Viver

O poeta tem razão, sempre tem…

 

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos..
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um ‘não’.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…


(Fernando Pessoa)

Poesia

Mário de Sá-Carneiro (* Lisboa, 19 de maio de 1890 – + Paris, 26 de abril de 1916) é um poeta instigante, para dizer o mínimo. Atormentado por muitas coisas, inclusive pela sombra de Fernando Pessoa que, até hoje se sabe, jamais quis “fazer sombra” no amigo, é um poeta cheio de cores e formas e delírios, bem ao sabor do fin de siècle que ele encarnou em sua persona dandi. Sim, eles eram amigos. Tão amigos que trocaram cartas, muitas, em que partilhavam um outro tormento: o da beleza que não se contém. Ambos foram infectados pelo vírus da expressão, esquentados pelas febre da poesia, agitados pela pulsação da palavra. Ambos escreveram e não foi pouco. Mário se matou, ainda jovem. Ainda que um tanto iconoclasta, a “homenagem” que Adriana Calcanhoto faz a ele em seu show “Aplauso”, é engraçada, sarcástica, mas engraçada. Uma homenagem.

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Na poesia de Sá-Carneiro a gente pressente a vibração de uma libido um tanto desencaminhada. Um desejo sem organização transita por objetos amorosos potenciais, mas não se fixa em nenhum: não se define. O que se dá é que o verso deixa escapar sua constante fuga para certa visão feminina ou imaginariamente ensombrada por Fernando Pessoa – uma espécie de escala ansiosa sem grande significação, num percurso que carece de itinerário e de destino. O desejo se explicita na escrita, em sentidos vários. É plausível pensar certa atitude homoerótica, enevoada sob a simplicidade gritante de certa evidência: Sá-Carneiro não teve experiências sexuais com muitas pessoas; daí não haver excesso, mas falta: desvio à norma que merece atenção, por desencadear reações que funcionam como máscara da realidade. Isso problematiza a já problemática (desculpem a repetição… indispensável, aqui!) relação com Helena.

Fernando Pessoa afirma que a “desumanidade” dos versos de Sá-Carneiro resulta da falta da mãe, tal como desta falta resulta o seu amor por si mesmo. Desumanidade, aqui, é palavra complexa, não necessariamente utilizada como possível relação a nada que diga respeito ao Homem. Assim, chega a gerar preconceitos estéticos que infelizmente ainda hoje subsistem… Arrisco a afirmação de que “desumanidade”, usada por Pessoa, se refere à crueldade. Há sugestões sádicas nas novelas, mas entram no capítulo do delírio erótico, no mesmo plano das masoquistas. Quanto ao amor por si mesmo, ele contraria logo a desumanidade. É bom lembrar que Caetano já cantou em melodia inesquecível que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Logo…

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É senso comum que Mário de Sá-Carneiro não era homossexual. A gente não pode se esquecer de que, mesmo o senso comum pode ser questionado, colocado na berlinda! De certa forma, a importância de estabelecer a “verdade dos fatos” resulta da necessidade de evitar interpretações equívocas da obra. Nas novelas, não raro aparecem situações desse tipo. E como a prosa de Sá-Cameiro tem muitos dados autobiográficos, apontados até nas cartas, o leitor é facilmente induzido a tirar conclusões… Quais seriam erradas? Quais, certas? Só a poesia dele pode dizer! Também ela está carregada de sugestões que podem levar a concluir que havia da sua parte tendências para a homossexualidade, como em “Feminina”:

- Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-Ios a todos – mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes…
Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher para me poder recusar…

É curioso que ele diga gostar de ser mulher para enganar o amante com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes. Forma de exprimir o desejo de ser amado, como rapaz gordo e feio. Esse capricho de excitar e recusar-se também sugere uma questão: só as mulheres se recusam? O homem não tem o mesmo direito? O poema data de Fevereiro de 1916. Em Março, segundo José Araújo, Mário conhece Helena. O que é que ele, na sua condição masculina, não pôde recusar-lhe? O éter ou a estricnina? No fundo, não cabe dúvida na constatação de que a literatura de Sá-Carneiro é um extenso delírio erótico. Nesse delírio, o aspecto homossexual é presença insofismável.

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Para terminar, o “Último soneto” (ops!) do poeta:

Que rosas fugitivas foste ali!

Requeriam-te os tapetes, e vieste…

- Se me dói hoje o bem que me fizeste,

É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi

Quando entraste, nas tardes que apareceste!

Como fui de percal quando me deste

Tua boca a beijar, que remordi…

Pensei que fosse o meu o teu cansaço -

Que seria entre nós um longo abraço

O tédio que, tão esbelta, te curvava…

E fugiste… Que importa? Se deixaste

A lembrança violeta que animaste,

Onde a minha saudade a Cor se trava?…

De volta

Nada como recomeçar em boa companhia!

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Depois de quase quatro dias em comunicação como cyber world, eu estou de vola. Na verdade, deve haver muito pouca gente que vai se alegrar com essa notícia, mas isso não interessa. O que vem “ao caso” é que vou recomeçar. Um danado de um vírus resolveu se alojar no hard drive do meu laptop (ai, quantas palavras chiques, meu Deus!) e impediu o completo funcionamento do windows (Saravá Bill Gates! Argh!). Às vezes, eu penso que ele é a mesma pessoa que financia uma troupe de nerds para produzir vírus que ele usa para promover a maioria dos programas que prometem “matar” os vírus, sem o conseguir, of course! Nada como viver num mundo neo-liberal globalizado, em que tudo é possível, as always!

Pois… para recomeçar, vai o poeta dos poetas da “última flor do Lácio, inculta e bela”!

XVI
Quem me dera que a minha
[vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar,
[manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde
[veio volta depois
Quase à noitinha
[pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças
[ — tinha só que ter rodas…
A minha velhice não tinha rugas
[nem cabelo branco…
Quando eu já não servia,
[tiravam-me as rodas
[E eu ficava virado e partido
no fundo de um barranco.

(Álvaro de Campos)

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Sempre poesia

Esse texto, hoje, pode ser difícil para muita gente. Impossível prever ou calcular… Faz um tempo que venho ensaiando falar mais de literatura, meu “campinho”. Sempre sou vencido pela síndrome de Macunaíma: ai que preguiça. De mais a mais, não é todo mundo que tem “saco” de ler tudo o que se escreve por aí. Vá lá… Venço os dois: a preguiça e o desinteresse alheio e escrevo umas linhas a mais sobre o que eu considero (quase) imponderável: literatura!

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

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Esta redondilha de Sá de Miranda, entre outras referências, pode levar a gente a se lembrar de um poema de Maria Teresa Horta – “Minha senhora de mim”:

Comigo me desavim

Minha senhora

De mim

Sem ser dor ou ser cansaço

Nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim

Minha senhora

De mim

Nunca dizendo comigo

O amigo nos meus braços

Comigo me desavim

Minha senhora de mim

Recusando o que é desfeito

No interior do meu peito

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Por outro lado, a gente pode se lembrar de Fernando Pessoa – Autopsicografia –, onipresença na/da Literatura Portuguesa, como Camões, mas isso já é outra história. Aqui, eu quero me lembrar do tímido escritor que gostava de absinto e que dizia que as cartas de amor são ridículas. Aquele que se fragmentou em identidades poéticas múltiplas; um excelente atalho que o retirou, definitivamente, do caminho da loucura. O único caso de esquizofrenia que deu certo, como costumo brincar!

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

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Trata-se de um conflito interno belamente descrito, nos três casos! Do século 16 ao 20, num salto que só a Literatura permite dar, a gente vislumbra como “mudam-se os ventos, mudam-se as vontades” e a dúvida essencial permanece. A gente não sabe direito quase nada do que acontece ao redor… Quantas vezes a gente passa por isso! Quantas vezes a gente encara a si mesmo como um inimigo! Mas ninguém pode fugir de si mesmo! Belíssimo texto do século XVI. Apesar da forma medieval, é típico da estética renascentista: o trovador revela o seu conflito interior. Trata-se de uma problemática cheia de atualidade. Às vezes é tão difícil esta convivência forçada. Não poder fugir de si mesmo. Mas também se fosse possível: para onde ir? Será que haveria alguém disposto a aceitar a inevitabilidade dessa situação? Reflexões para uma noite de primavera também… depois para o outono)!

Sá de Miranda nasceu em 1485 em Coimbra e concluiu seus estudos na Universidade de Coimbra chegando a ser Lente substituto. Foi contemporâneo de Camões e alguns historiadores chegaram a dizer injustamente que os dois eram rivais por, nunca ter decerto estabelecido um paralelo historiográfico da temática dos dois poetas. Sá de Miranda foi o primeiro a debruçar-se sobre o problema da angústia ou, como hoje se diz vulgarmente, a depressão: enquanto quase todos os outros poetas se contentavam e se encantavam com outros temas mais facilmente entendidos como o amor e as cantigas de escárnio e mal dizer. Quase, sim, pois a gente não é capaz de abarcar a totalidade do real, nem em sonho!

Em seus versos, ele faz a gente se deparar com a sensibilidade a partir do exercício de auto-observação e análise tão profunda da melancolia que só muitos séculos mais tarde haveriam outros poetas – para não citar Freud e todos os outros – que debruçar-se-iam sobre essa problemática existencial. Esse poema, ao lado dos outros, leva a admirar o pioneirismo numa época em que decerto não seria tão bem entendido. É certo que ele trouxe de Itália, onde esteve, o soneto, a ode, o drama em prosa e a elegia, mas é merecedor de admiração por seu pioneirismo.

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Lendo e aprendendo!

image Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito do nosso ser.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um ‘não’.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…
(Fernando Pessoa)

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