Opiniões

Faz um tempo, uma conhecida estava em casa, em férias, como Inês, posta em seu sossego, quando recebe um telefonema. Era a secretária do diretor de um colégio tradicionalíssimo da capital das alterosas. Confesso: por vezes, penso eu o epíteto funciona mais como condenação que elogio. Mas enfim… Recebeu o telefonema, tentou argumentar que estava em férias. Não teve jeito, a secretária contra argumentou com a ordem do diretor: “É de seu interesse”. A minha conhecida foi ao colégio na data e hora marcadas. Em lá chegando, deparou-se com um comitê de recepção formado por vários pares de pais de alunos, praticamente todos já dela conhecidos. O diretor encaminhou o grupo para sua sala e começou a oração. Isso e aquilo, pediu ao presidente do “conselho de pais” que lesse, ele mesmo, a carta que enviara para a direção da escola. Carta longa, com alguns senões sintáticos e terminológicos – segundo o relato, àquela altura, de minha conhecida. Carta acusatória em que ela, a minha conhecida era admoestada a dar explicações sobre a acusação de que era vítima, exarada por um dos filhos de um dos casais que compunham o tal “conselho”. Triste coincidência: o tal estudante era filho do presidente do “conselho”, que lia a carta. Faço uma ideia do tom de arrogância, prepotência e desdém com que foi lido. Só faço uma ideia. Pois bem, terminada a leitura, a professora, atônita, argumentou não alcançar o sentido da acusação pois não se lembrava de ter incitado seus alunos à prática de beijo entre dois homens, conforme a “peça acusatória”. A indignação do gruo aumentou. O semblante do diretor ficou ainda mais escuro. Ela continuou sua defesa tendo que interromper a própria locução por conta dos vitupérios e muxoxos dos “conselheiros”. Ao fim da balbúrdia, o diretor vociferou que o estudante o havia procurado dizendo que professora tinha dito na sala de aula: “minha língua roça a língua de Luis de Camões”. Como era estudante “aplicado”, o dito cujo, o dito cujo perguntou ao diretor se isso não era uma forma de a professora dizer que um homem beijar outro homem era uma coisa bonita, boa, gostosa. Afinal ela disse “minha língua roça”. Acreditem! Foi isso E o direto convocou o dito “conselho” e convocou a professora. Ela, diante de tal “argumento”, explicou o óbvio – para ela. Tratava-se de uma aula em que utilizou o verso da música do Caetano Veloso, um elogio à Língua Portuguesa. Era uma espécie de mote para a aula. Só isso. A vociferação aumentou. O clima ficou pesado. O diretor, então, calando a patuleia disse que a professora deveria se retratar diante do egrégio “conselho”, por escrito, para que a carta ficasse devidamente arquivada como documento comprobatório de sua obediência. Ela se negou a fazê-lo. O diretor insistiu, sob a nuvem negra de resmungos e mais muxoxos, desta feita, agressivos e condenatórios. Ela insistiu em negar, O diretor, então, para “evitar o pior” (sic!) disse que ela seria sumariamente demitida. Minha conhecida não se deu por vencida. Levantou-se e, antes que as medidas da demissão fossem tomadas, vaticinou sua própria auto demissão e saiu da sala. Saiu do colégio. Jamais voltou a por os pés lá. Não matriculou os filhos nessa “escola”. Faz tempo que não a veja, mas imagino que os filhos devem estar muito bem, assim ela própria, é o meu desejo. Este pequeno relato é fruto do resultado da cutucada em minha memória dada pela notícias que anda fazendo a felicidade de muita gente. No Colégio Loyola, outra escola tão tradicional como aquela em que minha conhecida trabalhou, anulou um teste de Língua Portuguesa, pelo simples fato de que o texto utilizado na tal prova era de autoria de um tal de Duvivier, tido e havido como comediante, em coautoria com outro indivíduo da mesma espécie. Creio que não preciso insistir na ideia de que não vou com a cara de nenhum dos dois. O argumento da escola, de novo apoiada por uma carta escrita por uma mãe “preocupada com a educação de seus filhos”, é que o tal texto é tendencioso, ideologicamente, e estava a sustentar doutrinação político-partidária por parte do professor – neste caso, não é meu conhecido, mas importa tanto quanto para mim. Confesso, antes de mais, a minha quase total ignorância a respeito acerca do tal projeto “escola sem partido”, por força da miríade multifacetada de opiniões, vaticínios, ameaças, sandices e pensamentos acerca disso. Em relação à minha pessoa, claro. Logo, não posso tirar conclusão alguma. De mais a mais, isso aqui não é um tratado, nem uma tese acadêmica, muito menos um “artigo científico”. Portanto, não sou obrigado a dar satisfações a quem quer que seja, pois não faço outra coisa a não ser abrir a cortina e observar o cenário. As conclusões ficam por conta de quem me ler. Se é que alguém vai me ler. Se é que a leitura vai motivar algum tipo de raciocínio posterior. Fica a dica…

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Delicadeza

Há quem diga que filmes baseados em livros desmerecem os próprios livros. Há os que preferem assim. Há aqueles que afirmam que o filme supera o livro, e vice-versa. Há e tudo, para todos os gostos, de todos os sabores e cores e… e… e… O fato que persiste: pode-se gostar de um ou de outro, dos dois, de nenhum dos dois. ai de cada um.

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Parei de escrever ontem para ir ao cinema. Fui ver “Hebe: a estrela do Brasil”. Comovente. Gostei. A atuação de Andreia Beltrão é mais que convincente. Como o filme, comovente. Como o comum dos mortais, a arraia miúda, não conheceu a intimidade da Hebe, fica difícil falar em coerência, em justiça, em verdade. Claro está que quem a conheceu, suponho, deve ter dado suporte para a produção do roteiro e para a direção do filme, assim como para as demais personagens da vida da apresentadora que comparecem à narrativa fílmica. Produção correta, imagino, do ponto de vista técnico. Mas esta nota serva apenas para justificar a interrupção do raciocínio começado ontem, que não vai ser retomado. Ou por outra, vai ser retomado em sua perspectiva, que é a do cinema, de um filme. É sobre outro filme que desejava falar ontem e vou continuar falando hoje, mas não o da Hebe. O filme é Call me by your name, que, em Pindorama, recebeu o título “Me chame pelo seu nome” (tradução literal do original). A história de Elio e Oliver. Tenho a dizer que um dos primorosos detalhes do filme é a sua fotografia. As locações, toas na Itália, eu diria, na Itália profunda, são, de fato primorosas, para não dizer soberbas. Certo desconto há de ser dado à minha assertiva, pelo fato de seu eu um admirador inconteste da terra de Dante e de Umberto Eco. Vá lá, as locações são belíssimas. De grau idêntico é a trilha sonora. De uma delicadeza contundente, acentuando as nuances narrativas de forma mais que coesa e colorida. Um primor também. O mesmo eu não diria da coesão interna da narrativa. Mas isso sou eu. Vamos lá! O primeiro terço do filme passa sem maiores problemas. Acredito que a coesão se perca no segundo terço, quando a trama já anunciada se faz explícita para a plateia, com a inexplicável ajuda das personagens que, neste paço, agem como se tudo fora como a natureza determinara, numa placidez, numa tranquilidade, numa certeza, que em nada condizem com o tormento pelo qual passa o jovem Elio. É muito estranha a reação das demais personagens, em face do drama do adolescente. Este, por sua vez, não vai se construindo de maneira consistente ou, como mencionei, coerente, coesa. De repente, já está. Bum. Nada mais a explicar. Vejam o filme e me digam se estou exagerando. Este alerta vai por conta de minha chatice. Paradoxalmente, o último terço do filme é de uma delicadeza, de uma singeleza, tão coeso e coerente que chega a doer. Em nada se parece com certo blasé que parece pairar nos passos anteriores do filme. Digo isso por conta do discurso do pai de Elio, já quase ao final da película, quando, em tom confessional aconselha o filho a não fugir da experiência da dor pela qual está passando. Ela, diz o pai, é parte irrecorrível da experiência humana, no que diz respeito à vivências afetivas que constroem o caráter e a personalidade de um homem. Um discurso magistral, dito e apresentado de maneira contundente. As lágrimas de Elio o confirmam. Daí para o fim da história é um pulo. Vale a pena conferir.

Finale

Para encerrar a série sobre o Aldravismo, hoje falo um pouco de um livro peculiar. O texto não será de saudação a um novo membro, não será prefácio de um livro de poesias, nem será a introdução de um assunto novo, com ares presunçosos de verbete enciclopédico. Não, definitivamente. Não se trata um livro (por mim) muito esperado. Li-o, por primeira vez, ainda encadernado, como primeira versão de uma tese, com capa plástica e espiral plástico preto. Li-o por completo e fique assaz admirado da força de suas páginas, da coragem de suas assertivas, da necessidade de trazer à luz aquele material, urgente para colocar as bases de um pensamento novo que surgia entre montanhas ferríferas e matas já não virgens assim, nas cercanias da primaz de Minas. Pois é. Trata-se de um livro de textos “avulsos” que formam um conjunto de ideias robustas e articuladas entre si: os fundamentos disso que tratei aqui por quatro outro textos: o aldravismo. Seu título: “Aldravismo: reinvenção da arte pelo jornalismo cultural”. Seu autor: José Benedito Donadon Leal. dileto amigo. Seguindo o subtítulo, na capa aparece uma pequena palavra: ensaio. Hoje ouvi numa estação radiofônica, um locutor dissertar por alguns segundos sobre o conceito de ensaio. Chamou-o “textão”. E, presunçosamente irônico, disse que se tratava de gênero muito comum na atualidade, dependendo, infelizmente da “qualidade” (sic!) do ensaísta. E terminou seu comentário com uma risadinha, igualmente presunçosa, marcada por uma pretensa ironia. Fiquei com pena. Por isso, não me estendo sobre a conceituação do gênero, mas circunscrevo minas observações para esse conjunto magnífico de ensaios, em nada comparáveis a “textões”, como denigrem as mentes ululantes do hodierno cotidiano da pressa, da superficialidade e da pouca substância. O livro de José Benedito reúne manifestos da criação do movimento adravista, observações atentas e cuidadosas acerca de manifestações artísticas – sobretudo pintura e poesia –, passeia pelo universo da Literatura, na perspectiva de seu particular discurso e finaliza com uma proposição poética. Corajoso o volume. Corajoso e bem escrito. Corajoso, bem escrito e fundamental para quem quer começar a entender do que se trata o tal Aldravismo. As circunlocuções críticas e assertivas do autor revelam sua verve poética, ao mesmo tempo que, galhardamente, advoga a originalidade do movimento em sua fundamentação, digamos, teórica. Quando o li pela primeira vez, disse que deveria ser publicado. Agora o foi. Discorri por suas páginas encantado com a capacidade de deixar clara a argumentação de cariz semiótico – balizamento de que o autor se vale, com maestria e brilhantismo – a orientar o raciocínio e a argumentação do texto. As proposições, ao final seguem idêntica orientação, apontando, subliminarmente, para o espírito deste movimento, o Aldravismo, que surgido em Minas, resgata o espírito desbravador e independentista dos árcades. Ao mesmo tempo, este espírito abandona a armadilha saudosista para apontar caminhos absolutamente originais que levam para a criação de uma forma genuinamente brasileira de poesia: a aldravia. Agora, depois de reler a última parte do livro, tenho quase absolta certeza da inutilidade de meu planejado verbete – quem leu os outros textos que escrevi aqui vai saber do que estou falando. Fica então, uma vez mais, um convite para a leitura deste volume instigante, sedutor, a desbravar a mesmice das repetições inócuas deixando o caminho livre a preparado para o florescer da nova forma poética. Evoé!!!

O começo de tudo

O texto de hoje segue a série que comecei na semana passada, com a publicação de prefácios aldravistas e da saudação a novo membro de Alacib. O penúltimo passo, hoje, apresenta o primeiro texto que escrevi sobre o Aldravismo. Gosto dele, por ser o primeiro, óbvio. No entanto, penso que não consegui ainda, síntese melhor. Tenho a ideia de escrever um verbete para a Wikipedia, a partir deste texti, mas cadê que a preguiça deixa… Segue o dito cujo!

Conta a lenda que os homens pré-históricos, num ato inexplicável (até hoje), começaram a representar suas ideias em desenhos (as famosas pinturas rupestres). Com esse ato eles criaram a noção de uma linguagem que, se se pode pensar assim, ultrapassava os então conhecidos meios de comunicação “social”. As aspas são necessárias, uma vez que os conceitos – escondidos por detrás das palavras – podem ser traidores do pensamento e levar o leitor a fazer tabula rasa da História que acaba por conduzir o fio do pensamento humano sobre suas próprias conquistas e criações, ao longo do tempo – o inexorável tempo.
É assim que esses homens legaram, no mínimo, a oportunidade de seus “iguais” fazerem o mesmo na corrente do deus Cronos, com todas as variações que o imponderável futuro ia possibilitando. E continua a fazê-lo. Dessa lenda surge a ideia mestra do ALDRAVISMO: A DE QUE É SEMPRE POSSÍVEL INOVAR (e não há outra maneira para faze-lo de maneira satisfatória), senão partindo do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Esse eterno recomeçar, signo nietzscheano do “fracasso” humano, cobre de glória a iniciativa do Aldravismo, como se pode constatar nas páginas do presente livro. Ultrapassando a fase das pinturas rupestres, trato aqui das palavras e, nesse sentido, recorro ao famoso “pai dos burros”, sem desrespeitar o vernáculo, uma vez que se trata de CULTURA E CULTURA enquanto intervenção do sujeito. Assim, vamos ao dicionário: Aldrava, indica o dicionário do Houaiss, vem de “aldraba”.

• pequena tranca metálica para fechar a porta, com dispositivo por fora para abrir e fechar, ferrolho;
• (1896) tranca usada para escorar portas e janelas;
• (1712) peça móvel de metal, em forma de argola, mão, etc., que se encontra do lado de fora para chamar; batedor;
• perneira de couro usado pelos sertanejos;
• pequena tranca de ferro que segura a cara do leme por ante-à-ré da parte superior da madre do leme.

Estranha palavra essa que remete, em sua história étimo-semântica a uma ideia de aprisionamento, mas ao mesmo tempo de abertura e chamamento. Principalmente quando utilizada por um grupo de pessoas que, antes de qualquer coisa, estão preocupadas com a arte de utilizar a palavra para produzir ideias, beleza, renovação do pensamento. Esse a meu ver, o prisma principal desse volume que publica os MANIFESTOS ALDRAVISTAS, uma antologia poética e ensaios de cultura popular. Tocando numa “ferida” (paradoxalmente) muito cultivada pela “academia” esse conjunto de ensaios e poesias manifesta o desejo constante de uma superação, através dos recursos mais simples que a espécie humana já conheceu: A LINGUAGEM. Simples, por um lado apenas, pois a complexidade desse “fenômeno” explicita-se em tantas e tão variadas formas, que não se pode sair impune do uso do adjetivo “simples”.
Na contramão da acepção dicionarizada de aprisionamento, a aldrava, aqui, abre caminhos para um exercício de experimentação que em nada se torna pejorativo, quando observado sob a perspectiva de uma manifestação “regional” de cultura. Regional, sim, sem medo da palavra, pois é exatamente do que se trata, quando se fala do “aldravismo”. A proposição espraiada pelas páginas do volume atesta a fertilidade do pensamento local, sem demérito de seu perímetro cultural, pois, sem ele, nada do que se conhece como cultura haveria de permanecer consolidado ao longo do tempo. A discussão sobre o cânone, as referências à cultura popular – sem, necessariamente, subscrever qualquer das perspectivas dialéticas que esse binômio já suscitou em nosso meio – fazem jus ao caminho trilhado pelos autores que, em seu conjunto, ultrapassam qualquer “classificação”, uma vez que se colocam de maneira aberta e consciente à leitura, num gesto rasgado de abnegação e disponibilidade, traços de generosidade intelectual, raro, em nossos dias.
A antologia poética não deixa de acompanhar o mesmo tom e, em seu conjunto, justifica e exemplifica, ao mesmo tempo, os protestos de manifestação do aldravismo, enquanto uma via peculiar, marcada por uma subjetividade igualmente peculiar que se enuncia em cada verso. Sem entrar no mérito supostamente crítico, arrisco uma opinião pessoal: TRATA-SE de uma manifestação poética de valor cultural inegável que intriga pela simplicidade e se destaca pela crueza com que desenha o perfil regional de Minas Gerais, de uma maneira, até original. O trabalho em seu conjunto merece atenção, não apenas por seu conteúdo, o que já se justificaria, mas por sua contribuição a um exercício tão pouco praticado, principalmente, por aqueles que se dizem intelectuais. Assumir essa “identidade” não é jamais manter uma pose, mas se fazer, concretamente, instrumento de explicitação de ideias e ideais, artísticos acima de tudo, com a convicção de se estar construindo algo que contribua para incentivar a leitura, em seu sentido mais elevado e amplo. Esse é, a meu ver, o propósito aqui, o que, por si só, já justifica a leitura do textos apresentados no livro Aldravismo – a Literatura do Sujeito.

Texto de apresentação do livro Aldravismo – a literatura do sujeito. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2002

MARIANA, JUNHO, 2002

José Luiz Foureaux de Souza Júnior




Mar: metonímias possíveis da/para a poesia

Hoje é dia da terceira intervenção acerca do aldravismo, em suas manifestações. Vai mais um prefácio, desta feita, ao livro de “prosopoemas” de Gabriel Bicalho, intitulado Âncoras flutuantes.

Prefácio

O aldravismo, em sua proposição e em suas realizações, até o presente momento, não é pós-moderno. Qualquer referência ao termo “pós-modernismo”, aqui, expõe imediatamente as retinas um tanto fatigadas de qualquer leitor de poesia ao risco de ser acusado de perpetuar certa moda intelectual passageira, fútil e sem importância. Um dos problemas é que o termo está em moda e, ao mesmo tempo, é irritantemente difícil de definir. Essa palavra não tem sentido, deve ser usada sempre que for possível. Este “axioma” – ainda que o termo seja discutível, neste caso – serve de exemplo da provocação em nada pós-moderna, implícita no exercício poético do Aldravismo. Adiantando um passo: a experiência proso-poética de Gabriel Bicalho, como as demais, originadas no cenáculo do Aldravismo – atenção: estou longe de desmerecer, tanto o termo usado, quanto à infundada “ironia” que supostamente alguém há de associar a meu raciocínio, aqui! –, é prova cabal e suficiente que “moderno” e/ou “pós-moderno” são termos que “reduzem” a espessura da aventura poética do aldravista em questão. De novo, peço atenção para o termo “aventura” – sempre com o mesmo norte semântico – aventura no sentido de descoberta e ousadia, não no sentido de irresponsabilidade e/ou gratuidade.

Chamo de fragmentos aos pequenos prosopoemas que Gabriel Bicalho cria. Na falta de termo mais “adequado” – se é que ele existe ou, antes, teria que existir… –, o termo “fragmento” remete ao princípio metonímico do poeta aldravista, acompanhando a maré de seu grupo, neste percurso de, já, dez anos. O fragmento remete à ideia de uma totalidade desejada pela poesia, ainda que ciente de sua precariedade inata, expressão vocabular que, como a maré que envolve as âncoras do poeta. O fragmento, então, é signo que permite à voz poética o trânsito pelas águas da existência e as marés da poesia, livres aqui da ressaca, fenômeno natural que poria a perder todo e qualquer esforço de conservação de formas, quaisquer que fosse. Os prosopoemas de Gabriel Bicalho, então, metonimizam o fazer poético, dissolvendo em águas novas a poesia que sai do “ventre de Minas”.

São 58 âncoras que vicejam no acobreado mar de palavras que constituem os prosopoemas aqui apresentados. A ilustração das âncoras, para além o texto a que remetem, também apontam para o fundo, indicando o direcionamento do raciocínio poético do autor. Ambígua e simultaneamente, estas âncoras seguram o barco do desejo poético, em sua expressão, ao mesmo tempo em que deixam ao sabor das marés, os sentidos que, metonimicamente, oferece ao leitor. Este “compadrio” ou, mesmo, esta cumplicidade, são peças fundamentais na construção do(s) sentido(s) expressos pelos prosopoemas de Gabriel Bicalho. Renovando experiências vanguardistas dos haicais, em perspectiva mais profunda; e, mais diuturnamente, o desafio das “aldravias”, o texto de Gabriel Bicalho anuncia a certeza de que a criação poética renasce como Fênix, de suas aparentes cinzas mortais. O mito revisitado, mesmo que inconscientemente, corrobora a veraz sedução que as aldravias exercem sobre os caminhos (e descaminhos!) da Literatura no Brasil. Há que reconhecer que, por menos reconhecida que seja uma proposta, não se faz suficiente dizê-lo. Há que se experimentar em carne viva – como na dicção de Chico Buarque de Holanda – para então ser possível avaliar.

Âncora é palavra originalmente circunscrita à cultura marítima. Peça de ferro forjado destinada a reter o navio, segurando-o pela amarra num fundeadouro. Neste sentido, os textos de Gabriel Bicalho podem ser lidos como objetos que asseguram ao sujeito poético, sua estabilidade existencial e emotiva. Nas palavras que se movimentam qual maré – na inexistência metonímica de pontuação (exceção feita ao final de cada fragmento e uma ou outra ocorrência rara) – a construção de cada fragmento confere ao pensamento poético movimento encapelado de indagações existenciais, ao sabor de ventos insuspeitados vindos das montanhas: implícita min

eiridade, latência aldrávica que instiga e seduz o leitor.Âncora é também termo afeito à aeronáutica, nomeando aparelho com vários ganchos articulados que o aeronauta lança da barquinha para se agarrar ao solo e parando o aeróstato. Já nesta camada semântica, o já referido “vento” que sopra das alterosas redinamiza o movimento interno de cada uma das “âncoras”, desta feita, bólido errante num mar de palavra que mesmeriza o olhar poético. A insistência em perguntas que não se respondem, a repetição de ideias e sensações, conduz o poeta pela atmosfera do fazer poético que não abre mão de sua liberdade – ainda que tardia!

Em sentido figurado, “âncora” pode apontar para alguma coisa que serve para proteger, para amparar; espécie de arrimo, amparo. Aqui se encontra o clímax desta poesia que se impõe pelo inesperado da construção, pela leveza das imagens e pela constância do convite: pensar, rever, imaginar. Os prosopoemas “ancoram-se” na certeza do viver poético que cristaliza experiências em versos não pontuados, que se concentram em fragmentos enleados pelo movimento marítimo da poesia de Gabriel Bicalho. Na aparente ausência de elaboração, num “fingido” exercício de simular circunstância – afinal a poesia jamais deixa de ser fingimentos que se confirma, constatação que se desfaz: paradoxo axiomático – o poeta desenha sua rota pelas veredas aquáticas da experiência universal do sujeito em sua precariedade. A palavra lhe serve, então, de “âncora”, espécie de tábua de salvação, desesperada e liricamente deseja pelo bateau ivre de Rimbaud:

âncora final

veleiro noturno o tempo passa sem a clara lua no azul nublado deste céu escuro neste mar amaro que me vem dos olhos veleiro soturno sob a luz funérea de um farol de sombras que nos faz em trevas velejando agora retina à rotina da rota maldita de um remar sem remos marujos caramujos que seremos sempre em velados veleiros flutuantes âncoras pelos negros mares de afogar-nos plenos de tristeza e a sós reprimindo os sonhos loucos pesadelos pelas noites frias sem saber se somos fomos ou seremos só restos de nós: quantas vezes mais velejaremos tristes aos insólitos limites da eternidade?

Por fim, esse substantivo de dois gêneros na/da cultura da informação, âncora, refere-se ao profissional do jornalismo televisivo que centraliza a emissão nos noticiários, cuidando pessoalmente ou participando da elaboração do texto das informações e apresentando-as, frequentemente com comentários opinativos. Neste diapasão semântico, a palavra que nomeia os fragmentos do livro de Gabriel Bicalho também encontra eco. Qual “jornalista”, o poeta palmilha o cotidiano, recobrindo sua banalidade com o véu da imaginação poética. Sua caravela singra o encapelado oceano do viver, pontuando sutilezas que, vez por outra, se anunciam à vista maruja do sujeito poético que, singelamente, abstém-se de opinar – no sentido de conduzir a opinião alheia. Exercício essencialmente aldrávico – para deixar abertas as próprias feridas, como a convidar o samaritano olhar do leitor:

âncora 27

só um poeta só ousaria contemplação embora não aceite a agonia da gaivota quando um seu vôo rasante desenha versos brancos no azul celeste e pios alucinados timbram o ritmo do mais triste poema traçado à plenitude da liberdade e da vida enquanto que ele impotente e desesperado nas mãos espreme a areia que lhe escorre

O paradoxo que nomeia o volume se desfaz na certeza da descrição poética é uma epopeia vivida por esse Ulisses mineralizado na/das alterosas. A voz poética anuncia a certeza de que os contrários se atritam na confecção inconsútil do tear poético do Aldravismo. Em sua proposta de método poético (sem redução a um punhado de princípios e práticas estéreis e prefixadas) o Aldravismo contempla a experiência mater da poesia que é a contiguidade. Ao lado da comparação, o poema promove séries infinitas de associações livres, o que faria o gozo de qualquer psicanalista. Dessa prática associativa, perde-se num horizonte de expectativas infinito, a possibilidade de se delinear um sentido. Ao olhar do leitor, esboça-se outro sempre renovado, tantas vezes quantas retomar a leitura dos prosopoemas. Ideal de qualquer fazer literário, ainda que denegado, essa “repetição” traduz bem o desejo aldrávico de associar, sempre e mais, através da concentração vocabular, reduzida – sempre que possível – ao mínimo. Exercício difícil do dizer poético que as “âncoras” conseguem conservar fundeado no oceano de possibilidades que os prosopoemas oferecem generosamente. O barco ancorado flutua sobre o mar de palavra, assim como o porta-voz da notícia anuncia a dúvida íntima de cada semelhante. Errantes no mesmo oceano, poeta e leitor se “ancoram” na certeza de que, como já disse Pessoa: “navegar é preciso”!

O estatuto do processo de que resulta a obra literária é motivo de polêmica desde sua denominação. A noção de gênio, surgida no Renascimento humanista quando recoloca o homem no centro do universo, retomada e radicalizada pelo Romantismo e seu culto da individualidade, deu origem à ideia de que a atividade do escritor é criação, à feição divina, livre e todo-poderosa. O artista, nessa concepção, seria um ser dotado de talento especial pela natureza, podendo este ser ou não aperfeiçoado pela educação estética, com poderes para alterar a configuração da realidade, acrescentando-lhe novos elementos. Remontando ao irônico Íon, de Platão, esse demiurgo conseguiria realizar a sua obra apenas graças à inspiração, recebida dos deuses, ou auferida em estados de êxtase e delírio, sem conhecer, portanto, os modelos de suas criaturas mas alcançando uma dimensão superior de verdade tanto quanto a da natureza. A noção de inspiração será substituída pela de efusão espontânea de um espírito excepcional entre os românticos e bastará para justificar o reconhecimento público do trabalho como obra-prima.

Nesta visão, muito pouco parece restar para a criatividade humana. O sujeito, em seu desejo de expressão e criação vê-se praticamente tolhido pelo ímpeto de certa natureza inefável. O desafio aldravista assenta-se exatamente nesta “pulsão poética”. Como suas similares freudianas, os poetas aldravista, como aqui o exemplo de Gabriel Bicalho reforça e consolida, ascendem a horizontes amplos de experimentação estética. Sua busca incansável de comunicação – sem as restrições de código e/ou de meio – não se submete a limites estreitos de visão, seja Renascentista, Romântica ou quejandos. Assim, a modernidade e/ou pós-modernidade aventada no início deste prefácio, desfaz-se como bruma seca, no primeiro raio de sol. Os “prosoversos” são como os raios deste sol metafísico que a poesia aldravista engendra.

Pierre Macherey opõe-se ao entendimento dessa questão, afirmando que “as várias teorias da criação têm em comum o eliminarem a hipótese de fabricação ou de produção”, negando o trabalho produtivo ao erigir-lhe um monumento (a criação) que o oculta. Na sua perspectiva, a obra é produto de um trabalho, é construída. Ele diz que o poeta é operário de seu texto. De fato, o escritor não fabrica os materiais com que trabalha; não os encontra espontaneamente ordenados, peças errantes, prontas para ajudar a edificação de qualquer ossatura. As palavras não são elementos neutros, transparentes, que teriam o dom de se abolir, de desaparecer no conjunto que servem para constituir, dando-lhe matéria, tomando a sua ou as suas formas. Os motivos que determinam a existência da obra não são instrumentos independentes, prontos a servir qualquer sentido: têm peso específico, força própria, conservam autonomia. A necessidade da obra é um produto. No rastro deste raciocínio, não há como negar a efetividade da afirmativa, principalmente quando se depara com os prosopoemas de Gabriel Bicalho: exercício profícuo desta “produção” que se auto-lê.

Parece óbvio que essa visão de trabalho produtivo é defensável, levando em conta que advoga ser a necessidade da obra fabricada pelo escritor a partir da heterogeneidade de materiais e de injunções sócio históricas, conformando uns e outras numa ilusão de ordem e unidade cujo efeito é contradizer a desordem gerada pela ideologia na compreensão do real. Nesse sentido, a obra é sempre inacabada, incompleta, existe pelos seus silêncios, pelo que não diz daquilo que está fora dela. A pergunta a ser feita pelo leitor poderia ser, então, “por meio de que relação, em relação a quê diferente dela, é produzida a obra?”. Nos ecos metonímicos que o Aldravismo produz, esta pergunta emerge constante: leit motif para a produção de Gabriel Bicalho. Seus prosopoemas reverberam a dúvida constitutiva da sinédoque: figura mater para a poesia que se faz no limiar de gêneros, prosa e poesia.

Entretanto, o elemento criativo não precisa ser tomado no sentido religioso, teológico e tautológico – de o sujeito criar o humano, como para os renascentistas. Outro sentido do termo criação pode ser convocado para explicar a gênese da obra literária. Tal constatação afasta definitivamente este livro do risco de ser reduzido à esfera do que se convencionou chamar de moderno e/ou pós-moderno. O sentido de superação desaparece no fulgurar de imagens fluidas, fazendo flutuar as âncoras que bordejam certo mar de palavras. A construção, ou fabricação de algo implica, decerto, materiais, técnica e projeto, elementos presentes na literatura. Nesse rumo de pensamento, a obra é produto: o escritor precisa ter conhecimento dos gêneros e da tradição literários, de técnicas narrativas ou poéticas, deve escrever a partir de alguma motivação, seja ela um impulso cego, inconsciente, ou um intento pensado, engajado, é obrigado a pesquisar soluções para os problemas e impasses surgidos ao longo do processo produtivo, valendo-se da experiência própria ou alheia. Não poderia ser outro o resultado. O livro de Gabriel Bicalho é exemplo acabado desse fazer poético. O partido da metonímia como procedimento de criação, faz de seus textos expressão desse “além da tradição”, sem prestigiá-la na medida mesma de sua superação – em sentido mais que restrito, em nada valorativo. Isso seria desmerecer a própria poeticidade dos fragmentos. Além disso, efetua seu trabalho em certas condições sociais e econômicas: pertence a uma classe e a um grupo com ideologias específicas, lida com o jogo de forças políticas na área da cultura, expresso nos órgãos oficiais, nas organizações acadêmicas, na indústria e mercado do livro. Tudo isso pesa na gênese da obra, prende-a a constrições materiais e ideológicas, mas não exclui o fator criatividade.

Reduzir o processo de construção da obra à ideia de produção impede a possibilidade de explicá-lo como manifestação da liberdade, uma vez que o trabalho é sempre uma atividade determinada pela necessidade de sobrevivência, primeiramente de transformação da natureza em cultura para que não se pereça entregue à primeira e depois de alienação da força de trabalho em troca de dinheiro, nas sociedades capitalistas. Marx vê no trabalho a fonte de humanização do homem, desde que não alienado, mas a História não tem proporcionado sociedades economicamente livres da alienação. Talvez seja por isso mesmo que, por tantas vezes, tenha sido anunciada a morte da poesia. O livro de Gabriel Bicalho é denúncia da falácia de tal afirmação, mesmo que repetitiva.

Diante de uma concepção de trabalho não autônomo, o do artista da palavra não pode ser assimilado ao do operário. Apesar de fazer parte da mesma engrenagem do capitalismo, o escritor extrai de sua arte o prazer da construção, da satisfação de uma necessidade, e não necessariamente a entende apenas como meio de remuneração. No fazer artístico em geral preserva-se, a despeito da mercantilização inevitável, o valor de uso, seja para o produtor, seja para o consumidor, mesmo que o valor de troca impeça, por exemplo, o escritor de viver de sua arte e o leitor de adquirir o livro. O Aldravismo compreende a lição marxiana e a põe em prática, espalhando poesia num mercado tão cioso de suas “materialidades”. O pensar poético do Aldravismo, aqui ilustrado pelos prosopoemas de Gabriel Bicalgo, é prova incontestável de que não é indispensável a desarticulação entre poesia e sociedade. A aparente superficialidade e/ou alienação a poesia – para aqueles que ainda não compreenderam sua vicissitude de expressão plena – transcreve a possibilidade de aproximação de dois mundos: material/espiritual, poético/pragmático, consciente/inconsciente. As binomias multiplicam-se ao infinito.

Nessa medida, pode-se pensar em criação literária como aquela atividade que, valendo-se de materiais simbólicos, preexistentes, recombina-os de modo a obter um objeto verbal antes inexistente, criando, no sentido do termo, laços e rupturas onde antes não os havia, de modo a reconfigurar o já existente. Não se trata de defender a ideia de intencionalidade genial, pois é sabido, desde a refutação dos new critics da falácia intencional, que a obra não diz o que o autor quer: ela é, e é algo diverso para cada leitor. Todavia, na sua gênese, o não intencional é que se mostra criativo e é possível pensá-lo não de um ângulo idealista ou essencialista, mas a partir dos elementos materiais que o escritor agencia. Assim, as âncoras de Gabriel Bicalho não são antigas, nem modernas nem pós-modernas. Seus prosopoemas são uma proposta, convite ao prazer da leitura.

Mariana, junho de 2011.

“Essências: sonhos, frutos e luzes”

Tríades, trios, triângulos: a poesia de Andreia

Três são as fases da vida; três, as partes do dia; três, as pessoas da Santíssima Trindade e os lados do triângulo. Número cabalístico, de simbologia mais que milenar e de uma inexplicabilidade visceral. sonhos, frutos e luzes: três elementos que compõem a “essência” de que fala a poesia de Andreia Donadon Leal. Destas três, duas são voláteis, efêmeras, etéreas: sonhos e luzes. A outra, concreta, sustenta a própria existência humana, faz parte de sua alimentação. Nesse processo, a poesia se faz veio mais que privilegiado. Nesse curso, penso em três mitos: Helena, Sísifo e eterno retorno.

O primeiro fala do rapto de Helena, que a mitologia grega descrevia como a mais bela das mulheres. Desencadeia lendária guerra. A mulher é personagem da Ilíada e da Odisseia: filha de Zeus e da mortal Leda – esposa de Tíndaro, rei de Esparta. Ainda menina, é raptada por Teseu, depois libertada e levada de volta para Esparta por seus irmãos Castor e Pólux. Para evitar disputa entre pretendentes, Tíndaro fez com que todos jurassem respeitar a escolha da filha. Ela se casou com Menelau, rei de Esparta, irmão mais novo de Agamenon, que se casara com uma irmã de Helena, Clitemnestra. Helena, contudo, abandonou o marido para fugir com Páris, filho de Príamo, rei de Tróia. De certa forma, ela trai seu destino, tomando as rédeas dele por decisão apaixonada. Muitas vezes, o entendimento das atitudes humanas não se faz perceber pela clareza do discurso, mas pela sinuosidade da “poesia”. As aspas se justificam: o campo semântico é muito amplo! Helena foi adorada como deusa da beleza em Terapne e diversos outros pontos do mundo grego. Sua lenda foi tomada como tema de grandes poetas da literatura ocidental, de Homero e Virgílio a Goethe e Giraudoux. Por que não dizer de Andreia Donandon Leal também? Veremos…

O segundo, Sísifo encarnava, na mitologia grega, a astúcia e a rebeldia do homem frente aos desígnios divinos. Sua audácia, no entanto, motivou exemplar castigo final de Zeus, que o condenou a empurrar eternamente, ladeira acima, uma pedra que rolava de novo ao atingir o topo de uma colina, conforme se narra na Odisséia. Ele é citado na Ilíada, de Homero, como filho de Éolo – aqui, o movimento dos ventos é muito forte em se simbolismo dinâmico, metonimizado nos caminhos e descaminhos que a existência oferece ao sujeito da poesia, como nas andanças de Andreia pelo “ser” feminino que povoa suas linhas. A lenda mais conhecida sobre Sísifo conta que aprisionou Tânatus, a morte, quando esta veio buscá-lo, e assim impediu por algum tempo que os homens morressem. Quando Tânatus foi libertada, por interferência de Ares, Sísifo foi condenado a descer aos infernos. Quem pode negar, com absoluta segurança, que a poesia é a expressão dessa índole impulsiva, que encontra no verso uma saída para a “danação” de existir? Assim, o fazer poético de Essências transfigura, quase que pelo avesso, a condenação de Sísifo. Explico-me. Em lugar de prefigurar uma danação, em sentido pejorativo, a poesia faz-se arauto de outra forma de existir, pela palavra. Uma espécie de aldrava que expande o horizonte de expectativas de quem observa poeticamente a paisagem como esboço de uma existência sempre por fazer – como o sentido na mistura de cores e formas numa tela – outra metonímia poética.

Por fim, o eterno retorno, conceito desenvolvido por Friedrich Nietzsche, considerado por ele próprio um dos seus pensamentos mais aterrorizadores. Foi durante um passeio em 1881 que Nietzsche refletiu sobre os sentidos das vivências em alternâncias que se “repetem”. Em um de seus “aforismos” o que leva o número 56, o filósofo diz:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!“ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

A ideia a destacar é a de que polos se alternam nas vivências numa eterna repetição. Criação e destruição, alegria e tristeza, saúde e doença, bem e mal, belo e feio,… tudo vai e tudo retorna. Porém, esses polos não se opõem, mas são faces de uma mesma realidade, isto é, um complementa o outro, são contínuos de um jogo só. Alegria e tristeza são faces de uma única coisa experienciada com grau diferente. A ideia de temporalidade, como sequência, escapa a este pensamento. A realidade, para o filósofo, não tem finalidade nem objetivo a cumprir, daí as alternâncias que repetem. O devir não ocorre de modo exatamente igual, mas são variações de sentidos já vivenciados, faces da mesma realidade. A alegria e a tristeza que senti não serão iguais no amanhã, mas voltarei a experimentar esses estados em suas diferentes variações.

Essa mesma alternância é metonimizada pela poesia de Andreia. No conjunto de seus versos, nada há que não corrobore esta tese. De fato, o próprio fazer poético é, em si mesmo, exercício de repetição e de alternância, de avanço e retorno, como bem queria o filósofo. Assim não fosse, teríamos que destruir as hipóteses de Harold Bloom, por exemplo. Mas a história, neste caso, seria outra. Aqui, não procuro avatares para a refiguração de um possível ater ego para a voz poética, que se denuncia a si mesma nos versos de Essências. Ainda que o pessimismo possa ser localizado no substrato, a poesia neste livro não pode ser do mesmo modo chancelada. Ao contrário, é um grito de vitória sobre o pessimismo, no sentido em que se faz ouvir de dentro da própria experiência existencial. Fica, então, para sempre irrespondida, a questão: se tudo retorna – o prazer e o desprazer, a dor e o deleite, a alegria e o sofrimento – pode-se mesmo viver até a eternidade onde nada de novo irá acontecer além de vivências com nuances variadas de uma mesma realidade?

Insistir. Verbo transitivo indireto e intransitivo. Pode significar “pedir novamente (algo) a (alguém), apesar de já ter recebido uma ou várias recusas”; “aconselhar (algo) a (alguém) novamente ou várias vezes”; “emprestar particular importância a algum assunto, sobre o qual se volta e se estende mais do que o normal; repetir, reiterar”; “não desistir; perseverar, continuar”. Nos dois primeiros casos, o verbo é transitivo indireto. Da lição gramatical fica o insigt poético da autora: a mediação de uma subjetividade outra – a do leitor – para o trânsito de sentidos que as imagens suscitam aldravicamente nos versos que passeiam pelas páginas de “Essências: sonhos, frutos e luzes”. Aqui, a poesia pede novamente, aconselha inúmeras vezes, a quem enfrenta os versos para recusar a opacidade e abandonar a preguiçosa atitude decifrar códigos pela superficialidade dos signos. A contiguidade de seus sentidos empresta importância a assuntos corriqueiros para mergulhar na intransitividade do feminino. É como se os mitos não deixassem de eternamente se repetir a cada linha de poema que é escrito. Não é diferente aqui!

O sentido aqui é outro: sem militância de gênero, sem discursividade proselitista, a poesia de Andreia desvenda o feminino em sutilezas verbais que não se envergonham de deambular pela experiência empírica de viver. O aspecto intransitivo do verbo cede lugar a uma sensibilidade elaborada em figuras sutis de colorido contundente: estar vivo e criar. Nada como perseverar, continuar, não desistir. Percebe-se, logo nas primeiras linhas, a insistência no sonho como matéria de criação poética. Fica clara a visão lúcida do fazer poético que se dá por associações, muitas vezes, inconscientes, reelaboradas pela linguagem metonímica. Quem adentra estas páginas, logo se dá conta da contiguidade entre sentido poético e inconsciente. As aparentes incongruências oriundas da passagem do tempo revelam a visualidade da experiência de existir como em “Envelhecer” e “Fruto”, não sem deixar de curvar-se à experiência do religioso:

Oração

a poesia

em todos os tempos

sempre foi a oração

dos que amam

(…)

De quebra, a sombra protetora e fulgurante de Fernando Pessoa, caminha lado a lado com a criatividade da autora, em suas reflexões. O universo feminino transcende fronteiras de gênero, sepulta rotulações reduoras e acende a chama da interação – atitude “insistentemente” reiterada, clamando pela inlocução com o leitor na fatura da poesia:

Reflexão

no cais

e

no caos

em busca de mim mesmo

(…)

O cais poético é o mesmo em qualquer língua, em qualquer tempo. O movimento da maré não prescinde a subjetividade ambivalente que aproxima, elide mesmo autor e leitor, nas malhas dos versos. Em qualquer um dos textos, o que se pressente, às vezes, literal, às vezes sub-repticiamente, é a imagem de um corpo que se desenha poeticamente em palavras. O corpo, como índice do poético que se transmuta em palavras articuladas por sinédoques questionadoras, inquisitivas, exploradoras de sentidos, oculta-se na imaginação de quem lê. O feminino se esconde em subterfúgios semânticos, indiciados por figuras recobertas de simplicidade e de sentido literal: transposição da ideia equivocada da criação como dificuldade ou elaboração hermética – idiossincrasia aldravista.

A princípio a relação corpo e poesia é bastante óbvia. A construção/elaboração da linguagem é articulada em formatos estéticos, seja pela fala, seja para cifragem de códigos. Relaciona-se com a emergência do corpo, por dar consistência ao que apreende emocionalmente do ambiente, no intuito de tornar-se ambiente, ao expressar-se. Uma forma de dizer que a linguagem poética é o modo de o sujeito se tornar um no/com o todo. A materialização da experiência no todo é sempre, e sob quaisquer circunstâncias, mediada pelo corpo em sua integridade.

O corpo agencia suas próprias concepções em linguagem. Quando se afirma que no humano tudo é linguagem, algo, no entanto, fica em espreita. A função mais imediata do corpo é a comunicação. O próprio estar do corpo no ambiente já é comunicação. Já há uma relação explícita de comunhão entre os fenômenos da natureza corporal e os fenômenos da natureza do ambiente em que ele se coloca. A partir desse ambiente, com todos os demais, a circunstância repete-se nos mais amplos espectros do sentido. Do simples estar do corpo, toda uma rede de interlocuções com o espaço-tempo já está em andamento. Real e/ou do virtualmente. O corpo é eminentemente material, isso, no entanto, não o limita à sua concretude. A carne ao se reconhecer carne projeta sua própria existência pra si mesma e ao fazê-lo imagina, é tomada por um fluxo de imagens, que desestabiliza seus estatutos de material hiper concreto: a linguagem poética. Deseja o que projeta em imagens, e se coloca a cada instante em carne e forma expressiva desestabilizando também o ambiente – o fluxo espaço-temporal. A filosofia de Merleau-Ponty que o diga. A experiência de consciência é o produto mais obvio derivado dessa comunicação:

(…)

Seu corpo

retrato permanente

em

minhas ocres paredes,

enlouquecem minha razão.

(…)

Enlouquecer pela razão não é perder o veio de sentido do existir. Na associação feita pela poetisa, a imagem do tempo que passa, associa-se à da percepção de que tudo o que é vivo se decompõe. Não há metafísica que consiga explicar, em termos absolutos, a derrisão incontornável desta constatação. Nos versos de Andreia, pensar o corpo é como escrever autobiografia: registra-se o vivido, sem o temor da crise, ou da deliberada acusação de sua falência. A coragem de encarar a decomposição, que aqui me faz lembrar Cioran, não impede a originalidades nas cores usadas pela autora. Na verdade, a cada passo, seus versos reiteram a miríade de nuances que o fato de estar vivo denuncia e sustenta: implacabilidade do destino desenhada pelo verso grácil, numa tela sempre em mutação cromática, iluminada pela razão que se liquefaz na tinta que escorre da tela. Andreia é artista plástica. Como tal, utiliza de forma interessante, sutil, delicada e peculiar algumas técnicas pictóricas, criando as pontes aldrávicas de seu dizer poético.

Na experiência do existir do questionamento/desejo da carne (Por que só sou nesse quando e nesse onde?) a existência do espaço-tempo e do corpo se desfaz, virtualiza-se. A própria concretude da carne é, portanto, sua mais clara abstração. Aqui, ela se expressa pela associação às frutas, à terra, ao útero que vai secando na medida em que o corpo se arrasta pelas pedras de Mariana, de Granada, Barcelona ou Santa Bárbara.  A universalidade dessas visões não pode ser questionada, sob pena da perda de sentido do exercício poético de expressar a subjetividade. Não é esse mesmo o fazer poético mais genuíno?

(…)

Impetuoso,

pleno de ira intelectual,

discrepante con la realidad,

filete de carne arrancado, con las uñas,

del codo destrozado.

(…)

Essa incessante pulsão poética do corpo pelo prazer de cada instante delimita suas ações, contorna suas formas projetadas, individualiza e socializa a identidade em decifração atualizada no ambiente, agora já sem distinção entre o fora e o dentro, ancorada nesse limiar que é a linguagem, por sua vez ancorada à língua – as vezes traços, as vezes pele, as vezes forma, as vezes sons, mas sempre mecânicas de articulações e músculos testando a materialidade, através de relações de natureza mais diversa! O que o corpo quer então da poesia? Decifração? Ludicidade? Comunicação? Comunhão? Se tudo é linguagem, se no universo também as relações se configuram em termos de interlocuções e contrapartidas, a ordem, o nível, os códigos desse jogo ao serem notados pelo corpo convidam o corpo, essa individualidade, a um mergulho no universo, um mergulho que a depender dessas individualidades, do tempo e do espaço, sob qualquer dos pretextos acima, mas um mergulho irrevogável. Irrevogável, sobretudo, por questões materiais.

A materialidade emergente do corpo no/do espaço-tempo, denuncia sua condição de imediatez: agora/aqui, não só em termos reais. A imagem é ainda mais efêmera e eterna. A relação entre o corpo e a linguagem, pode se dizer, é a da emergência do desdobramento, não da meta, mas do desdobramento. Esse mesmo desdobramento que faz da proposta do Aldravismo muito mais que mera repetição utilitária do conceito de metonímia. Ao contrário, essa revisitação reacende chama bruxuleante da poesia que se pensa moribunda. Das alterosas, o apontar a metonímia como vetor de força poética, já, por si só, denuncia a vontade de vencer o próprio tempo, tempo poética, sem data e sem geografia.

A cada interação de dados entre as individualidades do sistema ocorre dentro da própria comunicação um desdobramento, um devir de encantamentos possíveis. A reafirmação do tempo pela expectativa de novos possíveis encantamentos. Qualquer que seja o objeto de encantamento criado pelo corpo na sua construção cultural. A partir desse encantamento a poesia se instaura no real a partir do corpo. Expressa tal individualidade no ambiente, e a partir daí o ambiente carece de novas operacionalizações, provocado por sempre novas desestabilizações, ad infinitum, mas sempre agora aqui. Nada mais parecido com o eterno retorno aqui já aludido!

O infinito-agora rejeita a burocracia. Rejeita o cumprimento de normas e procedimentos lúgubres. O infinito-agora se realiza no vivo, na contradição, na ansiedade, na curiosidade, na falha, no medo, enfim na instigação do vivente. O presente, dado a sua complexidade só pode ser tratado pelo poético. Por isso o corpo-agora-vivo rejeita o prosaico. Rejeita a hora, e se encanta com o tempo, rejeita o caminho pra se perder no espaço. Rejeita futuro e passado pelo sonho presente. Submerso no presente, a individualidade-corpo procura a poesia mais que o contato. Não apenas devido ao reconhecimento da efemeridade do contato, mas, sobretudo, pela urgência de eternidade presente contida na relação que o corpo pode ter com o espaço-tempo, que no fim das contas é a única possível. Qualquer outra relação com o ambiente se torna impossível já que o corpo de qualquer individualidade é criado em ficção na cultura, a própria burocracia relacional é um poema. Tentativa de poema, mas poema. Daí, a proximidade com o castigo de Sísifo: prática sem fim que não cansa, nem mata. Ao contrário revivifica as energias vitais e, em sua representação retorna sempre ao começo, sem fugir de seu próprio destino. De certa forma, a sombra de Helena ainda paira por aqui! Um poema: único modo do humano-corpo se aproximar do não eu, se é que ele existe:

(…)

todos fingem que não veem

a decrepitude do seu ser

que caminha rastejante pelas ruas,

dói o desprezo

dói o não ao caso

dói a filha da puta da vaidade,

maldita praga que corrói

lentamente

ossos

entranhas

e

fissuras

em cada ponto do corpo.

(…)

O corpo, essa integridade analítica, individualidade universal, tem poucas saídas a não ser tentar a poesia, sem nunca atingi-la de fato, se se pretende vivo. Tudo mais é a burocracia do existir: comer, cagar, dormir, trepar, viver e morrer. Na verdade, outra poesia, outra ficção, que o ego pode suportar, se consegue reter na máscara o momento fugaz do flash sobre a maquilagem, mas o corpo não o consegue, ao que parece. Para além dele, na poesia de Andreia, talvez a insistência das flores, outro elemento da alucinação poética que desenha o imaginário feminino. Desde Ventre de Minas, a ideia de percorrer o interior do ser eclode na poesia de Andreia. Em seu livro de estreia, Cenário noturno, a escuridão uterina é alegoria implícita na poesia de busca de conhecimento interior que Andreia desenvolve. Sua experiência e talento de artista plástica contribuem sobremaneira para a elaboração de seu discurso poético, que trilha as mesmas sendas de perquirição da intimidade, sobretudo, feminina. Aqui, o sol, o dia, a luz são elementos aparentemente contraditórios. Apenas aparentemente, dado que sua visualidade ilumina as mesmas sendas – objeto de desejo da voz poética. Num jogo de espelhos imaginário, o verso de Andreia não funciona como espada de Dâmocles, antes tece inconsútil discurso de delicadeza e fulgor que imprimem no inconsciente a marca do feminino, rasura de desejo, sem sexismos.

O caminho do fazer artístico é trilhado sob perspectivas variadas. Sempre à luz da intuição feminina que poeticamente transcende o lugar comum para anunciar a miragem de verdades interiores nem sempre desveladas. O processo acompanha o ritmo da própria existência como se não houvesse a mínima possibilidade de separar uma coisa da outra:

Arte

A arte me encanta

luz do dia

ou talvez me espante

breu da noite,

manchas nas telas

tons da manhã

que busco interpretar

esmorecer da tarde.

O que eu poderia dizer mais…? O processo de escrita de si é tão antigo quanto o próprio processo de escrita. Considerando a escrita como sistema de símbolos formalmente estruturado que segue determinadas regras comuns, pode-se dizer que tal processo de registro do cotidiano do sujeito, de forma não oral, é anterior inclusive ao próprio aparecimento da escrita formal. Esta referência genérica é alimentada pela poesia de Andreia Donadon Leal. Artista plástica, a autora, com seu traço verbal, rasura a memória coletiva de seus leitores com registros visuais que bem podem lembrar variações de pinturas rupestres. Estas, por sua vez, trazem em sua “herança” cultural o limite entre o concreto e o possível. Por um lado, tal prática, ainda que ancestral, prefigurava o desejo constante de comunicação, ao mesmo tempo em que viabilizava a expressão deste mesmo desejo em imagens verossímeis e concretas, num discurso icônico de representação por contiguidade. Na poesia de Essências, esta dubiedade expressiva ganha reforço vocabular, ancorado nas associações íntimas feitas pela poetisa.

Obviamente, não é possível deduzir que os motivos que levaram o homem pré-histórico a desenhar em paredes de cavernas sobre si são os mesmos que fizeram o homem moderno escrever em diários pessoais, nem mesmo o que leva o sujeito contemporâneo a escrever em blogs que são de cunho individual e pessoal, porém estão disponíveis em espaços públicos. O fim da Idade Média e o início da Idade Moderna marca o que se convencionou chamar de início do processo de escrita de si, tal como é hoje conhecido! Escritas individuais, o diário pessoal é representante desse “gênero”, ainda sem superar a força vital da poesia. Antes disso, esses escritos tinham caráter público. No Renascimento, a partir da experiência de perda de referências, devido à falência do mundo medieval e a abertura do ocidente ao restante do mundo, o homem é lançado a uma condição de desamparo: crise. Um passo muito curto para alcançar a outra margem do rio: referências internas. Diante disso parece assentada, definitivamente, a pedra fundamental da poesia que, em sua “essência”, faz muito mais que metaforizar realidades, substituindo-as em seus significantes, para realcar-lhes sentidos ocultos, outros, vários. Metonimicamente, como no caso de Essências, a aventura é pela escrita poética como via crucis da própria existência: fica de fora o gólgota. O sujeito, desamparado das explicações de sua existência a partir do divino, estaca diante do dilema de se autoconhecer. A escritura poética de si funciona como espelho que possibilita se enxergar pelo avesso.

O sujeito, diante da crise exterior, não tem o conhecimento e o esclarecimento sobre o que realmente acontece no mundo. Como se sente inseguro, busca a segurança voltando-se para o seu interior, usando a escrita poética de si como uma dessas ferramentas. Existem tantas outras possibilidades que poderiam ser trazidas, como a vontade de guardar segredos, ou a possibilidade de utilizá-la como registro de memórias a ser acessadas no futuro… Prevalece a poesia em suas “Essências: sonhos, frutos e luzes”. Evoé, Andreia!

Contagem, inverno de 2011.

Um livro de poesia

Livros, geralmente, apresentam prefácios. Geralmente. Num deles, de poesia, cujo autor é amigo particular, há um desses prefácios, escrito por mim. O livro se chama Apocalíptico. O autor, José Sebastião Ferreira, poeta aldravista e aldravianista. Figura sui generis, poeta de mão cheia. Segue o prefácio.

Prefácio

A Literatura Brasileira atual apresenta características que performam ecos do Modernismo, principalmente no que diz respeito à liberdade de expressão: incorporação da linguagem coloquial, verso livre, abandono das formas fixas, etc. Além disso, valorização de fatos do cotidiano, aproximação entre a prosa e a poesia e questionamento sobre a própria linguagem literária. O que dizer então de experiências estéticas que, aproveitando-se de lições já cristalizadas no tempo, promovem a respiração da poesia, propondo novas formas de expressão para o gozo plástico do código linguístico?

Conta a lenda que os homens pré-históricos, num ato inexplicável (até hoje), começaram a representar suas ideias em desenhos (as famosas pinturas rupestres). Com esse ato eles criaram a noção de uma linguagem que, se se pode pensar assim, ultrapassava os então conhecidos meios de comunicação social. Assim, esses homens legaram, no mínimo, a oportunidade de seus “iguais” fazerem o mesmo na corrente de Cronos, com todas as variações que o imponderável futuro ia possibilitando. E continua a fazê-lo. Dessa lenda surge a ideia mestra do Aldravismo: a de que é sempre possível inovar (e não há outra maneira para fazê-lo satisfatoriamente), senão partindo do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Esse eterno recomeçar, signo nietzschiano do “fracasso” humano, cobre de glória a iniciativa do Aldravismo, como se pode constatar nos poemas reunidos no presente volume.

Ultrapassando a fase das pinturas rupestres, trata-se aqui de palavras e dentre miríades delas destaco uma: “Aldrava”. Indica o dicionário do Houaiss, que esse termo provém de “aldraba” – pequena tranca metálica para fechar a porta, com dispositivo por fora para abrir e fechar, ferrolho; em 1896, o termo indicava uma espécie de tranca usada para escorar portas e janelas; já em 1712, peça móvel de metal, em forma de argola, mão, etc., que se encontra do lado de fora para chamar; batedor. Pode também identificar perneira de couro usado pelos sertanejos; ou, ainda, pequena tranca de ferro que segura a cara do leme por ante-à-ré da parte superior da madre do leme.

Estranha palavra essa que remete, em sua história étimo-semântica, a uma ideia de aprisionamento, mas ao mesmo tempo de abertura e chamamento. Principalmente quando utilizada por um poeta que insiste na simplicidade como instrumento de expressão poético-identitária: a coragem de J.S. Ferreira reside na sua lírica expressão da mineiridade que, ao olhar para o mundo, encontra-se na percepção dos desvãos da realidade, no flagrante desconcerto diante da harmonia desfeita pela mão do homem, como o que se lê aqui. Esse, a meu ver, o espírito da criação no exemplo dos poemas que compõem Apocalíptico: mais uma pepita de ouro na já vasta produção aldrávica. Tocando numa “ferida” (paradoxalmente) muito cultivada pela “academia” esses poemas ilustram o desejo constante de uma superação, através dos recursos mais simples que a espécie humana já conheceu: a linguagem.

Aqui se encontra o núcleo da ideia de “eco” acima mencionado. Simples, por um lado apenas, pois a complexidade desse “fenômeno” explicita-se em tantas e tão variadas formas, que não se pode sair impune do uso do adjetivo “simples”. Na contramão da acepção dicionarizada de aprisionamento, a aldrava, aqui, abre caminhos para um exercício de experimentação que em nada se torna pejorativo, quando observado sob a perspectiva de uma manifestação “regional” de cultura – o que de novo, ratifica a ideia de “eco” do Modernismo em suas preconizações estéticas.

Regional, sim, sem medo da palavra, pois é exatamente do que se trata, quando se fala do “aldravismo”. A proposição implícita nos poemas atesta a fertilidade do pensamento local, sem demérito de seu perímetro cultural, pois, sem ele, nada do que se conhece como cultura haveria de permanecer consolidado ao longo do tempo. A discussão sobre o cânone, as referências à cultura popular – sem, necessariamente, subscrever qualquer das perspectivas dialéticas que esse binômio já suscitou em nosso meio – fazem jus ao caminho trilhado pelo autor que ultrapassa qualquer “classificação”, uma vez que se coloca de maneira aberta e consciente à leitura, num gesto rasgado de abnegação e disponibilidade, traços de generosidade intelectual, raro, em nossos dias.

Os poemas que compõem o volume não deixam de acompanhar o mesmo tom e, em seu conjunto, justificam e exemplificam, ao mesmo tempo, os protestos de manifestação do aldravismo, enquanto via peculiar, marcada por subjetividade igualmente peculiar que se enuncia em cada verso: desta vez, eco do “modernismo” de Ezra Pound quando preconiza o mínimo de palavras para o máximo de sentido. Sem entrar no mérito supostamente crítico, arrisco opinião pessoal: trata-se de manifestação poética de valor cultural inegável que intriga pela simplicidade e se destaca pela crueza com que desenha o perfil regional de Minas Gerais, de maneira, até, original. O trabalho em seu conjunto merece atenção, não apenas por seu conteúdo, o que já se justificaria, mas por sua contribuição a um exercício tão pouco praticado, principalmente, por aqueles que se dizem intelectuais. Assumir essa “identidade” não é jamais manter uma pose, mas se fazer, concretamente, instrumento de explicitação de ideias e ideais, artísticos acima de tudo, com a convicção de se estar construindo algo que contribua para incentivar a leitura, em seu sentido mais elevado e amplo. Esse é, a meu ver, o propósito aqui, o que, por si só, já justifica a leitura dos poemas aqui comentados.

Há que se destacar a personalíssima incorporação da lição da poesia concreta, do início do século 20 – especificamente, no poema “Vulcão” – solto no meio de outros que desenham a geografia da percepção do mundo sob o olhar sofismado do sujeito poético. Os poemas respiram certo ar ingênuo, que os fazem se aproximar da poética de Mário Quintana. Noutra perspectiva, a da constatação do fato, a lembrança trazida é a de Drummond: um misto de melancolia e decepção numa linguagem que, em tudo e por tudo lembra Minas Gerais.

A arte Aldravista é expressão de liberdade, rompimento de barreiras formais de produção e ousadia na criação de conceitos novos; é arte metonímica, em que autor e leitor percebem porções daquilo que é possível. Daí que os poemas de Apocalíptico sejam a demarcação de uma geografia subjetiva, expressão do espanto platônico que ensina e esclarece. Neste caso, o esclarecimento escapa diante do impacto que a interferência humana causa mundo afora. O leitor metonímico é aquele que busca algo que só ele viu. A obra aldravista não é presa a uma forma exclusiva e está autorizada a ser experimentação de formas compostas de qualquer substância. Assim é que J.S. Ferreira encarne este leitor ao longo de seus poemas, destilando a visão sensivelmente marcada pela experiência.

Do consenso de que a arte deve ser, antes de tudo, expressão de liberdade, o critério passa a ser o rompimento com barreiras formais de produção, especialmente aqueles que ousam criar conceitos novos. Essa perspectiva abre caminho para a percepção do elemento mais importante da produção artística – o sujeito de sua produção. Assim, o aldravismo que se exercita no presente volume acordou que produção não é via de mão única, não é imposição do sujeito “autor”. A produção constitui em algo de mão dupla: de um lado o autor da obra de arte e de outro o autor da leitura dessa obra. A obra exposta através da publicação passa a ser um produto disponível, mas morto. É somente no ato de leitura que ela recupera a vida, não na proposta do autor, não na intenção do autor, mas na visão do leitor. O leitor se apropria de todas as prerrogativas de construtor de sentido. Nesse ponto, encontra-se o cerne da proposta de J.S.Ferreira: o leitor, não sendo capaz de recuperar o sentido integral da consciência do autor, deverá buscar o sentido possível, aquele autorizado pelas condições de produção da leitura. A proposta da Estética da recepção está, então, presente no cerne da composição de seus poemas, o que não deixa de ser outro eco do Modernismo: experimentação de formas compostas de qualquer substância – som, imagens, letras, sinais, figuras, matérias sólidas, vazios.

A leitura destacada na juventude, conforme diz Calvino, é formativa e representa crescimento como qualquer outra experiência pois, de fato, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso, inexperiência da vida. Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza; todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco ou nada do livro da juventude.

O aldravismo de/em Apocalíptico, de fato, não busca unidade, em sentido absoluto, mas a heterogeneidade que pudesse manter características e estilo de cada um. Trata, inicialmente, de tornar pública a poesia: forma de apresentação; a mesma que foi encontrada por J.S.Ferreira para sair do isolamento – aquele imposto pelo fato de morar em cidade pequena do interior, sem visibilidade porque fora, portanto, da rota de circulação editorial concentrada nas grandes capitais. Síntese desse ímpeto pode ser entendida a partir do pressuposto de que para ter acesso à simples existência literária, para lutar contra a invisibilidade que os ameaça de imediato, os escritores têm de criar as condições de seu ‘surgimento’, isto é, de sua visibilidade literária.

A liberdade criadora que emana do presente volume não lhe foi proporcionada de imediato: só foi conquistada à custa de lutas sempre denegadas como tal em nome da universalidade literária e da igualdade de todos diante da criação e da invenção de estratégias complexas que provocam tal reviravolta do universo dos possíveis literários.

Justifica-se a produção literária como uma porção de algo maior. Os universos completos são discursivamente inatingíveis. Daí, aquilo que é possível pode ser comportado no interior de um texto e compreender a voz possível de um sujeito que se percebe autorizado a falar com liberdade, independentemente das pressões institucionais que tem atitude de mover-se na resistência do outro, levantar-se de si na força do peito do outro, não requer a anulação do outro, nem impõe ao outro a condição de ancoradouro apenas, sem de longe recorrer ao pedante conceito acadêmico de alteridade, pois reconhece em si mesmo a mesma condição de suporte do outro. Ancora o outro e ancora-se no outro, promíscuo na condição de tocar e se deixar tocar.

Da mesma forma, a visão de mundo, do ponto de vista do poeta, é a de um ator, no palco, mirando a plateia ofuscada pela luz em linha oposta. O cenário é poesia jogada na vida escancarada do desnudado teatro, em que as luzes da ribalta impedem que atores tenham visão da plateia. O ponto de vista a partir do palco, ofuscado por luzes, é a realidade percebida – está lá, mas é sombra apenas; responde, mas não tem rosto; reage, mas não se faz ver em gestos. É a mais lúcida visão do poder já revelada na poesia. Focos de luz nos atores, sombra na plateia. Assim, visual e auditivamente, o eco se esboça, marca identitária da poesia aldravista que se deseja livre desde a concepção até o gozo estético que proporciona. Parabéns ao poeta e fica o convite para os possíveis leitores de Apocalíptico: deleitem-se!

José Luiz Foureaux de Souza Júnior

Mariana, Março, 2013