Rapidinhas

Meu pai deixou o auditório no intervalo da arguição da tese, no meu doutoramento. Mais tarde, confessou que estava muito nervoso. Depois, passado um tempo, confessou seu orgulho. Fiquei sabendo, por terceiros que ele era pródigo com esse orgulho, o que me encheu de vaidade. Ao contrário de outros pais que têm o descaramento de, em conluio com seus filhos, lesar a integridade de processos que deveriam ser isentos e transparentes, sem “conflitos de interesse”.

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Hoje tem se tornado lugar comum (e dos mais esdrúxulos) elogiar alguém que “alçou os píncaros da glória” entrando numa “universidade” apenas pelo fato de ter pais pedreiros, garis, auxiliares de cozinha, lavadeiras. Fico pensando: o indivíduo teve que estudar, se esforçar e, no fim, o que uns e outros elogiam é a posição social circunscrita à atuação profissional dos pais… vai entender.

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“Ver Renan Calheiros posando de homem virtuoso à frente de uma CPI, sendo o imoral que é; ver o cacarejar histérico de um estrupício como Randolfe Rodrigues no picadeiro desse circo como verdadeiro palhaço que é; ver o ambicioso e vaidoso Mandetta sendo ouvido como referência moral a ser respeitada, me enche de repulsa e revolta. É a imagem do horror. É pesadelo do qual se deseja acordar. Mas não se acorda. Nojo. Eu sinto nojo.” (Silvia Gabas.)

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Que coisa ir-ri-tante es-cutar a tal de Flávia Al-varenga re-ci-tando as notí-cias do JH. Ir-ritante, chata e sem graça. Ela pa-rece uma dis-léxica gaga ou uma gaga dis-léxica! Náo tenho a me-nor pa-ciência…

Sonho de uma tarde de Outono

Começa assim: o edital é publicado. Nele encontram-se as instruções, as normas e os desdobramentos processuais necessários à realização do prélio. Não há como seguir adiante sem cumprir à risca o que ali está… em princípio. Concurso público de provas e títulos para provimento de vaga de professor adjunto. Nos dias que correm, quase não se realiza mais concurso para vaga de auxiliar ou assistente. O investimento financeiro, administrativo e pedagógico é muito alto e “não compensa”, a seguir os ditames do tal de capitalismo selvagem que, sim, faz sombra sobre a carreira docente universitária. Para o bem e para o mal. Então, prova de títulos, prova escrita, prova didática, projeto de pesquisa, arguição do projeto. Das quatro opções, até onde acompanhei esta procissão, três, no mínimo, são necessárias para a adequada valoração do certame. É evidente que, a partir da regra geral, a tal de banca torna-se soberana em suas decisões e posicionamentos. Tanto é assim que já ouvi falar de duas excrescências nesse processo. Numa delas, a tal de banca, soberana, decidiu que haveria mais uma “nota” a ser computada: a provável contribuição que o candidato aprovado em primeiro lugar poderia vir a oferecer/garantir ao departamento no qual será lotado, depois de empossado. Imponderável? Mais do que isso, eu penso… Noutra situação similar, a mesma “soberana” decidiu criar mais um critério de avaliação, uma quarta coluna em que cada arguidor faria a sua própria classificação dos aprovados. Independentemente das notas obtidas, o cômputo da frequência de cada candidato, nos cinco posicionamentos estipulados por cada arguidor – vai saber a motivação oculta que leva cada um deles a estabelecer esse pódio perverso e indecente –, é que vai determinar o resultado final. Isonomia? Equilíbrio? Isenção? Nada disso. A mais pura e cristalina lição do que se convencionou chamar de manipulação. Sabe aquela história de jogo de cartas marcadas? Pois é… É tudo muito simples. Muito duvidoso também. No entanto, se é assim para o ingresso no serviço público, no que tange à sacrossanta instituição chamada universidade, por que não adotar o mesmo processo em duas outras instâncias do serviço público: a legislativa e a judiciária. Ou seja. Um sujeito faz o curso de Direito, faz a prova da OAB, trabalha como advogado e se insere na “carreira judiciária”: juiz, desembargador, promotor. Para ser ministro do STF, somente os promotores com certo tempo de serviço seriam autorizados a fazer um concurso de títulos e provas. Depois disso, seriam empossados como juízes do supremo. Acaba-se de vez com as nomeações políticas e a carga pesada e negativa que isso acarreta. Da mesma forma, no Legislativo, prefeitos e governadores só ocupariam os respectivos cargos de gestores públicos, caso tenham formação básica em administração pública, que é um diploma universitário como qualquer outro. No caso de vereadores, deputados estaduais, federais e senadores, o diploma requerido como conditio sine qua non seria o de Direito. Preferencialmente, neste caso, ganharia mais solidez a candidatura que contasse com o respaldo do já citado diploma de administração pública. O problema é que por aqui, nos estados unidos de bruzundanga, vende-se de tudo e compra-se de tudo, inclusive diplomas universitários. Recolho-me, então, à minha chata insignificância ou à minha insignificante chatice, e sigo gozando do dolce far niente de minha mais que merecida aposentadoria. Punto i basta!

Coisas…

Há coisas que a gente lê que parecem impossíveis. Há outras que, por desconhecimento, parecem não verdadeiras. Num e noutro caso, podem ser interessantes, instigantes e, até mesmo, divertidas. É o caso aqui. Não sei a autoria de nenhum dos dois textos que abaixo vão reproduzidos. Li. Gostei. Partilho. Na secura da inspiração, para não ficar mais atempo “fora do ar”, partilho.

I

Sabe o significado original das cartas de um baralho?
As 52 cartas que representam as 52 semanas no ano.
As duas cores, vermelho e preto, representam o dia e noite.
Os 4 naipes, copas, ouros, paus e espadas, representam as 4 estações.
São doze cartas judiciais representando os 12 meses do ano.
Se somarmos cada uma das cartas chegaremos a 364.
O jogo de cartas é um calendário agrícola que nos falava das semanas e das estações do ano.
A cada nova temporada, era a semana do Rei, seguida pela semana da Rainha, do Valete e assim por diante, até que a semana do ÁS muda de estação e começa com uma nova cor.
Os coringas foram usados em anos bissextos.
Quem sabia disto?

II

Consequências da quarentena na Grécia antiga

1. Zeus vende o trono para uma multinacional coreana.

2. Aquiles vai tratar o calcanhar na saúde pública.

3. Eros e Pan inauguram prostíbulo.

4. Hércules suspende os 12 trabalhos por falta de pagamento.

5. Narciso vende espelhos para pagar a dívida do cheque especial.

6. O Minotauro puxa carroça para ganhar a vida.

7. A Acrópole é vendida e aí é inaugurada uma Igreja Universal do Reino de Zeus.

8. Eurozona rejeita Medusa como negociadora grega: “Ela tem minhocas na cabeça!”.

9. Sócrates inaugura Cicuta’s Bar para ganhar uns trocados.

10. Dionísio vende vinhos à beira da estrada de Marathónas.

11. Hermes entrega currículo para trabalhar nos correios.

12. Afrodite aceita posar para a Playboy.

13. Sem dinheiro para pagar os salários, Zeus libera as ninfas para trabalharem na Eurozona.

14. Ilha de Lesbos abre resort hétero.

15. Diógenes vende a lanterna para o Vasco.

16. Oráculo de Delfos vaza números do orçamento e provoca pânico nas Bolsas.

17. Ares é pego em flagrante desviando armamento para a guerrilha síria.

18. A caverna de Platão abriga milhares de sem-teto.

19. Descoberto o porquê da crise: os economistas estão todos falando grego!

Memória

Faltou ver Bibi Ferreira interpretando Piaf, mas ainda assim, inesquecível a Fernanda Montenegro em Lágrimas amargas de Petra von Kant e soberba em Dona doida. Lágrimas sentidas ao ver o desenrolar do physique du rôle de Antônio Fagundes numa peça em que ele interpreta um professor que vai envelhecendo em constante digladio com o próprio filho, salpicado de “encontros” com sua falecida esposa; e mais que sedutor em Fragmentos de um discurso amoroso, sozinho no palco e, por instantes, trajando apenas cueca. Como esquecer Beatriz Segall flutuando entre palco e plateia na pele de Emily Dickinson? Da mesma forma que não dá pra apagar da memória a impecável atuação de Marília Pera em Brincando em cima daquilo. Rir a bandeiras despregadas com Marco Nanini e Ney Latorraca em O mistério de Irma Vap e repetir a dose com Rosi Campos e outra atriz (o nome escapa agora…) em Sereias da zona sul, apesar da autoria do texto. Cláudia, recentemente defenestrada em um programinha “de quinta”, mas inesquecível nos solos de Evita. Ficar em suspenso com Henriette Morineau subindo numa árvore estilizada, em cena aberta, em Cerimônia de despedida. As desejadas pernas de Marilena Ansaldi e Tales Pan Chacon em Escuta Zé. A vivacidade provocadora de Ruth Escobar em Torre de Babel. O inevitável deslumbramento com a montagem de Macunaíma, quatro horas de cena, com Giulia Gam e elenco numeroso. Natália do Vale à frente do elenco de A partilha, de novo, apesar da autoria do texto. Regina Duarte, magicamente imensa em La vida es sueño. Entre tantas outras, a montagem instigante de Vestido de noiva, sob a batuta do mineiro Wagner Assunção. E mais que a memória não deixa lembrar. A… o teatro, que saudade.

Saco cheio

Parece que não é mesmo do Alexandre Garcia. Não faço ideia de quem seja o autor. No entanto, o texto abaixo diz exatamente o que eu penso agorinha…

Sinceramente minha gente: Tomara que o Bolsonaro caia logo e nem deixe Mourão assumir.
Para que o nosso país volte a funcionar, Deus permita que se façam novas eleições, burlem as urnas e deem logo a vitória para Ciro ou Andrade, ou outro vigarista qualquer.
Assim o Brasil volta a ser o que era e a imprensa para de encher o saco e idiotas voltem a postar nas redes sociais, opiniões sobre futebol, novela, BBB e música ruim.
Que o novo presidente não dê entrevistas diárias, não se importe com a opinião da população e continue o legado de FHC, Lula e Dilma. Pode acreditar minha gente… nosso Brasil “veio” de guerra suporta.
Que volte logo os escândalos diários de corrupção permitida, assim como a grande farra dos cartões corporativos.
Que amigos e afilhados políticos, sem NENHUMA qualidade técnica, invadam os altos cargos de estatais e que volte a reinar mensalões, petrolões e tudo que a mídia aprova e o povo descolado finge que não existe e está tudo bem, afinal, acabou o dinheiro???? Manda imprimir mais. Não tem risco algum de inflação. Amoedo, especulador financeiro, e possível ministro, garante veementemente.
Para que reduzir o número de homicídios e a criminalidade? Vamos voltar a liderança do horror. Ninguém se importa e o STF fica feliz.
Europa e EUA são capitalistas cruéis e não merecem nossa confiança. Vamos apoiar a China, nossa grande parceira, e voltar a injetar dinheiro público em toda e qualquer ditadura de republiquetas.
Vamos encher de dinheiro as ONGs e bolso de artistas da MPB, assim voltam a compor suas merdas supervalorizadas e suas viagens pelo mundo às custas do governo.
Quanto às TV’s e jornais, especialmente a Globo, o novo presidente tem de gastar bilhões da saúde em publicidade, para assim manter altos salários de apresentadores que fingem se importar com o estúpido povo que acredita neles. Acabou o dinheiro? Amoedo garante gente: é só imprimir mais. Vamos deixar a mídia feliz e amiga de nosso novo presidente.
O MST precisa voltar a invadir terras sem intervenção da polícia, assim como sindicatos necessitam cobrar parcelas mensais do trabalhador para financiar o luxo de seus dirigentes. Parem de incomodá-los.
O BNDES tem de voltar a emprestar dinheiro para países “amigos” e empresas “bacanas”, sem cobrar juros e sem nenhuma garantia de pagamento. Dinheiro não falta, mas se acabar, já sabem: é só imprimir mais notas!
Precisamos voltar a ter 29 ministérios, cada um dedicado a um partido, para que tenham liberdade de escolher seus ministros.
A polícia precisa de novos comandos para que a apreensão de drogas diminua, assim como a repressão ao crime, pois precisamos de paz e não de guerras contra facções. O possível e hipotético ministro da justiça e segurança Sr. Freixo, garante que é esse o caminho.
O novo presidente precisa saber dialogar com senado e congresso, não negando nenhum benefício a este grupo de trabalhadores que só querem o bem do Brasil. Merecem aumento de salário, aumento de assessores, vantagens, auxílios, não devemos barrar esses coitados, pois estão lutando pelo Brasil.
Mas se acabar o dinheiro, é só imprimir.
Brasileiro merece o título de “país ignorante!”
Venha Ciro, venha Andrade, venha Maia e traga o Moro na mala.
O Brasil precisa voltar a ser “Brasil”.

Ritmo e sensibilidade

Durante os anos de magistério superior, fiz leituras que era obrigatórias por força do conteúdo a ser estudado a cada semestre. Particularmente, este estudo foi-se tornando, ao longo dos anos, repetido, dado que os conteúdos não mudavam e as disciplinas sob minha responsabilidade passarem a ser sempre as mesmas. Com o tempo, fui conseguindo ler outras coisas que não o que era obrigatório para as aulas. No entanto, sempre agia uma outra força da natureza, nefasta, que me impelia para o ócio: a preguiça. A ela se juntava ao desânimo causado pelo desinteresse quase absoluto dos meus ouvintes (jamais deixei de considerar a possibilidade de ser enfadonho, chato e desinformado, não seduzindo a mesma plateia), o desgaste emocional, espiritual e físico por contas das reuniões enfadonhas e inócuas e, por fim, certa dose de desespero por ver o barco se afundando e não poder fazer nada com a minha canequinha que só conseguia tirar alguns mililitros de água do barco. Um quadro que beirava o catastrófico. No meio desse quase caos, ainda consegui encontrar, até o início do período de dois anos que fecharam minha “carreira”, tempos, lapsos de cronologia, para saborear leituras outras que não as obrigatórias. Não foi o caso dos dois livros sobre os quais vou tecer algumas linhas: O quinze e Menino de engenho. Apesar de ter estudado bastante o Regionalismo, no contexto da Literatura Brasileira, para fins de doutoramento, não li o romance de Raquel de Queiroz. Já o de José Lins do Rego foi leitura de tardio tempo, já há décadas guardada na memória. Uma revisitação. Começo por ele. Tocante, a maneira como o autor vai conduzindo seu leitor pelos meandros memorialísticos de um menino da cidade que é transportado para um universo absolutamente desconhecido. O motivo é funesto: a morte da mãe. As descobertas e as surpresas do “menino de engenho” são muitas e múltiplas. Seu périplo pelo reino de Mnemósine é divertido melancólico, surpreendente e hilário. Tudo ao mesmo tempo. É tocante a maneira como a vez narrativa, á adulta, se reporta aos verdes anos do menino da cidade, em seu périplo pelo engenho, desbravando novas realidades. O jogo de focos narrativos também seduz e, às vezes, pode até confundir. O leitor mais atento escapa da esparrela de confundir a voz narrativa adulta com a maturidade da personagem que revive o seu passado. Ou seria isso mesmo. Por outro lado, parece patente a segurança desta mesma voz em se firmar como consciência de um tempo que passou, sem se deixar subjugar pela subjetividade que esta mesma consciência pode acarretar. De novo, não poderia ser exatamente assim. Mais uma vez, vai depender do leitor e de sua tenção, sua acuidade. Este é um romance que anda aos tropeços (calculado e seguros, não o seu correlato desorientado e perdido), sempre atento ao que ficou no passado. Um exercício sedutor de busca de fios perdidos para não se perder o novelo. Talvez seja esta uma das representações do que se convencionou chamar de ritmo. No tempo em que a “Teoria da Literatura” era mesmo uma disciplina (?) que partia e se construía a partir do texto literário. Parece óbvio, mas… Então. Creio que se pode encontrar, nos traços narratológicos que acentuei em meu comentário anterior sobre o romance de José Lins do Rego, um exemplo do tal de “ritmo” narrativo. Com igual convicção, acredito que há um exemplo melhor para ilustrar este conceito. É aí que entra o segundo romance aqui aventado: O quinze, da Raquel de Queiroz. Penso que confessei, logo de início, jamais ter lido este romance senão agora. Que deslumbramento. Em que pese a secura e a tragédia das cenas e da saga narrada, respectivamente, o romance é um deslumbramento só. Que delicadeza para tratar da famigerada seca. Que acuidade no desenho de cada personagem em seu dilacerado périplo em busca de uma explicação plausível para o que se passa. Neste romance, penso eu, encontra-se a demonstração cristalina do domínio da técnica e da arte de impor um ritmo à narrativa. A autora, com maestria, para além da galhardia com que desenha os retirantes e seu sofrimento no cenário inóspito do sertão, pagando seus tributos ao Regionalismo, vai além. Creio que não há, neste passo da História da Literatura escrita no Brasil, exemplo mais bem acabado do que seja o domínio da engenhosidade do ritmo narrativo. É simplesmente, impecável. A cada cena os diálogos compõe o clima necessário e suficiente para pintar, com tintas fortes, a peça do quebra-cabeça que o romance propõe para o leitor. O puzzle é prazeroso, apesar do áspero do tema e do assunto. O prazer advém da descoberta de como o relato vai, num crescendo, emoldurando os aspectos mais que fundamentais do discurso regionalista de denúncia e constatação. Uma espécie de exercício de redesenho de um campo limpo para (re)construção de uma pressuposta “nacionalidade” que, à altura do contexto a que se circunscreve o romance de Raquel de Queiroz, já se encontrava um tanto perdida em meio a experiências estéticas as mais variadas e de consequências ainda incalculáveis. Penso que este é um legado importante desta obra. Para muito além de ser um romance regionalista, O quinze é um texto do mais precioso quilate, sobretudo, no que diz respeito ao ritmo da narrativa. E não só…

Sobre o egoísmo e seus derivados

O texto abaixo é o capítulo 8 do Livro IX de Ética a Nicômano, de Aristóteles. Peguei o texto na internete, digitando o título na barra de busca. O Dr. Google foi generoso. Penso que é muito pertinente o que ele fala, pra variar um pouco… Boa leitura!

Também se discute a questão de se um homem deveria amar acima de tudo a si mesmo ou a alguma outra pessoa. São criticados aqueles que amam a si mesmos mais do que a qualquer outra coisa e dá-se-lhes o nome de ególatras, que é considerado um epíteto pejorativo; e um homem mau parece fazer tudo no seu próprio interesse, e isso tanto mais quanto pior ele for. É acusado, por exemplo, de não fazer nada espontaneamente, enquanto o homem bom age tendo em vista a honra, sacrificando os seus interesses pessoais, e isso tanto mais quanto melhor ele for. Mas os fatos estão em conflito com estes argumentos, o que aliás não é de surpreender. Com efeito, dizem os homens que deveríamos amar acima de tudo o nosso melhor amigo, e o melhor amigo de um homem é aquele que lhe deseja bem por ele mesmo, ainda que ninguém venha a ter conhecimento disso; e esses atributos são encontrados principalmente na atitude de um homem para consigo mesmo, como todos os outros atributos pelos quais é definido um amigo; porque, como dissemos127, foi a partir desta relação que todas as características da amizade se estenderam aos nossos semelhantes. E isto é confirmado pelos provérbios, como “uma só alma128”, “os amigos possuem todas as coisas em comum”, “amizade é igualdade” e “a caridade começa por casa”, pois todas essas características são encontradas principalmente na relação de um homem para consigo mesmo. Ele próprio é o seu melhor amigo, e por isso deveria amar a si mesmo acima de tudo. É, pois, razoável indagar qual das duas opiniões seguiremos, porque ambas são plausíveis. 127 Cap. 4. (N. do T.) 128 Eurípides, Orestes, 1046. (N. do T.) Talvez convenha distinguir esses argumentos uns dos outros e determinar em que medida e a que respeito cada uma das opiniões é verdadeira. Ora, a verdade poderá tornar-se evidente se apreendermos o sentido em que cada escola usa a expressão “amigo de si mesmo”. Os que a usam como termo de censura atribuem a autofilia aos que abocanham um quinhão maior de riquezas, honras e prazeres corporais, pois essas são as coisas que a maioria deseja e pelas quais se esforça como se fossem as melhores de todas; e também por esse motivo se tornam objetos de competição. E os que são cúpidos com respeito a elas satisfazem os seus apetites e, de modo geral, os seus sentimentos e o elemento irracional de sua alma. Ora, a maioria dos homens são dessa natureza, e esse é o motivo de ser usado o epíteto em tal acepção: ele recebe o seu significado do tipo predominante de autofilia, que é mau. É justo, por conseguinte, que os homens que amam a si mesmos desse modo sejam objetos de censura. E é evidente que a maioria das pessoas costumam chamar amigos de si mesmos aqueles que se dão preferência com respeito a objetos dessa espécie; porque, se um homem fizesse sempre questão de que ele mesmo, acima de todas as coisas, agisse com justiça e temperança ou de acordo com qualquer outra virtude, e em geral procurasse sempre assumir para si a conduta mais nobre, ninguém chamaria amigo de si mesmo a um tal homem e ninguém o censuraria. No entanto, ele parece ser mais amigo de si mesmo do que o outro. Pelo menos, atribui a si as coisas mais nobres e melhores, satisfaz o elemento mais valioso de sua natureza e obedece-lhe em todas as coisas. E, assim como uma cidade ou qualquer outro todo sistemático é, com toda a justiça, identificada com o seu elemento mais valioso, o mesmo sucede com o indivíduo humano; e, por conseguinte, o homem que ama esse elemento e o satisfaz é mais amigo de si mesmo que qualquer outro. Ainda mais: diz-se que um homem tem ou não tem domínio próprio conforme a razão domine ou deixe de dominar nele, o que implica que ela é o próprio homem; e as coisas que os homens fazem de acordo com um princípio racional são consideradas mais legitimamente atos seus, e atos voluntários. É evidente, pois, que esse é o próprio homem, ou que o é mais do que qualquer outra coisa, e também que o homem bom ama acima de tudo essa sua parte. Donde se segue que ele é no mais legítimo sentido da palavra um amigo de si mesmo, e de um tipo diferente daquele que é alvo de censura, tanto quanto o viver de acordo com um princípio racional difere do viver segundo os ditames da paixão, e desejar o que é nobre de desejar o que parece vantajoso. Por isso, todos os homens aprovam e louvam os que se ocupam em grau excepcional com ações nobres; e se todos ambicionassem o que é nobre e dedicassem o melhor de seus esforços à prática das mais nobres ações, todas as coisas concorreriam para o bem comum e cada um obteria para si os maiores bens, já que a virtude é o bem maior que existe. Portanto, o homem bom deve ser amigo de si mesmo (pois ele próprio lucrará com a prática de atos nobres, ao mesmo tempo que beneficiará os seus semelhantes); mas o homem mau não o é, porque, com o abandono às suas más paixões, ofende tanto a si mesmo como aos outros. Para o homem mau, o que ele faz está em conflito com o que deve fazer, enquanto o homem bom faz o que deve; porque a razão, em cada um dos que a possuem, escolhe o que é melhor para si mesma, e o homem bom obedece à razão. Do homem bom também é verdadeiro dizer que pratica muitos atos no interesse de seus amigos e de sua pátria, e, se necessário, dá a vida por eles. Com efeito, um tal homem de bom grado renuncia à riqueza, às honras e em geral aos bens que são objetos de competição, ganhando para si a nobreza, visto que prefere um breve período de intenso prazer a uma longa temporada de plácido contentamento, doze meses de vida nobre a longos anos de existência prosaica, e uma só ação grande e nobre a muitas ações triviais. Ora, os que morrem por outrem certamente alcançam esse resultado; é ele, pois, um grande prêmio que escolhem para si mesmos. Os homens bons também se desfazem de suas riquezas para que os seus amigos possam ganhar mais, pois, enquanto o amigo de um homem adquire riqueza, ele próprio alcança nobreza: é a ele, portanto, que cabe o maior bem. O mesmo se pode dizer das honras e cargos públicos: tudo isso ele sacrificará ao seu amigo, porque tais atos são nobres e louváveis nele. Com razão, pois, é um homem assim considerado bom, visto que escolhe a nobreza acima de tudo. E pode ele, inclusive, deixar a ação ao seu amigo: em certas ocasiões é mais nobre sermos a causa da ação de um amigo do que agirmos nós mesmos. Vê-se, pois, que em todos os atos que atraem louvores aos homens, o homem bom reserva para si o maior quinhão do que é nobre. E neste sentido, como já dissemos, um homem deve ser amigo de si mesmo, porém não no sentido em que a maioria o é.

Uma crônica

Li. Gostei. Partilho.

“Saí de manhã para tentar cortar o cabelo, impossível, barbeiros esgotados e marcados até ao fim da próxima semana, fiquei satisfeito pelos donos e empregados; nada mais bonito do que sentir e ver em plena laboração uma qualquer actividade, mesma esta.

Depois caminhei pela Avenidas Novas em Lisboa, Alvalade, Av Roma… em busca do novo negócio dos Postigos desconfinados…

… nada de nada ou quase nada mais, para além duns cafezitos em copo de papel… e o que já vinha do antecedente, comércios de víveres e take aways.

Na ora “postigada” pastelaria Mexicana fiz o Euromilhões e comprei a bica, em papel claro; estático, mendigando vestido de humilhação e dor, estava por ali, de mão estendida, um senhor de bom aspecto, razoavelmente vestido, todo ele transpirando infelicidade tão sentida e profunda, num olhar óbvio que só pedia algo para comprar pão para a família, que me magoou e muito, ajudei o que pude, era claramente mais uma vítima deste holocausto anti humanidade da Covid 19, montado com os sabidos e consabidos propósitos das elites globalistas, de instalarem a Nova Ordem Mundial e o Governo Único Mundial.

Discutir a Covid num qualquer outro aspecto é-me impossível, pois é, claramente, um evento de massivo banditismo político internacional, do mais criminoso que a humanidade jamais viveu, apoiado, inacreditavelmente, por toda a comunicação social em massa, paga para o efeito, tal como foi feito em Portugal e, apoiado também, pelos poderes políticos eleitos dos vários países, excepto de um ou outro mais patriótico, como a Hungria, Polónia, Croácia, Eslovénia, Eslováquia, etc..

Lisboa é desde há um ano e três meses um deserto urbano mas, simultaneamente, é um estaleiro gigante de milhentas obras camarárias em curso em todas as esquinas (em espera da bazuca)…

… é uma cidade fantasma proclamando aos quatro ventos o fim irreversível duma era gloriosa e, lá fui percorrendo a pé as avenidas e ruas desta nobre parte da cidade, que tão bem conheço, onde ainda se preserva ou preservava na integra, antes dos confinamentos assassinos, o comércio tradicional Lisboeta, em particular, na Avenida da Igreja, pois cada porta de rés do chão era um negócio, que dava àquela rua uma vida fabulosa, uma alegria, um bulício sem igual e uma aura de felicidade que inundava as gentes que por ali vivem e andavam, única em toda a Lisboa, cheia esta já de ruas mortas pelas falências de todos os negócios tradicionais, assassinados pelos grandes espaços comerciais.

No meu lento passear ruas fora senti, vê-se, essa morte efectiva, premeditada e assassina, presente naquelas mil e uma lojinhas fechadas, restaurantes, oficinas, boutiques, cabeleireiros, etc… com ou sem postigos, que estão por ali em coma profundo… financeiro, irreversível, sem presente e sem futuro, tendo arrastado consigo patrões e empregados para os horrores das falências, do desemprego, perdas de rendimentos, fome, perda de carros, casas, e etc… tudo, porque a OMS e Bruxelas determinarem os confinamentos, que continuarão… até 2025, num vai vem sem fim…

… embora andem para aí com enganos, mentiras, promessas, manipulações miseráveis das opiniões públicas, criando-lhes esperanças num dia, destruindo-as nos dias seguintes, em actos de irresponsabilidade e de gozo mesmo, com a inocência e falta de entendimento do povo dos logros e grandes políticas que giram em torno da Covid 19…

… sinto nojo e vómitos com a questão das vacinas, em que se promete aos pobres diabos povoléus, que se tomarem a vacina, não apanham com a coisa da Covid, que ficam imunizados, e que depois virá a imunidade do rebanho… e quando todo o povo for já um colectivos arrebanhado de vacinados e imunizados…

… acabam definitivamente os confinamentos, entretanto anunciam mil e uma nova estirpes, para as quais a vacina tomada já não funciona, mas sim outras futuras… e como tal tem de continuar tudo confinado… etc…

… com o claro objectivo de destruírem totalmente as economias nacionais de todos os países da União Europeia, e tornarem os seus povos 100% subsidio dependentes e à míngua de pão e água e, como tal, borregamente subservientes, e a quem tudo irão extorquir… casas, terras, numa nova versão de maoismos, bolchevismos, sovietismos, comunismos totais e absoluto de 99% das populações e, simultaneamente, haverá o hipercapitalismo do 1% das elites globalistas…

…com um Estado sem meios alguns, sem qualquer autoridade, onde os traidores dos povos dos dias que correm, se sentarão, pagos a trinta dinheiros, para exercerem as suas funções carcereiras e de guardas prisionais dos seus povos que desgovernaram… e enjaularam em novos comunismos; não se riam; é isso que está previsto; atentem no que se está passando aí pelas políticas e vejam para onde é que tudo se encaminha…

Velho Mundo morto, Novo Mundo em reposição, no meio quem se lixa é o mexilhão.”

José Luís da Costa Sousa

A regra do jogo

É assim: não se pode ficar fazendo muitas comparações. O negócio é líquido e certo. Porque é, mesmo, um negócio. Ao fim e ao cabo, quase uma transação comercial. O interesse é mútuo e o caminho já vem descrito. Não é preciso carta de recomendação. A própria História da formação do grupo que avalia já é prova inconteste de que já se sabe o resultado de antemão. Há, no entanto, que manter as aparências. Quem é mesmo que disse… bem. Deixa pra lá. O ditado é que não se pode apenas ser honesto, há que parecer honesto, tem que parecer honesto Literalmente, não é assim. Mas o sentido é este mesmo. Então não há muito com que se preocupar. As veredas jurídicas são por natureza intrincadas. Uma vez traçado o caminho, quem já por lá passeou não vai ter dificuldade alguma de conduzir quem quer que seja pelo mesmo percurso. Delicadeza, acuidade e pose: três ingredientes irrecorríveis. É indispensável manter a calma. Então, a primeira avaliação é razoável, apenas razoável. Vai servir de parâmetro para as demais. E, principalmente, para os cálculos e simulações burocráticas a cumprir para que o resultado seja o esperado sem que para isso haja necessidade de comprovação. Certo é que sempre há um “ferrinho de dentista”. Mas é aquela coisa. Uma vez marcado, sempre marcado. quem abre a janela fecha todas as portas subsequentes. A “república” é mesmo uma aldeia. Todos se conhecem e o esprit de corps é como eminência parda: governo, enquanto a lei reina. Então. Com a primeira avaliação razoável, fica mais fácil pontuar pra cima e, assim, conseguir colocar em seu ugar aquele que para isso veio. O barema não tem jeito. É como luva: cabe ou não cabe. Isso é uma preocupação a menos. Juntar os pontinhos, fazer as contas e construir a primeira classificação. Nada difícil. É possível, por exemplo, arrogar a falácia do tangenciamento. Sempre funciona. De tão vago, o conceito não admita réplica. Quando muito, tentativa de mimimi. Isso passa. Arde na hora, mas passa. De leve. Outra possibilidade é, chamando o critério da soberania de quem juga, é possível também impor um critério a mais. O edital é claro: a soberania, irrecorrível. Pronto. Porteiras abertas para o gado do arranjo, do conluio e do desvio. É possível, por exemplo, dizer que foi necessário estabelecer um critério a mais: a contribuição futura. Ouro conceito “largo” e ensaboado na medida certa para impedir qualquer tentativa de recurso, por mais bem argumentado que se apresente. Uma variante desta possibilidade é criar o artifício da classificação individualizada. Cada um estabelece a sua lista tríplice. Na comparação entre os cinco, a recorrência determina a classificação final. Também muito simples e eficaz. Uma vez mais, a possibilidade de recurso se esvai, mesmo argumentada, por conta daquele medo antes referido. No fim, as continhas. aritmética simples. Mas é necessário atenção, muita atenção. Um centésimo ode alterar todo o quadro e trabalheira de confeccionar o enredo de modo tão delicado se esvai. Muita atenção. Sempre. Boa sorte!