Três vidas

“A presença física não é prova de nada. O lugar onde vivemos é o lugar que habitamos em espírito. E, em espírito, nunca regressei. Estou espalhado pelas almas de todas as pessoas que conheci, de todas as coisas que, por lhes ter tocado, modifiquei. Irás aprender isso com o tempo. Um homem não é uma entidade, são muitas e, se não nos decidimos, a tempo certo, por uma delas, acabamos em retalhos.”

Parece até trecho de livro psicografado por algum medium, ao sopro do espírito desencarnado de alguém importante, ou simplesmente caridoso. Até parece… Mas só “parece”! Esse é o trecho que está à página 135 de As três vidas, romance João Tordo, o mais novo enfant gaité da cultura de letras em Portugal. Ele ganhou o prêmio literário José Saramago de 2009. Daqui a duas semanas vou conhecê-lo, aqui em Zagreb. Um rapaz jovem, que escreve, dizem, muito parecido com Paul Auster. Li Paul Auster, mas não me lembro direito de sua escrita. Pelo sim, pelo não, deixo a nota, ainda que essa “coisa” de “escreve parecido a”, acrescente, na verdade, pouquíssimo, ao prazer da leitura de quem quer que seja. Antes de mais nada… ler!

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As três vidas é um romance interessantíssimo, em que Portugal aparece apenas como referência espacial/contextual para duas ou três personagens que circundam e que se relacionam com o protagonista da narrativa. Isso chama a atenção. Sem malabarismos verbais, sem a invencionice de escrever tudo em minúsculas, sem o arroubo de não pontuar frases em parágrafos caudalosos e imensos, João Tordo “conta” uma história. Há quem torça o nariz para esse tipo de “atitude” literária. Os “pós-modernos” de plantão não vão gostar, de jeito nenhum – mesmo que se possa aproximar João Tordo de Paul Auster. Mas quem gosta de “Literatura” vai aplaudir. Não digo aplaudir de pé, mas aplaudir. O rapaz escreve bem, sim, de verdade, e constrói uma NARRATIVA de muito bom gosto, do tipo que faz a gente pensar, do tipo que propõe novos ângulos de abordar a realidade, com procedimentos de escrita que em nada e por nada ficam a dever alguma coisa. Texto que flui, história que envolve, seduz, emociona. Há algum mal nisso? Ando com saudades de “Literatura” e ainda há tanto para ler…! A saudade, porém, não me impediu de sentir prazer ao ler as páginas desse romance mais que bom! A passagem que citei deixou-me emocionado, depois de um pouco atordoado. Senti-me inteiro nela. Vi-me como diante de um espelho. Creio que qualquer pessoa que sai de seu local de origem e passa a viver em outros lugares, mesmo que por tempo limitado – ou exatamente por isso! – vai constatar o que constatou a personagem principal de As três vidas: um rapaz que, por precisar de trabalho/dinheiro para cuidar da mãe doente, depois do falecimeto do pai, se envolve com uma família estranhíssima. Filosofia, política, espionagem e existencialismo, eu diria, podem ser algumas das referências culturais que amoldam o relato ficcional, de grau superior, do/no livro. Quem puder ler… vai gostar!

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Mais uma surpresa boa

Cal, de acordo com o Dicionário Houaiss, é um substantivo feminino: pó branco constituído principalmente de óxido ou hidróxido de cálcio, usado na construção civil, em fluidos de perfuração, em cerâmicas, na clarificação de óleos, em tintas, revestimento contra fogo, tratamento de água, na manufatura de papel, como adstringente, etc. Qualquer produto (pulverulento, pastoso etc.) resultante da hidratação da cal virgem. Etimologicamente, a palavra vem do latim vulgar – cals (derivado do acusativo) que, por sua vez, vem do latim calx, calcis – cal, pedra de cal, com origem no grego kháliks; provindo pelo espanhol cal. A viagem é longa. De tudo fica um pouco: logo, pode-se acreditar quando dizem que “cal queima”!

A ideia de fim, de morte, de consumição, não passa ao largo quando se pensa nessa palavra. Pensar na palavra, pensar com a palavra. Isso é poesia! É isso o que faz José Luis Peixoto em seu livro Cal. Título sugestivo, sui generis, instigante e inesperado, dado que trata, em sua maior parte, da velhice, aquele período em que tudo parece se acabar, queimar no próprio calor da vida que vai se extinguindo lentamente. Inexorável destino da humanidade! São 17 contos, três poemas e uma peça teatral sobre a velhice. Velhice. Alguma coisa que assusta e instiga, alguma coisa que faz com que muita gente sinta medo; alguma coisa que não agrada a muita gente. Alguma coisa de inevitável!

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A imagem da capa, na edição que li, funde duas fotografias: a mão engelhada de uma pessoa velha e uma parede caiada. Como se a pele daquela mão tivesse a mesma natureza da superfície rugosa daquela parede. Corpo e casa à mercê do tempo, como sinais de uma memória que é sempre o ponto de partida para os textos de José Luís Peixoto. Sejam eles contos, poemas, crônicas ficcionalizadas ou peças de teatro. Cal, editado pela Bertrand é o sexto livro de prosa de Peixoto e reúne 17 contos publicados em jornais e revistas, uma peça teatral. Todos com um tema comum: a velhice; naquilo que tem de belo, de melancólico, de exaltante ou de trágico. No fundo, o autor juntou textos dispersos que só fazia sentido recuperar pelo fato de serem atravessados por unidade temática forte, determinante. O autor sempre escreveu bastante sobre a velhice (há velhos em todos os seus textos), porque é “uma idade muito importante e muito subvalorizada”. O seu interesse literário não se centra na velhice em si mesma, com a sua sabedoria, os seus sobressaltos e rituais, “mas mais na passagem entre as várias idades e a forma como se lida com isso.” Em Cal, à semelhança dos outros livros, os velhos vivem quase sempre num meio rural que José Luís conhece bem, porque viveu até ao fim da adolescência na aldeia de Galveias (concelho de Ponte de Sor). As figuras curvadas que trabalham no campo, fenecem ao desalento da escuridão das casas, vendem uma burra aos ciganos como quem vai para o cadafalso, ou acreditam que a sua horta de sempre cresce no espaço limpo e puro de uma enfermaria hospitalar (ainda que nem sempre, infelizmente, seja assim!). Tudo é, muitas vezes colagem exata de pessoas que o autor conheceu, ou de quem ouviu falar. Há mesmo nomes reais que assomam às páginas, dando uma dimensão humana fortíssima às histórias, várias delas com um assumido cunho autobiográfico: “De certo modo, quis preservar, através da escrita ficcional, a dignidade das pessoas que me fizeram ter consciência de que a velhice não é só uma questão de decadência física. Às vezes é também o exacto contrário disso.”, diz o autor! Há razões mais subterrâneas que levaram Peixoto a escolher o título: Cal. “Não foi só a identificação com o Alentejo, não foi só a brancura, não foi só a ideia de uma espécie de cristalização das casas, que as conserva e as paralisa no tempo. Foi também a noção de que a cal é uma matéria perigosa, uma pedra que ao colocar-se dentro de água ferve, queima e se cai nos olhos cega.” Metáfora perfeita, também, do que é a escrita. Eduardo Prado Coelho diz que “a grande força de José Luís Peixoto está no modo como narra histórias que se dobram para dentro da sua própria loucura e no fio puríssimo de luz com que as vai reunindo e salvando do esquecimento”. Palavras de sabedoria. O texto de José Luis não desmente a acuidade do olhar do crítico. Como fio puríssimo de luz, uma ausência presente atravessa os gestos e as emoções destas figuras. Em cumplicidade com a morte, a vida torna-se mais límpida, talvez mais pura. A luz – força redentora de suas personagens –, é certamente um dos fios condutores do texto. Quem gosta da escrita deste autor português, irá certamente reencontrar palavras e frases ao estilo daquelas que podem ser a razão de se gostar do estilo de escrita de José Luís Peixoto, um estilo bastante característico e que desperta no leitor determinados sentimentos que fazem pensar e reviver memórias ou detalhes esquecidos ou que estão adormecidos. Para quem não conhece, fica a recomendação, com a condição de aconselhar apenas às pessoas que queiram ler algo que lhes faça refletir ou que estejam à procura de algo calmo, estejam à procura de encontrar pessoas simples e com elas reviver determinados momentos das suas vidas, momentos distintos, acontecimentos distintos, personagens semelhantes, mas distintas. Poesia, para dizer tudo numa única palavra.

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Domingo no parque

A Feira da ladra, em Lisboa; le marhé aux puces, em Paris; a Feira de Acari, no Rio de Janeiro… Em cada parte do mundo tem um nome. Em Zagreb, tem uma assim também, mas não tem nome – pelo menos, que eu saiba. A gente a conhece como a feira dos ciganos! Ela acontece aos domingos e é uma dificuldade para tirar fotos: os “locais” não gostam. Em sua maioria são habitantes de Zagreb e região, mas originários da Sérvia, da Albânia, da Macedônia e ainda guardam muito ressentimento por conta da guerra étnico-religiosa que culminou com a dissolução da Iugoslávia. Numa palavra: “ciganos”. Sem o charme que Hollywood imôs (como sempre o faz!). O Marechal Tito deve se revolver no túmulo quando um estrangeiro como eu diz essas coisas… Mas ele não pode mais fazer nada contra mim, logo…solto a língua!

Vale a pena o esforço. Em domingo friozinho, com direito a uma chuvinha renitentemente fria e ao vento que sopra, como se o inverno se esforçasse em dizer que ainda está presente, já na beira da avenida que dá acesso ao parque de estacionamento mais adiante, nota-se o movimento. Carros indo e vindo e uma euforia esquisita de cores e sacolas e gente falando essa língua quase incompreensível: o croata. Graças ao Croaticum, curso de croata como língua estrangeira, para estrangeiros (!), algumas coisas não me escapam aos ouvidos já acostumados a essa falta de eufonia linguística: ouvidos sul americanos de um leitor perdido no vale ao pé dos Bálcãs…

Nessa feira, vende-se de tudo. Troca-se tudo. A ordem é regatear. Sinto-me deslocado, pois ainda não aprendi, aos 53 anos de idade, a regatear. Uma vergonha, mas fazer o quê? Pois… O único cheiro de que se tem notícia nesse lugar são dois: o do alho que paira no ar, vindo dos transeuntes e a nuvem de odores que vem do čevapi de que já falei aqui. O sabor é uma delícia, mas o cheiro que fica no ar, na roupa, nos cabelos… “Cruzes”, como diria uma amiga minha… Ela sabe que estou falando dela! Pois… Há pequenas vendas de pães, de doces, de refrigerantes, de cerveja – universal ! – e a rakija (lê-se “raquiia”, em croata, o “jota” pronuncia-se como um “i” um pouqinho mais demorado, mas só um pouquinho!). É a cachaça local. Quando bem feita, artesanalmente, é uma delícia… Uma “bomba”, mas uma delícia! Logo na entrada, vendem-se carros, peças, acessórios e pneus. Hoje havia uma promoção: quatro pneus por 100 kunas, algo em torno de R$60,00. Inacreditável! Oferta por conta e risco do freguês. Um dos jornalistas portugueses, com quem fui visitar, a feira comentou que se comprássemos esses pneus, corríamos o risco de não conseguirmos chegar ao posto de gasolina mais próximo para calibrá-los. O vendedor ficou a olhar para nós, com cara de “meu Deus que isso?”. Entenda como quiser!

Há o setor das roupas, dos sapatos, das peças de coleção, das quinquilharias – retratos, miçangas, meias e luvas, chapeus, óculos velhos e/ou de plástico, rádios e antenas de televisão, microfones estragados, bichinhos de plástico, cd’s e parafusos; livros, cadernos usados, coleção de canetas hidrocor e fitas; cordas, faqueiros desfalcados, etc., etc., etc. Vai passando o tempo e as pechinchas começam. Mas há que ter cuidado. Fomos testar a “veracidade” de uma dessas ofertas e caímos no conto do vigário. O vendedor gritava que era tudo por 5 kunas: “Sve za pet kuna! Sve za pet kuna! Sve za pet kuna! Gritava como se brigada militar estivesse chegando com metralhadoras armadas. Peguei um telefone velhíssimo do meio da montanha de bugigangas. Já fui dando uma moeda de cinco kunas – nota de papel, aqui, só de 12, 20, 50, 100, 200, 500 e 1000 kunas; pra baixo… só moeda! (As moedas são de 5, 2 e 1 kunas e 50, 20, 10, 5, 2 e 1 lipas, os “centavos” dos locais!).  Que nada… Fez que não com a cabeça e disse, peremptório: To je deset kuna! Tentando traduzir quase literalmente: “Este é dez kunas“. Vá se entender a “lógica” do cigano. Sim, todos eles parecem ciganos, daqueles que a infância da gente se fartou de imaginar, ajudada pelas ilustrações que hoje eu chamaria de xenófobas. Mas fazer o quê? É domingo. Eu estava à toa. Os jornalistas estavam aqui a filmar o cotidiano de cidadãos portugueses. Eu estava ali de coadjuvante, convidado pela Sofia, leitora do Instituo Camões, minha amiga, a “estrela” do documentário dominical. Um divertimento mais que diferente… instrutivo e engraçado! Valeu apena. Afinal… “tudo vale a pena…”.

Semana Santa

A “semana grande”

As aspas servem para exigir o sotaque espanhol… La semana grande, diriam os peninsulares que se separaram de Portugal! A festa religiosa de Espanha, depois do Natal. Mas acontece que o carnaval também ocupa um lugar especial, em Espanha.

Se pensarmos no carnaval carioca, que se transformou num espetáculo hollywoodiano, para usar o termo corrente, há, pelos quadrantes do mundo, outras manifestações que chamam tanto (ou mais!) atenção! A Semana Santa, por exemplo, principalmente na região de Andalucía.

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Os pasos, decoradíssimos, barrocamente decorados, chegam a pesar 3 toneladas. Os homens e mulheres carregam, literalmente nos ombros, as grandes alegorias que, ao contrário de suas similares carnavalescas cariocas, levam o público ao silêncio, quase contrito, numa praça pública, na tarde do primeiro domingo da primavera europeia. As hermandades se esmeram na decoração de los pasos para que o cortejo leve o público a experimentar, simultaneamente, a admiração estética e a contrição espiritual, necessária e típica desta época do ano: a conclusão da Quaresma.

La cena, El Dulce nombre de Jesús, La virgen de las penas, María Santísima de los angeles, La virgen de la gracia y de la esperanza, María Santísima del amor, La cena, Paso de la humildad e de la paciencia, Jesús del prendimiento, Cristo de los desamparados, La oración en el huerto, María de la Candelaria, María Santísima del gran perdón. Estas são as denominações de alguns “carros alegóricos” em diversas locações de Andalucía, neste domingo de Ramos.

A noite vai caindo e a luz das velas, na frente das imagens de Nossa Senhora, fazem um efeito dramático ao percurso. Uma maravilha. Talvez, como o carnaval, esta manifestação cultural espanhola seja a mais impactante.

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