“Opiniães”

Sobre um certo “editorial” publicado na rede (Editorial semanal – Quem deterá os criminosos fardados? – A Nova Democracia), antes de mais, cumpre dizer que: quando alguém quer, pode dizer o que quiser, conscientizando-se da responsabilidade pelo que escreve e assumindo, implicitamente, responsabilidade por qualquer consequência oriunda do que escreveu. Isso, me parece, é básico. Quase enfadonho repetir, mas não custa: o tempo presente tem mostrado que certo projeto de analfabetização funcional implantado há algumas décadas tem surtido efeito. E que efeito! Vamos lá!

Já virou rotina, no Brasil, o pronunciamento de militares da ativa sobre questões políticas.[1] Após o discurso de Pazuello, o Carniceiro[2], em comício[3] de Bolsonaro no Rio, rasgando o que determinam de modo explícito as próprias leis[4], segundo as quais a existência e missão das Forças Armadas é defender seu cumprimento (inclusive o Regulamento do Exército), os próceres de farda dobraram a aposta: no último dia 7, em nota oficial, o Ministro da Defesa e os Comandantes das três Forças Armadas se pronunciaram repudiando declarações de um certo senador na CPI[5]. No dia seguinte, o Comandante da Aeronáutica, numa linguagem muito comum entre os matadores da Baixada Fluminense[6], reiterou a nota golpista[7], dizendo que “homem armado não ameaça”. Só faltou puxar o revólver da cintura e dizer ao repórter que o entrevistava: “Teje preso!”.[8]

São todos eles, portanto, apenas por isso, baderneiros e criminosos confessos[9], a violar o que determina a própria disciplina militar (burguesa) a que estão obrigados e dizem defender. Desta vez, não foi apenas o general desacreditado[10], mas toda a cúpula militar, que se pronunciou em público. Se isto é o que vem à tona, imaginem o nível de agitação e efervescência política que grassa, agora mesmo, dentro dos quartéis[11] – cenário que se agrava se nele incluímos o quadro crítico das polícias, civis e militares, que todos os dias demonstram seu “patriotismo” nas vielas e becos escuros, agredindo e assassinando prisioneiros inermes[12].

Ocorre que os crimes daqueles veteranos de coquetéis e cursos[13], entremeados por incursões[14] temporárias em favelas cariocas ou haitianas, não se encerram no desrespeito aos próprios regulamentos. Para não retrocedermos à história (os crimes de tortura e assassinato praticados nos porões entre 1964 e 1985[15], e aqueles de esparramada ladroagem tramados nos palácios em Brasília no mesmo período), basta lembrarmos o que veio à tona nos últimos 12 meses: tráfico de drogas em avião presidencial[16], compra superfaturada de insumos para produzir cloroquina[17], aquisições estratosféricas de cerveja e picanha[18], tramoias[19] escandalosas no Ministério da Saúde (envolvendo aquisição de testes e de vacinas[20]), a gestão genocida[21] da pandemia (liderada por Pazuello), a omissão no socorro à mortandade em Manaus[22] (que só não foi maior devido ao envio de oxigênio, via caminhões, pela Venezuela[23]), a recusa[24] em abrir os leitos ociosos dos hospitais militares (financiados pelo Tesouro) quando brasileiros e brasileiras morriam de Covid-19 sem conseguir acessar os hospitais públicos.

É esta a folha de serviços prestados, ou a folha corrida, dos senhores oficiais-generais ao povo brasileiro[25]. Eles são a infantaria do nosso atraso secular[26]; desde sempre, a quinta-coluna da nacionalidade[27]. Como se vê, são crimes continuados contra a pátria e contra o povo, alimentados pela cumplicidade servil dos “três poderes” acovardados[28].

Engana-se quem pensa[29] que estas forças estão “fechadas” com Bolsonaro, assim como engana-se quem pensa que elas não podem ser, por ele, arrastadas como medida extrema para salvaguardar a unidade e hierarquia internas. Tudo depende da movimentação das distintas forças, dinâmica muito fluida em cima da qual[30] agem, como condicionantes, os acontecimentos objetivos sobre os quais nem os generais e nem Bolsonaro podem controlar[31].

O Alto Comando das Forças Armadas, como instituição, sabe que Bolsonaro é um instante, ao passo que aquele primeiro perdurará até que a revolução vindoura[32] o ponha na guilhotina (se não a de madeira, a guilhotina política, isto é, a perda de poder[33]). Neste contexto, a ocorrência ou não de eleições próximas é tema secundário[34] – agitação e ameaças da extrema-direita para barganhar, fazer ordem unida de suas hordas e também desviar a atenção do público quando vão no auge as denúncias[35] contra Bolsonaro. A tendência principal é que as haverá, pois que até o Iraque e o Afeganistão ocupados por centenas de milhares de tropas invasoras ofereceram uma lista de candidatos títeres aos eleitores amordaçados[36], tão logo alterado o status quo. Os generais não precisam necessariamente cancelá-las para garantir o rumo da marcha política (caso apenas extremo!), mas podem e, pelo desenvolvimento das tendências eleitorais, vão conduzir e influenciar diretamente em seus resultados por processos outros.[37] Os últimos 30 anos provam que as eleições periódicas não são empecilho para o alijamento das massas do processo político, senão que, em situações normais de temperatura e pressão, são mesmo a forma mais eficaz de fazê-lo.[38] A chamada tutela militar, embora tenha se agravado extraordinariamente e tomado forma de golpe militar de Estado contrarrevolucionário desde 2017, na essência existiu sempre, e tende a se reforçar, com ou sem Bolsonaro, e talvez até mais sem ele.[39]

Se uma coisa provam os recentes episódios é que não está nas urnas a solução para a tragédia brasileira.[40] Esta radica na luta das massas do campo, principalmente, e também da cidade, mobilizadas em defesa dos seus interesses mais sentidos[41], e passo a passo engajadas na luta pelo Poder. Contra esta muralha, nada poderão os criminosos fardados.[42]

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[1] Se bem me lembro, quando estudei História Geral, História do Brasil e História de Minas Gerais (Sim! A gente estudava as três categorias como disciplinas autônomas, mas em diálogo didático apresentado, desenvolvido e comentado pelos professores de História – não sei dizer se à época já havia uma Licenciatura em História, nos termos em que conhecemos hoje.), militares SEMPRE deram palpite em questões políticas no Brasil. Em alguns casos, tomaram a frente. Pode ser ingenuidade de minha parte, mas isso já não é mais novidade e, acredito, ainda com certa ingenuidade, que não é também expressão do MAL.

[2] Usando o citado dicionário, carniceiro é um adjetivo que identifica o que ou aquele que que se alimenta de carne, carnívoro. É um nome adjetivo e substantivo masculino que significa: que ou o que faz grande(s) matança(s) ou possui instintos sanguinários. Em sentido figurado, que ou o que se delicia com espetáculos de violência e de sangue. No âmbito da rubrica “anatomia zoológica”, diz-se de ou um dos dentes, geralmente o último pré-molar superior e o primeiro molar inferior dos mamíferos da ordem dos carnívoros, adaptados para cortar carne. Como nome substantivo masculino, identifica aquele que tem o ofício de abater reses, magarefe; o que esquarteja carne para vendê-la a retalho, açougueiro. Por analogia, como regionalismo brasileiro de uso informal, identifica cirurgião que opera mal ou de maneira descuidada. No mesmo âmbito, em relação ao futebol, é o jogador violento.

[3] Ibidem, na mesma data: nome substantivo masculino que identifica reunião pública de cidadãos, geralmente a céu aberto, em que se fazem protestos e/ou críticas de caráter social ou político, ou em que um candidato a cargo eletivo expõe seus projetos e ideias. Em Roma, assembleia do povo, com poderes para resolver certas questões de ordem legislativa e eleitoral, e que dispunha de prerrogativas religiosas e judiciárias. Em sentido figurado, de uso informal é o discurso político. Por exemplo: tudo o que diz transforma num comício.

[4] Quer me parecer que, nos dias que correm, há dois “poderes” fazendo isso de maneira constante, leviana, vil, nojenta, tendenciosa, criminosa – paro por aqui, dado que o paradigma é por demais extenso – e tudo continua como dantes no quartel de abrantes…

[5] Chamar o talzinho de “senador” só por força do voto. De outra forma, não passa de mais um vil canalha que se locupleta do erário público sem o menor puder.

[6] Mesmo correndo o risco de parecer conivente, penso que antes apenas usar certa linguagem, em lugar de agir de igual modo, como no caso dos cangaceiros que se dizem “eleitos pelo povo” e fazem de tudo para, literalmente, cagar e andar para o mesmo povo.

[7] Desta feita, sirvo-me de apenas duas acepções dicionarizadas do verbete correlato, golpe: substantivo masculino que identifica estratagema, ardil, trama. Em sentido figurado, ação ou manobra desleal; rombo, desfalque.

[8] Com a devida vênia e respeitada a liturgia do cargo, quem tem usado e abusado desse “comando” (inclusive mantendo o horroroso erro de pronúncia!) é o que se diz “presidente” dessa coisa convencionalmente chamada de cpi (as três letrinhas podem identificar qualquer coisa, exceto o que a origem da sigla, de fato, representa!). O fulano, inclusive, o faz sem nenhum amparo legal, mas isso é só um detalhe, pois não?! Atenção!!! Contém ironia…

[9] Por falar em cpi, “baderneiros e criminosos” são, com exceções, os que compõem a tal “coisa” identificada pelas três letrinhas.

[10] “Desacreditado” por quem, cara pálida? Por quê? Como assim?

[11] Nos gabinetes do congresso e nos puteiros federais ocorre também a mesma – se não maior – efervescência, financiada pelo famigerado “dinheiro público!”

[12] Prisioneiros? Como assim? Eles continuam – e agora com aval da chamada “corte suprema” caminhando de um lado a outro, ostentando falsa riqueza e armas, muitas armas, sem a menor chance de serem detidos – a fazer o que sempre fizerem… Portanto, de inermes, “eles” não têm nada, nadinha de nada, neres de pitibiriba.

[13] Não são, os “coquetéis e cursos” privilégio de ninguém, judiciário e legislativo continuam torrando muito dinheiro com isso, também!

[14] É bom lembrar, mesmo me repetindo, que essas “incursões” agora têm respaldo jurídico “superior” para serem proibidas. Não foi um suposto juiz “do supremo” que as proibiu, em nome “da lei e da ordem”?

[15] Celso Daniel, Paulo César Farias, testemunhas de Juiz de Fora, juízas cariocas, entre outros, muitos outros, foram igualmente assassinados e não em “porões”.

[16] Quer dizer que um sujeito entra numa casa qualquer, à noite, enquanto os moradores da casa dormem, assassina a família inteira, deixando vivo apenas o dono da casa e desaparece; e no dia seguinte o dono da casa é preso porque é responsável pela morte da família? (Detalhe: o dono da casa gritou com um filho porque ele não queria lavar o próprio prato depois de usá-lo, ao jantar…)

[17] Quer dizer que malária, lúpus e artrite reumatoide já prescindem desse medicamento?

[18] Vinhos francês premiados, lagosta, camarão e outras iguarias não contam mais nesta “estratosfera”? Só porque foram “os homens de preto” os seus compradores?

[19] Creio, piamente, ter havido equívoco no uso desse substantivo. Se não, cumpre observar que este substantivo feminino significa maquinação secreta com o objetivo de iludir alguém ou prejudicar algo ou alguém; ardil, artifício, trampolinice. Curiosidade, na rubrica “teatro’, o mesmo substantivo identifica maquinismo com que são feitas mudanças de cena, aparecimentos e desaparecimentos súbitos etc.

[20] Uai, não era pra comprar?

[21] Vamos lá. Para não deixar dúvida quanto ao apropriado uso de termos, é bom esclarecer que genocida é relativo a genocídio; é adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros, identificando que ou quem perpetra ou ordena um genocídio. Por sua vez, genocídio é substantivo masculino e significa extermínio “deliberado, parcial ou total”, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso. (as aspas são por minha conta. Mania minha de chamar a atenção para coisas que muita gente considera reles, banal, inútil…). Por extensão de sentido, é destruição de populações ou povos. Em suma, “aniquilamento de grupos humanos, o qual, sem chegar ao assassínio em massa, inclui outras formas de extermínio, como a prevenção de nascimentos, o sequestro sistemático de crianças dentro de um determinado grupo étnico, a submissão a condições insuportáveis de vida etc.” (Uma vez mais, minha mania se manifestando… concretamente!).

[22] É preciso esclarecer que socorro, na “prática” (Lembram do que disse acima sobra as aspas… pois é…!), numa “república federativa” é competência e obrigação do mandante do Estado ou do Município, pois é efeito de “execução” (Oh!) concreta, local.

[23] Para ser preciso, é irrecorrível esclarecer que a doação foi feita por uma empresa brasileira, White Martins, sediada em território venezuelano. Então…)

[24] Terá sido assim mesmo, na lata? Há controvérsias…

[25] Jamais pensei que iria dizer o que vou dizer: ainda bem que a censura não permite a publicação da folha corrida “do outro lado”. Já imaginou o vexame? Pra não dizer vergonha?

[26] Quer dizer que Macunaíma estava errado quando dizia que a saúva e a saúde, os males do Brasil são? É preciso enfatizar que a ironia é a figura de linguagem que sustenta e alimenta o sentido da oração proferida por uma personagem de Mario de Andrade. Um pouco difícil de entender, eu sei, mas vamos lá, não custa tentar… Como disse certo filósofo, mais ou menos literalmente, há mais coisas entre o céu e a terra… Ah… cansei!

[27] Quinta? Como assim? Dá pra explicar?

[28] Que eu saiba, a covardia reside na limitação d qualquer outra manifestação que não seja aquela que agrade a quem se locupleta, pelo dinheiro ou pela cor da roupa, com o erário público, em detrimento desse mesmo público…

[29] De fato, não existe, per se, possibilidade de ser “absoluta” tal posição, seja ela filosófica, ideológica ou político-partidária. Tudo é absolutamente relativo. Ops…

[30] Nunca me informaram que “dinâmica” fosse um local, um móvel, um espaço concreto, sobre o qual alguma coisa pudesse ser feita…

[31] No contexto em que, supostamente, esse “editorial” se articula, esta é uma ideia razoável e consistente.

[32] Essa tal “revolução vindoura” é a que vai trazer o “país do futuro”?

[33] Deus… que metáfora pobre…

[34] Como sempre foi nos estados unidos de brunzundanga, pois não? O que interessa mesmo é o famoso “quanto é que eu levo”?

[35] Enquanto as “provas concretas” não aparecerem, não passa disso… sempre com a retroalimentação das famigeradas “narrativas”, de um e de outro lado!

[36] A mordaça está no início de tudo. Ela atende pelo nome de obrigatoriedade do voto. Engana-se quem acredita que, no Brasil, o voto é livre. É só deixar de votar pra ver. Livre é a escolha do candidato, mas o voto em si é obrigatório.

[37] Generais influenciando eleições? Ah, tá… Pelo visto. só os capa preta é que fazem isso…

[38] E nota-se uma sanha doentia e perversa pata manter as coisas como estão. Basta ver o fundão da indecência…

[39] Quem lê “isso”, se não se esforçar um pouquinho, mas um pouquinho só, pode até chegar a ter medo…

[40] Ah, não está mesmo. Ou melhor, está, na sua ausência. Adoraria ver todos os candidatos sem nenhum voto. Nenhum. Mas não vou ver isso acontecer. Nas veias da patuleia brasílica corre água podre e não sangue…

[41] Que interesses são esses? E por que mais “sentidos”? Que expressão vazia…

[42] Não se esqueça, há criminosos sem farda… e como há!

Lacuna

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Certo “fenômeno” teve lugar durante o doutoramento. No seminário de Literatura Comparada, o último da ‘serie, a professora pediu que lêssemos A montanha mágica, do Thomas Mann. Um verdadeiro cartapácio. Ainda não tive oportunidade (e vontade!) de reler o romance. No entanto, ficou na memória o dito “fenômeno”. Ocorre que, entre os comentários feitos pela professora, um se dedicava (e longamente!) a uma determinada cena do romance. A leitura requerida serviria para discutir alguns tópicos acerca da Tradução, suas técnicas e seus métodos, as dificuldades e as possibilidades, os prós e os contras. Li o romance. Até hoje não consegui explicar por que na leitura, não consegui reconhecer a dita cena. Como disse, não reli o livro. Logo, não posso dizer que o fenômeno se repetiu. No entanto, isso me faz pensar na leitura e como ela pode nos enganar. Terei dormido quando li a tal passagem? Será que ela se apresenta de forma não tão destacada quanto à que foi referida pela professora? A cena existe mesmo na tradução? Sim, a professora, austríaca de nascença, leu no original. Ô inveja! pois é… Fico eu, então, sem saber. Frustrado, mas nem tanto. Muito mais curioso que outra coisa. Quem sabe, no meio de meu ócio criativo, situação constante agora até o fim de meus dias, eu consiga reler o cartapácio, não dormir na tal passagem e verificar sua existência. A ver.

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A mesma coisa está a se passar agora, ainda que as condições sejam diferentes. Desta feita, trata-se de Dom Quixote. Releio a obra monumental de Cervantes pela terceira vez. A edição que leio agora foi publicada por um “clube de literatura” do qual sou sócio. Outro cartapácio. Fizeram a edição em volume único, quase mil páginas. Com aparato terminológico interessante. Há termos risíveis, outros nem tanto. Coisas do espanhol do século dezessete. Muita coisa mudou. O “fenômeno”, em sua essência, é parecido. Trata-se de uma passagem em que o cavaleiro andante passa por uma “casa editora” e faz um comentário. Já estou pra lá da metade do que seria o segundo volume (como eu disse, a edição foi publicada num tomo só). e… nada! não consegui encontrar a tal passagem da qual não me lembro literalmente. Sei que menciona os comentários do cavaleiro, como eu disse, a partir da visita que faz a uma “editora”. Uso o temo com certo receio, mas… Deixa pra lá! Pode ser que tenha se passado o mesmo que da leitura do romance do escritor alemão. Não vou conseguir saber. No entanto, diferentemente daquele, há uma passagem (que também não localizei… ainda), retomada por outro escritor de língua espanhola. Nesta volta, na Argentina: Jorge Luis Borges. Trata-se de um conto (?): Pierre Menard, autor de Dom Quixote. A dúvida entre parênteses tem a ver com essa mania de classificação taxonômica para cada conjunto de páginas escritas que vêm a ser publicadas. Chamo de mania, agora. Mas isso é assunto para outra hora. No texto do escritor argentino, há uma passagem tirada do livro de Cervantes: “…a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.” A passagem consta do capítulo nove, da primeira parte.. O texto de Borges é quem indica. O interessante é que, no texto do escritor argentino, a passagem de Cervantes é repetida, literalmente, na obra que Pierre Menard está a escrever. Na cabeça dele, é o Quixote. Como é possível Alguém (é apenas uma personagem) dizer que é de sua autoria um trecho “copiado” de um livro considerado clássico no/do Ocidente? Pois é. Mas há uma explicação (Acredito que é possível. Já escrevi um ou dois artigos comentando o tópico). Cervantes escreve seu livro no século dezessete. Pierre Menard, no dezenove, salvo engano. O que muda não é o texto, mas sua percepção. Em outras palavras o leitor de Cervantes não é o mesmo de Pierre Menard. Aí está a diferença. Pensem um pouco. Reflitam. Hão de chegar à conclusão de que Pierre Menard não era doido. Eu também não sou! E não estamos sozinhos…

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Assistência autorizada

Então é assim. Você compra fones de ouvido de uma marca famosa e já “assentada” no mercado. Quando você vai usá-los, você só escuta do lado esquerdo. O que você faz? Você procura por uma assistência técnica “autorizada”. Então você agenda o encontro – afinal, em tempos de pandemia há que lavar as mãos a cada cinco minutos, usar máscara até pra tomar banho e, se possível, acorrentar-se ao pé da cama, em casa, para não sair (viver é colocar os outros e a si mesmo em risco…). Você leva os fones de ouvido até a assistência técnica e os deixa lá. Volta pra casa com uma OS (Ordem de Serviço – a preguiça assola o continente) e aguarda a mensagem eletrônica dizendo que você pode ir apanhar os fones de ouvido. No dia aprazado, você vai e recebe os fones de ouvido. testa-os na própria assistência autorizada e… milagre! Eles funcionam. Você volta pra casa satisfeito. Usa os fones de ouvido por um bom tempo. Daí, um dia, sem mais nem menos, os fones de ouvidos não mais se conectam: nem ao seu MacBook Pro, nem ao seu iPhone 11 XSMax, nem ao seu Ipad 10,5”. Nada. Você faz novo agendamento e, no dia marcado, você volta à assistência técnica autorizada. Sem se esquecer de todas as medidas protocolares de segurança sanitária. Relata o que aconteceu. O rapazinho que atende você (são todos rapazinhos, com cara de espertos, olhando pra você como se você fosse o conde drácula pelado na frente deles, com a língua de fora, falando em aramaico antigo… com sotaque!), se enche de todo o desdém que é capaz de reunir, arregala bem os olhos e diz que vai testar o aparelho. E;e o faz e… nada. Você levou seu MacBoojk Pro e seu iPhone 11 XSMax e seu iPad 10,5”. Testa em todos eles e nada. Então, decepcionado, o rapazinho é obrigado a fazer outra OS e dispensar você. Para alívio dele mesmo. No dia aprazado, você volta para apanhar os fones de ouvido. Testa em seu iPhone 11 XSMax e… nada! Não funciona. Testa no iPad 10,5” e… nada. Não funciona também. Porra nenhuma funciona! Você se esqueceu de levar o MacBook Pro. Fazer o quê, né?! A menina que atendeu você, no balcão pergunta se está tudo bem. Ela ouviu os impropérios que você balbuciou enquanto tentava fazer o trubisco funcionar como deveria. Pede pra você aguardar que ela vai chamar um técnico. O gerente da assistência autorizada aparece e faz de conta que está preocupado. O mesmo atendente da última vai atender de novo e já faz cara de susto. Mais testes. Nada. Mais testes ainda, Os fones de ouvido funcionam com o celular do atendente. Depois funcionam com o iPhone 11 XSMax e com o iPad 10,5”. Você vota pra cada desconfiado (Não dá pra acreditar na providência divina numa hora dessas). Chega em casa, os fones de ouvido funcionam até o dia seguinte. Depois… bem, é a mesma história. Então você apela para o “suporte” na página da marca famosa e bem estabelecida no mercado. Um contato é mercado para o dia seguinte. Bidu. O telefonema acontece. Você conta toda a novela de novo. O rapazinho, com sotaque carregadíssimo, (o número de telefone é de Houston, Texas, EUA, mas a voz é de alguém que deve ter nascido em Pindamonhagaba ou em Piraju), muito educado e solícito atende você pede “um minutinho, por favor”! Você espera. Ele volta a atender e diz que consultou seu “superior” e que este vai atender você, mas como o “sistema” dele caiu, o “superior” vai “resetar” (Será que o rapaz com sotaque carregado não sabe que existe um termo na Língua de Camões que diz a mesma coisa: reiniciar???). Você aguarda os “minutinhos” pedidos e três horas se passam sem você receber de volta o telefonema do “superior”. Então você resolve fazer todo o caminho de novo, no “suporte” da marca famosa e bem estabelecida. O “sistema” leva você diretamente a um contato telefônico e outro rapaz, igualmente educado e solícito atende até que passa a ligação para o “suporte avançado”. A mocinha com sotaque igualmente carregado (Desta feita, é alguém que nasceu na Mooca ou no Pari) atende você e pede um dia para ela fazer contato com a assistência autorizada, com o seu gerente e retornar a falar com você. Um dia antes do prazo determinado pela mocinha com sotaque igualmente carregado marcou, ela mesma liga. Explica que a assistência técnica afiançou que não há NADA de errado com os fones de ouvido que você comprou e pergunta se seus dispositivos estão atualizados. Imagina só a reação! Daí ela pergunta se você pode “acessar” o Macbook Pro. Claro! Cumpre as etapas que você cumpriu incontáveis vezes desde a última vez que os fones de ouvido se conectaram. Imagina o que acontece. Os ditos cujos se conectam e funcionam. Não vou dizer qual foi o desfecho da história. Mas de tudo fica uma lição: não adiante quão famosa, tradicional, bem estabelecida e “confiável” a marca seja: a responsabilidade pelo bom funcionamento ou não do produto é sua. “Não podemos fazer mais nada”!

Língua

Então é assim. Um rapazinho loirinho, de olhos azuis, branquinho, malhadinho, tatuadinho, vestidinho com roupinhas da moda e com aquela voz típica de adolescente ianque, aparece na tela do computador (pode ser tablet, celular também!), falando com um sotaque dos mais postiços, esmaiados e empostados e avisa que vai comentar sobre uma coisa que os brasileiros costumam fazer. Ele diz que brasileiro não faz como os norte-americanos ao responder a uma pergunta. Quando se faz uma pergunta a um norte-americano, diz o rapaz, ele responde “yes”! Então, o rapaz diz, com cara de desdém, deboche e sarcasmo, que os brasileiros respondem a esta pergunta com um verbo. Você sabe as horas? Sei. Você está com fome? Estou. Você pode me indicar o caminho? Posso. Você vai à festa? Vou. Na apresentação que o rapazinho faz, o que se percebe é que ele está a dizer, implicitamente, que o brasileiro está errado. Eu acrescentaria, com toda a minha chatice, que ele pressupõe que isso é, para além do erro, um defeito, um pecado, quase um crime. Ora, ora… Vamos a ver… O coitadinho do rapazinho não sabe, ao certo, o que é idiossincrasia. Além disso, ele não deve saber que existe uma coisa chamada Linguística, que, por acaso, é uma “ciência” (Não vou entrar no mérito da discussão desse axioma aqui!) que explica entre outras coisas esse tipo de fenômeno que, por sua natureza, pode ser arrolado ao paradigma de “cultural”. Mas o rapazinho não sabe disso. Ele deve saber que é “descolado” falar esse tipo de coisa na internete. Sim, com “e” no final, como eu escrevo na língua que eu falo, a Língua Portuguesa (Outro mérito cuja oportunidade de discussão vou deixar passar!). Ele deve “achar” que faz sucesso e que se mostra “antenado” ao afirmar tais bobagens. Ele deve fazer parte daquele grupelho que acredita que se pode usar a vogal “e” como marca de anulação do caráter binário da língua. E esta é uma das mais abrangentes, contundentes, estonteantes e irrecorríveis bobagens. (Pela terceira vez, vou declinar do direito de me deter no mérito da questão). Pois é. Essa “espécie” de animais anda aumentando sua população no gênero humano. Sim, gênero. A humanidade é um gênero, como a animalidade, como a mineralidade. Não como o sexo. Este não é gênero. É sexo mesmo. E binário, para desespero daqueles que se se acham superiores por defenderem que a língua não pode ser binária. Como se mudar a natureza de uma língua coubesse na estreiteza molecular da área ocupada telo tico e pelo teco dessa patuleia. Mas sexo foi, é e sempre será binário: masculinos e feminino. Já sua derivada, a sexualidade… Ou mesmo sua prima rica, a identidade. Bem, entender isso requer muito esforço encefálico e cognitivo. Prática proibitiva para os espécimes em questão. Se é que me entendem. Creio que é por essas e por outras que, dentre outras influências, que chegamos onde estamos; convivemos com a intrusão nefasta do “aí” em lugares onde ele não é chamado, onde ele não cabe, onde ele é persona non grata. Usei o Latim, de propósito, para irritar a patuleia que nem se lembra que existiu uma língua chamada Latim e que ela é a célula mater (de novo!) da própria Língua Portuguesa! Convivemos com a pronúncia subserviente (recorde) de uma palavra que em Língua Portuguesa se pronuncia “recorde”. Lembrem-se os acentos aqui são usados para marcar a tonicidade da pronúncia. Eu sei que as palavras não são acentuadas em sua grafia. Essa convivência nefasta irrita, enoja, dá preguiça. Não vou me demorar mais e não vou dar explicações. Vou apenas concluir reproduzindo um soneto do Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, só pra contrariar:

Última flor do lácio, inculta e bela,

és, a um tempo, esplendor e sepultura,

ouro nativo, que na ganga impura,

a bruta mina entre os cascalhos vela.

Amo-te assim, desconhecida e obscura.

tuba de alto clangor, lira singela,

que tens o trom e o silvo da procela

e o arrolo da saudade e da ternura.

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

de virgens selvas e de oceano largo.

Amo-te, ó rude e doloroso idioma.

Em que da voz materna ouvi: “meu filho”

e em que Camões chorou, no exílio amargo,

o gênio sem ventura e o amor sem brilho.

Pingo

Micro parábola.

A princesa, farta de influencers e príncipes egocêntricos, chegou perto do dragão e perguntou: “Tem fogo”?

Desabafo

Não sou o autor do texto que segue. Entretanto, assinaria embaixo da maioria de suas afirmações por pensar exatamente da mesma maneira.

“São gravíssimas as minhas deficiências: nasci branco, e quem nasce branco já é considerado racista, mesmo não sendo.Nasci em uma família trabalhadora, então eu sou burguês.Não voto para esquerda, o que me torna fascista.Sou heterossexual, o que me torna um homofóbico.Valorizo ​​minha identidade e minha cultura, o que me torna um xenófobo.Acredito que o macho e a fêmea da espécie Homo Sapiens foram, na maioria das vezes, grandes parceiros e mutuamente responsáveis pelo sucesso da espécie, o que me torna misógino.Eu gostaria de viver em segurança e ver criminosos na prisão, o que me torna um torturador.Quero que respeitem minha maneira de pensar e minhas crenças e não me façam pensar que o anormal é normalmente relativo, o que me transforma em um repressor.Penso que os subsídios acabam com o esforço de trabalhar e minam a dignidade das pessoas, por isso sou insensível.Acredito que cada um deve ser recompensado de acordo com sua produtividade, mérito e capacidade, o que me torna um egoísta anti-social.Eu fui educado em valores e princípios, o que me torna um oponente do bem-estar social.Creio que as vítimas dos estupradores, ladrões, estelionatários deveriam ser indenizadas pelo Estado e os culpados, presos, pagassem pela dívida, não tivessem auxílio para suas famílias, indulto para ir pra casa, habeas corpus, tornozeleiras, mas trabalhassem para pagar suas custódias, sua roupa, água, luz e comida. Então, sou considerado preconceituoso e contrário aos Direitos Humanos.Esta é uma pequena e breve revisão da minha má reputação.Mas, pelo menos, tenho certeza de que somos vários: eu e, se você também tem essa má reputação, compartilhe.Do jeito que as coisas andam, ser um cidadão de bem será considerado crime.Agradeço a todos os meus amigos e conhecidos que ainda se atrevem a se relacionar comigo, apesar de todas as minhas falhas.”

Crônica (?)

Outro dia, fui almoçar no MADERO, do Boulevard shopping, em Belo Horizonte. A decoração, padronizada, não causa mais impressão. A atenção da recepcionista foi insuficiente. Eu estava sozinho. Não havia mais ninguém por perto quando cheguei. Ela teve a capacidade de lascar a pergunta: “Mesa para quantas pessoas?” Pode?! Muito bem que ela se mostrou bem treinada. Decorou a pergunta certa, no tom adequado. mas um pouco de jogo de cintura e atenção ao que está ocorrendo à volta não custa nada. Mas deixa pra lá. Estava frio. Chegando à mesa, tirei casaco, foulard, chapéu. Mantive a máscara. Maldição! Ainda não estava a comer ou beber. Logo… Logo fui atendido. O rapaz, muito atencioso anotou o meu pedido. Não sabia da quantidade de salada. Pedi uma “picanha premium”, acompanhada de penne na manteiga e uma salada do chef. Para minha surpresa a picanha – Merece o epíteto (essa é uma das qualidades do MADERO. Pena que, ao que parece, por conta das eventualidades pandêmicas, no tocante à economia, o grupo está em maus lençóis. Parece até que vai fechar. Pena. Muita pena. – Para minha surpresa, a picanha vinha acompanhada de uma pequena salada – em quantidade insuficiente para merecer o nome. A porção de penne era adequada. O prato com a salada do chef era mesmo grande. Logo vi que não era necessário o penne, mas… Já estava na mesa. Aprendi com meus pais – coisa rara de acontecer com muitas crianças hoje em dia – que o que se põe no prato deve ser comido. Que não está certo deixar comida no prato. Com o passar dos anos, comecei a perceber que muita gente, mundo afora, pensa que deixar comida no prato é sinal de finesse, etiqueta, educação refinada. Eu creio que isso seja, no mínimo, desumano, falta de consciência. Tanta gente a passar fome mundo afora e essa “gente” fazendo pose, deixando comida no prato. Todo mundo sabe qual o destino dos “restos”. Tem até prefeito que proíbe doação de marmitas para moradores de rua! (Não vou usar a expressão “cidadãos em situação de rua”, pois a considero esdrúxula, para não dizer estúpida. Parece um despropósito. Todo mundo sabe que sou um chato!) Então… Quando vi a quantidade de salada, deu vontade de rir. Mas comecei a comer. Lenta e educadamente. Do meu lado esquerdo um bando de “aborrescentes”, comendo hambúrgueres (claro!). Falando alto. Todos com o celular na mão. E há quem chame isso de interação ou conexão! Vai entender… Do meu lado direito, sentaram-se duas mulheres e uma criança. Tive a impressão de que uma dela era a mãe da pirralha típica de restaurante. Falando alto, bagunçando a mesa. Jogando coisas no chão. Correndo pelos espaços entre as mesas. E as duas donas falando ao celular, quando não elogiavam s diabruras do pequeno animalzinho. Quando meu pedido foi colocado sobre a mesa, os ocupantes das duas mesas olharam para mim e se entreolharam. Enquanto eu comia, isso se repetiu. umas tantas vezes. Cheguei a pensar em perguntar se eles estavam com vontade de pedir para experimentar a carne ou a salada, e estavam com vergonha. Ensaiei um sorriso interno. Continuei olhando para o nada. Comi tudo. Aprendi a lição de casa. Pode ser que me considerem uma pessoa mal-educada ou, como se diz popularmente, um “pobre”. Daqueles que quando come se lambuza, de acordo com o adagiário popular. Fiquei quieto. Os da esquerda saíram, em bando, alvoroçados, como soe acontecer com essa gente. As duas do lado direito saíram um pouco antes de mim e deixaram a mesa como se esta tivesse sido atingida por um tsunami, daqueles que só acontecem no Japão ou na China, de acordo com alguns vídeos no youtube… Uma bagunça. Dei graças a Deus por não ser da minha natureza o tal desejo de paternidade. E fico imaginando o tanto que eu ia infernizar a vida da mulher que se casasse comigo e a vida dos filhos não ia ser menos difícil. Deus sabe o que faz. AH… ia me esquecendo: a comida estava ótima. O preço, um pouco salgado. Mas eu trabalhei e me aposentei para isso: para não ter que dar satisfação dessas coisas a ninguém. Nem mesmo a mim…

Sonetos

Não devia, pensam alguns. Mal não faz, pensam outros. E eu? Será que todo mundo que faz alguma coisa se faz essa pergunta, levando em consideração a possibilidade das duas situações anteriores? Pois e… Pensei nisso hoje. ando publicando pouco em meu blogue. Falar em preguiça é chover no olhado. Então… vamos nos ensopar. É preguiça sim, sem medo de erra. Preguiça porque sei que pouquíssimas pessoas vão ler e minha vaidade fica alquebrada, tonta, sai tropeando comme um bateau ivre por aí… Sempre foi assim, sempre vai ser assim. Esse tipo de coisa não muda. Tudo isso (será “tudo” mesmo?) porque três poemas meus vão ser publicados numa antologia (mais uma), fadada ao ostracismo, e dois deles – dois sonetos na verdade – vou publicar aqui hoje. Devia? Não devia? Não vou lançar a pesquisa porque sei que não vou conseguir amealhar respostas suficientes para sustentar nenhuma margem de erro, por mínima que seja. Então, deixa pra lá e dá-lhe os sonetos. Antes, porém, uma nota explicativa (Ai como sou chato!). São sonetos petrarquianos ou italianos, porque possuem dois quartetos e dois tercetos. Não são sonetos ingleses ou shakespeariano – estes têm dois três quartetos e um dístico. Nem são sonetos monostróficos, porque não têm estrutura composta por uma única estrofe de 14 versos. Por outro lado, não são alexandrinos, porque não seguem a regra do número de sílabas poéticas, o que os transforma em sonetos de versos livres, mas mantêm esquema rimático simples. Vamos a eles (mesmo que o WordPress não permita que os sonetos apareçam em “minha” página como sonetos, 4-4-3-3… Fazer o quê?:

Soneto I

O velho pensador, sábio que era, sempre criou

o que foi e é de suprema importância,

tanto para quem vive, como para quem parou

de acreditar que o amor vence a distância.

Se velho era, é porque jovem foi, um dia

e feliz, deve ter sido, creio eu, por isso mesmo.

No entanto, sua imagem de jovem como o dia

cega a quem acredita que o tempo passa a esmo.

Nada, tão simples e tão caro, fica assim à solta,

à disposição de quem quiser mesmo aproveitar.

Ainda assim, vale a pena lembrar, que revolta

a alma continua, célere, a crer que amar

é apenas questão de sempre estar à volta

mesmo à distância, de quem se quer amar.

Soneto II

Pluralia tantum, é como latinos se expressam

quando, sérios, ensinam sobre palavras duplas.

No entanto, se esquecem, e sempre se enovelam.

quando o amor os acomete, por janelas amplas.

Não precisa ser de perto, tocando, fisicamente sentido

para que amor se sinta e se viva, completamente.

Basta que se saiba e sinta, mesmo em traço invertido,

que a distância também proporciona sossego à mente.

Vamos lá, coração inflexível e nobre,

tente avançar as barreiras de seu saber,

mesmo que para tanto se torne, ora pobre,

ora rico em sabedoria, que sempre se faz crer.

As mutações físicas como as mentais, se descobre,

prescindem de tanto ardor, no simples querer.