Mário de Sá-Carneiro (* Lisboa, 19 de maio de 1890 – + Paris, 26 de abril de 1916) é um poeta instigante, para dizer o mínimo. Atormentado por muitas coisas, inclusive pela sombra de Fernando Pessoa que, até hoje se sabe, jamais quis “fazer sombra” no amigo, é um poeta cheio de cores e formas e delírios, bem ao sabor do fin de siècle que ele encarnou em sua persona dandi. Sim, eles eram amigos. Tão amigos que trocaram cartas, muitas, em que partilhavam um outro tormento: o da beleza que não se contém. Ambos foram infectados pelo vírus da expressão, esquentados pelas febre da poesia, agitados pela pulsação da palavra. Ambos escreveram e não foi pouco. Mário se matou, ainda jovem. Ainda que um tanto iconoclasta, a “homenagem” que Adriana Calcanhoto faz a ele em seu show “Aplauso”, é engraçada, sarcástica, mas engraçada. Uma homenagem.

Na poesia de Sá-Carneiro a gente pressente a vibração de uma libido um tanto desencaminhada. Um desejo sem organização transita por objetos amorosos potenciais, mas não se fixa em nenhum: não se define. O que se dá é que o verso deixa escapar sua constante fuga para certa visão feminina ou imaginariamente ensombrada por Fernando Pessoa – uma espécie de escala ansiosa sem grande significação, num percurso que carece de itinerário e de destino. O desejo se explicita na escrita, em sentidos vários. É plausível pensar certa atitude homoerótica, enevoada sob a simplicidade gritante de certa evidência: Sá-Carneiro não teve experiências sexuais com muitas pessoas; daí não haver excesso, mas falta: desvio à norma que merece atenção, por desencadear reações que funcionam como máscara da realidade. Isso problematiza a já problemática (desculpem a repetição… indispensável, aqui!) relação com Helena.
Fernando Pessoa afirma que a “desumanidade” dos versos de Sá-Carneiro resulta da falta da mãe, tal como desta falta resulta o seu amor por si mesmo. Desumanidade, aqui, é palavra complexa, não necessariamente utilizada como possível relação a nada que diga respeito ao Homem. Assim, chega a gerar preconceitos estéticos que infelizmente ainda hoje subsistem… Arrisco a afirmação de que “desumanidade”, usada por Pessoa, se refere à crueldade. Há sugestões sádicas nas novelas, mas entram no capítulo do delírio erótico, no mesmo plano das masoquistas. Quanto ao amor por si mesmo, ele contraria logo a desumanidade. É bom lembrar que Caetano já cantou em melodia inesquecível que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Logo…

É senso comum que Mário de Sá-Carneiro não era homossexual. A gente não pode se esquecer de que, mesmo o senso comum pode ser questionado, colocado na berlinda! De certa forma, a importância de estabelecer a “verdade dos fatos” resulta da necessidade de evitar interpretações equívocas da obra. Nas novelas, não raro aparecem situações desse tipo. E como a prosa de Sá-Cameiro tem muitos dados autobiográficos, apontados até nas cartas, o leitor é facilmente induzido a tirar conclusões… Quais seriam erradas? Quais, certas? Só a poesia dele pode dizer! Também ela está carregada de sugestões que podem levar a concluir que havia da sua parte tendências para a homossexualidade, como em “Feminina”:
- Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-Ios a todos – mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes…
Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher para me poder recusar…
É curioso que ele diga gostar de ser mulher para enganar o amante com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes. Forma de exprimir o desejo de ser amado, como rapaz gordo e feio. Esse capricho de excitar e recusar-se também sugere uma questão: só as mulheres se recusam? O homem não tem o mesmo direito? O poema data de Fevereiro de 1916. Em Março, segundo José Araújo, Mário conhece Helena. O que é que ele, na sua condição masculina, não pôde recusar-lhe? O éter ou a estricnina? No fundo, não cabe dúvida na constatação de que a literatura de Sá-Carneiro é um extenso delírio erótico. Nesse delírio, o aspecto homossexual é presença insofismável.

Para terminar, o “Último soneto” (ops!) do poeta:
Que rosas fugitivas foste ali!
Requeriam-te os tapetes, e vieste…
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.
Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste!
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi…
Pensei que fosse o meu o teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava…
E fugiste… Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava?…