Opiniões

De uma amiga virtual a queme stou aprendendo a admirar!

“Eu podia estar lendo Machado, Aluizio de Azevedo, Alencar ou até mesmo Macedo! Mas escolhi ler o único romance de Taunay para Desafio Literário deste mês, que contempla os clássicos brasileiros. (As escolhas são sempre um sinal de “afinidades eletivas”. Quanto a estas, nada a questionar. A liberdade é o principal signo da literatura!) Inocência é daqueles livros que são incensados pelos acadêmicos de plantão e odiados pela turma que vai fazer vestibular. Tanto uns quanto outros têm razão. (Concordo com você, ainda que não me sinta muito à vontade para subscrever o “incenso”… No fundo, isso não passa de uma convenção falaciosa…) Esta é a terceira vez que leio o livro, da primeira leitura tenho poucas lembranças e provavelmente não gostei, na segunda vez que li, fiz isso por que estava na lista de livros do vestibular (jamais escolheria por livre e espontânea vontade) mas diria que apreciei um pouquinho mais, mas isso se deve a um excelente professor de literatura que destrinchou o livro para um bando de adolescente que só engoliu tudo aquilo para passar na prova do vestibular. (Você acertou na mosca: sinceridade e reconhecimento. Com o tempo, a gente vai escolhendo as leituras e perdendo o receio de se posicionar quanto a estas escolhas. Por outro lado, penso que o professor de literatura não tem outra função a não ser esta: ‘destrinchar’ o texto. Uso a expressão ‘instrumentalizar a leitura’ – de fato, é o que fazemos. Mais que isso é o acréscimo da experiência da própria leitura que vai fazendo amadurecer a acuidade crítica – que não se ‘ensina’. Também sou sincero…) Essa leitura de agora foi mais madura, mas… porque eu não escolhi um Machado? Um Lima Barreto? (Viu só… de certa forma eu tenho razão! O que não é vantagem alguma…)

Inocência conta a história de um prático-farmacêutico, Cirino, que nos cafundós do sertão de Mato Grosso é recebido numa fazenda para cuidar e medicar Inocência que sofre de maleita, lógico que ele se apaixona, lógico que o pai não gosta, lógico que ela está prometida para outro e lógico que acaba em tragédia ou não seria um livro do Romantismo. (A lógica do Romantismo é um tanto perversa pois, ao mesmo tempo que sublima uma série de valores e aspectos culturais, deixa escapar, eu diria, inconscientemente, tantas outras da ordem da instintivo, do animal. Amor e desejo é a dicotomia, penso que, que reina” sobre o universo representacional desse período da História da cultura ocidental. Isto entre outras coisa, é claro!) O livro tem qualidades, por isso os acadêmicos gostam (Há acadêmicos e acadêmicos, segundo o adagiário…), ele não é puramente romântico nem puramente realista, está no meio termo. (Será mesmo? Sei não… Minha chatice não deixa de implicar com essa expressão “meio termo”.) Como Taunay (nosso único Visconde) era um engenheiro militar, inclusive tendo lutado na Guerra do Paraguai, descreve o sertão como ninguém – ele conhecia de perto do que estava falando e tinha alma de geógrafo – mas por que, meu Deus! descrever em páginas e mais páginas uma estrada! (Claro que você se lembra de Os sertões. Lá também eu vejo motivo para fazer a mesma pergunta. Toda a primeira parte do “romance” é recheada de descrições geográfico-geológicas. Praticamente uma chatice. Mas quando chega na cena em que o narrador compara o azul do céu com o dos olhos do soldado morto, eu chego quase às lágrimas com tanta beleza e lirismo… Vai entender!) Nosso Visconde também foi um pioneiro em escrever os diálogos em linguagem coloquial e regional, o que empresta aos seus personagens uma verdade no tempo e no espaço, mas torna o livro, hoje, bem complicado de ser lido! (Eu diria que a “complicação” se deve muito à falta de “treinamento” em leitura do que do texto em si. Se nossa cultura de leitura – hum… que eco horroroso! – não nos forma como “leitores”, a dificuldade é certa. O texto é matéria viva que corresponde a uma série bem intrincada de fatores. Mas a leitura é mestra que vence obstáculos, desde que bem consolidada, antes de mais nada… A pensar!) Principalmente para os pobres vestibulandos (Pobres??? Agora eu me arrepiei, mas como já disse, sou um chato!), eu gostei da linguagem, vejam só que graça: “não há menina que hoje não deixe de ir à fonçonatas com vestidos abertos na frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em danças e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquela palha com qualquer talufão… pois pelintras e beldroegas não falta…” juro que não é ironia! (O vocabulário é mesmo alambicado. Mas tente uma brincadeira: substitua os termos “antigos” pela gír1a da jeneusse dorée de hoje. Você verá que transparece algo de absolutamente fresco, atual, mais que conhecido nowadays!) Eu poderia dizer que meu personagem inesquecível desse livro é Cirino o moço romântico, ou Inocência e sua beleza meio doentia ou até mesmo seu pai, Pereira com suas ideias retrogradas e sua certezas gravadas em pedra, mas nenhum deles me marcou, desde a primeira leitura eu me indigno, fico com raiva e tenho vontade de dar uns tapas em Tico, o anão mudo e raquítico, que de guardião de Inocência passa a ser seu algoz. Ao se falar desse livro sempre me lembro desse tipinho! (A Sociologia do romance agradece, envaidecida, a sua observação mais que arguta!)

Inocência é um clássico da literatura brasileira que merece ser lido (Harold Bloon, Italo Calvino, George Steiner e Cristóvão Tezza fazem coro aqui!), com paciência e tempo, para se poder apreciar o que ele tem de bom, pois os tipos humanos são bem característicos da época e do sertão, temos até mesmo um naturalista alemão que só pensa em borboleta, vemos como o comportamento social é rígido e as regra familiares são imutáveis, palavra dada nunca é retirada mesmo que isso leve a uma tragédia.(Estes não são alguns dos fundamentos do Romantismo/Realismo?) Em certo sentido é um romance regionalista, uma novidade na época, pois Taunay soube unir seu profundo conhecimento da natureza pura dos rincões do país e a sua aguda observação da vida social do sertão em um livro romântico. (Depois de algum tempo lendo e estudando Literatura Brasileira eu ousaria afirmar que o substrato dela é a noção de regionalismo – em amplo espectro. Concorda? A situação colonial, penso eu, é a responsável pela elaboração do processo de constituição e manutenção de um espírito “nativista” que, ao fim e ao cabo, não deixa de ser uma das metáforas do próprio regionalismo ou Regionalismo, either way) Existe um filme sobre este livro de 1983, dirigido por Walter Lima Jr, tendo o Edson Celulari e a Fernanda Torres como protagonistas, eu vi na época e gostei, fica aqui a indicação.”

Gostei do que ela disse. Concordo com muita coisa e penso que Literatura ainda é fundamental! Os parênteses são todos meus!!!

Qual dos dois?

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Um contador de histórias é um escritor? Invertendo os termos: um escritor é um contador de histórias? Isso depende… de tanta coisa… Há quem diga que são dois tipos de atividades diferentes. Isto está certo. Há também que considere que são absolutamente iguais, mudando apenas os “meios”. Ambos dependem da linguagem, ora escrita, ora falada. Mas um texto escrito não fala? E o texto falado não pode ser gravado e transcrito? Por que será, então, que alguém cismou de afirmar que s ão diferentes? Será que apenas para causar celeuma e poder inaugurar  mais um capítulo naquilo que se convencionou chamar de Teoria da Literatura? Sei não…

Depois de muitas horas de espera e muita energia elétrica consumida, consegui “baixar” os nove capítulos da série televisiva O tempo e o vento, adaptação do romance homônimo de Erico Verissimo. Li os sete volumes da saga, pouco tempo antes de me mudar para Santa Maria-RS. Qual não foi minha surpresa quando, em lá chegando, sedento por satisfazer minha curiosidade visual, perguntei, para deboche geral, onde ficava Santa Fé. Não contente, ainda acrescentei que queria muito conhecer a cidade em que “tudo” ocorreu. Mais risadas… Santa Fé não “existe”, de fato. cruz Alta é o nome da cidade que, em certa medida, de certo modo, serviu de “base” para a criação romanesca da Santa Fé, cenário de parte importante da saga relatada pela pena do escritor gaúcho, Minha impressão foi muito intensa, muito forte. AP final da leitura, queria muito pisar o mesmo chão de Bibiana, já velha. Rodear a famosa figueira. Olhar para o horizonte embaçado pela névoa, companheira inseparável nas manhãs dominadas pelo minuano. Quem já viveu lá, ou passou por lá no inverno, sabe muito bem do que estou falando… No entanto, Santa Fé não existe. Nas páginas dos sete tomos (três volumes do romance/saga) ela está incólume, assistindo, entre aterrada e esperançosa o desdobramento de uma rixa mais que secular, visceral. Bento e Licurgo encarnam a fase madura de uma luta que começou silenciosa num descampado gaúcho, varrido pelo vento, quando uma menina dos cabelos escorridos e olhar forte respirava a vontade de se ver num espelho de verdade. O índio explicita a sina: quando ela se vir no espelho, ele morre. Dito e feito. Pedro Terra é o primeiro de uma série de homens e mulheres que vão “povoar” o rincão gaúcho, guiados pela mão firme de Ana Terra. Depois vêm Bibiana, Rodrigo, Pedro Terra, Juvenal, Alice, Valéria, Licurgo, Padre Romano e Dr. Winter. Uma galeria de tipos que, na “telinha” ganha carnadura de talento. Lélia Abramo, impecável como a Bibiana velha e um tanto confusa com suas lembranças. José Lewgoy (apesar de não ser muito fã dele) grandioso como Bento Amaral, aquele que ficou se vangloriando pela ausência da perninha do “erre”. Insuperável, o Rodrigo vivido por Tarcísio Meira. Galeria de tipos consistentes e fortes. Cast de respeito, que soube encarnar com delicadeza, sensibilidade, força e determinação a personalidade daquele povo gaúcho, no “raiar” de sua gente, sua terra.

E a pergunta continua sem resposta. Erico Verissimo escreveu o romance. Para mim, mais que isso, ele contou uma história. Ambas as atividades, com mão firme e senso de beleza e realidade. Ele foi escritor ou foi contador de histórias? Terá sido ambos? Foi nenhum dos dois? Quem saberá, mesmo, responder? Continuo desconfiando de que, no momento em for possível responder definitivamente a perguntas como estas, a Literatura vai perder a sua “graça”. Já não será preciso decidir entre “isto ou aquilo”. Saudades de Cecília…

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Para alguém (ens), mesmo sem saber

O que vem a ser a certeza de que as coisas dão certo? Certeza? Penso que esta certeza simplesmente inexiste.

Então, por que será que tantos andem atrás dela, pelos mais variados subterfúgios, arranhando-se nos mais emaranhados roteiros, acreditando na possibilidade de atalhos que jamais levam a porto seguro? Será que era assim que pensava “um certo capitão Rodrigo?”. Anos depois de ter lido a saga gaúcho, revejo a adaptação televisiva. São mais de 20 anos de distância entre o agora e o estágio televisivo. Mais uns tantos desde a primeira vez que minhas retinas percorreram aquelas linhas, para acreditar que Santa Fé existia de fato. Hoje é quase impossível imaginar Ana Terra com cara diferente que a da então jovenzinha Glória Pires. Ou um capitão Rodrigo mais garboso que o posudo Tarcísio Meira. A falecida Lilian Lemmertz, se não me falha a memória, faz a Bibiana na terceira fase sua vida. Depois de passar por poucas e boas. Lembro-me vagamente de algumas passagens, mas jamais me esquecerei dos ataques de asma de Mario Lago, na pele do pároco de Santa Fé. Coitado. Figura emblemática, que pena nas mãos do capitão. Ops… uma rima!

Ler. Uma das aventuras mais sem limite que a existência do homem pode experimentar. Às vezes, do lado de lá da mesa, penso no que poderia ser feito se todo mundo viajasse por entre as letras de uma página, como acredito fazer. Observando os olhos dos que estão do lado de lá, às vezes, sobrevém sentimento de decepção, impaciência e até  raiva. Por que será que deixei de escolher outra carreira? Será que experimentaria o que experimento hoje, se assim tivesse acontecido? Jamais saberei. Esse é o verdadeiro inferno de que fala Sartre. Será mesmo? Quantos equívoco em nome de uma suposta verdade, de uma presunçosa certeza de que é assim e não assado. Há que ter tolerância. Eles jamais saberão o que de fato se passa no íntimo de qualquer um outro. Existem mais coisas importantes, ainda que não se saiba nomeá-las todas. Então, de fato, para quê solfejar hosanas para alguma coisa que vai ser esquecida daqui a pouco tempo? Todas as palavras já foram ditas, literalmente. As combinações entre elas é que mudam. Pode mudar também o contexto. A entonação, com absoluta certeza, muda a cada fração de segundo. Isso, para ver as coisas de um lado. Se o outro lado se oferecer à observação, ou for buscado para tanto, outro tanto de constatações também irão ter lugar. Uma certa mulher disse que um certo homem era preconceituoso. Ela justificou a acusação dizendo que ele dizia isso e mais aquilo. Mas como é que ele pode ser acusado se quem disse não foi, literalmente, ele. O fato dele ter escrito alguma coisa e colocado esse dito na boca de uma personagem, não faz dele o responsável direto sobre o conteúdo do que foi dito. Estarei errado? Ou minha ingenuidade insiste em me pragar ais uma peça. Penso que jamais saberei.

Clarice descreve a cena de uma mulher que amassa uma barata com o armário, contra a parede do quarto. Não satisfeita, ela faz a tal mulher comer o que sobrou da barata. Em outro lugar, ela descreve uma retirante que guarda frango frito debaixo do travesseiro, para gozar o momento de intimidade e triunfo comendo a carne sozinha. De quebra, a retirante chora ao ouvir ária de uma ópera. Transgressões… Graciliano pinta um homem amarelo como símbolo de um poder decadente: Fabiano não sabe disso. Eça, esmiúça a hipocrisia e a insensibilidade paroquial de um candidato a monsenhor, quando engravida moça beata, sem o menor escrúpulo. Machado devaneia sobre o ciúme e a dúvida, apresentando a faca e o queijo, mas ninguém consegue comer. Mistérios…

Isso é para meus alunos, aqueles que me acompanham nessa experiência diária de tentar fazer valer a pena…

Conto o milagre, mas não o santo!

Recebi mensagem de um amigo muito querido. Um desabafo. Ele diz coisas que também penso e com as quais concordo. Pedi a ele para colocar seu desabafo aqui. Ele autorizou com algumas restrições que vão marcadas pelas reticências entre parênteses. Se algum dia as pessoas citadas se reconhecerem na mensagem, talvez uma miríade de almas libertar-se-ão do purgatório…

“No meu modesto entendimento e muito modesto mesmo, pois não dou aulas na portentosa (…) ou em outras [instituições] mais prestigiosas. É triste constatar que a literatura pesarosamente vem perdendo terreno e as Letras, enquanto estudo, estão definitivamente mortas. Mortas e sepultadas pela impostura de plantão e o pior de tudo financiadas com o apoio das instituições do saber e manipuladas pelos vivaldinos de plantão.

Enfim, pertenço teimosamente à escola do pessimismo ressentido de um Steiner e de um Bloom, de um Benjamin e de um Adorno. Posso fazer uma ou outra concessão ao Bhabha, mas nunca ninguém me verá cortejar Deleuze, (…), Angel Rama, Derrida ou Beatriz Sarlo e todas as coisas ditas sobre o intelectual da e na América Latina. Só faltou eu mencionar o Silviano Santiago, que é a única coisa que aquele outro o (…) conhece bem. São exatamente as discussões enfadonhas sobre as margens e as fronteiras, sobre o escritor e a formação da América Latina, a cultura do colonizador, as assimetrias de poder, os grupos literários minoritários, de países pequenos etc., etc., que fazem a literatura da América latina (em espanhol) com exceção de Borges, Cortázar e Carpentier ser o que é: pobre. Os latino-americanos poderiam ter aprendido algumas coisas com esses três monstros, que sempre pensaram e agiram como escritores de fato e nunca se sentiram à margem de nada. Machado de Assis já prefigurava isso no século XIX. E ainda se fala de uma crítica literária e teoria latino-americana. O mundo vai de mal a pior e sem solução para os impasses. Vivemos tempos desgraçadamente enfadonhos. Quem me dera poder ver ressurgir um Balzac ou um Tolstói, um Flaubert ou Dostoievski. Infelizmente, morrerei e não verei. Nem ao menos terei o consolo de pensar na morte à maneira de Tolstói, com um aguçado senso de aprendizagem do agônico. Inicio amanhã um curso insignificante de Teoria da Literatura sobre a Literatura. A insignificância reside no fato de focalizar uma coisa fora de moda: literatura, pois será empreendido com base em Homero (Ilíada e Odisseia), Stendhal (O vermelho e o negro), Kafka (A metamorfose), Sophia de Melo (Dual), João Cabral de Melo Neto (O auto do frade) e A poesia de Konstantinos Kávafis. Ainda não descobri como encaixar nesses autores uma possibilidade de abordagem multiculturalista ou pós-colonial ou pós-moderna. Será um problema me deixar seduzir pelos avatares do pós-moderno. Vou modestamente oferecer um curso de crítica literária, pois sou da roça e a roça é sempre canônica, sem concessões. Só o cânone é passível de renovação, de rejuvenescimento, de causar deslumbre impactante. Mas essa é a modesta opinião de um professor da roça. Na roça, as modas literárias como as roupas e outros costumes chegam mais tarde. Enfim, não sou velho, mas pertenço a um tempo em que se estudava Literatura com Letras maiúsculas não esse emaranhado de autores sem irradiação ou de abordagens de ponta, de vanguarda, que nada mais fazem do que traduzir a nossa atávica mediocridade, a nossa preguiça de ler e de pensar. Tolstói dá muito mais trabalho do que José Mauro de Vasconcelos ou o Cerco de Paissandu da literatura uruguaia. Enfim, desculpe-me o desabafo,mas é assim que penso e pensarei.”

Assino embaixo das palavras do colega, ex-aluno e, acima de tudo e mais importante, amigo querido!

Certa(s) literatura(s) III

O que haveria de gay no tal de “neo-barroco”? Talvez a revolta homossexual que é uma espécie (tentativa frustrada?) de ataque a famigerada transcendência denegada, em sua especificidade, em sua imanência. Talvez seja a cultura provocantemente superficial: escarnecimento de papéis e atitudes, perda de seriedade, revolução carnavalesca que altera a ordem da razão social, dissolução de ritual gratuito de máscaras e aparências. Nesse novo “neo”, seria, então, possível, perceber a tradução de um ataque à razão poética patriarcal. Na minimização do significado, reduzido a puro significante, inverte-se o sistema: a carne linguística não está a serviço de um conceito superior – a razão está no próprio corpo, na “pele fônica”.

Importante ainda é destacar outra característica dessa “etapa pós-gay”, ainda que um tanto extrínseca à criação estritamente literária. Se nenhum fenômeno cultural é totalmente autônomo com relação aos outros fatos sócio-culturais, a citada “etapa” organiza-se a partir da dinâmica dialógica da “contaminação”. Esta, por sua vez, envolve os produtos culturais de consumo massivo, o que se constata com facilidade nos meios criadores de imagens, em particular a televisão e a moda. O fenômeno não é exatamente novo, devido, sem dúvida, à relativa novidade da própria inflação de informações da atualidade. Em outras palavras, se sempre existiram gays entre os grupos formadores de opinião, essa presença é, hoje, funcional: elemento constitutivo da estrutura da dinâmica cultural. O fenômeno traz consigo o desenvolvimento do consumo de produtos específicos, indústria que não se limita a camisetas ou a danceterias “da moda”. Inclui também a estética de atitudes comportamentais – um problema que suscita outra etapa na abordagem que apresentei aqui.

Fica pra próxima!

O Eugênio sabe das coisas

Para que servem os estudos humanísticos? A pergunta, embora pareça absurda, tem a sua pertinência quando, por todo o mundo e também em Portugal, se parece assistir, cada vez mais, à redução das Faculdades de Letras ao estatuto de simples e utilitárias escolas de línguas. Para quê a literatura? De que serve? Para quê a História, a Arte, a Filosofia? Como verme daninho, o utilitarismo estreito e o economicismo, a propósito e a despropósito, infiltram-se insidiosamente no espírito dos burocratas da Educação e dos empresários da investigação e tudo corroem, como cancro incontrolável e sinistro. Cada professor ou investigador tem que apresentar resultados, medidos em número de papers por ano ou por semestre ou por década… É tudo submetido a um critério economicista que rejeita vigorosamente o desperdício e a aparente inutilidade do lazer, daarte e da cultura.
Há que planear, orientar, organizar, medir, avaliar. O lazer, o divagar, o viver cinco, dez anos teimosos a ruminar uma ideia ou uma hipótese que pode eventualmente não resultar – é anátema. Einstein desperdiçou os seus últimos trinta anos a ruminar obstinadamente uma ideia que não deu, mas , num único ano – 1905 – produziu quatro papers que revolucionaram a ciência moderna. Não ganhou com isso o direito de gastar o resto da vida perseguindo, sem ser chateado pelos contabilistas do talento, as ideias que melhor lhe parecessem, mesmo que se revelassem infrutíferas? Princeton, na América, deu-lhe esse direito ao desperdício, que os organizadores , hoje à solta por todo o lado, parecem não prezar por aí além. Foi o fundamentalismo da investigação exclusivamente orientada – para objectivos previamente definidos pelas empresas – que ia dando cabo da investigação científica nos Estados Unidos. E foi a clarividência de empresas como a Bell – não se importando de valorizar o tempo desperdiçado emdivagações pelos seus cientistas – que finalmente a salvou. As grandes descobertas da ciência não se fizeram quase nunca por cientistas correctamente arregimentados e bem vigiados por burocratas eorganizadores que sabem melhor como se deve proceder. Para essesorganization men, Einstein e Newton não passariam de bloody wasters com algum génio, sim, mas sem o sentido da produtividade e do bom aproveitamento que a disciplina da empresa exige e promove. Compreende-se cada vez menos que as grandes ideias exigem disponibilidade de tempo, teimosia e o direito ao fracasso, isto é, à eventualidade de maus resultados que podem ser apenas o prefácio de grandes triunfos. O mesmo Newton que não descobriu a pedra filosofal e perdeu tempo com ocultismos e alquímias de carregar pela boca, foi, como físico e astrónomo, o maior inovador que o mundo já viu. Uma coisa deve fazer esquecer a outra e não precisamos, para coisa nenhuma, dos contabilistas do tempo desperdiçado. É esta mentalidade estreita dos contabilistas que está também na origem de se andar a desprezar o valor eminente das humanidades que, até, por acaso, podem ter utilidades inesperadas.Vou contar uma história: nos tempos em que desempenhava funções séniores, no domínio dos petróleos e frequentei alguns interessantes cursos de gestão de empresas, lembro-me de ter lido um interessantíssimo livro sobre estas matérias, no qual se contava uma história edificante. O responsável de topo de uma grande industria que empregava vários engenheiros, no domínio da investigação que estava na origem da produção dos principais produtos que a empresa lançava no mercado, tomou um dia consciência de que os seus engenheiros, que eram afinal os principais responsáveis pela saúde e perpetuação do negócio, nunca ascendiam ao topo do organigrama. Ganhavam bem, eram devidamente apreciados, recebiam bons bónus anuais, mas os lugares de topo iam sempre para os senhores do marketing ou do administrative. O engenheiro era considerado um técnico (com o não sei quê de pejorativo associado ao termo), um elemento utilíssimo na sua área específica, alguém sem o qual a empresa não começaria a existir, mas… de voo necessariamente limitado. A metafísica da gestão era território que lhe ficava vedado. O homem da economia, das finanças ou do direito – eram promovíveis. Os engenheiros, não – eram dados como demasiado terráqueos para se alcandorarem às altitudes rarefeitas da direcção de empresas,. Pois bem, o nosso homem, responsável pela empresa referida, decidira que iria pôr fim a isso: os engenheiros iriam ter as mesmas possibilidades de ascenção pela escada hierárquica acima – até ao topo.
E, se assim o decidiu, melhor o fez. E os engenheiros começaram a subir… até chegarem a um nível bastante elevado. Porém, verificou-se algo de surpreendente: até determinado patamar (elevado, mas não o mais elevado de todos) os engenheiros iam-se de facto acomodando à desoxigenação das alturas. Porém, de aí em diante, sentiam-se inconfortáveis, deslocados: nem eles gostavam do lugar, nem o lugar gostava muito deles: não faziam bom trabalho e acabavam por decidir voltar para trás. Durante anos o responsável pela empresa (uma empresa importante, de dimensão internacional) bateu com a cabeça nas paredes, tentando perceber o que se passava: que faltaria aos
seus engenheiros que lhes não permitia chegar ao topo? Que não tinham eles que deviam ter para se tornarem managing directors? Até que, ao fim de perto de, salvo erro, quinze anos de magicar no problema, fez-se-lhe luz: o que lhes faltava era , muito simplesmente, um bom bocado de cultura geral.

Custara-lhe chegar a uma conclusão que agora ofuscava, pela sua evidência, mas não tinha agora dúvidas: aquilo que a cultura geral dá – uma maior abertura de espírito, uma visão alargada dos comportamentos humanos, da complexidade do ser humano, da beleza, do conhecimento e do seu valor, dos incentivos que o homem valoriza, da complexidade dos relacionamentos, do apreço pelo prazer que a música e a literatura e a arte dão, para além do que ensinam, a descoberta de que “os escritores transformam os factos que o mundo produz – pessoas, lugares e objectos – em experiências que sugerem significados” (1) – tudo isto dá a quem opossui um maior à vontade, uma maior fluência no comércio de todos os dias com os outros, seja no âmbito privado, seja no âmbito profissional. São vantagens que ajudam quando, no desempenho das suas funções, o engenheiro não tem que se confinar ao técnico, mas tem, sobretudo, que resolver problemas de relacionamento com os outros: de persuasão, de convicção na “venda” de uma ideia ou de um projecto, que em muito depende de uma avaliação correcta do interlocutor, ou da empatia que se saiba construir e pode depender de uma súbita revelação de sintonia de gostos ou de valores…
É isto que o ensino das humanidades pode trazer, mesmo aos técnicos, aos empresários e aos economistas: estes últimos, em grande parte, responsáveis pelo economismo redutor que se tem estado a tornar no principal inimigo do espírito da universitas.
Vem aqui a propósito citar o nunca assaz citado Ortega y Gasset, que, no seu seminal Misión de la Universidad, diz isto, que deveria estar sempre na secretária e na mesa de cabeceira dos nossos ministros da educação e dos nossos reitores e empresários e alunos e pais de alunos: “A sociedade”, dizia o grande pensador e escritor espanhol, “necessita de bons profissionais – juizes, médicos, engenheiros – e para isso aí está a Universidade com o seu ensino profissional. Mas necessita, antes disso e mais do que isso, de assegurar outro género de profissão: a de mandar. Em toda a sociedade, manda alguém – grupo ou classe, poucos ou muitos -. E, por mandar, não entendo tanto o exercício jurídico de uma autoridade quanto a pressão ou influxo difusos sobre o corpo social. Hoje mandam nas sociedades europeias as classes burguesas, a maioria de cujos indivíduos é profissional. Importa, pois, muito, àquelas, que estes profissionais, àparte a sua especial profissão, sejam capazes de viver e influir vitalmente, segundo a ocasião dos tempos. Por isso é inelutável criar de novo, na Universidade, o ensino da cultura ou ideias vivas que o tempo possui. Essa é a tarefa universitária radical. É isso que tem que ser, antes e mais do que qualquer outra coisa, a Universidade”.
É, de facto, esta tarefa radical que se impõe. É por isso que, mais do que estar a transformar os departamentos de humanidades em escolas de línguas, para os salvar de forma pífia, haveria que utilizar o saber dos seus docentes, no sentido de se poder ensinar aos alunos de todos os departamentos da Universidade aquele sistema de ideias vivas que o tempo possui e dá pelo nome de… cultura.
Num momento em que o número de alunos encolhe, a melhor maneira de aproveitar o corpo docente das humanidades é saber reconhecer que ele pode ser utilizado – e de modo radicalmente importante – a ensinar algo de fundamental aos alunos de física, de química, de engenharia, de… economia. E, já agora, e inversamente, não seria também má ideia que aulas de introdução à ciência e à filosofia fossem ministradas nos cursos de humanidades. É que a segregação das duas culturas não interessa a ninguém – e, hoje, menos do que nunca.
A proposta que aqui faço nada tem de utópico. É, bem pelo contrário, escandaloso que nada disto seja hoje parte rotineira da estrutura do ensino universitário. Aproveite-se o que se tem à mão – e dar-se-á aos profissionais da ciência e da tecnologia, competências de que necessitam para, mais tarde, se sentirem relativamente confortáveis nos labirintos da vida e da… profissão.
Eugénio Lisboa
(1) Michael Meyer, The Bedford Introduction to Literature, St. Martin’s Press, New York, 1987, p.4.