrevo umas linhas a mais sobre o que eu considero (quase) imponderável: literatura!

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

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Esta redondilha de Sá de Miranda, entre outras referências, pode levar a gente a se lembrar de um poema de Maria Teresa Horta – “Minha senhora de mim”:

Comigo me desavim

Minha senhora

De mim

Sem ser dor ou ser cansaço

Nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim

Minha senhora

De mim

Nunca dizendo comigo

O amigo nos meus braços

Comigo me desavim

Minha senhora de mim

Recusando o que é desfeito

No interior do meu peito

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Por outro lado, a gente pode se lembrar de Fernando Pessoa – Autopsicografia –, onipresença na/da Literatura Portuguesa, como Camões, mas isso já é outra história. Aqui, eu quero me lembrar do tímido escritor que gostava de absinto e que dizia que as cartas de amor são ridículas. Aquele que se fragmentou em identidades poéticas múltiplas; um excelente atalho que o retirou, definitivamente, do caminho da loucura. O único caso de esquizofrenia que deu certo, como costumo brincar!

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

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Trata-se de um conflito interno belamente descrito, nos três casos! Do século 16 ao 20, num salto que só a Literatura permite dar, a gente vislumbra como “mudam-se os ventos, mudam-se as vontades” e a dúvida essencial permanece. A gente não sabe direito quase nada do que acontece ao redor… Quantas vezes a gente passa por isso! Quantas vezes a gente encara a si mesmo como um inimigo! Mas ninguém pode fugir de si mesmo! Belíssimo texto do século XVI. Apesar da forma medieval, é típico da estética renascentista: o trovador revela o seu conflito interior. Trata-se de uma problemática cheia de atualidade. Às vezes é tão difícil esta convivência forçada. Não poder fugir de si mesmo. Mas também se fosse possível: para onde ir? Será que haveria alguém disposto a aceitar a inevitabilidade dessa situação? Reflexões para uma noite de primavera também… depois para o outono)!

Sá de Miranda nasceu em 1485 em Coimbra e concluiu seus estudos na Universidade de Coimbra chegando a ser Lente substituto. Foi contemporâneo de Camões e alguns historiadores chegaram a dizer injustamente que os dois eram rivais por, nunca ter decerto estabelecido um paralelo historiográfico da temática dos dois poetas. Sá de Miranda foi o primeiro a debruçar-se sobre o problema da angústia ou, como hoje se diz vulgarmente, a depressão: enquanto quase todos os outros poetas se contentavam e se encantavam com outros temas mais facilmente entendidos como o amor e as cantigas de escárnio e mal dizer. Quase, sim, pois a gente não é capaz de abarcar a totalidade do real, nem em sonho!

Em seus versos, ele faz a gente se deparar com a sensibilidade a partir do exercício de auto-observação e análise tão profunda da melancolia que só muitos séculos mais tarde haveriam outros poetas – para não citar Freud e todos os outros – que debruçar-se-iam sobre essa problemática existencial. Esse poema, ao lado dos outros, leva a admirar o pioneirismo numa época em que decerto não seria tão bem entendido. É certo que ele trouxe de Itália, onde esteve, o soneto, a ode, o drama em prosa e a elegia, mas é merecedor de admiração por seu pioneirismo.

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Perdidos no tempo

Estou começando a gostar desse cara!

“Vestibular de verdade era no meu tempo. Já estou chegando, ou já cheguei, à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo; meu e dos outros coroas. Acho inadmissível e mesmo chocante (no sentido antigo) um coroa não ser reacionário. Somos uma força histórica de grande valor. Se não agíssemos com o vigor necessário — evidentemente o condizente com a nossa condição provecta —, tudo sairia fora de controle, mais do que já está. O vestibular, é claro, jamais voltará ao que era outrora e talvez até desapareça, mas julgo necessário falar do antigo às novas gerações e lembrá-lo às minhas coevas (ao dicionário outra vez; domingo, dia de exercício).
O vestibular de Direito a que me submeti, na velha Faculdade de Direito da Bahia, tinha só quatro matérias: português, latim, francês ou inglês e sociologia, sendo que esta não constava dos currículos do curso secundário e a gente tinha que se virar por fora. Nada de cruzinhas, múltipla escolha ou matérias que não interessassem diretamente à carreira. Tudo escrito tão ruybarbosianamente quanto possível, com citações decoradas, preferivelmente. Os textos em latim eram As Catilinárias ou a Eneida, dos quais até hoje sei o comecinho.
Havia provas escritas e orais. A escrita já dava nervosismo, da oral muitos nunca se recuperaram inteiramente, pela vida afora. Tirava-se o ponto (sorteava-se o assunto) e partia-se para o martírio, insuperável por qualquer esporte radical desta juventude de hoje. A oral de latim era particularmente espetacular, porque se juntava uma multidão, para assistir à performance do saudoso mestre de Direito Romano Evandro Baltazar de Silveira. Franzino, sempre de colete e olhar vulpino (dicionário, dicionário), o mestre não perdoava.
— Traduza aí quousque tandem, Catilina, patientia nostra — dizia ele ao entanguido vestibulando.
— “Catilina, quanta paciência tens?” — retrucava o infeliz.
Era o bastante para o mestre se levantar, pôr as mãos sobre o estômago, olhar para a platéia como quem pede solidariedade e dar uma carreirinha em direção à porta da sala.
— Ai, minha barriga! — exclamava ele. — Deus, oh Deus, que fiz eu para ouvir tamanha asnice? Que pecados cometi, que ofensas Vos dirigi? Salvai essa alma de alimária. Senhor meu Pai!
Pode-se imaginar o resto do exame. Um amigo meu, que por sinal passou, chegou a enfiar, sem sentir, as unhas nas palmas das mãos, quando o mestre sentiu duas dores de barriga seguidas, na sua prova oral. Comigo, a coisa foi um pouco melhor, eu falava um latinzinho e ele me deu seis, nota do mais alto coturno em seu elenco.
O maior público das provas orais era o que já tinha ouvido falar alguma coisa do candidato e vinha vê-lo “dar um show”. Eu dei show de português e inglês. O de português até que foi moleza, em certo sentido. O professor José Lima, de pé e tomando um cafezinho, me dirigiu as seguintes palavras aladas:
— Dou-lhe dez, se o senhor me disser qual é o sujeito da primeira oração do Hino Nacional!
— As margens plácidas — respondi instantaneamente e o mestre quase deixa cair a xícara.
— Por que não é indeterminado, “ouviram, etc.”?
— Porque o “as” de “as margens plácidas” não é craseado. Quem ouviu foram as margens plácidas. É uma anástrofe, entre as muitas que existem no hino. “Nem teme quem te adora a própria morte”: sujeito: “quem te adora.” Se pusermos na ordem direta…
— Chega! — berrou ele. — Dez! Vá para a glória! A Bahia será sempre a Bahia!
Quis o irônico destino, uns anos mais tarde, que eu fosse professor da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia e me designassem para a banca de português, com prova oral e tudo. Eu tinha fama de professor carrasco, que até hoje considero injustíssima, e ficava muito incomodado com aqueles rapazes e moças pálidos e trêmulos diante de mim. Uma bela vez, chegou um sem o menor sinal de nervosismo, muito elegante, paletó, gravata e abotoaduras vistosas. A prova oral era bestíssima. Mandava-se o candidato ler umas dez linhas em voz alta (sim, porque alguns não sabiam ler) e depois se perguntava o que queria dizer uma palavra trivial ou outra, qual era o plural de outra e assim por diante. Esse mal sabia ler, mas não perdia a pose. Não acertou a responder nada. Então, eu, carrasco fictício, peguei no texto uma frase em que a palavra “for” tanto podia ser do verbo “ser” quanto do verbo “ir”. Pronto, pensei. Se ele distinguir qual é o verbo, considero-o um gênio, dou quatro, ele passa e seja o que Deus quiser.
— Esse “for” aí, que verbo é esse?
Ele considerou a frase longamente, como se eu estivesse pedindo que resolvesse a quadratura do círculo, depois ajeitou as abotoaduras e me encarou sorridente.
— Verbo for.
— Verbo o quê?
— Verbo for.
— Conjugue aí o presente do indicativo desse verbo.
— Eu fonho, tu fões, ele fõe – recitou ele, impávido. — Nós fomos, vós fondes, eles fõem.
Não, dessa vez ele não passou. Mas, se perseverou, deve ter acabado passando e hoje há de estar num posto qualquer do Ministério da Administração ou na equipe econômica, ou ainda aposentado como marajá, ou as três coisas. Vestibular, no meu tempo, era muito mais divertido do que hoje e, nos dias que correm, devidamente diplomado, ele deve estar fondo para quebrar. Fões tu? Com quase toda a certeza, não. Eu tampouco fonho. Mas ele fõe.”

(João Ubaldo Ribeiro, O Globo, 13 de setembro de 1998 e integra o livro O conselheiro come, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000).