Viver

O poeta tem razão, sempre tem…

 

Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos..
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um ‘não’.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…


(Fernando Pessoa)

Um artista

Cenário colorido e brilhante. Impacto. A coluna egípcia ao lado. Os retornos de som. A banda masculina, impecável, como sempre. Iluminação frenética e mais que adequada ao clima de cada música. Pasmem: um senhor de quase (ou já?) 70 anos, dançando sensual e afinadamente, com voz possante, à frente. Sim, é ele. Ouso dizer que, na atualidade, o único CANTOR brasileiro. Desde o começo com Secos e molhados. CANTOR. Outros cantam, mas ele é cantor. Ousaria mais ainda: ele é a versão masculina da Elis. Punto i basta. Estava vendo um show dele pela televisão agorinha. Se não me engano: Inqualificáveis. É esse mesmo o nome, pois não? De repente ele sai. Volta, coberto por rede finíssima, rebordada de discos metálicos, assim como a cabeça, ornada com algo que se parece uma coroa egípcia. O Egito sempre teve presença nos cenários dele… Ainda não li nada que valesse a pena sobre esse detalhe. Para no meio do palco e solta a voz interpretando, de maneira sublime música de Daniel Carlomagno e Jair Oliveira. Alguém conhece? Parece que primeira gravação é de Luciana Mello. Uma música linda que, na voz de Ney, ganhou alturas de sublimidade:

Simples Desejo

Luciana Mello

Composição: Daniel Carlomagno e Jair Oliveira

Que tal abrir a porta do dia,dia
Entrar sem pedir licença
Sem parar pra pensar,
Pensar em nada…

Legal ficar sorrindo à toa,toa
Sorrir pra qualquer pessoa
Andar sem rumo na rua

Pra viver e pra ver
Não é preciso muito
Atenção, a lição
Está em cada gesto
Tá no mar, tá no ar
No brilho dos seus olhos
Eu não quero tudo de uma vez
Eu só tenho um simples desejo

Hoje eu só quero que o dia termine bem
Hoje eu só quero que o dia termine muito bem

Não

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Houve um tempo, que afinal passou, em que eu ficava irritadíssimo quando ouvia a palavra “não”. As situações, inúmeras e variadas, são muitas para caber no espaço de um blog. De mais a mais, cada um sabe onde “o sapato aperta”. O tempo passou, as palavras continuam aí, mas a irritação diminuiu. É difícil explicar, mas penso que estou aprendendo a conviver com as palavras. Tenho uma “fantasia intelectual”: escrever um livro em cujo texto eu use todas as palavras, menos ela: “não”! Será que eu consigo? Só o tempo dirá. Enquanto isso, li, en passant um poema sobre a palavra. É de um português. Eu gostei…

a palavra não vale
pelo que a palavra é
por aquilo
que radicalmente é

palavra

porque a palavra é um indício
como um sopro suspenso
nos beirais
aguardando um voo
um súbito voo de uma ave

o que vale
se valor algum nela se encontrar
em comparação
não é a gárgula nada em pedra
é a própria pedra feita em gárgula
que guarda os segredos das mãos
que a gárgula fizeram
no seu corpo

é um indício
repito

o início de uma viagem
não exterior a ti
que lês a palavra
palavra
ou outra palavra qualquer
mas o mundo
o próprio mundo
que o tempo em ti contigo esculpiu

Xavier Zarco
www.xavierzarco.blogspot.com
www.xavierzarco.no.sapo.pt

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Poesia

“Hoje estou com preguiça de escrever.

Quando é que não estou com preguiça?

Quando…

Hoje eu estou com preguiça de escrever.”

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O texto que segue é fragmento de outro, maior, chamado “Três cartas da memória das Índias”, de um poeta português conhecido como Al Berto. Assim mesmo, separado. Esse é o psudônimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares (*Coimbra, 1948 /+Lisboa, 1997). Um homem feio. Porcurei uma foto dele mais bonitinho, mas não teve jeito: feio, para o meu gosto, feio. Mas isso não é nada. O danado escreve bem demais e faz uma poesia que eu ainda não consegui “rotular” (mania didática, pra facilitar a vida de quem me ouve… Como se isso fosse mesmo possível!). As ditas cartas são, mesmo, três: uma dirigida à mulher, outra ao pai, outra ao amigo. Como estou a preparar um artigo sobre ele, decidi colocar aqui o início da terceira carta, a que vai ser objeto do meu artigo. Mas disso eu posso vir a falar outra hora. Dizem tanta coisa sobre esse poeta, teve fama de maldito, frequentava a noite da cidade alta (também!), gostava da companhia dos jovens. Eu gosto da poesia dele, isso é o que mais interessa. Bom proveito!

PS: os versos entre aspas não são do Al Berto!

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3
CARTA DA FLOR DO SOL
(a meu amigo)

Há ainda outra árvore de natureza mui singular, chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se pões; o que é o contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas.
Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vou partir
como se fosses tu que me abandonasses
o último sonho que tive era estranho
via o fundo límpido de uma rua estreita
que desembocava num largo iluminado
havia leões empalhados nos passeios em areia solta
já não me lembro bem
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão
estendia-mo e gritava
mas eu não conseguia perceber
insultava-me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado
apenas via a sua enorme boca abrir-se
e furiosamente engolir a púrpura do ar
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões
ouvia o buzinar nervoso dos carros
exactamente como se ouvem agora
mas não conseguia vê-los
depois
um rapaz pareceu a uma esquina e reconhecia-te
uma voz gravada na memória acompanhava-nos
quando nos dirigimos um para o outro
em câmara lenta
ouvíamo-la sussurrar: procuro-te
no interior das penumbras no esquecido sal
das casas abandonadas à beira-mar
procuro-te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras
vem
mergulha as mãos nos troncos das árvores
suspende a noite da longa viagem
estás a naufragar
o espelho quebrou-se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou-se

tua presença só é visível nas fotografias dos barcos
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias
vai
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas
a cidade espera-te com o cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios
agarra-os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade
inundando um breve instante a noite de nossos desastres
só longe daqui
terás a consciência da quotidiana morte de Deus

repentinamente a voz cessou de se ouvir
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais
depois a voz fez-se ouvir a espaços irregulares: pobres unhas
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos
barcos
velas sem sol papel pintado deslocando-se das paredes
silêncio espesso sarro da noite
uma viatura boceja no asfalto
o corpo treme cintila
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches
buenas noches mi amor
lençóis floridos ranho cabeças de cafres
pingue-pingue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches
barcos despedaçadpos bolor da memória
da memória da memória da memória

tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou
a mulher ria
eu corria para ti sem conseguir alcançar-te
sentei-me na cama
veio-me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar-me a meio da noite e escrever-te esta carta

Mais uma surpresa boa

Cal, de acordo com o Dicionário Houaiss, é um substantivo feminino: pó branco constituído principalmente de óxido ou hidróxido de cálcio, usado na construção civil, em fluidos de perfuração, em cerâmicas, na clarificação de óleos, em tintas, revestimento contra fogo, tratamento de água, na manufatura de papel, como adstringente, etc. Qualquer produto (pulverulento, pastoso etc.) resultante da hidratação da cal virgem. Etimologicamente, a palavra vem do latim vulgar – cals (derivado do acusativo) que, por sua vez, vem do latim calx, calcis – cal, pedra de cal, com origem no grego kháliks; provindo pelo espanhol cal. A viagem é longa. De tudo fica um pouco: logo, pode-se acreditar quando dizem que “cal queima”!

A ideia de fim, de morte, de consumição, não passa ao largo quando se pensa nessa palavra. Pensar na palavra, pensar com a palavra. Isso é poesia! É isso o que faz José Luis Peixoto em seu livro Cal. Título sugestivo, sui generis, instigante e inesperado, dado que trata, em sua maior parte, da velhice, aquele período em que tudo parece se acabar, queimar no próprio calor da vida que vai se extinguindo lentamente. Inexorável destino da humanidade! São 17 contos, três poemas e uma peça teatral sobre a velhice. Velhice. Alguma coisa que assusta e instiga, alguma coisa que faz com que muita gente sinta medo; alguma coisa que não agrada a muita gente. Alguma coisa de inevitável!

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A imagem da capa, na edição que li, funde duas fotografias: a mão engelhada de uma pessoa velha e uma parede caiada. Como se a pele daquela mão tivesse a mesma natureza da superfície rugosa daquela parede. Corpo e casa à mercê do tempo, como sinais de uma memória que é sempre o ponto de partida para os textos de José Luís Peixoto. Sejam eles contos, poemas, crônicas ficcionalizadas ou peças de teatro. Cal, editado pela Bertrand é o sexto livro de prosa de Peixoto e reúne 17 contos publicados em jornais e revistas, uma peça teatral. Todos com um tema comum: a velhice; naquilo que tem de belo, de melancólico, de exaltante ou de trágico. No fundo, o autor juntou textos dispersos que só fazia sentido recuperar pelo fato de serem atravessados por unidade temática forte, determinante. O autor sempre escreveu bastante sobre a velhice (há velhos em todos os seus textos), porque é “uma idade muito importante e muito subvalorizada”. O seu interesse literário não se centra na velhice em si mesma, com a sua sabedoria, os seus sobressaltos e rituais, “mas mais na passagem entre as várias idades e a forma como se lida com isso.” Em Cal, à semelhança dos outros livros, os velhos vivem quase sempre num meio rural que José Luís conhece bem, porque viveu até ao fim da adolescência na aldeia de Galveias (concelho de Ponte de Sor). As figuras curvadas que trabalham no campo, fenecem ao desalento da escuridão das casas, vendem uma burra aos ciganos como quem vai para o cadafalso, ou acreditam que a sua horta de sempre cresce no espaço limpo e puro de uma enfermaria hospitalar (ainda que nem sempre, infelizmente, seja assim!). Tudo é, muitas vezes colagem exata de pessoas que o autor conheceu, ou de quem ouviu falar. Há mesmo nomes reais que assomam às páginas, dando uma dimensão humana fortíssima às histórias, várias delas com um assumido cunho autobiográfico: “De certo modo, quis preservar, através da escrita ficcional, a dignidade das pessoas que me fizeram ter consciência de que a velhice não é só uma questão de decadência física. Às vezes é também o exacto contrário disso.”, diz o autor! Há razões mais subterrâneas que levaram Peixoto a escolher o título: Cal. “Não foi só a identificação com o Alentejo, não foi só a brancura, não foi só a ideia de uma espécie de cristalização das casas, que as conserva e as paralisa no tempo. Foi também a noção de que a cal é uma matéria perigosa, uma pedra que ao colocar-se dentro de água ferve, queima e se cai nos olhos cega.” Metáfora perfeita, também, do que é a escrita. Eduardo Prado Coelho diz que “a grande força de José Luís Peixoto está no modo como narra histórias que se dobram para dentro da sua própria loucura e no fio puríssimo de luz com que as vai reunindo e salvando do esquecimento”. Palavras de sabedoria. O texto de José Luis não desmente a acuidade do olhar do crítico. Como fio puríssimo de luz, uma ausência presente atravessa os gestos e as emoções destas figuras. Em cumplicidade com a morte, a vida torna-se mais límpida, talvez mais pura. A luz – força redentora de suas personagens –, é certamente um dos fios condutores do texto. Quem gosta da escrita deste autor português, irá certamente reencontrar palavras e frases ao estilo daquelas que podem ser a razão de se gostar do estilo de escrita de José Luís Peixoto, um estilo bastante característico e que desperta no leitor determinados sentimentos que fazem pensar e reviver memórias ou detalhes esquecidos ou que estão adormecidos. Para quem não conhece, fica a recomendação, com a condição de aconselhar apenas às pessoas que queiram ler algo que lhes faça refletir ou que estejam à procura de algo calmo, estejam à procura de encontrar pessoas simples e com elas reviver determinados momentos das suas vidas, momentos distintos, acontecimentos distintos, personagens semelhantes, mas distintas. Poesia, para dizer tudo numa única palavra.

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Poesia

Mário de Sá-Carneiro (* Lisboa, 19 de maio de 1890 – + Paris, 26 de abril de 1916) é um poeta instigante, para dizer o mínimo. Atormentado por muitas coisas, inclusive pela sombra de Fernando Pessoa que, até hoje se sabe, jamais quis “fazer sombra” no amigo, é um poeta cheio de cores e formas e delírios, bem ao sabor do fin de siècle que ele encarnou em sua persona dandi. Sim, eles eram amigos. Tão amigos que trocaram cartas, muitas, em que partilhavam um outro tormento: o da beleza que não se contém. Ambos foram infectados pelo vírus da expressão, esquentados pelas febre da poesia, agitados pela pulsação da palavra. Ambos escreveram e não foi pouco. Mário se matou, ainda jovem. Ainda que um tanto iconoclasta, a “homenagem” que Adriana Calcanhoto faz a ele em seu show “Aplauso”, é engraçada, sarcástica, mas engraçada. Uma homenagem.

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Na poesia de Sá-Carneiro a gente pressente a vibração de uma libido um tanto desencaminhada. Um desejo sem organização transita por objetos amorosos potenciais, mas não se fixa em nenhum: não se define. O que se dá é que o verso deixa escapar sua constante fuga para certa visão feminina ou imaginariamente ensombrada por Fernando Pessoa – uma espécie de escala ansiosa sem grande significação, num percurso que carece de itinerário e de destino. O desejo se explicita na escrita, em sentidos vários. É plausível pensar certa atitude homoerótica, enevoada sob a simplicidade gritante de certa evidência: Sá-Carneiro não teve experiências sexuais com muitas pessoas; daí não haver excesso, mas falta: desvio à norma que merece atenção, por desencadear reações que funcionam como máscara da realidade. Isso problematiza a já problemática (desculpem a repetição… indispensável, aqui!) relação com Helena.

Fernando Pessoa afirma que a “desumanidade” dos versos de Sá-Carneiro resulta da falta da mãe, tal como desta falta resulta o seu amor por si mesmo. Desumanidade, aqui, é palavra complexa, não necessariamente utilizada como possível relação a nada que diga respeito ao Homem. Assim, chega a gerar preconceitos estéticos que infelizmente ainda hoje subsistem… Arrisco a afirmação de que “desumanidade”, usada por Pessoa, se refere à crueldade. Há sugestões sádicas nas novelas, mas entram no capítulo do delírio erótico, no mesmo plano das masoquistas. Quanto ao amor por si mesmo, ele contraria logo a desumanidade. É bom lembrar que Caetano já cantou em melodia inesquecível que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Logo…

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É senso comum que Mário de Sá-Carneiro não era homossexual. A gente não pode se esquecer de que, mesmo o senso comum pode ser questionado, colocado na berlinda! De certa forma, a importância de estabelecer a “verdade dos fatos” resulta da necessidade de evitar interpretações equívocas da obra. Nas novelas, não raro aparecem situações desse tipo. E como a prosa de Sá-Cameiro tem muitos dados autobiográficos, apontados até nas cartas, o leitor é facilmente induzido a tirar conclusões… Quais seriam erradas? Quais, certas? Só a poesia dele pode dizer! Também ela está carregada de sugestões que podem levar a concluir que havia da sua parte tendências para a homossexualidade, como em “Feminina”:

- Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-Ios a todos – mesmo ao predilecto -
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes…
Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher para me poder recusar…

É curioso que ele diga gostar de ser mulher para enganar o amante com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes. Forma de exprimir o desejo de ser amado, como rapaz gordo e feio. Esse capricho de excitar e recusar-se também sugere uma questão: só as mulheres se recusam? O homem não tem o mesmo direito? O poema data de Fevereiro de 1916. Em Março, segundo José Araújo, Mário conhece Helena. O que é que ele, na sua condição masculina, não pôde recusar-lhe? O éter ou a estricnina? No fundo, não cabe dúvida na constatação de que a literatura de Sá-Carneiro é um extenso delírio erótico. Nesse delírio, o aspecto homossexual é presença insofismável.

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Para terminar, o “Último soneto” (ops!) do poeta:

Que rosas fugitivas foste ali!

Requeriam-te os tapetes, e vieste…

- Se me dói hoje o bem que me fizeste,

É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi

Quando entraste, nas tardes que apareceste!

Como fui de percal quando me deste

Tua boca a beijar, que remordi…

Pensei que fosse o meu o teu cansaço -

Que seria entre nós um longo abraço

O tédio que, tão esbelta, te curvava…

E fugiste… Que importa? Se deixaste

A lembrança violeta que animaste,

Onde a minha saudade a Cor se trava?…

Sempre poesia

Esse texto, hoje, pode ser difícil para muita gente. Impossível prever ou calcular… Faz um tempo que venho ensaiando falar mais de literatura, meu “campinho”. Sempre sou vencido pela síndrome de Macunaíma: ai que preguiça. De mais a mais, não é todo mundo que tem “saco” de ler tudo o que se escreve por aí. Vá lá… Venço os dois: a preguiça e o desinteresse alheio e escrevo umas linhas a mais sobre o que eu considero (quase) imponderável: literatura!

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

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Esta redondilha de Sá de Miranda, entre outras referências, pode levar a gente a se lembrar de um poema de Maria Teresa Horta – “Minha senhora de mim”:

Comigo me desavim

Minha senhora

De mim

Sem ser dor ou ser cansaço

Nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim

Minha senhora

De mim

Nunca dizendo comigo

O amigo nos meus braços

Comigo me desavim

Minha senhora de mim

Recusando o que é desfeito

No interior do meu peito

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Por outro lado, a gente pode se lembrar de Fernando Pessoa – Autopsicografia –, onipresença na/da Literatura Portuguesa, como Camões, mas isso já é outra história. Aqui, eu quero me lembrar do tímido escritor que gostava de absinto e que dizia que as cartas de amor são ridículas. Aquele que se fragmentou em identidades poéticas múltiplas; um excelente atalho que o retirou, definitivamente, do caminho da loucura. O único caso de esquizofrenia que deu certo, como costumo brincar!

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

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Trata-se de um conflito interno belamente descrito, nos três casos! Do século 16 ao 20, num salto que só a Literatura permite dar, a gente vislumbra como “mudam-se os ventos, mudam-se as vontades” e a dúvida essencial permanece. A gente não sabe direito quase nada do que acontece ao redor… Quantas vezes a gente passa por isso! Quantas vezes a gente encara a si mesmo como um inimigo! Mas ninguém pode fugir de si mesmo! Belíssimo texto do século XVI. Apesar da forma medieval, é típico da estética renascentista: o trovador revela o seu conflito interior. Trata-se de uma problemática cheia de atualidade. Às vezes é tão difícil esta convivência forçada. Não poder fugir de si mesmo. Mas também se fosse possível: para onde ir? Será que haveria alguém disposto a aceitar a inevitabilidade dessa situação? Reflexões para uma noite de primavera também… depois para o outono)!

Sá de Miranda nasceu em 1485 em Coimbra e concluiu seus estudos na Universidade de Coimbra chegando a ser Lente substituto. Foi contemporâneo de Camões e alguns historiadores chegaram a dizer injustamente que os dois eram rivais por, nunca ter decerto estabelecido um paralelo historiográfico da temática dos dois poetas. Sá de Miranda foi o primeiro a debruçar-se sobre o problema da angústia ou, como hoje se diz vulgarmente, a depressão: enquanto quase todos os outros poetas se contentavam e se encantavam com outros temas mais facilmente entendidos como o amor e as cantigas de escárnio e mal dizer. Quase, sim, pois a gente não é capaz de abarcar a totalidade do real, nem em sonho!

Em seus versos, ele faz a gente se deparar com a sensibilidade a partir do exercício de auto-observação e análise tão profunda da melancolia que só muitos séculos mais tarde haveriam outros poetas – para não citar Freud e todos os outros – que debruçar-se-iam sobre essa problemática existencial. Esse poema, ao lado dos outros, leva a admirar o pioneirismo numa época em que decerto não seria tão bem entendido. É certo que ele trouxe de Itália, onde esteve, o soneto, a ode, o drama em prosa e a elegia, mas é merecedor de admiração por seu pioneirismo.

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