Em História universal da destruição dos livros, os leitores têm a oportunidade de conhecer os motivos, modos e sujeitos que causaram esse tipo de assassinato da memória a sangue frio. Atitude tomada, inexplicavelmente, ao longo de 55 séculos. Os modos vão dos desastres naturais ou provocados, passando pela omissão de autoridades em relação a bens e equipamentos culturais como bibliotecas, arquivos e museus de onde são furtados títulos os mais diversos, até os saques e roubos, estes também feitos com o objetivo de alimentar uma rede de compradores espalhados pelo mundo. O livro em questão está repleto desses exemplos e eles não são privilégio de um país ou de um povo em determinado tempo: acompanham tristemente a humanidade em seu percurso histórico, social e político.
Báez dá exemplos ocorridos na Antiguidade e cita o nome de Platão como o de um representante desta índole destruidora por tentar, segundo ele, “acabar com os tratados de Demócrito”. No Egito, não foi diferente. O país dos faraós e escribas foi também responsável pela queima de inúmeros papiros. O faraó Aknhatón, que era monoteísta, “foi um dos primeiros a queimar livros”. Ao fugir do Egito em direção à terra proibida, Moisés também destruiu livros: “num acesso de cólera, ele atirou as tábuas e as quebrou ao pé da montanha (Êxodo, 32:19)”, o que não impediu os judeus de guiarem a sua vida pelos ensinamentos da Torá sagrada. A idéia de ter a vida guiada pelos ensinamentos de um livro expandiu-se para o Cristianismo, que no seu início condenou os evangelhos e doutrinas gnósticos.
Na Europa medieval e cristã não foi diferente. Apesar do significativo trabalho dos religiosos copistas, é bastante conhecido o efeito de censura e de destruição de livros pela Santa Inquisição. Hoje, a Igreja aconselha aos seus fiéis a não lerem O código da Vinci, de Dan Brown, como também já o fizeram as autoridades religiosas islâmicas em relação a Versos satânicos, de Salman Rushdie, considerado um inimigo do Islão, que se pauta pelos ensinamentos do santo Alcorão. A destruição veio para a América a bordo das caravelas, provocando o desaparecimento de códices pré-hispânicos. O Nazismo, antes do Holocausto judeu, praticou uma espécie de desintegração bibliográfica, iniciada em 30 de janeiro de 1933. Os livros lançados na fogueira parecem ter influenciado a criação dos crematórios. Para Báez, a poesia de Heinrich Heine tinha caráter profético: ”Onde queimam livros, acabam queimando homens.” À poesia de Heine juntamos a de Mário Quintana, que lembra que os livros só estariam a salvo com a destruição dos homens. Além do caráter de denúncia, o livro de Báez se destaca pelas informações a respeito da milenar aventura do homem de fixar a memória através da escrita, o que também parece significar destruí-la.
Por essas e por outras é que a História universal da destruição dos livros prima pela riqueza de informações e surpreende, pois o autor tem apenas 36 anos. Apaixonado por livros desde garoto, Fernando Báez fez de sua obra uma verdadeira homenagem aos livros. Homenagem que destaca como, ao longo dos séculos, o medo, o ódio, a soberba, a intolerância e a sede de poder foram combustíveis para destruir não só os livros do título, mas também todo o vínculo com a memória e o patrimônio das idéias que eles representam.