Intervalo

 

Sou leitor contumaz da coluna da Dad Squarisi, no Estado de Minas. Fã de carteirinha. Isso não me obriga a ficar de boca fechada. Ainda mais depois de ler duas de suas colunas. Fiquei deveras incomodado, não tanto pelo “conteúdo”, mas pelo “tom” do discurso. Para dar tratos à bola, fui apondo meus comentários (em negrito vermelho) sobre as assertivas da “jornalista e linguista” (?). Nada pessoal… O texto é longo, contradizendo alguns dos “princípios” nele exarados…

Mídias convergentes? Que bicho é esse?
Dad Squarisi

É mídias convergentes pra lá, mídias convergentes pra cá. Os suplementos de informática não se cansam de falar no assunto. Debates calorosos incendeiam universitários e professores de comunicação. Os Diários Associados puseram lenha na fogueira. Lançaram o Manual de redação e estilo para mídias convergentes. “Que bicho é esse?”, perguntam leitores curiosos. (É o bicho que pega e come quem não tece educação primária e ginasial que ensinava a ler e a escrever!)
O manual dos Diários Associados ajuda na resposta. A questão tem tudo a ver com a internet. A rede de computadores se parece com aquelas bonecas russas metidas uma dentro das outras. Conhece? A grande mãe é a web. Nela há de tudo—jornais, blogues, sites, portais, livros, revistas, enciclopédias, rádios, tevês, fotos, filmes, músicas. A matriarca virou o mundo da escrita e da leitura pelo avesso. (Será que virou mesmo? Ou isso é invenção de quem quer se livrar da “obrigação” de ler e escrever “corretamente”?) Quem escreve tem de ter em mente que o texto pode ter destinos muiiiiiiiiiiiiiito diferentes dos originais. (Os destinos da leitura sempre foram “muiiiiiiiiiiiiiito” diferentes… Qual a “novidade”??? E, por falar nisso, que destinos “originais” são esses???)
Redações escolares, provas de concurso, sentenças judiciais, artigos de jornal, discursos políticos, publicações do Diário Oficial—tudo alça voo. Podem ser lidos por um locutor e virar podcasts. Podem ser postados na internet. Podem ser vertidos automaticamente para outras línguas graças ao Google Translator. Eis o desafio: a linguagem original tem de estar atenta à nova realidade. (Estar atenta é uma coisa… submeter-se cegamente é outra bem diferente. Bem menos racional e/ou saudável!)

Admirável criatura nova
A relação autor-leitor se divide em dois tempos—antes da internet e depois da internet.(Quanta pretensão!) Antes da internet, o autor era dono e senhor do texto. (Isso é relativo… basta ler um ou dois volumes de História da leitura para verificar! mas é preciso LER!!!) Definia a introdução, as trilhas do desenvolvimento, a hora da conclusão. (E continua assim: alerta para os desavisados de plantão!) O leitor recebia o prato pronto. (O prato pode até estar pronto, mas quem o “come” é o leitor. Sempre foi assim, sempre será!!!) Ou o consumia, ou o deixava de lado. (E mudou alguma coisa? O sujeito pode ligar ou desligar o computador quando quiser, uai!) Nada mais podia fazer contra a ditadura da linearidade imposta pela página escrita. (Impor o inverso do que está posto não é a mesma ditadura?)
Depois da internet, a história mudou de enredo. (Será que “mudou” tanto assim mesmo?) A ordem perdeu o rumo. (Perdeu não… Não é bem assim…) O caminhar em linha reta deu a vez ao navegar. (E quem disse que LER é caminhar em linha reta?) Imprevisibilidade é a tônica. (Cadê a novidade?) Trechos de texto se intercalam com referências a outras páginas. (Uai… nos “textos” é do mesmo jeito!) Um clicar muda a sequência, o código, o enfoque. (Virar a página também!) O leitor assume o protagonismo. (Ele jamais foi alijado de seu “protagonismo”!) Escolhe o que ler, quando ler, por onde começar, onde interromper, em que hora parar. (De novo, a mesma cantilena…)
A planura da folha de papel cedeu o lugar a espaço plural. (A folha de papel, para a LEITURA jamais foi “plana”…) Ali o internauta tem acesso simultâneo a textos, imagens, vídeos, sons, animação. (Esta sim pode ser uma vantagem, um “avanço” uma vantagem: saudades de Italo Calvino!) Mais: pode brincar com eles. (Quem disse que o “papel” não é lúdico?) Modifica-os, reorganiza-os, interage com um, dois ou todos. (Tsk… tsk… tsk…) Em suma: rege os elementos da comunicação. (Hello!) Tanto poder gerou uma admirável criatura. (O sujeito que LÊ já é esta admirável criatura!) Conhecê-la é preciso. (Sempre foi. Continua sendo. Sempre será.) Dá senhora ajuda a quem quer escrever para ser lido. (“Há mais coisas entre o céu e aterra…”)

O internauta é…
Infiel: não comparece diariamente (O que é “comparecer diariamente”?) nem deixa de borboletear de site em site, de blogue em blogue. (É o mesmo que dizer “De página em página”…)
Inconstante: passa pelo site, mas não o lê com assiduidade. (Inconstância não é predicado de um LEITOR)
Proativo: busca mais informações em vez de aceitar passivamente o que lhe é oferecido. (LER é dialogar, não é resignar-se)
Arisco: não se deixa agarrar com facilidade. (Quem disse que o LEITOR não é assim?)
Receptivo: aprecia estilos não convencionais porque tropeça em muitas mesmices. (Não vejo diferença…)
Crítico: gosta de comentar a matéria. Elogia, desqualifica, faz sugestões. (Ô gente… Não é isso mesmo o que o LEITOR faz???!!!)
Exigente: quer ser ouvido, seja coma publicação do comentário, seja coma resposta rápida à pergunta que formula. (Todo e qualquer LEITOR é exatamente assim!)
Visual: faz a primeira avaliação com os olhos. A matéria tem de caber na tela do computador. (Isso me parece cerceamento e/ou amputação)
Multimídia: não aprecia notícias com cara das lidas no jornal. (O que há de errado, de mau, com elas?) Além de texto e imagens, exige vídeos, áudios, animação. (Essa “exigência” é que me incomoda por despótica que me parece) Nada de prato feito. (Um texto não é prato feito é cardápio variado!) Ele escolhe a ordem. (A LEITURA também!)
Apressado: falta-lhe tempo para abarcar o universo sem fim da web. Lê o texto em T—primeiro o título. Depois, as primeiras palavras do 1º parágrafo. Se quiser, prossegue. Só chega ao fim se lhe interessar. (Deixando de lado a mesmice repetitiva, o tempo é que é o dodói aqui… LER é mesmo prática que demanda tempo… para APROFUNDAMENTO NECESSÁRIO!)


Em bom português
As mídias eletrônicas viraram pelo avesso a função do autor escritor e a do usuário-leitor. (Essa virada é meramente mecânica, logística… O processo e a organicidade ainda são os mesmos!) Adeus, posse e autoria de um texto fisicamente ilhado. (O TEXTO jamais foi uma ilha!) Adeus, significado único e hierarquicamente superior aos comentários e notas que dizem respeito a ele. (Deus, quanta superficialidade… Ler qualquer texto “físico” é ter que se submeter a esses mesmos parâmetros ditos “inovadores”!!!) Adeus, poder absoluto. (Poder absoluto não “existe”. Quem ainda não ouviu falar em Foucault?)

Para alguém (ens), mesmo sem saber

O que vem a ser a certeza de que as coisas dão certo? Certeza? Penso que esta certeza simplesmente inexiste.

Então, por que será que tantos andem atrás dela, pelos mais variados subterfúgios, arranhando-se nos mais emaranhados roteiros, acreditando na possibilidade de atalhos que jamais levam a porto seguro? Será que era assim que pensava “um certo capitão Rodrigo?”. Anos depois de ter lido a saga gaúcho, revejo a adaptação televisiva. São mais de 20 anos de distância entre o agora e o estágio televisivo. Mais uns tantos desde a primeira vez que minhas retinas percorreram aquelas linhas, para acreditar que Santa Fé existia de fato. Hoje é quase impossível imaginar Ana Terra com cara diferente que a da então jovenzinha Glória Pires. Ou um capitão Rodrigo mais garboso que o posudo Tarcísio Meira. A falecida Lilian Lemmertz, se não me falha a memória, faz a Bibiana na terceira fase sua vida. Depois de passar por poucas e boas. Lembro-me vagamente de algumas passagens, mas jamais me esquecerei dos ataques de asma de Mario Lago, na pele do pároco de Santa Fé. Coitado. Figura emblemática, que pena nas mãos do capitão. Ops… uma rima!

Ler. Uma das aventuras mais sem limite que a existência do homem pode experimentar. Às vezes, do lado de lá da mesa, penso no que poderia ser feito se todo mundo viajasse por entre as letras de uma página, como acredito fazer. Observando os olhos dos que estão do lado de lá, às vezes, sobrevém sentimento de decepção, impaciência e até  raiva. Por que será que deixei de escolher outra carreira? Será que experimentaria o que experimento hoje, se assim tivesse acontecido? Jamais saberei. Esse é o verdadeiro inferno de que fala Sartre. Será mesmo? Quantos equívoco em nome de uma suposta verdade, de uma presunçosa certeza de que é assim e não assado. Há que ter tolerância. Eles jamais saberão o que de fato se passa no íntimo de qualquer um outro. Existem mais coisas importantes, ainda que não se saiba nomeá-las todas. Então, de fato, para quê solfejar hosanas para alguma coisa que vai ser esquecida daqui a pouco tempo? Todas as palavras já foram ditas, literalmente. As combinações entre elas é que mudam. Pode mudar também o contexto. A entonação, com absoluta certeza, muda a cada fração de segundo. Isso, para ver as coisas de um lado. Se o outro lado se oferecer à observação, ou for buscado para tanto, outro tanto de constatações também irão ter lugar. Uma certa mulher disse que um certo homem era preconceituoso. Ela justificou a acusação dizendo que ele dizia isso e mais aquilo. Mas como é que ele pode ser acusado se quem disse não foi, literalmente, ele. O fato dele ter escrito alguma coisa e colocado esse dito na boca de uma personagem, não faz dele o responsável direto sobre o conteúdo do que foi dito. Estarei errado? Ou minha ingenuidade insiste em me pragar ais uma peça. Penso que jamais saberei.

Clarice descreve a cena de uma mulher que amassa uma barata com o armário, contra a parede do quarto. Não satisfeita, ela faz a tal mulher comer o que sobrou da barata. Em outro lugar, ela descreve uma retirante que guarda frango frito debaixo do travesseiro, para gozar o momento de intimidade e triunfo comendo a carne sozinha. De quebra, a retirante chora ao ouvir ária de uma ópera. Transgressões… Graciliano pinta um homem amarelo como símbolo de um poder decadente: Fabiano não sabe disso. Eça, esmiúça a hipocrisia e a insensibilidade paroquial de um candidato a monsenhor, quando engravida moça beata, sem o menor escrúpulo. Machado devaneia sobre o ciúme e a dúvida, apresentando a faca e o queijo, mas ninguém consegue comer. Mistérios…

Isso é para meus alunos, aqueles que me acompanham nessa experiência diária de tentar fazer valer a pena…

Para quem gosta de ler III

Em História universal da destruição dos livros, os leitores têm a oportunidade de conhecer os motivos, modos e sujeitos que causaram esse tipo de assassinato da memória a sangue frio. Atitude tomada, inexplicavelmente, ao longo de 55 séculos. Os modos vão dos desastres naturais ou provocados, passando pela omissão de autoridades em relação a bens e equipamentos culturais como bibliotecas, arquivos e museus de onde são furtados títulos os mais diversos, até os saques e roubos, estes também feitos com o objetivo de alimentar uma rede de compradores espalhados pelo mundo. O livro em questão está repleto desses exemplos e eles não são privilégio de um país ou de um povo em determinado tempo: acompanham tristemente a humanidade em seu percurso histórico, social e político.

Báez dá exemplos ocorridos na Antiguidade e cita o nome de Platão como o de um representante desta índole destruidora por tentar, segundo ele, “acabar com os tratados de Demócrito”. No Egito, não foi diferente. O país dos faraós e escribas foi também responsável pela queima de inúmeros papiros. O faraó Aknhatón, que era monoteísta, “foi um dos primeiros a queimar livros”. Ao fugir do Egito em direção à terra proibida, Moisés também destruiu livros: “num acesso de cólera, ele atirou as tábuas e as quebrou ao pé da montanha (Êxodo, 32:19)”, o que não impediu os judeus de guiarem a sua vida pelos ensinamentos da Torá sagrada. A idéia de ter a vida guiada pelos ensinamentos de um livro expandiu-se para o Cristianismo, que no seu início condenou os evangelhos e doutrinas gnósticos.

Na Europa medieval e cristã não foi diferente. Apesar do significativo trabalho dos religiosos copistas, é bastante conhecido o efeito de censura e de destruição de livros pela Santa Inquisição. Hoje, a Igreja aconselha aos seus fiéis a não lerem O código da Vinci, de Dan Brown, como também já o fizeram as autoridades religiosas islâmicas em relação a Versos satânicos, de Salman Rushdie, considerado um inimigo do Islão, que se pauta pelos ensinamentos do santo Alcorão. A destruição veio para a América a bordo das caravelas, provocando o desaparecimento de códices pré-hispânicos. O Nazismo, antes do Holocausto judeu, praticou uma espécie de desintegração bibliográfica, iniciada em 30 de janeiro de 1933. Os livros lançados na fogueira parecem ter influenciado a criação dos crematórios. Para Báez, a poesia de Heinrich Heine tinha caráter profético: ”Onde queimam livros, acabam queimando homens.” À poesia de Heine juntamos a de Mário Quintana, que lembra que os livros só estariam a salvo com a destruição dos homens. Além do caráter de denúncia, o livro de Báez se destaca pelas informações a respeito da milenar aventura do homem de fixar a memória através da escrita, o que também parece significar destruí-la.

Por essas e por outras é que a História universal da destruição dos livros prima pela riqueza de informações e surpreende, pois o autor tem apenas 36 anos. Apaixonado por livros desde garoto, Fernando Báez fez de sua obra uma verdadeira homenagem aos livros. Homenagem que destaca como, ao longo dos séculos, o medo, o ódio, a soberba, a intolerância e a sede de poder foram combustíveis para destruir não só os livros do título, mas também todo o vínculo com a memória e o patrimônio das idéias que eles representam.

Para quem gosta de ler II

 

Partindo da antiguidade, Fernando Báez avança no tempo e relata como e porque, em diversas épocas de nossa História, a humanidade destruiu milhares de livros e documentos. Até o filósofo Platão queimou alguns de seus próprios livros, e livros de outros autores: seu raciocínio o levava a afirmar que o conhecimento deveria se restringir à mente; a manutenção do conhecimento por escrito poderia impedir que o homem buscasse mais saber. Muitas obras foram destruídas por pura vaidade de seus autores, ou de seus rivais. Até James Joyce foi alvo da sanha destruidora que dizimou todo um acervo bibliográfico. Seu livro de contos, Dublinenses, teve a primeira edição publicada em 1912. Mil exemplares foram impressos, e 999 foram queimados pelo impressor, John Falconer “porque lhe pareceu que o livro não tinha linguagem apropriada.” O livro foi reeditado em 1914.

Báez conta também que Jorge Amado teve problemas com uma de suas obras. Depois de citar que o peruano Mario Vargas Llosa e o irlandês James Hanley passaram por dificuldades com a censura e tiveram obras destruídas. O autor venezuelano diz que “O terceiro autor (a ter problemas com a censura) é o marxista brasileiro Jorge Amado, autor de Dona Flor e seus dois maridos. Mil e setecentos exemplares de um romance seu foram queimados por ordem direta do ditador Getúlio Vargas.” O estudioso também fala da recente destruição de livros no Iraque, resultado dos bombardeios norte-americanos no país, que também destruiu museus, universidades e outros centros culturais. Com eles, muitos documentos com centenas e até milhares de anos de existência (e informação!) foram “exterminados”. Perda irreparável para a humanidade…

A difusão da leitura, da escrita e do livro tornou-se diretriz da política cultural do Estado e de inúmeras ONG’s. Editais, feiras, festas e bienais, leis de incentivo, subsídios públicos e privados, bem como pesquisas acadêmicas são o termômetro desse fato. As temperaturas aferidas têm apontado para o alto, o que não significa que essa política seja uniforme e de resultados efetivos.

Livros, leitura e escrita, como objetos e práticas, têm a sua História e nela estão inclusas criação e destruição. É desta que trata o livro do venezuelano Fernando Báez: História universal da destruição dos livros. O período analisado é longo e serve de subtítulo: “Das tábuas sumérias à guerra no Iraque”, conferindo à obra um caráter panorâmico e político, dado que a guerra citada motivou, paradoxalmente, a sua criação. O conceito de livro, para Báez, é sinônimo de impresso, independentemente da técnica ou do suporte, expandindo, assim, os conceitos de escrita e leitura.

Visitando o Iraque em 2003, para investigar a destruição de bens culturais daquele país após a invasão dos Estados Unidos, Báez deparou-se com Emad, um jovem estudante de História na Universidade de Bagdá, que lhe perguntou: “Por que o homem destrói tantos livros?”. Apesar de ser um especialista, Báez silenciou naquele momento e a resposta veio em forma de livro um ano depois. O seu relato é o de uma autoridade no campo da História das bibliotecas e também o de um apaixonado pelos livros desde a infância.

Para quem gosta de ler I

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O que dizer de um livro que conta uma história da destruição de livros? Enlouqueceu o autor, poderia ser dito… mas não. Ele não enlouqueceu! Disse “uma” história, porque, na verdade, esta não precisa ser, necessariamente “a” História, sobre esse assunto. Debate longo, sinuoso, que, aqui, não vai levar ninguém a lugar nenhum. O que interessa é despertar o interesse pela leitura de um livro que parece desejar a morte da leitura, denunciando os processos – às vezes grosseiros, às vezes sofisticados – de destruição dos livros. Assunto polêmico, no máximo; instigante, no mínimo. O autor passou 12 anos estudando, viajando, pesquisando. Fez um trabalho de paleontólogo. Ele é venezuelano. Seu nome: Fernando Báez.

Recentemente teve seu livro, História universal da destruição dos livros: das tábuas sumérias à guerra do Iraque. (Tradução de Léo Schlafman. Rio de Janeiro: Edirouro, 2006, 440 p.), publicado no Brasil. O livro começa contando a História dos livros. “Os primeiros livros da humanidade apareceram na ignota e semi-árida região da Suméria, no mítico Oriente Médio e eram feitos de argila”. Esta observação sustenta a ousadia do autor: contar uma História da destruição desse objeto tão discutido, num arco cronológico que começa com as tábuas sumérias e chega à guerra no Iraque. Livros ou tábuas desapareceram por causa da frágil estrutura que tinham, como consequência de fenômenos naturais e, também, da “mão violenta do homem.” Algumas dessas tábuas datam dos anos 4.100 a.C. ou 3.300 a.C. Não há como se saber com exatidão a idade desses primeiros livros. Mas o que se sabe, com certeza, é que eles são muito antigos. Podem, inclusive, ser mais antigos ainda, pois as pesquisas que desenterraram esses documentos não podem ser consideradas definitivas. Como, aliás, nada no mundo pode ser considerado definitivo.

O livro de Báez já seria interessante apenas pelo fato de ser um estudo sobre a “destruição de livros em massa”, ou o “extermínio de livros”, como ele, às vezes, define o ato de destruir livros. Além do mais, dos 12 anos de pesquisa, das citações de autores da antiguidade, de contar uma História do surgimento dos livros, Fernando Báez consegue fazer do seu livro uma leitura agradável para qualquer um. E esta expressão, aqui, não vai carregada de sentido pejorativo. Ao contrário, celebra a abertura de horizonte de expectativas da leitura, como deveria sempre ser. Em vez disso, ao que parece, os autores desejam sempre escrever livros que sejam, ainda que aparentemente, alvo de estudiosos. Que bom que não é esse o caso aqui!

Nesta obra, Báez divide com o leitor um pouco de suas próprias experiências, como quando ele entrou em uma livraria em Madri, a fim de procurar um livro de Miguel de Unamuno. Nessa livraria, o autor não encontrou o que queria, mas se deparou com outro livro: uma antologia de poemas de Federico Garcia Lorca, que estava em frangalhos: o livro praticamente virava pó na medida em que era manuseado. Nas suas últimas folhas, uma nota oficial, que dizia “Livro proibido. Astúrias, El Infierno”. Báez procurou o dono da livraria e perguntou o valor daquele exemplar. Ouviu o seguinte: “Leve-o, não sei quem trouxe esse livro de comunista”. O impacto daquele acontecimento – ter encontrado um livro tão importante, pelo seu conteúdo proibido, pelas circunstâncias de sua publicação e pelas consequências dela (Garcia Lorca, para quem não sabe, foi assassinado em 1936, durante a Guerra Civil Espanhola) –, motivou o venezuelano a iniciar seus estudos sobre a destruição de livros.

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Certa(s) literatura(s) III

O que haveria de gay no tal de “neo-barroco”? Talvez a revolta homossexual que é uma espécie (tentativa frustrada?) de ataque a famigerada transcendência denegada, em sua especificidade, em sua imanência. Talvez seja a cultura provocantemente superficial: escarnecimento de papéis e atitudes, perda de seriedade, revolução carnavalesca que altera a ordem da razão social, dissolução de ritual gratuito de máscaras e aparências. Nesse novo “neo”, seria, então, possível, perceber a tradução de um ataque à razão poética patriarcal. Na minimização do significado, reduzido a puro significante, inverte-se o sistema: a carne linguística não está a serviço de um conceito superior – a razão está no próprio corpo, na “pele fônica”.

Importante ainda é destacar outra característica dessa “etapa pós-gay”, ainda que um tanto extrínseca à criação estritamente literária. Se nenhum fenômeno cultural é totalmente autônomo com relação aos outros fatos sócio-culturais, a citada “etapa” organiza-se a partir da dinâmica dialógica da “contaminação”. Esta, por sua vez, envolve os produtos culturais de consumo massivo, o que se constata com facilidade nos meios criadores de imagens, em particular a televisão e a moda. O fenômeno não é exatamente novo, devido, sem dúvida, à relativa novidade da própria inflação de informações da atualidade. Em outras palavras, se sempre existiram gays entre os grupos formadores de opinião, essa presença é, hoje, funcional: elemento constitutivo da estrutura da dinâmica cultural. O fenômeno traz consigo o desenvolvimento do consumo de produtos específicos, indústria que não se limita a camisetas ou a danceterias “da moda”. Inclui também a estética de atitudes comportamentais – um problema que suscita outra etapa na abordagem que apresentei aqui.

Fica pra próxima!

Certa(s) literatura(s) II

Vamos lá! Digamos que haja mesmo essa tal de “literatura gay”. Sem susto algum, a gente constata que já, já, aparece alguém sobraçando um ensaio cujo título já lança sua sucessora: a literatura “pós-gay”!!! Faz-me rir…

Com o nome “literatura pós-gay”, hão de designar produtos literários de tema homoerótico, posteriores ao “século obscuro”. O esclarecimento não é surpreendente: o “século obscuro” não se circunscreve aos estreitos limites de geoculturas “sociais”. Pode-se imaginar que todas as formas de repressão acabaram. Na América Latina, acredita-se no fim das perseguições contra os homossexuais em Cuba, no fim das leis repressivas às relações entre adultos no Chile, na aprovação sempre postergada da “união civil” entre pessoas do mesmo sexo no Brasil (e no resto do Continente). A Argentina, recentemente inaugurou o “clube”. Claro está que a “polêmica” está (ainda) instalada!

Desgraçadamente, a prática demonstra que está longe da “realidade desejada” – por oposição à repressão já referida. Tanto faz se na esfera jurídica, se na sócio-simbólica: o que está determinado é a oscilação entre gozo das liberdades adquiridas e reivindicação. Se, por um lado, tal literatura não apresenta sinais de dependência à censura (oficial ou não), deixando de se esforçar por burlá-la, carrega o fardo sombreado da necessidade de afirmação e, frequentemente, daquilo que se convencionou chamar de “militância”. Aí está impoluta a encruzilhada: há relatos ficcionais(?) que enveredam por essas sendas. Com quase toda a certeza, tais relatos ainda sabem a memória de crimes sofridos e cometidos. Como no Holocausto, assim parece, a tal “homocultura” (alguém sabe/pode mesmo defini-la?) é memória de perseguição.

Na outra face da moeda, nem todos os atores culturais vivenciam do mesmo modo essa etapa que deveria tender à liberdade expressiva: reflexo dos/nos “produtos culturais”. Na “literatura “pós-gay” constata-se certa dose de debilidade na narrativa. Atenção: a referência aqui é a poiesis. Na outra margem desse rio, está a exuberância na/da lírica. Acertado é afirmar que a Literatura desse/nesse diapasão conta com considerável contingente de “poetas” (Olha a referência!) que abordam o tema homoerótico. No entanto, sobrevivem aqueles que apenas o “encaram” de frente. Existe explicação?

Argumentar que se trata de obscura polissemia intrínseca à lírica, em que/pela qual os escritores se sentiriam com mais liberdade para expressar sem sofrer as sanções ordinárias numa sociedade homofóbica, é plausível? Seria então próprio do caráter de “gueto” caracterizar tal produção e correlato consumo nessas condições – limitação editorial, destinada a público de “conhecidos”?

Se qualquer dessas hipóteses revela-se adequada, se ambas o são, ficará ainda mais patente que a “literatura pós-gay” não ficcionaliza uma ruptura com os produtos do “século obscuro”. O peso dessa “tradição” revela-se igualmente em algumas características da estética “neo-barroca”. Desta feita, valho-me dos argumentos de Sarduy: kitsch, camp e gay – um enorme vespeiro! Fica patente, de fato, a exacerbação de procedimentos estéticos já presentes em muitos “produtos” anteriormente disponibilizados.

Certa(s) literatura(s) I

Como é possível pensar em “estéticas”, de qualquer natureza? Hipergeração é possível como termo que identifica o homoerotismo em condições que tendem a desaparecer
(ou atenuar-se)? Isso se a gente deixar de lado a possibilidade de acrescentar o prefixo “pós” para tentar dizer algo de novo e/ou diferente!

É inquestionável a idéia da criação da personagem homossexual em meados do século XIX, no âmbito do pensamento de Foucault. O que não passavam de práticas eróticas que não definiam especialmente um indivíduo torna-se, a partir de então, “sintoma” externo desse novo “enfermo” que é o “homossexual”, uma personagem que a “Ciência” passa a estudar, analisar, dissecar. Há que lembrar sempre da ambiguidade que, por vezes (como aqui!), as aspas imprimem sobre as palavras que circundam…

Casos patológicos, mas também depravados morais ou criaturas endemoninhadas, os homossexuais sofreram desde então uma perseguição tanto mais implacável quanto mais numerosa era a mão de obra de que dependia a segurança da sociedade cristã, ariana, androcêntrica e heterosexista. Por outras palavras: a ameaça à prosperidade burguesa. Isso já justificou o assassinato de pessoas que recebem o nome “científico” de “homossexuais”.

A História desse crime merece um espaço que excede uma nota de rodapé, como soe acontecer. No entanto, deve-se destacar a colaboração que a Psicanálise presta, com frequência, à condenação “consentida” do homossexual e também aos genocídios praticados desde os anos 30 por Hitler e por Stalin. Até hoje os  homossexuais estigmatizados com a estrela rosada, deportados e assassinados nos campos nazistas de concentração, como os ciganos, são frequentemente esquecidos na/pela História dos genocídios que continuam a acontecer, ainda que metaorizados ou alegorizados: subterfúgios…

Stalin trai os ideais de liberdade sexual praticados pela revolução soviética durante os anos 20. A traição se concretiza no assassinato e no confinamento de homossexuais em asilos psiquiátricos, sinistramente emblemática aliança da repressão com a psiquiatria. Há várias acepções para esse tipo de terminologia: 1869, invenção da palavra “homossexual”; 1968, “liberalização” de costumes, i tako dalje!

O século que se circunscreve entre estas duas datas, por exemplo, pode ser chamado de “século obscuro”. Como faz Alfredo Fressia. Ele explica que “No terreno literário não se trata, obviamente, de tomar a imensa produção do tema homossexual anterior ao século 19 como um bloco monolítico e idílico. Mais que isso, esse é um modo metafórico e sem dúvida prático de deslindar o século em que essa literatura conheceu a pior repressão.” A repressão literária adquiriu algumas “formas”: a proibição, a manipulação e a mutilação de obras de tema homoerótico. Lembrem-se, com Michelangelo: “Resto prigionier d’un cavaliere armato”. Dizendo de outra forma, a de sua deformação tradutória: “Sou prisioneiro de um coração armado de virtude”.

O verso acima foi extraído do ensaio La rapt de Ganymède, de Dominique Fernandez (Grasset, Paris, 1989). O autor francês diz, literalmente, à página 222: Les poèmes de Michel-Ange ne sont publiés qu’après sa mort. Le plus célèbre de ses vers, ‘Resto prigionier d’un cavaliere armato’, est une allusion on ne peut plus claire à la passion du poète pour le jeune Tommaso dei Cavalieri. L’arrière-petit-neveu de Michel-Ange, qui s’est chargé de la publication posthume, dénature ce vers, qui devient: ‘Je reste prisionnier d’un coeur armé de vertu’. Il a fallu attendre jusqu’à 1897 pour qu’un érudit allemand examinât les manuscrits et restituât le jeu de mots provocant.

Há traduções e “traduções”. Entre muitas outras, as da lírica grega e latina mutilaram sistematicamente nomes e pronomes reveladores; as francesas de Walt Whitman, mstram o poeta se dirigindo a uma destinatária feminina, manipulação denunciada por André Gide.

Outro modus operandi da repressão literária se revela por uma dupla imbatível: a censura e a autocensura. Por obra e graça “delas”, Proust transforma Alberto em Albertina (a mudança do gênero da segunda pessoa é prática freqüente, feliz ou infelizmente; Jean Cocteau publica O livro branco, em 1928, eliminando o nome do autor; Edward-Morgan Forster termina Maurice em 1913, mas sua publicação se dá post mortem, segundo consta, obedecendo o prurido autoral; Herman Melville cria seu Billy Budd (começado em 1888, publicado por seus herdeiros somente em 1924), com sutileza impressionista: despiste alambicado para os leitores mais desavisados… (Sim, a maioria deles é desavisada, ainda que o neguem!).

Não falo sozinho. Aqui vem, de novo, o eco de Dominique Fernandez, quando diz que os autores dessa literatura nasceram em meados do “século obscuro”: Les fondateurs de
cette culture sont tous nés -ce n’est pas un hasard- entre 1844 et 1880: Verlaine en 1844, Loti en 1850, Eekhoud, Rimbaud et Wilde en 1854, Gide en 1869, Proust en 1871, Thomas Mann en 1875, Montherlant en 1876, Forster en 1879, Martin du Gard et Zweig en 1881. Tous liés entre eux par la solidarité secrète des parias, tous errant une ‘lumière à la main’ dans les catacombes de la civilisation industrielle, à la recherche d’un impossible salut
.

Esses autores constituem aquilo que muita gente nomeia de “literatura gay”, seja lá o que isso venha a significar. Há quem afirma que se trata de uma literatura criada sobre jogo duplo: culpa e justificação. Esse binômio urde uma rede infinita de alusões agenciando máscaras e travestimentos, comprazendo-se em remissões ao universo mítico, com frequência greco-romano, que “milita” explícita e/ou implicitamente. No fundo, é estratégia discursiva que obscurece (e às vezes alegoriza) o significado: burla da censura. Por outro lado, faz sentido para o público disposto a “entendê-la”! Balzac não joga esse jogo ao criar Vautrin e Lucien de Rubempré. Em princípio, os autores que hoje em dia criam literatura de tema homoerótico seguem essa lição do mestre francês. As ferozes condições da  repressão no “século obscuro” deram a esses produtos culturais características de corpus coerente. Será isso a “literatura gay”?

Poesia

“Hoje estou com preguiça de escrever.

Quando é que não estou com preguiça?

Quando…

Hoje eu estou com preguiça de escrever.”

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O texto que segue é fragmento de outro, maior, chamado “Três cartas da memória das Índias”, de um poeta português conhecido como Al Berto. Assim mesmo, separado. Esse é o psudônimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares (*Coimbra, 1948 /+Lisboa, 1997). Um homem feio. Porcurei uma foto dele mais bonitinho, mas não teve jeito: feio, para o meu gosto, feio. Mas isso não é nada. O danado escreve bem demais e faz uma poesia que eu ainda não consegui “rotular” (mania didática, pra facilitar a vida de quem me ouve… Como se isso fosse mesmo possível!). As ditas cartas são, mesmo, três: uma dirigida à mulher, outra ao pai, outra ao amigo. Como estou a preparar um artigo sobre ele, decidi colocar aqui o início da terceira carta, a que vai ser objeto do meu artigo. Mas disso eu posso vir a falar outra hora. Dizem tanta coisa sobre esse poeta, teve fama de maldito, frequentava a noite da cidade alta (também!), gostava da companhia dos jovens. Eu gosto da poesia dele, isso é o que mais interessa. Bom proveito!

PS: os versos entre aspas não são do Al Berto!

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CARTA DA FLOR DO SOL
(a meu amigo)

Há ainda outra árvore de natureza mui singular, chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se pões; o que é o contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas.
Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vou partir
como se fosses tu que me abandonasses
o último sonho que tive era estranho
via o fundo límpido de uma rua estreita
que desembocava num largo iluminado
havia leões empalhados nos passeios em areia solta
já não me lembro bem
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão
estendia-mo e gritava
mas eu não conseguia perceber
insultava-me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado
apenas via a sua enorme boca abrir-se
e furiosamente engolir a púrpura do ar
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões
ouvia o buzinar nervoso dos carros
exactamente como se ouvem agora
mas não conseguia vê-los
depois
um rapaz pareceu a uma esquina e reconhecia-te
uma voz gravada na memória acompanhava-nos
quando nos dirigimos um para o outro
em câmara lenta
ouvíamo-la sussurrar: procuro-te
no interior das penumbras no esquecido sal
das casas abandonadas à beira-mar
procuro-te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras
vem
mergulha as mãos nos troncos das árvores
suspende a noite da longa viagem
estás a naufragar
o espelho quebrou-se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou-se

tua presença só é visível nas fotografias dos barcos
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias
vai
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas
a cidade espera-te com o cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios
agarra-os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade
inundando um breve instante a noite de nossos desastres
só longe daqui
terás a consciência da quotidiana morte de Deus

repentinamente a voz cessou de se ouvir
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais
depois a voz fez-se ouvir a espaços irregulares: pobres unhas
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos
barcos
velas sem sol papel pintado deslocando-se das paredes
silêncio espesso sarro da noite
uma viatura boceja no asfalto
o corpo treme cintila
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches
buenas noches mi amor
lençóis floridos ranho cabeças de cafres
pingue-pingue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches
barcos despedaçadpos bolor da memória
da memória da memória da memória

tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou
a mulher ria
eu corria para ti sem conseguir alcançar-te
sentei-me na cama
veio-me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar-me a meio da noite e escrever-te esta carta