Presente de Natal

Li o livro. Na verdade, reli o livro. A lembrança insistente – prazerosamente insistente – da pergunta do Artur, com sua voz mansa e profunda me levou à releitura. Que prazer. Nada a mudar naquele momento de susto, com a pergunta direta sobre o autor. Assim, na lata. Num início de noite de outono, com uma vista linda a espraiar-se pelas vidraças da quinta, no alto de uma colina. O Paço da Quinta de Juste. Ah, Braga… Pois é. A capa vermelha do livro. Nada mais. O nome no meio da capa vermelha. O famigerado formato 14×21 não fez diminuir a sobriedade da capa. Nome em branco sobre espaço vago em vermelho. Sugestivo. Não. Não se trata de uma blague com o livro daquele fiador Chinês. Nem mesmo pode haver qualquer associação com a simbologia “ideológica” da cor. Bem. Neste aspecto, devo admitir, há que ajude a sustentar a tese de que este livro pode, sim, ser lido nesta perspectiva. Não é o meu caso. Definitivamente, não! Não vou gastar o meu tempo, e o de quem me lê (Se é que alguém me lê de verdade… para além de três ou quatro pessoas que, sei, o fazem.) com esse tipo de tergiversação. Quero mesmo é celebrar o prazer e a grat9dão experimentadas nesta releitura, instigada por um encontro revelador, num rincão distante: mais um a manifestar em mim a certeza de vidas passadas. Artur, Alexandra e Esther vão entender. A capa do livro é vermelha. Na contracapa, um trecho. Desse trecho, uma passagem: “Esta cadeira em que me sento, a mesa, o cinzeiro de vidro, eram objetos inertes, dominados, todos revelador às minhas mãos. Eis que os trespassa agora este fluido inicial e uma presença estremece na sua face de espectros…”. Lúgubre? Fantasmagórico?  Alucinante. Não e sim. Depende de quem lê. Vejo aí um prenúncio do que está no miolo do livro. Um professor, o “senhor Engenheiro” chega a Évora. Seu pai acaba de morrer, durante uma reunião de família, à mesa, de repente. Fulminado. A cena, e o fato, são como uma grande sombra a encobrir passagens inteiras do romance. Sim, é um romance. E os bons. O professor é, ao mesmo tempo, protagonista e narrador. As poucas mais personagens são como fantasmas a perambular o espírito de um homem que se posta diante de seu destino, encarando suas vicissitudes e pensando. Sim, ele pensa, e muito. E este pensamento é o que faz a narrativa fluir num misto de poesia e reflexão filosófica. É poesia em prosa, em certos trechos. Os episódios são unidos pela reflexão do protagonista narrador. De fato, “acontece” pouca coisa, proporcionalmente. Mas o que acontece é de fundamental importância para seguir os passos do narrador protagonista em sua senda ficcional. Évora é o cenário preferencial. É aí que se passa a maior parte da trama: o Giraldo, o templo romano de Évora, (equivocadamente conhecido como templo de Diana, dizem), o Colégio Espírito Santo, a Sé. Deu uma saudade danada… Este romance português encontra eco em Lúcio Cardoso, por exemplo. Sobretudo no que diz respeito à sua atenção delicada aos tormentos do espírito e às dúvidas existenciais que acometem o sujeito moderno. É um romance que pode ser alocado, ao lado de outros, como os de Agustina Bessa-Luis, na lista daquelas obras que sustentam o brotar do novo romance português. Ao contrário do que a crítica mais tradicional e convencionada costuma submeter ao nome de José Cardoso Pires, sem tirar-lhe a galhardia e a posição que ocupa no quadro historiográfico do romance português. Outro romance do mesmo autor, Manhã submersa, é voz que ecoa, Em Informação ao crucificado, de Carlos Heitor Cony e Em nome do desejo, João Silvério Trevisan. O clima é o mesmo. A temática, similar. A qualidade poética da narrativa se aproxima, a partir do efeito deste eco. Neste particular, José Luis Peixoto é outro escritor português que, sublimando e alteando a pena de Vergílio Ferreira desenvolve uma narrativa que, de fato, é poesia em prosa. Isto poderia, inclusive, ensejar a consideração de um novo subgênero narrativo, muito distante da prosa poética e do romance intimista, tal o quilate e a preciosidade “poéticas” que a linguagem romanesca de ambos conota. Sim. Estou falando de Aparição, de Vergílio Ferreira. Em comentário a pequeno vídeo, localizado em https://ensina.rtp.pt/artigo/aparicao-de-vergilio-ferreira/, lê-se o seguinte: “Com Aparição, Vergílio Ferreira pretendeu tornar o homem visível a si mesmo. Para o autor, o que se vê melhor é aquilo que não se vê, porque “o que está mais perto dos olhos, são os olhos e aos olhos ninguém os vê”. O romance de Vergílio Ferreira, publicado em 1959, começa com um prenúncio de tragédia: Alberto Soares, o personagem do romance, chega a Évora como novo professor do liceu.  Um homem de luto, sombrio e descrente ainda a refazer-se da morte do pai, acaba de entrar numa cidade católica, branca e luminosa, deixando adivinhar que a sua relação com a cidade não será fácil. Pelo caminho, vai retratar a sociedade fechada e com várias classes sociais de uma pequena cidade provinciana em plena ditadura fascista. Mas, fundamentalmente, vai colocar em causa a relação do homem consigo mesmo. (…) O homem estava completamente só, sem céu, nem inferno, nem eternidade após a morte, mas em busca de sentido para a vida assim mesmo. Vergílio Ferreira torna-se intérprete dessa interrogação existencial, subjectiva sobre a realidade (…). O autor nasceu na aldeia de Melo, junto à Serra da Estrela em 1916. Os pais emigraram para os Estados Unidos quando tinha apenas quatro anos. A sua educação foi dividida entre umas tias maternas e o seminário do Fundão que abandonou aos 16 anos. Formou-se em Coimbra em filologia clássica. O personagem da Aparição, Alberto Soares, (…) faz uma “radiografia” da relação do Homem com a sociedade, com Deus e consigo mesmo.” Agradeço, ainda uma vez, o impulso do Artur, amigo caro, a quem devo esta releitura. Espero que quem chegar a ler o romance também dele goste!

Poucas palavras

Um pensamento a me ocupar a mente quando estava do lado de lá…

“De que valem as palavras não ditas a ecoar entre as pedras, testemunhas do tempo, repositório de silêncios, a ecoar os rastros de Cronos? O caminho que leva (agora) nada a a lugar nenhum, pleno de sentidos, como que chora a ignorância plúmbea a desconhecer belezas e sonhos.”

Quem sabe…

“IMBECILIS TROPICALIS”

O pequeno verbete tem cheiro e sabor de parábola. Para completar, é temperado com ironia e mordacidade, o que o faz mais atraente e apetitoso para a inteligência. Como dito no final, a autoria é desconhecida. Tomei a liberdade de apor alguns pitacos, cortar algumas excrescências e modificar algumas outras tantas cositas. Ao fim e ao cabo, pode ser divertida, a leitura.

Também conhecido por “otarius tupiniquensis”, é uma subespécie humanoide que habita várias regiões do Brasil. Devido à baixa capacidade cognitiva, seus hábitos ainda são um mistério para os pesquisadores. As primeiras pistas indicam que se alimentam de mortadela e têm uma religião primitiva, que adora um ser marinho pequeno e vulgar. Ainda não foram registradas atividades laborais, o que leva a crer que sejam alguma espécie de parasita, que sobrevive do trabalho alheio. Com baixíssima capacidade de entrosamento entre espécies, o “imbecilis tropicalis”, geralmente, é avistado somente em bandos ruidosos, gritando ofensas aos demais. O aspecto contraditório, aliás, é o que mais intriga os pesquisadores. Esta subespécie acredita que queimando pneus, estátuas, depredando bens públicos e particulares ou fechando ruas em algazarras estão exercendo a cidadania e a democracia. Pedem respeito à todas as crenças, mas desrespeitam a crença da maioria. Dizem-se defensores das famigeradas minorias, mas defendem regimes que exterminaram e continuam a exterminar estas mesmas minorias. Apesar de raciocinarem como primatas, têm conduta parecida à dos pombos. Fazem muito barulho, muita sujeira e sempre saem de peito estufado. Esse hábito ainda é um mistério. A maior discussão, entre os cientistas, é como essa espécie se desenvolveu. Alguns apoiam a teoria de que o “otarius tupiniquensis” é fruto de uma época de muitas facilidades, que se acomodou à sombra de um Estado corrupto e paternalista. Outros aventam a possibilidade de uma infecção viral e temem uma epidemia. O terceiro grupo, porém, acredita que são frutos de experiências secretas, realizadas por professores e pela grande mídia, numa tentativa macabra de reengenharia social. Sem dúvida, é uma subespécie de mentecaptos que infelizmente habitam o Brasil e que lutam para ser escravos num regime comunista.

Autor desconhecido. 

Realidade e ficção: tênue limite

A mulher cumpriu vinte anos de prisão por assassinato. Sua irmã, mais nova, criada por ela – a mãe morreu e o pai suicidou-se – foi adotada por uma família. Durante os anos de cadeia, a mulher escreveu inúmeras cartas para a irmão, através do serviço social. Jamais recebeu uma resposta. Os pais adotivos da menina guardaram todas as cartas, mas jamais mencionaram nada acerca da irmã presa. A irmã mais nova foi criada sem saber se a irmã está viva ou morta. Saindo da prisão, a mulher, tenta fazer contato com a família. A resistência é grande. A atitude dos pais adotivos está correta? A mulher, depois de solta, tem direito de procurar a irmã? A “justiça” pode impedir o reencontro das irmãs? Os pais poderiam ter feito o que fizeram com as cartas da mulher para sua irmã mais nova? O drama está armado. Todas as outras nuances possíveis parecem fenecer diante do impasse que se cria. A subjetividade de pais adotivos, de advogado e de mulher assassina são componentes fortes num drama que ultrapassa a mera ficção sentimental. A simples consideração de um fato, recortando as circunstâncias à luz da perspectiva de apenas um dos lados da questão não parece ser a melhor solução. Justificar o assassinato que premeditou too o resto é impossível, por óbvio. Aceitar, sem mais, que as irmãs têm o direito a se reencontrarem pode parecer uma solução demasiado redutora. Deixa que a acriança adotada jamais saiba de seu passado também não parece ser razoável. Como desfazer o nó? acrescente-se a isso a vingança desejada dos filhos da vítima da mulher assassina, inconformados com o fato dela estar livre com apenas 20 anos de cárcere.  Isso também aumenta o nível de pressão que os aparentes paradoxos engendram. a narrativa não é simples. O enredo, um tanto mais complexo que o cotidiano de cada um dos envolvidos – um defensor da nova linguagem “inclusive” vai me boicotar aqui por conta deste plural correto, gramaticalmente –, parece aproximar-se de m dramalhão. Não necessariamente acontece assim. Em algum lugar, aqui por perto, foguetes espocam no ar por conta de um jogo de futebol. O maxilar inferior, do lado direito, dói um pouco depois de um implante a meio caminho de sua conclusão. Amanhã é quinta-feira. O Natal se aproxima e, com ele, a mesma sensação de festa desfeita, ou estereotipada, falsa, uma casquinha de papel celofane a envolver um iceberg em chamas. Paradoxo. Há quem chame a isto poesia. Há outros nomes possíveis, mas a preguiça…

Palavras outras

Significar, como verbo transitivo direto significa querer dizer; apresentar-se como expressão de; exprimir, traduzir. Por força de derivação por prefixação, resinificar é um verbo transitivo que caracteriza a ação de atribuir um novo significado a algo ou alguém. A ressignificação é um elemento importante no processo criativo, em que a habilidade de atribuir novas importâncias a um evento comum se torna útil e propicia prazer às pessoas. Claro está que esta “definição” não foi retirada do Houaiss. Copiei da “rede”. Entretanto, serve para o meu propósito aqui. É preciso, para isso, prestar atenção na ideia principal do verbo. Em seguida, atente-se para o fato de que o prefixo aposto ao verbo, faz dele a expressão de um ato repetitivo, de reforço de seu próprio significado. Ou seja, o prefixo aglutina ao sentido original do verbo o aspecto positivo de seu significado. Em outras palavras, o verbo prefixado, em sua forma derivada, faz com que o senso de positividade carregado pela forma original se faz reafirmada, confirmada, repetida. Por isso mesmo reforçada. Essa volta toda é só para enfeitar um pouco a minha estranheza ao escutar numa estação de rádio a mocinha – decerto, muito orgulhosa de seu diploma em jornalismo, obtido com muito esforço, muita cachaça e a ajuda preciosa de uma bolsa do prouni, reuni ou qualquer uma dessas muletas que ululam por aí, em nome de uma suposta “democratização” do ensino superior. Meu ponto de fuga não é esse. O que me interessa é comentar o esquisito uso feito por essa mocinha, na tal estação de rádio, quando fala, com todos os “esses” e “erres”, sobre a importância e a qualidade da “ressignificação dos traumas”. Não prestei atenção ao que a mocinha tinha falado antes. Creio que não interessava mesmo. Esta expressão, só esta expressão em si, já denota a “qualidade” da formação da mocinha. Resignificar trama. Em sã consciência, qualquer pessoa seria capaz, no uso de suas faculdades mentais, investir esforços para resignificar um trauma. Que eu saiba, trauma, a gente cura, se livra dele, o ultrapassa. Trauma, por força de sua própria natureza, é algo incômodo, ruim, que faz sofrer, que não causa alegria a ninguém. Posso estar enganado, é claro. Ainda assim, continuo estupefato com a sonora e presunçosa afirmação da mocinha. Há miríades de pessoas que fazem o mesmo uso e se sentem absolutamente felizes e brilhantes como celebridades em sua ofuscante ignorância. Repito, posso estar enganado. Ainda assim,mantenho a minha chatice.

Um filme

Um tratado. No dicionário que consultei on line, esta palavra apresenta duas acepções. Como adjetivo, significa que o que se tratou; como substantivo masculino significa convenção, entre dois ou mais países, referente a comércio, paz, etc. No entanto, que eu saiba, há ainda uma outra acepção. Tratado (do termo latino tractatus) é um estudo formal, científico, de caráter acadêmico, fundamentado e sistemático sobre determinado assunto. É bem mais extenso que um ensaio devido às suas características acadêmicas, sempre se propondo a apresentar uma teoria acadêmica bem fundamentada, sendo, normalmente, publicado em formato de livro ou livros ou, ainda, bibliotecas, os mais extensos. Famosos tratados foram escritos por filósofos, cientistas, teólogosmísticos, militares, políticos, dentre muitos outros pensadores. Diferentemente do ensaio, que é um texto literário breve e informal, o tratado é algo mais complexo e formal. O ensaio, por sua vez, expõe ideias, críticas e reflexões éticas. Bem. Tudo seria mais simples se simples fosse. No entanto, do fundo de minha chatice, tenho que afirmar que um filme pode ser um tratado. Não vou justificar esta tese. Não vou explicá-la, nem sustentá-la com argumentos epistemológicos complexos e chatos, como eu. Vou apenas afirmar e o faço através da referência a um filme que vi há poucos dias. Trata-se de O cântico dos nomes (The song of names, Canadá/Restados Unidos, 2020, direção de François Girard). A história contextualiza-se na segunda guerra mundial, notadamente na tomada de Varsóvia pelas tropas nazistas. Claro está que a narrativa fílmica estica esse tempo, mas isso é um detalhe. O que me impele aqui é o fato de que o filme é um tratado sobre o homoerotismo. Um menino inglês é obrigado a dividir seu mundo doméstico com outro menino, este, judeu polonês, que é deixado em Londres pelo pai, à custa do reconhecimento da genialidade do virtuose, seu filho, violinista impecável. A tal narrativa vai enredar uma série de detalhes e situações e episódios. no fundo, o relato diz da relação homoerótica entre os dis garotos, depois adolescentes, jovens e adulto. Não é possível antever o desfecho, mas aa obviedade do afeto que envolve as duas personagens é algo inescapável. não há argumentos suficientes para derrubar esta tese. ambos se casam, constroem suas vidas, mas o afeto homoerótico subsiste, sem qualquer recalcamento, sem qualquer censura, abertamente, explicito como o ato de respirar e os sentimentos que povoam a vida das duas personagens. O drama da guerra, o mundo da música de então, as idiossincrasias culturais e sociais que são explicitados no filme não fazem sombra ao que, de fato, move a trama: o afeto que une o inglês e o judeu. Isso é irrecorrível. As turras da infância, as aventuras adolescentes, a persistência da vida adulta, fazem desse drama cinematográfico uma lição acabada e cabal do que se pode entender sobre homoerotismo. E não há sexo no filme, como poderiam antever as mentes menos desenvolvidas que sempre desejam reduzir tudo à mera panfletagem ativista. Não! Definitivamente, não! A beleza, a contundência e a delicadeza do tratamento da relação entre duas pessoas do mesmo sexo são inenarráveis. Só vendo o filme para constatar. Depois, a gente pode até conversar… 

O mistério da conferência denegada

Entre setembro e outubro do corrente, recebi convite para fazer uma conferência durante m congresso na Paraíba. O promotor do evento é um grupo de pesquisas vinculado à UFPB, chamado GELIPSI – Grupo de pesquisa Gênero, Literatura e Psicanálise. Vaidoso que sou, fiquei honrado e aceitei, agradecido. Troquei algumas mensagens com um mestrando Matheus Pereira acerca de detalhes. Às vésperas de minha viagem que fiz a Portugal, mandei mensagem para o rapaz, avisando que estaria em solo estrangeiro no período de realização do confesso e que, tão logo quanto possível iria precisar de uma data para minha intervenção. Isso era necessário para eu me organizar. Minha viagem foi de lazer, mas o compromisso estava formado – pelo menos, de minha parte. Não obtive resposta, nas duas ou três tentativas. Em chegando a Lisboa, tentei mais uma vez o contato. Nada. Nenhuma resposta. No final de semana anterior ao evento, tentei ainda uma vez, avisando, desta feita que estaria em Braga e que a data e o horário precisos eram necessários para evitar contratempos. Silêncio sepulcral. Tentei, em vão, localizar alguma informação sobre a programação do dito evento na internete. Nada. No dia 14 de novembro – o evento teria início efetivo no dia seguinte – tentei ainda uma vez e, por sorte, à noite, no mesmo dia, encontrei a programação do evento. Para minha surpresa, meu nome não constava em nenhuma das atividades descritas ali. Estranhíssimo. Não sei dizer o que se passou. Meu sentimento foi um misto de tristeza, raiva, surpresa, estupefação, descrença e desdém. Indefinível. Ontem, numa última tentativa, escrevi para o tal Matheus Pereira, não para pedir explicações, mas para explanar sobre o misto de reações descrito acima. Creio que jamais receberei resposta. De qualquer jeito, não quero deixar o texto da conferência escondido num arquivo qualquer do meu laptop. Trago-o aqui. Pode ser longo. Não me importa. Foi o que escrevi. É o que desejo partilhar. Tomara que quem o ler venha a gostar. Punto i basta!

Dos inefáveis prazeres do incômodo

Escreve Jentsch: ‘Ao contar uma história, um dos recursos mais bem-sucedidos para criar facilmente efeitos de estranheza é deixar o leitor na incerteza de que uma determinada figura na história é um ser humano ou um autômato, e fazê-lo de tal modo que a sua atenção não se concentre diretamente nessa incerteza, de maneira que não possa ser levado a penetrar no assunto e esclarecê-lo imediatamente. Isto, como afirmamos, dissiparia rapidamente o peculiar efeito emocional da coisa (…).’

Sigmund Freud, “O estranho”

Acredito que o que vou dizer reflete e ecoa a ideia central da epígrafe. Isto porque a ideia de estranheza, de algo inexplicavelmente familiar, mas quase absolutamente inusitado é a que me move a dizer o que vou dizer, da maneira que o digo. Dado que recebi o convite para falar hoje do Matheus Pereira, mestrando em Literatura, pelo Programa de Pós-Graduação em Letras, da UFPB, sob a orientação do Prof. Dr. Hermano Rodrigues, Coordenador do Grupo de Pesquisa Literatura, Gênero e Psicanálise – LIGEPSI, resolvi fazer uma homenagem a eles, em forma de agradecimento particular, elegendo esta mesma perspectiva para a minha apresentação. Não vou fazer análise de nenhuma das obras de José Saramago, nem mesmo, ensaiar um tratado sobre as relações possíveis entre Literatura e Psicanálise. De fato, pretendo apenas alinhavar observações que, ao longo de minha carreira profissional, e ainda hoje, ainda me assaltam e instigam, quando da leitura dos livros de José Saramago. Dado que estou aposentado desde 2018, vivendo atualmente, com intenso e absoluto prazer, o ócio criativo, creio que terei muito prazer em fazer o que pretendo. Claro está que, o agradecimento é mais que sincero, pois encheu-me de vaidade e admiração. Vamos lá então.

Antes de entrar no assunto que me traz aqui hoje, gostaria de contextualizar, ilustrativamente, o que vou dizer, trazendo uma postagem que fiz no dia 18 de novembro de 2019, em meu blogue (Psicanálise – Blogue do Foureaux: a minha expressão verbal (wordpress.com), a propósito do filme Joker. Pode parecer estranho, mas creio que vou conseguir demonstrar o teorema que imaginei para esta fala. Vamos lá. O que dizer de Joker? A atuação de Joaquin Phoenix é inquestionavelmente impecável. Tenho de reconhecê-lo, apesar de dele não gostar. Impecável. O phisique du role é impressionante. Seus movimentos corporais, numa verossimilhança incontestável – no que diz respeito à personagem, seu modus operandi, a trilha sonora e ao roteiro da história – tudo faz jus ao elogio deste, aqui, pobre ignorante em cinefilia… Gostei do filme. Só não vejo muito sentido no alarido que se formou aqui e ali depois de seu lançamento. Dizem que comparações são inevitáveis. Porém, tudo o que li sobre este tópico não me agradou. Isso porque penso que Joker, por si mesmo, é incomparável com outras versões da mesma história. In-com-pa-rá-vel. Vejamos se sou capaz de explicar isso, ainda que indiretamente. Repito: gostei do filme, mas não me agradei do que li sobre ele. Isso porque não vejo pontos em comum com as demais apropriações desse arcano cultural do ocidente capitalista envolvendo uma sociedade, digamos, “líquida”. O significado do termo que dá título ao filme, em jogos de cartas, desaparece na narrativa desta versão cinematográfica dirigida por Todd Phillips. O imaginário por ele criado, em nada e por nada, é similar ao que se percebe nas demais versões. Já, já digo o porquê. O Coringa, neste filme, não é debochado, amoral, cínico ou venal. Sua “personalidade” desviante – esta é uma palavra-chave para “entender” o filme na perspectiva em que o entendo depois de vê-lo – não se assenta em marginalidade histriônica, canhestra, moralista, criminosa, como nas demais versões do ícone. De fato, penso que esta versão é “definitiva”, para dar sentido igualmente definitivo a outro ícone, o Batman. O Coringa de Joaquin Phoenix e Todd Philips é uma criatura anterior ao Batman. Portanto, não é seu antagonista. Não é apresentado em narrativas – como a similar das demais versões de si mesmo – como inimigo da sociedade, por extensão de sentido de seu “defensor”, o homem-morcego. Não. A cena matrix do ícone Batman, o assassinato dos pais de Bruce Wayne – até prova em contrário, a célula mater do drama vivido pelo menino que se transforma no homem morcego, num movimento de retaliação, recuperação, retorno do recalcado e, porque não, messianismo –, acontece em decorrência do efeito causado pelo ato do Coringa num programa de televisão. Previsível? Sim, claro, por que não? No entanto, nem por isso desprezível. Ao contrário. O absurdo e inesperado ato é o estopim da reação popular que, aparentemente, não é compreendida pelo próprio olho do furacão, o Coringa. Ele quase não se dá conta de que o que está acontecendo à sua volta, quando acorda do desmaio causado pelo abalroamento do carro em que se encontrava. De fato, penso, baseado nesta observação, que esta versão é definitiva.  Depois deste filme, qualquer versão de origem da personagem ícone, lenda urbana e quejandos, cai por terra. A inversão cronológica dos fatos corrobora a outra faceta igualmente definitiva desta versão. O psicótico Coringa, de Fênix não é simples reação. É criação. Há uma inversão aqui. E isso é tudo. O drama psiquiátrico vivido pelo Coringa não pode ser reduzido ao acúmulo de reações contrárias ao bom funcionamento comportamental da sociedade. Neste sentido, ele não é um opositor de Batman, não representa o mal, não é um criminoso contumaz, é um psicótico, acredito, com alguma distância da chancela de psicopata. Mas não sou médico, sou apenas um sujeito que viu um filme e dele gostou. O “romance”, por detrás do filme, é de “formação”. Nada mais contundente que a cena em que ele mata sua mãe.  Édipo invertido. Ali, numa clivagem incontornável, o Coringa nasce para si mesmo. A sequência seguinte à janela da enfermaria parece corroborar isso. A personagem de Robert de Niro convence como estereótipo do indiferente sarcasmo ou da sarcástica indiferença que marca boa parte das subjetividades pós-modernas que se jugam superiores e, por que não, politicamente corretas. Como tinha lido alguma coisa sobre o filme, não me surpreenderam as cenas da morte do colega de trabalho, brutal, e do apresentador do talk show, assustadora. O discurso do Coringa durante o programa de TV beira a pieguice e o moralismo típico da cultura ianque. É desnecessário alongar comentários. Por fim, a sequência inicial do filme causou em mim o mesmo impacto e a mesma reação de quando vi O resgate do soldado Ryan, de Steven Spielberg. Ainda não consigo verbalizá-los, mas são os mesmos, têm a mesma intensidade: concretos, densos, irrecorríveis. Joker é mesmo um filme muito bom!

Bem. Meu desejo de começar com esta postagem se deve ao fato de que, ao fazer uma rápida pesquisa para elaboração desta conferência, notei que há uma incidência muito grande de estudos, análises, resenhas e críticas sobre os livros de José Saramago circunscritos a uma perspectiva psicanalítica de abordagem. A Capes registra 9.469 entradas em seu catálogo de Teses e Dissertações, a partir do binômio Saramago e Psicanálise. Isso talvez respalde a minha ideia de que o cansaço da crítica acerca da obra de José Saramago se faz evidente, como vou comentar mais adiante. Simultaneamente, o mesmo dado revela que a articulação com a Psicanálise tem forte impacto na construção desta mesma crítica. Na mesma consulta, o mesmo catálogo registra 113.216 entradas, quando o binômio é Saramago e História; 33.900 entradas para o binômio Saramago e Filosofia, 26.174 para Saramago e Sociologia e 12.775 para o binômio Saramago e Antropologia, para ficar com apenas alguns indicadores do campo largo das Humanidades. A consulta foi feita no dia 23 de setembro do corrente. Faço aqui esta referência a título de curiosidade, dado que resolvi desenvolver minha apresentação a partir do primeiro binômio, pelos motivos expostos logo de início.

Saramago é um autor que anda a merecer um descanso por parte de seus “críticos” e daqueles que insistem em se chamar de teorizadores, fazendo uso do texto ficcional como se este fosse mera massa de pastel a ser esticada e recheada por sabe Deus o quê. Já anda repetitivo demais o carroção de análise das obras do escritor português, por isso, o descanso. No entanto, recentemente, mais exatamente em 26 de fevereiro de 2016, na casa da escrita, em Lisboa” Ana Paula Arnaut, da Universidade de Coimbra, proferiu conferência cujo título é “À mesa com a ficção de José Saramago: casa onde não há pão todos ralham (quase) sempre com razão”. A conferência, em seu todo, mostra como – ainda que, como eu disse, já muito repetitiva – a crítica da obra de Saramago pode criar momentos luminosos de curiosidade inusitada, como é um caso. Tomo a liberdade de citar uma passagem inicial da conferência, para ilustrar:

“Sistematicamente convocada pelos autores, ou pelos narradores em sua substituição, a alimentação contribui, portanto, para criar o efeito de real de que nos fala Roland Barthes, aumentando o grau de credibilidade do texto. Afinal, se não comêssemos não sobreviveríamos. 

É assim, por exemplo, que em História do cerco de Lisboa sabemos do café com leite e das torradas com manteiga comidas ao pequeno-almoço por Raimundo Silva (p. 55) – um gosto matinal partilhado com Ricardo Reis (O amRR, p. 285) –, da “omeleta de três ovos com chouriço”, do “prato de sopa”, da “laranja”, do “copo de vinho” e do “café para rematar” o almoço (p. 38), refeição que também pode ser constituída por batatas cozidas, “para compor o prato de conserva de atum” (p. 113), ou por “carapaus fritos e arroz de tomate, com salada.

Numa outra dimensão, que aqui nos interessa particularmente, a verdade é que a temática da comida pode cumprir bem mais do que propósitos decorativos de verossimilhança, relativos ao que é ser-se humano e adequados às posses económicas da(s) personagem(ns), como ilustram as citações acima transcritas. A referência à alimentação no tecido narrativo pode servir intenções ideológicas precisas, manifestamente atinentes à denúncia das diferenças sociais.” (p. 73)

Neste pequeno trecho, a autora revela uma perspectiva não tão usual para abordar o texto de José Saramago. Já tinha visto algo parecido com Grande serão: veredas, mas este foi um fracasso tão retumbante que não merece mais que referência. O caso da professora portuguesa é diferente. Partindo da consideração da comida, operador de leitura inusitado, ela vai deslindar um panorama social que emerge das relações estabelecidas entre as personagens como “teatro do mundo”, expressão cara a quem gosta de ler José Saramago. Esta inflexão foge do esquema de articulação da obra do escritor português com a História de seu país, um dos pilares do cansaço a que me refiro.

Na esteira do que me proponho dizer hoje, recorro ao meu artigo, “O evangelho segundo Jesus Cristo: notas acerca de um certo parricídio”, originalmente publicado na revista Letras e Artes, da Universidade Federal de Santa Maria, se não me engano em 1993, em que proponho uma inflexão psicanalítica para a leitura do romance que dá nome ao artigo. Trata-se de uma tentativa de pensar uma categoria psicanalítica, a do parricídio, que remete, discursivamente, à do mito de Édipo, na sua conotação clínica – aquela que aponta para a necessidade de constituição de um lugar para o sujeito na conjuntura cultural lusitana de todos os tempos.

Em O evangelho de Jesus Cristo, o protagonista duvida da própria divindade. As aparições de Deus estão sempre envoltas em fumaça e em obscuridades, o que não aparece nos textos da tradição bíblica. (…) Jesus Cristo fica sempre reclamando de seu pai a contraparte de um projeto que o envolve, mas que não o considera para negociações necessárias à conclusão do mesmo. (…) O parricídio se oculta na repetição do mistério cristão: a encarnação de Cristo. Estou pensando nos remorsos do carpinteiro José e nos sonhos de Jesus, que salpicam a narrativa de Saramago. Em ambos, a morte do pai aparece simbolicamente representada como a exigir a solução de um enigma. O sucesso da empreitada é de uma impossibilidade insofismável. Freud afirma que o homem – que o mesmo Freud qualifica de “moral” – é aquele capaz de reagir à tentação, tão logo a sente sem seu coração, sem submeter-se a ela. Trata-se, então, de um homem que peca e depois, sem remorso, exige padrões elevados morais, expondo-se à censura de tornar as coisas fáceis demais para si mesmo. É o sujeito que repete essas ações, sempre alternando entre o pecado e a culpa. Jesus Cristo, pelo menos o que está presente no texto de Saramago, pode ser lido como esse “homem moral”, na economia ficcional do texto. Seu pecado pode ter sido o sonho de realmente ser filho de Deus. A tentação era grande, tanto que ele tenta, desesperadamente, reagir, mas vai-se conformando com o destino que lhe é imposto. O nome de Deus, nome-do-pai, é evocado diversas vezes e o remorso aloja-se como desejo recalcado na figura ambígua e manca de José, o carpinteiro, o marido da mãe de Jesus. Marido sim, porque seu nome não fica inscrito na personalidade de Jesus. A figura do pai, então, tem que aparecer morta, para que o ciclo se feche e a alternância, como referido acima, se desfaça de uma vez por todas. Talvez a obediência seja o signo dessa conclusão: obediência que é ironizada nas últimas palavras do Jesus de Saramago, fazendo blague com as célebres “palavras” relatadas nos Evangelhos, como ao final do romance:

“Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima se abre de par em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua vez ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois foi morrendo no meio de um sonho (…). (SARAMAGO, 1991, p. 444)”

No universo ficcional do evangelho escrito por Saramago, o parricídio é mais que necessário, ele é, mesmo, essencial. Sem ele, a moralidade do homem Jesus esfacelar-se-ia. Jesus quer ser como os homens de sua época, mas esbarra no desejo interdito da perfeição divina. Divindade inexplicada e inexplicável que se inscreve no remorso de José. Ele sabia que Herodes ordenara a morte dos primogênitos com menos de um ano. Sabia e não avisou a ninguém. Sabia e fugiu com a família. Não cedeu à tentação. Não é um homem moral. Do contrário, as coisas teriam sido fáceis demais. A salvação dos primogênitos teria confirmado a divindade de seu próprio filho? Ele não suportou a dúvida. Preferiu acreditar que sim para não aceitar a facilidade da outra opção. Excludentes, esses dois encaminhamentos possíveis não dariam conta de determinar a verdade dos fatos: aquela verdade que José procurou até morrer. Atormentado pelo remorso, ele matou a imagem divina da paternidade que gerara Cristo. Repulsa e desejo: elos de uma corrente que ensandece José. Ele não simboliza a sua refeição totêmica e emblematiza a denegação da imagem do homem moral de que Freud falava. O trecho de meu artigo desenha bem o perímetro da injunção psicanalítica a que me proponho lá e aqui. O tema do parricídio, indireto, na leitura que faço da ficção de Saramago ilustra uma vertente ainda pouco explorada, creio eu. Pelo menos, da maneira que eu acredito deva ser desenvolvida. 

Como já é sabido, o conjunto de obras de José Saramago pode ser abordado em ciclos, como quer Ana Paula Arnaut, em artigo publicado na revista Ipotesi (IPOTESI, Juiz de Fora, v. 15, n. 1, p. 25 -37, jan./jun. 2011):

“Cumpre relembrar, a propósito, e de acordo com uma breve mas necessária contextualização, que o primeiro ciclo de produção literária saramaguiana decorre entre Manual de Pintura e Caligrafia (1977) e Ensaio Sobre a Cegueira (1995), exclusive. Neste período verificamos uma enorme apetência pelo tratamento de temas históricos, directa ou indirectamente relacionados com a História e com a Cultura portuguesas, seja de um passado mais remoto seja de um tempo mais recente. Por isso julgamos conveniente usar a designação de ciclo dos romances da “portugalidade intensa”, adotando uma sugestão de Christopher Rollason (ROLLASON, 2006, p. 113; ARNAUT, 2008, p. 42). O segundo ciclo, por conseguinte, abarca os romances publicados entre Ensaio Sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, exclusive. A delimitação feita no âmbito desta fase dos romances de teor universal ou universalizante diz respeito quer à utilização de estratégias que evidenciam o culto de temas de cariz mais geral, quer a uma reconhecida ressimplificação da linguagem e da estrutura da narrativa (SARA MAGO, apud REIS, 1998, p. 43; ARNAUT, 2008, p. 40-43).

Na reescrita da História Portuguesa ou na escrita, por vezes prospectiva, da História da Humanidade (as duas, afinal, sempre e inevitavelmente interligadas), o narrador tem permanentemente por objectivo a exposição clara de preocupações de teor humanista e humanitário, ora denunciando as violações aos mais elementares direitos do Homem, ora alertando para os perigos resultantes da globalização, de complicados jogos políticos e/ou religiosos, ou de sistemas repressivos que transformam o Homem em criatura aviltante.

No caso dos romances que compõem, por enquanto, o terceiro ciclo de produção ficcional, e que, por motivos que adiante explicaremos, propomos designar como “romances fábula”, julgamos que a linha diferencial relativamente aos anteriores se instaura, por um lado, a partir de novas ressimplificações.

Estas não passam apenas, e mais uma vez, pela linguagem ou pelo que vemos como uma maior obediência à sintaxe e à pontuação tradicionais, ou, para o mesmo efeito, pela (re)ressimplificação da estrutura da narrativa, agora mais de acordo com as regras da narratividade. Por outras palavras, mais obediente ao princípio de uma apresentação cronologicamente sequencial, logo com menos “direcções irradiantes que se vão dividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista” (SARAMAGO, 1997, p. 135). A diferença substancial que lemos em As Intermitências da MorteA Viagem do Elefante e Caim é relativa, sim, por outro lado, ao tom marcadamente cómico e à cor, agora mais suave, a que o narrador/autor recorre para construir a acção, os temas que a percorrem e as personagens que lhe dão vida.”

A autora continua com suas considerações para desenvolver o tópico a que se restringe no artigo do qual retiro o trecho citado acima. Não vou seguir por seu caminho. Quis fazer a referência3 apenas para apontar que a obra de José Saramago, na perspectiva em que a abordo aqui, pode se prestar a organizações discursivas mais ou menos explícitas, o que, de certa forma, facilita o trabalho de recorte crítico/teórico como que aqui menciono. 

Estou escrevendo um livro de ficção. Não sei se posso chamar de romance. Nele há duas personagens que são psicanalistas. Um é supervisor do outro. A certa altura, numa das sessões de supervisão, o psicanalista comenta sobre um de seus pacientes e fala de ciúme. Faz referência ao romance de Saramago, Caim. Em seu comentário, o psicanalista (que não tem nome) diz que o que motivou Caim a matar Abel foi o ciúme por ser, o irmão mais novo, o preferido. O supervisor pega o fio da meada e emenda que no fundo, no fundo, antes do ciúme, está o desejo de ser como o outro. Sendo mais velho, Caim, enciumado por ter no irmão, inconscientemente, um rival, começa a alimentar o desejo de ser como ele, de tomar seu lugar. Uma espécie de repeteco do Édipo. Com a verve irônica do autor, acredito que esta abordagem, se sustenta. No frigir dos ovos, o que me faz comentar isso, é o fato de eu acreditar que a leitura de um romance – seja qual for a abordagem, escolhida pelo leitor, ou imposta (em muitos casos é assim!) – sempre produz vislumbres inesperados, epifanias, constatações inexplicáveis, mas plausíveis. Assim é com os mecanismos da psique humana, se ficarmos com Freud. Na senda por ele aberta, Lacan reforça o axioma com o auxílio da articulação que propõe com a linguagem.

Em Caim, romance de 2009, a Psicanálise pode ser suscitada como arcabouço teórico de abordagem. A história bíblica do fratricídio, neste caso, ultrapassa os estreitos limites da tragédia ou do dramalhão ficcional para suscitar a abordagem de um sentimento muito comum: o ciúme. Ainda nesta perspectiva, os limites seriam estreitos. om o apoio da Psicanálise, acredito que se pode ampliar esse horizonte de expectativas. Na relação fraterna entre Caim e Abel, por conta do desenvolvimento da narrativa bíblica, encontramos farto material para a consideração do tópico da identidade, como quer a proposta de Freud. Não vou desenvolver uma análise deste romance, no entanto, não me custa pontuar que a relação entre Caim e Abel. A pena de Saramago pinta, com as tintas da ironia refinada, quase galhofa, um drama vivido por qualquer sujeito: o de encontrar seu lugar na sociedade, na cultura, na tríade familiar, como quis Freud. Insatisfeito, ele mata o irmão para tomar seu lugar. Este movimento é inconsciente, por óbvio. Por isso mesmo, a Psicanálise atua de maneira fecunda ao dar suporte às assertivas paródicas de José Saramago. Não acredito que haja piada, humor, anedota no contexto desta obra. No entanto, a inversão irônica do discurso, marca registrada do autor, deixa ampla margem de especulação – no sentido mais positivo e rentável do termo – acerca do que proponho como instrumento de abordagem do texto do romance. De mais a mais, sempre é bom lembrar que o que se diz a partir da leitura de um romance é, antes de mais nada, fruto dessa mesma leitura. Arrisco-me a afirmar que não passa disso, por força da impossibilidade se fixar uma suposta verdade que estaria guardada a sete chaves pelo poder autoral de quem escreveu a história. Esta pode ser uma boa discussão derivada da que aqui esboço. Não vou me estender pois não estou a analisar o romancista. Mas não resisti à tentação de externar essas ideias.

Em O homem duplicado, de 2002, José Saramago apresenta uma história tão inusitada, quanto fascinante. O acaso parece ser a chave para o mergulho no universo ficcional criado pelo autor. O romance tem um enredo tão engenhoso quanto perverso, como costumam ser as histórias de Saramago. Descreve a estranha situação de um homem de vida absolutamente pacata – um professor de história do ensino médio, sem maiores veleidades intelectuais – que, ao assistir a um vídeo medíocre, descobre ali o seu duplo, um ser exatamente igual a ele, nos mínimos detalhes e cicatrizes, mas que ganha a vida como ator secundário em filmes baratos. O protagonista queda perplexo por conta de sua descoberta. Diante da surpresa parte para uma pesquisa que pode, muito bem, ser associada ao processo clínico da Psicanálise, com todos os seus desvãos e chavões. A história corre para um final desavisadamente inesperado, depois que o protagonista, na pena do autor, se vê diante de um de espelho. Sua obsessão se aproxima de uma espécie de vingança que beira a paranoia. Neste romance de Saramago, como soe acontecer, toda primeira conclusão é precipitada. Nas entrelinhas, permeando a estrutura, o espalhafato do roteiro esconde um universo de nuances psicológicas. O mais importante nisso tudo é o processo que, penso, pode ser ilustrado com o seguinte trecho:

“Significa, sim, que muito bem poderá uma pessoa, homem ou mulher, estar a despedaçar-se no seu interior por efeito da solidão, do desamparo, da timidez, daquilo que os dicionários descrevem como um estado afectivo desencadeado nas relações sociais e com manifestações volitivas, posturais e neurovegetativas, e não obstante, às vezes até por causa de uma simples palavra, por um dá-cá-aquela-palha, por um gesto bem intencionado mas em excesso protector, como aquele que há pouco escapou ao professor de Matemática, eis que o pacífico, o dócil, o submisso de repente desaparecem da cena e em seu lugar, desconcertante e incompreensível para os que da alma humana já supunham saber tudo, surge o ímpeto cego e arrasador da ira dos mansos. O mais normal é que dure pouco, mas dá medo quando se manifesta. Por isso, para muita gente, a prece mais fervorosa, na hora de ir para a cama, não é o consabido pai-nosso ou a sempiterna ave-maria, mas sim esta, Livrai-nos, Senhor, de todo o mal, e em particular da ira dos mansos (SARAMAGO, 2008, p. 44).”

De um jeito ou de outro, creio estar claro que a articulação psicanalítica da leitura dos romances de Saramago, para além de plausível, é instigante e contundente, ainda que se possa subscrevê-la ao que eu chamei de cansaço da crítica à obra do escritor português. Ainda assim, vale mais um exemplo. Neste caso, o romance é Todos os nomes. Trata-se de outra possibilidade de percorrer as veredas conceituais da Psicanálise, desta vez de maneira mais explicita, acredito. Após sua decisão por perquirir o passado da mulher desconhecida, o protagonista passa a deambular pela cidade, a procura dos locais por onde possa descobrir algo sobre o passado de sua presa. Aqui está um fio de meada para a abordagem psicanalítica: o sair de casa. Sendo a casa espaço da identidade fixa, mais centrada e localizada, a saída deste espaço configura, por um lado, a busca de satisfação de um desejo, impossível de ser encontrado no espaço confinado. Por outro lado, essa mesma saída remete para a ideia de volta, como no caso do filho pródigo. Não há como negar a plausibilidade da ilação com a ideia de retorno do recalcado. A coincidência entre os nomes do autor e do protagonista também é outro sintoma desta mesma possível ilação, se não me equivoco. Duas passagens podem, a meu ver, ilustrar o que estou a dizer:

“É nesta casa que vive o Sr. José. Não foi de propósito, não o escolheram a ele para ser o depositário residual de um tempo passado, se calhou assim foi só por causa da localização da vivenda, encontrava-se ela num recanto que não prejudicaria o novo alinhamento, logo não se tratou de castigo ou de prémio, que não os merecia o Sr. José, nem a um nem a outro, permitiu-se que continuasse a viver na casa, nada mais.”

E mais adiante:

“Abriu o armário dos impressos, tirou um de cada modelo e voltou para casa, deixando aberta a porta de comunicação. Depois sentou-se e, com a mão ainda trémula, começou a copiar para os impressos em branco os dados identificadores do bispo, o nome completo, sem lhe faltar um apelido ou uma partícula, a data e o lugar de nascimento, os nomes dos os nomes dos pais, os nomes dos padrinhos, o nome do pároco que o baptizou, o nome do funcionário da Conservatória Geral que o registou, todos os nomes.”

É fato, quase incontestável, que a história da humanidade é perpassada pela história do sujeito que, por sua vez, acaba por constituir uma identidade, digamos, multifacetada, ou talvez, volátil, ainda que enraizada na linguagem. Um jogo de idas e voltas que se realiza entre as configurações identitárias que vão tomando lugar ao longo do tempo. É como uma sequência não cíclica, em que uma estrutura de identidade aberta é promovida pela desarticulação das identidades estáveis anteriores a si. Em outras palavras, a tal identidade passada é (re)escrita no presente. Se isso não ilustra a ideia de retorno do recalcado, como aventado acima, não sei mais nada. Contudo, a escritura, como no caso do romance de José Saramago, abre a possibilidade de criação de novas identidades e a produção de novos sujeitos. Como se costuma pensar, trata-se de recompor uma estrutura em torno de pontos nodais particulares de articulação. Aqui, com a articulação entre Literatura e Psicanálise, a associação dos sintomas que a escrita ficcional revela, como na clínica, através de uma narrativa. 

No caso de Todos os nomes, o relevo do espaço reside na sua capacidade de guardar o rasto do que passou, que pode ser alterado mediante, por exemplo, o desaparecimento, voluntário ou não, de papéis. A Conservatória e a casa são, pois, lugares de construção de inúmeros passados, variáveis identidades, cruzando ficcionalmente mortos e vivos; permitindo que se negue a morte “burocrática”, como acontecerá quando o Sr. José, o protagonista, que destrói a certidão de óbito da mulher desconhecida: “Era preciso, sim, rasgar ou queimar o original, onde fora averbada uma data de morte” (278). O tal jogo de substituições, mesmo que por vias diversas, se realiza. O processo continua.

Abordamos o texto com a intenção de construir, com seus elementos narrativos, um discurso de base psicanalítica. Este é um movimento acertado, ainda acredito. No entanto, certos pré-conceitos, figuras operacionais da pré-compreensão do texto, apreendida de uma primeira leitura, têm que escutar a própria vez do texto. Persiste a obrigação de ouvir dele a resposta positiva às indagações que a leitura sugere. O caráter primário destas observações não deixa de apontar para a necessidade de contínuas tentativas na manutenção desse dialogo interpretativo. Determinado o horizonte de interpretação, é possível, então, começar a trabalhar os elementos significantes para a elaboração do discurso pretendido. Está aí uma brevíssima síntese do trabalho realizado quando se aborda psicanaliticamente um texto ficcional. Com ele, é impossível não perceber, ainda, na prática, a verdadeira significação assumida pelo texto a partir do olhar do leitor sobre a coisa lida. Isto quer dizer que é plausível elaborar outro discurso a partir dos mesmos elementos, sem deixar de mencioná-los e até utilizá-los em outra perspectiva, em outro horizonte. Isso quer dizer que não se chega a um ponto conclusivo nas possibilidades de interpretação do texto ficcional, na perspectiva aqui estabelecida. A tentativa de interpretação busca e consegue operacionalizar conceitos apreendidos do estudo teórico-conceitual da Psicanálise e seus problemas, tudo isso adstrito ao campo dos estudos literários. Há de se dar o devido desconto pois, para o nível a que se propõe, não seria justo pedir, a cada leitura, um trabalho exaustivo, que esgotasse todas as possibilidades.

Contrariando uma de minhas chatices acadêmicas, concluo com uma citação. Ela é tirada do livro A palavra e os dias, de Edward Lopes. Esta é uma coisa que procurei não fazer durante os 32 anos de magistério. Como diz o adagiário: não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Pois bem. A citação é a seguinte:

“Trazer alguma coisa de volta, para o desesquecimento: quando começa canhestramente a marinhar pelos primeiros degraus da sua escada de Jacó particular, todo pobre de Deus que escreve aprende, aos poucos, às suas próprias custas, o que isso quer dizer. E não pela razão – porque não foi esse truão do conhecimento quem lhe ensinou isso, foi, ao contrário, um carma luciferino, o mesmo que lhe soprou nas ventas, a um tempo, o fogo estigmatizador de seu ofício de escrevinhar e o abrasador alento com que o pobre diabo que rabisca sobe, às vezes, e às vezes – ah! demasiadas vezes! – baixa pelos degraus dessa escada; não, o escritor que vale a pena não é nunca adestrado pelo bobo da corte da razão, mas pelas Fúrias que o penetram em suas insônias, no mínimo a Nêmesis que cada sujeito que escreve incorpora à força em seu couro, como um cavalo de Umbanda possuído por um orixá incontrastável, a que sele empresta sua temerosa voz e sua desajeitada expressão, mas expressão verdadeira, como quer que seja, em quanto finge no furor do seu transe. O que há de notável, então, que, joguete das obscuras forças que o dominam, o escritor oscile e mude ao sabor das mudanças que as palavras e os dias imprimem a tudo que alternadamente criam e devoram, como Cronos a seus filhos? Ao fim e ao cabo, a mudança é movimento, o movimento é a expressão física, espácio-temporal, de um querer, e o querer é vida. Ser é estar sendo transformado, ser é vir a ser – tudo o que vive se metamorfoseia e se converte em algo diferente de si mesmo. (LOPES, Edward. A palavra e os dias. São Paulo: Edusp; Campinas: Ed.Unicamp, p.22-23.)”

Muito obrigado.

O fim

Hoje é o primeiro dia do início do fim do ano. Mais um. Tudo igual. A mesma cantilena. É a época do ano de que menos gosto, mas fazer o quê? Amanhã, já vou providenciar o bacalhau para a noite do dia 24, como é costume aqui em casa. Aproveito para comprar umas jujubas de que tanto gosto. Com parcimônia, porque o diabetes é um demônio que ronda a gente com vigilância mais que canina… Assim, resolvi fazer a postagem de hoje com um texto que já deve ser conhecido de tão “rodado” na rede. Fazer o quê? É só pra matar o tempo mesmo e tentar não deixar pesar o “clima”… O texto não é meu e desconheço a autoria, por isso está entre aspas. Aí vai:

“Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüentas anos. Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!… O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio… A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos disseram que sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé. Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C medroso que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?… A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, “Kkk” pra cá, “www” pra lá. Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou “tremendo de medo”. Tudo bem, vou-me embora da Língua Portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o Alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!… Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na História.

Adeus,
Trema.

Lusofonia

Tenho um amigo em Lisboa, O José Colaço. Faz ex-libris muito bonitos. Um sujeito muito simpático. Mandou-me mensagem com expressões correntes em Portugal. Tem sua graça. Partilho aqui. É divertido e aprende-se um pouco mais acerca dessa cultura nossa matriz. 

— Um português não tem um problema, na realidade ele está “feito ao bife”.
— Um português não lhe diz para deixá-lo em paz, diz-lhe “vai chatear o Camões”.
— Um português não lhe diz que é sexy, diz-lhe “é boa como o milho”.
— Um português não repete o que diz, ele “vira o disco e toca o mesmo”.
— Um português nunca se chateia, apenas “fica com os azeites”.
— Um português não tem muita experiência, ele tem “muitos anos a virar frangos”.
— Um português não se livra de problemas, ele “sacode a água do capote”.
— Um português não está numa situação desesperante, ele está com “água pela barba”.
— Um português não se irrita, ele “vai aos arames”.
— Um português que muda de ideias facilmente é um “troca-tintas”.
— Um português não é descarado, ele “tem lata”.
— Um português não se recusa a dar informação, ele “fecha-se em copas”.
— Um português não morre, ele “estica o pernil”.
— Um português não se faz de surdo, ele “faz orelhas moucas”.
— Um português não diz que está tudo suspenso por tempo indeterminado, ele diz que “ficou tudo em águas de bacalhau”.
— Um português não diz “É indiferente para mim”, ele diz “Não me aquece nem me arrefece”.
— Um português não passou por situações difíceis, ele “passou as passas do Algarve”.

Viagem

Pois é… Faz hoje 30 dias sem escrever aqui. Trinta dias que fiz um exame. Recolha de “material prostático” para biópsia. O urologista quis investigar mais profundamente a dita cuja, depois de uma alta no índice de PSA. Mesmo que eu desconfiasse, com quase toda segurança intuitiva, que não se passava de erro de digitação. O laboratório era o mesmo. O intervalo foi de duas semanas. Os resultados: 3,90, primeiro e 0,39, depois. Muita coincidência, pois não? Não teve jeito. O resultado sairia somente depois da minha viagem. É sobre ela que desejo falar.

Faz temo que não fazia uma viagem tão profundamente reveladora, instigante, emocionante e instrutiva. Todo isso a um só tempo, com assessoria luxuosíssima de dois amigos queridos: José Filipe Menéndez e Alexandra Pereira de Castro. Os nomes completos dos dois é bem mais extenso. A genealogia os leva a píncaros da nobreza lusitana Aqui vão apresentados pela versão mais “social” ou “resumida”. O afeto é o mesmo. A gratidão tem a mesma medida. A admiração é igualmente profunda. Uma viagem que me revelou lugares antes desconhecidos: Figueira da Foz, Montemor-o velho, Peniche, Braga, Tibães, Penela, Nazaré, Mafra, Cunímbriga, Aveiro. A casa da rua de Palhais, na Ericeira e o Paço da Quinta de Juste, em Braga foram meus endereços de referência no curso desse périplo histórico, cultural e gastronômico. Houve momentos de “transporte” cronológico: ambientes que me fizeram retornar ao século 19, ou antes, mesmo sem nunca lá ter estado, por suposto. A revelação da História por meio de detalhes, escombros, fotografias e pinturas. O enlevo espiritual de ambientes antigos conservados: palavras e telhados que guardam histórias e segredos. A beleza de altares forrados de ouro e estruturados em chinoiserie em madeira. Um luxo. Um delírio para os olhos e a alma. Os livros que li. Os vinhos que degustei. Os pratos que experimentei e as revisitações, os reencontros, as repetições. Tudo embrulhado para presente pelo afeto partilhado, a amizade confirmada a alegria que se faz de pequenos gestos e palavras mínimas. Na volta, depois de ver um filme emocionante (Adeus Christopher Robin, 2018, Simon Curtis) chorei. Um pouco pelo efeito do filme (embebido em três cálices de Vale dos Cavalos, um tinto do Douro, especial, de respeito) e mais por conta da saudade que senti de mamãe, escrevi umas linhas. Que pretendo se convertam num ou dois poemas. Só o tempo dirá!

Vejo o oceano

a meus pés, ainda que em suspenso

entre nuvens pequenas, picadas

pingos de mágica

a bordar o tempo franzido pelo vento

água muita

como a imaginação que voa

saudosa

da brisa do rio em sua foz

porta do infinito

mar

Se o mar, lá embaixo, falasse

o que diria de si

e do mundo que o rodeia,

calmo e atento,

pronto para o avanço?

Ah… o que diria do tempo

da saudade e do sonho

num vai e vem que domina 

a quase tudo que rodeia

porque, de fato, domina 

e assim

deve dizer nada

como a lágrima que escorre,

também silente,

da saudade

que no mar se completa e contempla.

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