Mais um trecho

Ele se sente fora do mundo, algo assim como um quadro que sai de seu lugar próprio numa casa e se perde pelos descaminhos do tempo e do espaço, nas andanças do destino. A internete não funciona. Pela televisão o tempo escorre em paisagens – algumas conhecidas – da cidade do Porto. Sotaque português que faz recordar os dias que passou na terra de Camões e Eça, também depois de grave e caudaloso curso de tempo. Memórias. O corpo não muda mais, não é mais possível recuperar um tônus que, amiúde, antes de se perceber a passagem do tempo, enchia de energia cada movimento e, como quê, exigia compensação – não raro da ordem do sexual – para se fazer continuamente em movimento, não necessariamente lascivo. Mas movimento que, junto à língua, faz pensar na possibilidade do amor entre falantes de línguas absoluta e radicalmente afastadas fonética, ortográfica, sintática e semanticamente. O corpo se deforma: não mais a moldura nodosa de carne, qual serpente de corda grossa a envolver a ossatura que não perde seu tônus. Não mais a mesma flexibilidade lépida e ágil dos verdes anos, que dourados passaram, numa vitalidade que agora é memória conservada na sabedoria dos movimentos contidos e mais sensatos que a “saúde” – fruição, alegria/felicidade, qual vinho rubro envelhecido em tonéis de carvalho: mais “encorpado” – demanda. Na velocidade do pensamento, respirando com o ritmo do coração, a memória faz enxergar palavras que questionam valores que, antes, mais que lemas, eram obrigações éticas. Andre Gide diz: O primeiro dever dos discípulos é jogar fora a lição dos mestres”. O tempo passa, as lições se aprendem. O tempo passa…

Impressões para romance

images[1]

Sou pretensioso. Quero escrever um romance. Quem sabe um dia. Enquanto isso, como agora, registro passagens. Escrevo trechos. Penso migalhas para, quem sabe um dia, vir a transformar tudo isso em “matéria narrativa”, ainda que, ao fim e ao cabo, a gente jamais seja capaz de dizer e-xa-ta-men-te o vem a ser isso, mesmo com todas as leituras, teorias e elucubrações dos mais renomados e eminentes medalhões. Nesse enlevo de devaneio em tarde modorrenta, encontrei, num banco de praça, um caderno. Fiquei um tempo na dúvida: pego ou não pego? Ninguém me conhecia naquela cidade (fica ao norte de Minas e não é lá muito grande). Ia ficar por ali apenas dois dias e o primeiro já se tinha ido. Mais dúvida e insegurança. Fiz hora, olhei para os lados. Demorei mais um pouco e, finalmente, venci a vergonha, o embaraço, o medo de ser pilhado. Peguei o dito cujo. Não havia muita coisa escrita. Na verdade, estava quase em branco, a não ser pelas últimas páginas – fato estranhíssimo – que mostravam alguns parágrafos que transcrevo abaixo. Resolvi copiar, entre sôfrego e amedrontado. Já não era tão cedo, a luz escasseava e eu tinha esquecido meus “olhos de ler” no hotel. Copiei. Deixei o caderno no banco da praça e corri para o hotel. Guardei a cópia que abaixo segue. Depois voltei à praça, como quem não quer nada, e fiquei no passeio, à frente de um bar – numa dessas mesinhas esdrúxulas de plástico. Observava o cair da noite. Entre um chope e outro, tentei vislumbrar o banco em que fiquei sentado, copiando. Não consegui divisar o caderno – talvez por fraqueza de foco visual, talvez pelo enevoamento leve e gostoso do álcool. Até hoje estou na dúvida: o dono o reencontrou? Alguém foi mas corajoso que eu e o levou para casa? As “margaridas” o recolheram ao serviço de limpeza urbana? Uma alma caridosa – geralmente senhora ou senhor de certa idade – o entregou para um policial que, porventura por ali passava? O que terá acontecido, meu Deus, com aquele caderno? De quem seria? Por que fora deixado ou esquecido ali? Perguntas e mais perguntas e nenhuma resposta.Penso que é um incidente interessante para constar de um romance. Eu e minha pretensão ficamos satisfeitos! Segue a cópia!

“Faz algum tempo, numa escola em que trabalhei, os alunos do segundo ano reclamavam comigo sobre a obrigatoriedade de uso de uniforme na escola. Diziam que era feio, que a camiseta tinha uma cor horrorosa e que o logotipo do colégio era medonho. A única “vantagem” que viam era poder usar o tal “uniforme” (na verdade, apenas a camiseta) com jeans. As freiras não exigiam o mesmo calçado. Comecei a rir. Quando me deram chance, pedi a eles que se olhassem uns aos outros, atentamente. Depois de alguns segundos perguntei: o que vocês usam para carregar o material de vocês? Resposta uníssona: mochila. Que tipo de calçado vocês preferem usar? De novo, a uma só voz: tênis. Por fim, arrisquei: que tipo de calça estão usando? Uníssono, para gáudio da “galera” (ops… um anacronismo…): jeans. Deixei que ficassem me olhando, em silêncio – entre interrogativos e superiormente gozadores, como soe acontecer com boa parte dos “aborrescentes” do planeta – e disse: e são vocês a reclamarem de uniforme???

Agora, lembrando disso, fico pensando nos “rapazes” e “moças” – entendam estas aspas como quiserem – que estudam onde dou aulas. A cada dia que passa, firma-se mais a minha convicção de que estamos parados no tempo, em certo sentido. Um ex-colega costumava dizer que havia uma cabeça de burro enterrada embaixo do prédio magnífico. Prédio mais que centenário, que guarda em suas paredes histórias que linguagem alguma é capaz de contar. Os documentos existenciais ali arquivados ficarão eternamente no oblivium,por impossibilidade de expressão. Os que ali viveram, os que por ali passaram e os que estão ali agora já fazem parte desta memória que vai ser, um dia, como é hoje, praticamente ancestral. Pois… É nesse lugar que corrijo a assertiva do colega. Penso que não uma cabeça de burro apenas, acredito – cada dia mais – que há cabeças de uma manada de burros. Magotes e magotes dos mamíferos que ali ficaram, soterrados, puxando para baixo as energias que mantêm viva a arquitetura barroca, tombada pelo patrimônio. Digo isso não sem alguma tristeza, pois seria mais que interessante, nesse lugar, plasticamente e visualmente deslumbrante – pela antiguidade – poder contar com todos os confortos científicos em seu interior. Mas não é bem assim. À parte isso, causa-me espanto, para não dizer ojeriza – ó… disse! – a estética do proletariado tardio, dos hippies sonolentos e dos revolucionários renitentes. Essa estética que mistura a falsa impressão de desobediência civil, a camuflada aventura da aprendizagem, o superficial verniz das benesses em falácia didático-pedagógica e o fulgor da vaidade acadêmica. Ao lado desse dramatis personae, voeja, qual mariposas em postes de iluminação pública em dias de forte calor e pouca chuva por vir, aqueles que andam de chinelos de dedo, carregam sacolas de pano e ou mochilas penduradas nos ombros, usam bermudas e camisetas surradas, cabelos despenteados – nisso não são pós-modernos: com a graça de Deus não enfiaram o dedo na tomada para eletrificar os cabelos e/ou empastaram a cabelama com goma arábica, fazendo imagem e semelhança de cacatuas falantes e muito, mas muito eruditas, interdisciplinares, neo-politizadas e muito descoladas, fashion mesmo!”

Hoje, relendo essas linhas, penso na sua autoria. De quem será? Como é que vive ele ou ela nos dias que correm, se é que vive. Se for professor de ensino médio, pode ter sido ameaçado por algum aluno mais exaltado, filho de pai importante na cidade, ameaçando a autoridade pedagógica caso fosse reprovado. Se de ensino superior, pode até ter sido assassinado por um estudante desequilibrado, como aconteceu na capital. Vai ver, participou e um movimento de apoio a alguma estudante mais ousada que resolveu ir às aulas já pronta para a “balada”. Ou então é alguém que não se nota, que entra e sai do prédio em que trabalha sem ao menos ser notado. Terá sido alguém que ainda tem família, ou já vivia só, sem mais parentes, quando escreveu aquelas linhas. Onde ela ou ela estará agora? O que estará fazendo? Dorme vestido(a)? Quantas perguntas meu Deus, quantas dúvidas, quanta curiosidade…

images[10]

Qual dos dois?

images[3]

Um contador de histórias é um escritor? Invertendo os termos: um escritor é um contador de histórias? Isso depende… de tanta coisa… Há quem diga que são dois tipos de atividades diferentes. Isto está certo. Há também que considere que são absolutamente iguais, mudando apenas os “meios”. Ambos dependem da linguagem, ora escrita, ora falada. Mas um texto escrito não fala? E o texto falado não pode ser gravado e transcrito? Por que será, então, que alguém cismou de afirmar que s ão diferentes? Será que apenas para causar celeuma e poder inaugurar  mais um capítulo naquilo que se convencionou chamar de Teoria da Literatura? Sei não…

Depois de muitas horas de espera e muita energia elétrica consumida, consegui “baixar” os nove capítulos da série televisiva O tempo e o vento, adaptação do romance homônimo de Erico Verissimo. Li os sete volumes da saga, pouco tempo antes de me mudar para Santa Maria-RS. Qual não foi minha surpresa quando, em lá chegando, sedento por satisfazer minha curiosidade visual, perguntei, para deboche geral, onde ficava Santa Fé. Não contente, ainda acrescentei que queria muito conhecer a cidade em que “tudo” ocorreu. Mais risadas… Santa Fé não “existe”, de fato. cruz Alta é o nome da cidade que, em certa medida, de certo modo, serviu de “base” para a criação romanesca da Santa Fé, cenário de parte importante da saga relatada pela pena do escritor gaúcho, Minha impressão foi muito intensa, muito forte. AP final da leitura, queria muito pisar o mesmo chão de Bibiana, já velha. Rodear a famosa figueira. Olhar para o horizonte embaçado pela névoa, companheira inseparável nas manhãs dominadas pelo minuano. Quem já viveu lá, ou passou por lá no inverno, sabe muito bem do que estou falando… No entanto, Santa Fé não existe. Nas páginas dos sete tomos (três volumes do romance/saga) ela está incólume, assistindo, entre aterrada e esperançosa o desdobramento de uma rixa mais que secular, visceral. Bento e Licurgo encarnam a fase madura de uma luta que começou silenciosa num descampado gaúcho, varrido pelo vento, quando uma menina dos cabelos escorridos e olhar forte respirava a vontade de se ver num espelho de verdade. O índio explicita a sina: quando ela se vir no espelho, ele morre. Dito e feito. Pedro Terra é o primeiro de uma série de homens e mulheres que vão “povoar” o rincão gaúcho, guiados pela mão firme de Ana Terra. Depois vêm Bibiana, Rodrigo, Pedro Terra, Juvenal, Alice, Valéria, Licurgo, Padre Romano e Dr. Winter. Uma galeria de tipos que, na “telinha” ganha carnadura de talento. Lélia Abramo, impecável como a Bibiana velha e um tanto confusa com suas lembranças. José Lewgoy (apesar de não ser muito fã dele) grandioso como Bento Amaral, aquele que ficou se vangloriando pela ausência da perninha do “erre”. Insuperável, o Rodrigo vivido por Tarcísio Meira. Galeria de tipos consistentes e fortes. Cast de respeito, que soube encarnar com delicadeza, sensibilidade, força e determinação a personalidade daquele povo gaúcho, no “raiar” de sua gente, sua terra.

E a pergunta continua sem resposta. Erico Verissimo escreveu o romance. Para mim, mais que isso, ele contou uma história. Ambas as atividades, com mão firme e senso de beleza e realidade. Ele foi escritor ou foi contador de histórias? Terá sido ambos? Foi nenhum dos dois? Quem saberá, mesmo, responder? Continuo desconfiando de que, no momento em for possível responder definitivamente a perguntas como estas, a Literatura vai perder a sua “graça”. Já não será preciso decidir entre “isto ou aquilo”. Saudades de Cecília…

imagesCAXLRRDQ

Para romance 3 – Razões

“Encontrei a razão e o motivo para escrever. Ele é alto, muito alto. Cabelos avermelhados, arrepanhados num rabo de cavalo muito bem preso. O resto recortado e grande, emoldurado por dois olhos cor de avelã e a boca, carnuda e vermelha. Malares proeminentes completam o quadro viril que vai ostentado por uma musculatura bem definida e forte, sem exagero. Veste-se de maneira comum, sem estereótipos ou gestos estudados. A primeira impressão é de força e poder. Mãos grandes, pernas possantes, costas largas e voz doce. Contrastes… Escreveu durante os anos de convivência com Daniel os seus seis cadernos. Jamais se tocaram. Quando Daniel chegou, ele serviu-se de mais chá e retomou a escrita. Onze anos haviam se passado e muita coisa mudou. Os cadernos meticulosamente guardados, ostentavam numeração seguida. O quatro era o mais volumoso, mas o sexto parecia conter informações mais consistentes. Não sei exatamente de onde tirei essa ideia. Talvez, depois da conversa com Daniel, esse insight tenha acontecido. Samuel era russo de origem e viveu muito tempo sob o sol da Toscana, onde conheceu Vera, com quem quase se casou. Ali começaram as especulações dos outros editores. Daniel me conta que Samuel o amava “à distância”. Isso não era amor platônico. Misto de respeito, medo e insegurança, Samuel não sabia outro modo de se fazer feliz a não ser sendo o arrimo de Daniel. A rima, nos nomes, ajudava a composição quase melancólica da história de amor que os dois viveram. Sem sexo, sem ciúmes, sem planos. Os anos passarm entre as viagens à Itália, na vindima; à Grécia depois do verão, e à América do Sul, para o negócio do vinho. Sempre juntos. A investigação policial que se espraiou sobre aqueles meses de tormento, explica a ausência às duas últimas apresentações do grupo de teatro de que tanto gostavam. Interessaava-me mais ler os cadernos. Samuel conheceu o detetive por conta de um rapaz português que se apresentou à cafetina, gerente de um bar sórdido, perto da estação ferroviária. O “alfacinha” vinha atrás do tal cantor de fado que desaparecera. Ele disse ter chegado da América do Norte, depois de passar boa parte da juventude trabalhando numa casa de campo, no norte de Portugal. Contou uma história esquisita sobre a família, masi esquisita ainda, com quem passou os últimos quatro anos. O cantor de fado não me interessa. A história do rapaz português também não. Os outros editores se ocupariam disso, com prazer. Estava interessado nos cadernos de Samuel. Isso é que me ocupava o pensamento enquanto andava na direção da estação de trem.

Personagens de um romance bem escrito, Daniel e Samuel, a cafetina, o cantor de fado, o rapaz português e o detetive, o grupo formava o dramatis personae de uma história que eu gostaria de ter escrito. Só de pensar na descrição de Samuel, ficava excitado. Fantasias se alimentavam das palavras do livro que a cada página fascinava mais e mais. Um livro que se diferenciava de últimos que tinha lido. Uma história bem contada, bem escrita, sem a preocupação de “inventar moda”. Uma história bem contada. Trama bem urdida que excitava e consumia a atenção, fascinando a mente na busca de continuar seguindo as linhas como pistas para solução de um enigma. Mas não havia enigma. Havia Samuel e seus seis cadernos: esse era o enigma, se assim se pode dizer. Cada página do livro fazia com que aumentasse a curiosidade pelo que poderia vir a ser o outro livro: o que nasceria da edição dos cadernos. Olhar para os cadernos era um exercício diário de prazer: como sonhar com Samuel. Tentar estabelecer contato com essa possante mão de homem russo, a escorregar entre as pernas, num aperto sôfrego que fazia tremer. O prazer era muito grande. Só as muitas páginas de um livro, talvez, fossem capazes de estabelecer uma descrição condigna. Páginas de um livro. Esse era o universo do tormento de Samuel. E eu, no rastro de sombra que esse homem deixava atrás de si, seguia, melancólico, buscando encontrar fios de meada para começar outra trama. Ele merecia isso. Eu é que não sei se seria capaz de fazê-lo! O fato de ser descrito como russo pouco importava. Mas esse mesmo fato alimentava a fantasia: o mito do homem russo. Cheirava a força e sensualidade, uma sensualidade envolta em neve e peles, no meio do vento frio que agora sopra e faz a janela bater. Virilidade. Bate a janela e levanto os olhos para ver que horas são. Deixo o caderno de número três aberto e vou preparar chá…”

Três vidas

“A presença física não é prova de nada. O lugar onde vivemos é o lugar que habitamos em espírito. E, em espírito, nunca regressei. Estou espalhado pelas almas de todas as pessoas que conheci, de todas as coisas que, por lhes ter tocado, modifiquei. Irás aprender isso com o tempo. Um homem não é uma entidade, são muitas e, se não nos decidimos, a tempo certo, por uma delas, acabamos em retalhos.”

Parece até trecho de livro psicografado por algum medium, ao sopro do espírito desencarnado de alguém importante, ou simplesmente caridoso. Até parece… Mas só “parece”! Esse é o trecho que está à página 135 de As três vidas, romance João Tordo, o mais novo enfant gaité da cultura de letras em Portugal. Ele ganhou o prêmio literário José Saramago de 2009. Daqui a duas semanas vou conhecê-lo, aqui em Zagreb. Um rapaz jovem, que escreve, dizem, muito parecido com Paul Auster. Li Paul Auster, mas não me lembro direito de sua escrita. Pelo sim, pelo não, deixo a nota, ainda que essa “coisa” de “escreve parecido a”, acrescente, na verdade, pouquíssimo, ao prazer da leitura de quem quer que seja. Antes de mais nada… ler!

image

As três vidas é um romance interessantíssimo, em que Portugal aparece apenas como referência espacial/contextual para duas ou três personagens que circundam e que se relacionam com o protagonista da narrativa. Isso chama a atenção. Sem malabarismos verbais, sem a invencionice de escrever tudo em minúsculas, sem o arroubo de não pontuar frases em parágrafos caudalosos e imensos, João Tordo “conta” uma história. Há quem torça o nariz para esse tipo de “atitude” literária. Os “pós-modernos” de plantão não vão gostar, de jeito nenhum – mesmo que se possa aproximar João Tordo de Paul Auster. Mas quem gosta de “Literatura” vai aplaudir. Não digo aplaudir de pé, mas aplaudir. O rapaz escreve bem, sim, de verdade, e constrói uma NARRATIVA de muito bom gosto, do tipo que faz a gente pensar, do tipo que propõe novos ângulos de abordar a realidade, com procedimentos de escrita que em nada e por nada ficam a dever alguma coisa. Texto que flui, história que envolve, seduz, emociona. Há algum mal nisso? Ando com saudades de “Literatura” e ainda há tanto para ler…! A saudade, porém, não me impediu de sentir prazer ao ler as páginas desse romance mais que bom! A passagem que citei deixou-me emocionado, depois de um pouco atordoado. Senti-me inteiro nela. Vi-me como diante de um espelho. Creio que qualquer pessoa que sai de seu local de origem e passa a viver em outros lugares, mesmo que por tempo limitado – ou exatamente por isso! – vai constatar o que constatou a personagem principal de As três vidas: um rapaz que, por precisar de trabalho/dinheiro para cuidar da mãe doente, depois do falecimeto do pai, se envolve com uma família estranhíssima. Filosofia, política, espionagem e existencialismo, eu diria, podem ser algumas das referências culturais que amoldam o relato ficcional, de grau superior, do/no livro. Quem puder ler… vai gostar!

image

Mais uma surpresa boa

Cal, de acordo com o Dicionário Houaiss, é um substantivo feminino: pó branco constituído principalmente de óxido ou hidróxido de cálcio, usado na construção civil, em fluidos de perfuração, em cerâmicas, na clarificação de óleos, em tintas, revestimento contra fogo, tratamento de água, na manufatura de papel, como adstringente, etc. Qualquer produto (pulverulento, pastoso etc.) resultante da hidratação da cal virgem. Etimologicamente, a palavra vem do latim vulgar – cals (derivado do acusativo) que, por sua vez, vem do latim calx, calcis – cal, pedra de cal, com origem no grego kháliks; provindo pelo espanhol cal. A viagem é longa. De tudo fica um pouco: logo, pode-se acreditar quando dizem que “cal queima”!

A ideia de fim, de morte, de consumição, não passa ao largo quando se pensa nessa palavra. Pensar na palavra, pensar com a palavra. Isso é poesia! É isso o que faz José Luis Peixoto em seu livro Cal. Título sugestivo, sui generis, instigante e inesperado, dado que trata, em sua maior parte, da velhice, aquele período em que tudo parece se acabar, queimar no próprio calor da vida que vai se extinguindo lentamente. Inexorável destino da humanidade! São 17 contos, três poemas e uma peça teatral sobre a velhice. Velhice. Alguma coisa que assusta e instiga, alguma coisa que faz com que muita gente sinta medo; alguma coisa que não agrada a muita gente. Alguma coisa de inevitável!

clip_image002

A imagem da capa, na edição que li, funde duas fotografias: a mão engelhada de uma pessoa velha e uma parede caiada. Como se a pele daquela mão tivesse a mesma natureza da superfície rugosa daquela parede. Corpo e casa à mercê do tempo, como sinais de uma memória que é sempre o ponto de partida para os textos de José Luís Peixoto. Sejam eles contos, poemas, crônicas ficcionalizadas ou peças de teatro. Cal, editado pela Bertrand é o sexto livro de prosa de Peixoto e reúne 17 contos publicados em jornais e revistas, uma peça teatral. Todos com um tema comum: a velhice; naquilo que tem de belo, de melancólico, de exaltante ou de trágico. No fundo, o autor juntou textos dispersos que só fazia sentido recuperar pelo fato de serem atravessados por unidade temática forte, determinante. O autor sempre escreveu bastante sobre a velhice (há velhos em todos os seus textos), porque é “uma idade muito importante e muito subvalorizada”. O seu interesse literário não se centra na velhice em si mesma, com a sua sabedoria, os seus sobressaltos e rituais, “mas mais na passagem entre as várias idades e a forma como se lida com isso.” Em Cal, à semelhança dos outros livros, os velhos vivem quase sempre num meio rural que José Luís conhece bem, porque viveu até ao fim da adolescência na aldeia de Galveias (concelho de Ponte de Sor). As figuras curvadas que trabalham no campo, fenecem ao desalento da escuridão das casas, vendem uma burra aos ciganos como quem vai para o cadafalso, ou acreditam que a sua horta de sempre cresce no espaço limpo e puro de uma enfermaria hospitalar (ainda que nem sempre, infelizmente, seja assim!). Tudo é, muitas vezes colagem exata de pessoas que o autor conheceu, ou de quem ouviu falar. Há mesmo nomes reais que assomam às páginas, dando uma dimensão humana fortíssima às histórias, várias delas com um assumido cunho autobiográfico: “De certo modo, quis preservar, através da escrita ficcional, a dignidade das pessoas que me fizeram ter consciência de que a velhice não é só uma questão de decadência física. Às vezes é também o exacto contrário disso.”, diz o autor! Há razões mais subterrâneas que levaram Peixoto a escolher o título: Cal. “Não foi só a identificação com o Alentejo, não foi só a brancura, não foi só a ideia de uma espécie de cristalização das casas, que as conserva e as paralisa no tempo. Foi também a noção de que a cal é uma matéria perigosa, uma pedra que ao colocar-se dentro de água ferve, queima e se cai nos olhos cega.” Metáfora perfeita, também, do que é a escrita. Eduardo Prado Coelho diz que “a grande força de José Luís Peixoto está no modo como narra histórias que se dobram para dentro da sua própria loucura e no fio puríssimo de luz com que as vai reunindo e salvando do esquecimento”. Palavras de sabedoria. O texto de José Luis não desmente a acuidade do olhar do crítico. Como fio puríssimo de luz, uma ausência presente atravessa os gestos e as emoções destas figuras. Em cumplicidade com a morte, a vida torna-se mais límpida, talvez mais pura. A luz – força redentora de suas personagens –, é certamente um dos fios condutores do texto. Quem gosta da escrita deste autor português, irá certamente reencontrar palavras e frases ao estilo daquelas que podem ser a razão de se gostar do estilo de escrita de José Luís Peixoto, um estilo bastante característico e que desperta no leitor determinados sentimentos que fazem pensar e reviver memórias ou detalhes esquecidos ou que estão adormecidos. Para quem não conhece, fica a recomendação, com a condição de aconselhar apenas às pessoas que queiram ler algo que lhes faça refletir ou que estejam à procura de algo calmo, estejam à procura de encontrar pessoas simples e com elas reviver determinados momentos das suas vidas, momentos distintos, acontecimentos distintos, personagens semelhantes, mas distintas. Poesia, para dizer tudo numa única palavra.

clip_image001

Encontros

“Luizum e Luizoutro se encontraram, assim por acaso. Não sabiam da existência um do outro. O abraço, na porta do banheiro, depois do almoço. Um ficou sereno e direto, com intenção mais que clara! Suspense… Outro, mais que deslumbrado. Os braços de um, cordas grossas de músculos retorcidos, harmoniosa e sensualmente enovelados, deixou o outro quase sem fôlego. Aperto de carnes no calor de quase verão. Arfar de pulmões excitados pelos cheiros que evolavam. Desejo. A conversa correu solta durante o resto da tarde. A euforia do grupo não deixava dúvidas sobre o sucesso do encontro, afinal, era a primeira vez que acontecia assim, desse jeito, nestas circunstâncias. Mais que mil motivos para comemorar. O jantar anunciava! Papo vai, papo vem, um começou a contar sua história ao outro. Fui casado e tive duas filhas. A vida corria solta e não havia mais que os motivos “normais” para pensar que estava tudo bem. Estava tudo bem. Num sábado, passeando com minhas filhas pelo shopping, notei que um rapaz olhava insistentemente. O riso solto, quando o sorvete da mais nova caiu. O cartão que deixou na minha mão quando passou. Se eu soubesse… Estranho encontro aquele. Mas não me perturbei e fui pra casa. Dias depois resolvi telefonar, pois não sabia explicar a curiosidade. Estamos juntos desde então. Chamei meus pais, minhas filhas e a mulher. Fomos jantar fora e contei tudo, assim de supetão. Um choque, claro. Um dia, depois outro. Faz quinze anos e nem sei mais o que dizer a respeito. A gente se dá bem e minhas filhas não se abalaram muito. Meus pais se assustaram e, depois do impacto, a mulher se acostumou com a ideia. E você, contou para seus pais? E onde é que está escrito que eu tenho que contar? Por acaso há alguma lei que obrigue o cidadão a se colocar um rótulo e sair mostrando em público? Não. Não me preocupo com isso. Você então vive uma vida dupla, escondida. Negativo. Não. Mas então “tem” que contar! Meu amigo, chamei meus pais e lhes disse que eu não podia realizar seus sonhos, que eu era um homem diferente dele e que ela não podia cobrar de mim uma atitude que eles tomaram juntos. Não ia querer fazer infelizes a uma mulher, a possíveis filhos e a mim mesmo. Não! Não “contei”. Repeti que tinha sido educado para ter responsabilidade sobre meus atos. Lembrei a eles que eu podia contar com eles em caso de necessidade, segundo a mesmo educação. Logo, eles que respeitassem a minha individualidade. Não é pelo fato de que meu avô desejou que meu pai se casasse, que eu ia me casar. Eu não gostava da idéia. Jamais me senti capacitado a “criar” alguém. Não, não contei, mas deixei bem claro, despudoradamente claro, que eu era uma pessoa dierente deles e que isso era suficiente para que eles continuassem desejando a minha felicidade. Não contei. Não foi preciso. Mas você tem que contar! Olha só, não contei e não vou contar. Se você fez o que fez e se sente bem com isso, que bom pra você. Eu não preciso fazer o mesmo, eu não “tenho” que fazer o mesmo! Se a conversa vai por aí, o papo fica por aqui!

Mais dois dias transcorreram com o mesmo entusiasmado clima. Um e outro se cruzaram muitas vezes e não houve constrangimento. A não ser no momento da fotografia. Olha o passarinho! Sorria! Você “deve” mostrar “orgulho”! Orgulho de quê?!”

De um romance qualquer – 3

“Ele era baixinho. Estava vestido de maneira casual: tênis, jeans uma camiseta com frisos vermelhos nas mangas e na gola. Não era bonito. Não. Era um tipo comum, um… chaveirinho mesmo! Tinha um nariz reto, perfil quase etrusco e dançava como um gogoboy enlouquecido pela música que, alta, movimentada uma parafernália enorme de luzes. Ilusão de modernidade, sonho e delírio de prazer movido a álcool, água mineral, talvez ecstasy ou cocaína. O que importa? Na verdade, ele sorriu como Gioconda, revirando os olhos que pareciam negros – à distância – quando a música acelerava o ritmo. Malabarismo de um corpo em êxtase musical. Reviravoltas dos braços. Um relógio grande bem visível, desses que andam na moda, no pulso esquerdo. Um rapaz comum, que mexeu com “brios”. Depois dos 40, o ânimo de dançar all night long se esvai rapidamente, como éter. Não dá mais pra segurar uma onda como esta. Não vale a pena. Mares já navegados: o lugar da praia não muda. Mas é bom olhar. Olhar e sonhar. Sonhar e sorrir. Olhar e esperar, para nada acontecer, de novo. Ele dançava e, de vez em quando, olhava para trás. Havia muita gente junto dele. Havia outro rapaz, da mesma estatura, mais bonito, bem mais bonito. Este chegara com um casal straight. (Não é bom ficar fora da moda. Há que usar o jargão da moda: mostrar que se sabe Inglês…). Camiseta regata azul, corpo bem mais “trabalhado”. Cabelos compridos e um sorriso fácil, destes que conquistam a qualquer um, de imediato. Dançava também, muito. Muito e gostoso. Sempre sorrindo, na dele. Não fixava o olhar em nada, em ninguém, quase um típico clubber, a não ser pela aparência comum, de rapaz de cidade, de homem que, ainda jovem, entrava pela primeira vez (será mesmo?) numa boate gay (nossa, esta expressão cheira a idade, a tempo passado, a velhice…). Acompanhado de um casal que queria se divertir num lugar… diferente! Animado! Alternativo! A música era estridente. Demais para conversar, ou tentar ouvir direito o que o outro dizia. Ambos estavam ali debaixo do nariz de todo mundo. Do outro lado do parapeito recheado de grandes almofadas que já serviam de piso macio para os passos cambiantes de uma trouppe desconhecida e, ao mesmo tempo, por demais vista, revisitada. Todos os finais de semana. O mesmo ritual. Nada de ir embora, mas não queria ficar (Dá pra entender?). No meio da confusão, por várias vezes, o rapaz de camiseta branca e relógio grande olhou para trás. Não o suficiente para despertar mais desejo. Não muito, o suficiente, para fazer ficar. Não tinha mais ilusão. A água com gás acabou. Poucos degraus até a portaria. Pagar a conta e sair. Automaticamente, sem olhar para trás. Não era tarde, mas a rua estava deserta. As mesmas caras sonolentas dos motoristas de táxi, esperando os fregueses que poderiam ir para qualquer lugar. Uns para a zona sul, outros para a estação do metrô, outros para um motel. E havia os que iam andando pelas ruas da cidade, no meio da madrugada, como personagens dos contos de Caio Fernando Abreu. O clima é sempre o mesmo, o cenário é sempre o mesmo. Mesmas as ilusões. O tempo passa e parece estar cristalizado em imagens ofuscadas pelo álcool e pelo sono, pelo desespero… nunca! Isso não. Ir para casa e pensar, mais uma vez, antes de dormir, no rapaz de camiseta branca, de perfil quase etrusco, o que dançava e olha para trás, suponho…”

De um romance qualquer – 2

“Num momento de pura desatenção, desvio o olhar da tela da TV e fixo o olhar na sola dos meus pés. Tenho, no momento exato do olhar, a certeza de que dificilmente alguém ainda vai tocar os meus pés. A única exceção, além de mim, é claro, é a podóloga, que deles cuida a cada 40 adias. Ela cobra caro, apesar de um serviço competente e limpo. Mas a micose da unha do dedo mínimo, do pé esquerdo, principalmente, não tem jeito. Continua lá. Quem é que poderia se interessar por isso? Quem vai pensar nisso quando olha pra mim, se é que alguém ainda olha pra mim. Modéstia falsa de lado, sei que as mulheres olham, sei que elas me desejam. Quando estou bem vestido e tudo mais (vou morrer sem saber, exatamente, o que significa este tal de “tudo o mais”). Elas não interessam. Nunca interessaram. Muitas delas ficam no mesmo lado da rua, na mesma calçada, só para passar do lado. Desvio do caminho, troca de calçada. A intenção é ser altivo e demonstrar desdém. Será que alguma delas já percebeu? Elas nunca interessaram. Será que alguma delas já percebeu isso também? Se isso já aconteceu, por que nenhuma delas nunca disse diretamente que havia percebido o desdém, o descaso? A indiferença? Não há nada que incomode mais o ser humano que a indiferença. Sempre repito isso e não sei de onde, exatamente, esta idéia me surgiu… Será que li em algum lugar? Será que alguém disse isso e meu inconsciente gravou, como desculpa para me livrar de certos constrangimentos? Nunca vou saber… Olho para os meus pés e sei que, muito dificilmente, alguém vai tocar neles, de novo. Não adianta a preocupação com a limpeza das unhas, a maciez da pele. Não vão tocar nele de novo. Por vezes, esta certeza me assusta. Em outros momentos, a mesma certeza faz com que eu perceba que não há como mudar o ritmo do tempo. Cronos é absoluto. Nada de resignação passiva. Ceticismo. Ceticismo em sua melhor acepção. A certeza de que existe uma verdade, ainda que seja impossível identificá-la e comprovar sua existência. Sabe-se desta existência e pronto! Há uma possibilidade muito remota, como remota é sua possibilidade. Crescer. M. é infantil, apesar de sua idade, apesar de sua experiência de vida, apesar de sua segurança e de suas responsabilidades. Sua reações são infantis, sua afetividade é tão infantil que chega a doer. Da mesma forma que F. Esta sim, uma profissional, até onde eu posso saber, competente, mas igualmente incapaz de separar certas coisas, em certas ocasiões. Com faca e o queijo na mão ela, literalmente, não consegue enxergar o fio de corte e visualizar a espessura a fatia de queijo que acaba por não comer. Sempre assustada com a morte, sempre às voltas com o fantasma de seu pai a quem sempre foi tão ligada. Foi companheira por muitos anos. Acompanhei a sua ‘evolução’, as suas primeiras ‘experiências’ e sempre me perguntei porque ela era incapaz e vencer certas ‘dificuldades’. Por que não conseguia enxergar o óbvio que, repetidas vezes, se apresentou diante de seus olhos? F. Uma pessoa igualmente despreparada para vencer a dificuldades que a convivência – aquela que se nutre dos percalços do tempo que não pára, apresenta a cada um de nós. De todo o grupo ficou uma saudosa lembrança: T. Não vou gastar meu tempo falando de D. Não vale a pena. Virginiano compulsivo, astrologicamente falando, nunca conseguiu enxergar além de seu próprio nariz. Sempre confundiram seu egoísmo com equilíbrio de auto-centramento. Não vale a pena comentar, sequer mencionar qualquer outro detalhe. Não vale a pena. T. deu certo! Esta é a melhor forma de expressar o que se pode perceber dele e a respeito de toda a sua trajetória. Desde cedo ele foi objeto de minha admiração. Mesmo longe, ele dá sinais de que ‘deu certo’. Apesar de repetir que, como todos o demais, vive com uma mala pronta no corredor, ao lado da porta principal de casa, ele deu certo. Não volta mais, não tem que voltar. Não precisa voltar, vai desperdiçar todo o ‘investimento’ que fez a troco de nada. Só por conta de uma axiomática experiência natal? Só porque suas raízes não se convencem a aprofundar caminhos em terra estrangeira? Não vou desistir de sempre de aconselhar T. A ficar, exatamente onde está. No entanto, contrariando meu desejo, fico sabendo que se aposentou. Fico sabendo que anda reclamando de solidão. Fico sabendo também que anda pensando em voltar. Agora não vou mais dar conselho, a relatividade de tudo me aconselha a escutar. É bom olhar para os próprios pés de vez em quando. O pensamento flui, as idéias aparecem se tornam um pouco mais suportáveis. Exatamente por este caráter obtuso e desencontrado que marca o ato tão banal e sem sentido de olhar para os próprios pés. Ainda que se chegue à cruel conclusão: é muito difícil que alguém ainda venha a tocar neles…”

De um romance qualquer – 1

“Olho para as fotos e logo me apaixono… Eles são tão bonitos, têm corpos tão perfeitos (dentro dos padrões que parecem vigir e expressar a verdade)… Mas que coisa… Não consigo explicar o que se passa: a imaginação sempre ajuda, a isenção falha, a vontade impera e eu continuo me sentindo parte de suas vidas. Eles sequer sabem que eu existo e se soubessem bem, não sei especular por aí… Não sou único e a certeza dessa certeza me deixa pensar que, afinal de contas, o mundo é feito de ilusões, de conquistas, de desastres, de sonhos, de decepções e encontros, desencontros do destino e a fatalidade imponderável de estar vivo. Só isso, estar vivo, já bastaria para encher as páginas de todos os cadernos disponíveis. Mas nem todo mundo escreve. O negócio é que eu olho para eles e fico pensando no que é que eles poderiam estar pensando quando foram fotografados, filmados, maquiados, tocados, usados. Onde é que fica o livre-arbítrio deles? Fico imaginando se alguns deles (será que é a menor parte?) ficam pensando que querem estar longe dali o mais rápido possível. E começo a sonhar de novo. Se eles cruzassem comigo, poderiam se apaixonar instantaneamente, de uma maneira fulminantemente incontornável. Isso faria com que eles vencessem qualquer obstáculo e, sem qualquer pudor, se colocassem diante de mim e dissessem isso: eu quero ficar com você. Não ficar, ‘ficar’, mas ficar… mesmo! De maneira que não é possível pensar em outra maneira qualquer. Bobeira? Tontería? Imaginação? Qualquer nome vai servir para identificar isso que ocorre com todo e qualquer ser humano, basta estar vivo. Quem negar, mente, ou não consegue enxergar o óbvio ululante… Ontem foi mais uma terça-feira de outono…”