Multiculturalismo

Verbete retirado da Wikipedia:

Multiculturalismo (ou pluralismo cultural) é um termo que descreve a existência de muitas culturas numa localidade, cidade ou país, sem que uma delas predomine, porém separadas geograficamente e até convivialmente no que se convencionou chamar de “mosaico cultural”.

Concerto grosso, de Arcangelo Corelli; Concierto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo – com o solista de Kosovo, sublime – Sinfonia n. 94, de Haydn, com orquestra croata, na melhor sala de concertos de Zagreb: Lisinsk.

Lisinski no outono 2

Depois, uma cerveja no Strossmayera Cafe – palco de constantes festas latinas e da, já famosa, “Noite da salsa”), para ouvir piadas em três sotaques: irlandês, britânico e croata. Um stand up show, muito divertido. Se isso não é multiculturalismo… não sei o que é! Isso é uma pitada muito pequena da noite de Zagreb. Um frio inesperado para esta metade de outono (Jesen – lê-se “iécen”), final de outubro (Listopada), iníco de novembro (Studeni); 5 graus (pet stupnija – lê-se “istupiniia”) às onze da noite (jeadanaest sati na većer – lê-a última palavra “vécher”). Imagino o que vem por aí, com sua excelência o Inverno (Zima).

Meu quintal no outono 2

Salve! Ai que sono… ai que frio… Inté mais!

Forrest Gump

Revi Forrest Gump, pela enésima vez. Filme bobo? Sem graça? Ingênuo? Sem importância? Água com açúcar? Quem pode dizer? Essa mania de dizer que isso é assim ou assado, como eu já disse, é uma aparência. O filme é lindo. Quem não se emociona não está vivo, quem não sente a ingenuidade do protagonista como um pouco de cada um de nós mesmos, também não está vivo. Qualquer outra discussão é cabível, claro. No entanto, não me venham dizer que o filme não presta só porque não tem uma trama complicada. Não venham tentar me convencer que a ausência de efeitos especiais faz com que o filme perca em “qualidade”. De mais a mais, a interpretação de Tom Hanks não é apenas convincente, é soberba, assim como a de muitos outros grandes atores em outros grandes filmes. Aliás, por que será que a gente tem a mania esquisita de dizer que uma coisa é “grande” quando a gente gosta dela, ou quando reconhece seu valor e sua importância? Esquisito, muito esquisito… Na verdade, a pergunta que não quer calar é aquela que os “filósofos” de plantão  não conseguem responder. Penso que jamais conseguirão: o destino (como coisa a ser cumprida) já existe ou é a gente que o faz… As possibilidades são muitas, as perspectivas, variadas e a dúvida, imensa, absoluta, interminável… Não há como responder sem viver. Penso que ao se chegar perto da resposta esta tal de vida se acaba e a resposta se mantém intocável e intocada à espera de uma possível eternidade para ser desvendada. Quem poderá negar? É como o cheiro que sobre do chão quando chove, depois de um tempo de seca. O cheiro é úmido. A sinestesia da experiência fica na memória, entra ano, sai ano, o cheiro é o mesmo e com ele as lembranças, muitas lembranças…

edit

Impostos, taxas…

Há algumas coisas que eu ainda admiro como novas por aqui, por absoluto desconhecimeto de causa… As contas de luz são pagas mensalmente, como em todo resto do mundo, é claro!

Uma primeira diferença é que as contas chega até sua casa de seis em seis meses. Eles fazem a medida duas vezes pos ano e calculam um gasto médio. Dividem o valor por seis e emitem as faturas. Cinco meses depois eles voltam à sua casa e refazem a leitura. Se o que você gastou for menos que o cálculo (pré)feito, a diferença vem descontada, automaticamente, nos próximos seis meses. O contrário funciona da mesma forma. Com o gás é a mesma coisa. Faz cinco meses que não pago gás, pois oa valores cobrados no último inverno superaram, e muoto, o consumo do apartamento em que vivo. Não é admirável? Mais uma uma diferençazinha: se eles não encontram ninguém em casa para fazer a leitura do odômetro, deixam um recado com um número de telefone para você ligar informando os dados necessários, em 24 horas. Claro está que se você não ligar, vai prevalecer a “previsão” virtual que a distribuidora de energia HEP (Hrvatska Elektro Privreda) faz.

HEP d.d.

Hoje, quando eu cheguei em casa, havia um desses “recados”. Liguei para o dono do apartamento, porque eu não falo croata tão bem (Ja ne govorim hrvatski kao dobro) e pronto! Tudo resolvido! Mais alguns dias e eu recebo as contas em casa, os pagamentos mensais! Um luxo, pelo menos, na minha modestíssima opinião!

Babel

O título é sugestivo. Lembra uma passagem bíblica, da mesma forma que lembra um conto de Borges. No fundo, essas duas coisas são mais próximas do que parecem não ser! Um filme delicado, violento, deslumbrante, revelador. Pode ser que alguém não concorde com a mistura inesperada de tantos adjetivos. Mas não conseguiria dormir sem escrever alguma coisa sobre essa “babel” de imagens, de cortes temporais, de línguas, de sentimentos, de reações, de preconceitos e de pecados, muitos pecados. Esse tipo de pecado que a humanidade, de tão careca de cometer, já não se dá mais conta. Um filme DES-LUM-BRAN-TE!!! Não há como não gostar dele. O impacto maior fica por conta da edição primorosa que consegue recortar o tempo narrativo em pedaços desconexos que fazem com que a “história” seja apresentada já em curso. Ela começa em andamento, pelo meio, e termina do mesmo jeito. No final de sessão tem-se a impressão de se ter visto uma história muito bem contada, com um linearidade inquestionável, que faz a gente pensar… e muito!

A história da empregada mexicana que, ilegalmente, cria duas crianças e vai presa, depois é deportada, porque levou as crianças para a festa do casamento de seu filho, não muito longe da fronteira entre San Diego e Tecate. Uma revelação do preconceito, da empáfia, da soberba e da humilhação a que um ser um humano “estrangeiro” pode ser submetido, sem, nem ao menos, saber o motivo. Ou, sabendo, não ter sequer a oportunidade de se explicar “devidamente”. A “lei” a silencia! O casal em crise, por conta da perda de um filho, e a crise é atravessada por uma bala perdida, no meio do deserto do Marrocos. Acidentalmente. A crise se resolve com muita parafernália da mídia norte-americana que, em tudo e por tudo, principalmente por força da “boçalidade oficial”, vê em cada acidente uma tentativa de quebra do american way of life… Quando era para ver o que estava óbvio, fez “ouvidos” de mercador e não “viu” nada… O heroísmo do irmão mais novo, libido em alta, orgulhoso de sua mira que acaba por se entregar aos policiais truculentos do Marrocos, para tentar salver a vida do rimão, terminada brutalmente pela mesma truculência. Foi dessa mira certeira que veio o rito que acertou a mulher que sofre por conta da perda do filho, que tem dois irmãos, que são criados pela babá mexicana. “No meio do caminho tinha uma pedra”. O rifle. Aí é que faz sentido a história da filha surda-muda de um japonês viúvo. O desejo incontido e incompreendido, uma inocência difícil de explicar na “babel” da pós-modernidade… Inesperada mistura de culturas, de línguas, de situações. Urdidura acidentalmente tramada por um destino que usa e abusa de enredar o ser humano em situações e lugares os mais impensados, numa ciranda de acontecimentos que fazem a gente pensar… e pensar muito. DES-LUM-BRAN-TE!!! Não se deve perder a oportunidade de ver!

Lembrei-me desse filme hoje por conta do Croaticum, o centro de ensino de línguas estrangeiras da faculdade em que trabalho aqui, em Zagreb: mexicanos, colombianos, brasileiros, chineses, canadenses, estado-unidenses, jordanianos, ucranianos, argentinos, alemães, peruanos e mais… mais… gente de todo lado aprendendo essa língua um tanto… estranha, o croata (=hrvatski)

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Datas

Pois é… um frio do cão quando chega dezembro. Já faz frio agora, em outubro, imagina quando vier dezembro! Os cafés com seus terraços, então, praticamente deixam de existir. Eles continuam nos mesmos lugares,  já os terraços… No ano passado não nevou, a não ser na primeira madrugada do ano. 2009 começou com uma camada branca de quase trinta centímetros… O mineirão aqui ficou deslumbrado, é claro. Quem negar que ficou do mesmo jeito na primeira vez que viu neve… mente, deslavadamente. Mente! Vamos ver o que nos aguarda na chegada de 2010. A diferença curiosa é que o dia de Reis, o famoso dia de desmanchar o presépio, é feriado. Que eu saiba, não o é na terra brasilis, aqui é! Pois eu sabia, então, que era feriado. Haviam me avisado. Só não me haviam avisado de que, entre o primeiro e o sexto dias do ano, a faculdade não funciona… Um mico. No dia 3, era dia de aula e lá fui eu, debaixo de um frio do cão, garoando, luvas, cachecol e gorro. E a faculdade fechada. Encostei na parede pra rir, pois… Eu não sabia! Isso voltou a acontecer, meses depois, no dia do parlamento: um feriado tipicamente croata. Esse, ninguém me avisou! O país tem um presidente e uma primeira ministra. Sim, agora é mulher: Jadranka Kosor. O primeiro nome dela é um adjetivo, na língua local. Em croata, o Adriático se chama Jadran. O sufixo (ka) marca a formação de adjetivos, em muitos casos, nesta língua esquisita, o croata.

Jadranka Kosor (EPA/ANTONIO BAT)

Mulher elegante, sóbria e, pelo que dizem (se eu entendesse a língua, poderia afiançar, mas…), muito simpática. O jogo político daqui tem uma palavra-chave: korupcija. Preciso traduzir??? É o que mais se escuta nos tele-jornais (Vijesti) daqui. Até hoje não a vi fumando…

Instantâneos

Tomar café. Tomar café e fumar. Duas das coisas que o povo desta cidade mais gosta de fazer. Impressionante. Durante o verão, cafés e bares, com seus terraços, na rua – cercados por jardineiras, por placas de vidro, ou simplesmente delimitando espaço com as sombras dos guarda-sóis – ficam apinhados. São quatro meses de uma euforia que toma conta dos jardins, das praças e dos parques da cidade. Muitos, diferentes, sempre com gente andando e cachorros. Muitos cachorros. Coincidência ou não, ainda não pisei em cocô de cachorro: parece que por um milgare da natureza nesta parte da terra, eles só fazem cocô na grama dos parques e jardins. Raramente se vê cocô de cachorro nos passeios, nas ruas… Nem a marca… Pois um engraçadinho qualquer poderia dizer que o povo é educado e cata o cocô, sem exceção. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra…

Rua da parte antiga

A civilidade tem suas lacunas por aqui também… Motoristas que não usam cintos de segurança e avançam na faxa de pedestres… Buzinam como os cariocas: uma balbúrdia nos dias de chuva e depois da neve… Gritam muito na rua, alto, brigando pelos motivos mais bizarros. E andam, em bom número, olhando para o chão, ou com celulares à frente dos olhos, e quase sempre com fones de ouvido enfiados nas orelhas… parece até que é moda… Zagreb é uma cidade encantadora, sim… Tomara que não perca o charme com a iminente entrada da Croácia para a União Européia… Há quem não goste…

De um romance qualquer – 3

“Ele era baixinho. Estava vestido de maneira casual: tênis, jeans uma camiseta com frisos vermelhos nas mangas e na gola. Não era bonito. Não. Era um tipo comum, um… chaveirinho mesmo! Tinha um nariz reto, perfil quase etrusco e dançava como um gogoboy enlouquecido pela música que, alta, movimentada uma parafernália enorme de luzes. Ilusão de modernidade, sonho e delírio de prazer movido a álcool, água mineral, talvez ecstasy ou cocaína. O que importa? Na verdade, ele sorriu como Gioconda, revirando os olhos que pareciam negros – à distância – quando a música acelerava o ritmo. Malabarismo de um corpo em êxtase musical. Reviravoltas dos braços. Um relógio grande bem visível, desses que andam na moda, no pulso esquerdo. Um rapaz comum, que mexeu com “brios”. Depois dos 40, o ânimo de dançar all night long se esvai rapidamente, como éter. Não dá mais pra segurar uma onda como esta. Não vale a pena. Mares já navegados: o lugar da praia não muda. Mas é bom olhar. Olhar e sonhar. Sonhar e sorrir. Olhar e esperar, para nada acontecer, de novo. Ele dançava e, de vez em quando, olhava para trás. Havia muita gente junto dele. Havia outro rapaz, da mesma estatura, mais bonito, bem mais bonito. Este chegara com um casal straight. (Não é bom ficar fora da moda. Há que usar o jargão da moda: mostrar que se sabe Inglês…). Camiseta regata azul, corpo bem mais “trabalhado”. Cabelos compridos e um sorriso fácil, destes que conquistam a qualquer um, de imediato. Dançava também, muito. Muito e gostoso. Sempre sorrindo, na dele. Não fixava o olhar em nada, em ninguém, quase um típico clubber, a não ser pela aparência comum, de rapaz de cidade, de homem que, ainda jovem, entrava pela primeira vez (será mesmo?) numa boate gay (nossa, esta expressão cheira a idade, a tempo passado, a velhice…). Acompanhado de um casal que queria se divertir num lugar… diferente! Animado! Alternativo! A música era estridente. Demais para conversar, ou tentar ouvir direito o que o outro dizia. Ambos estavam ali debaixo do nariz de todo mundo. Do outro lado do parapeito recheado de grandes almofadas que já serviam de piso macio para os passos cambiantes de uma trouppe desconhecida e, ao mesmo tempo, por demais vista, revisitada. Todos os finais de semana. O mesmo ritual. Nada de ir embora, mas não queria ficar (Dá pra entender?). No meio da confusão, por várias vezes, o rapaz de camiseta branca e relógio grande olhou para trás. Não o suficiente para despertar mais desejo. Não muito, o suficiente, para fazer ficar. Não tinha mais ilusão. A água com gás acabou. Poucos degraus até a portaria. Pagar a conta e sair. Automaticamente, sem olhar para trás. Não era tarde, mas a rua estava deserta. As mesmas caras sonolentas dos motoristas de táxi, esperando os fregueses que poderiam ir para qualquer lugar. Uns para a zona sul, outros para a estação do metrô, outros para um motel. E havia os que iam andando pelas ruas da cidade, no meio da madrugada, como personagens dos contos de Caio Fernando Abreu. O clima é sempre o mesmo, o cenário é sempre o mesmo. Mesmas as ilusões. O tempo passa e parece estar cristalizado em imagens ofuscadas pelo álcool e pelo sono, pelo desespero… nunca! Isso não. Ir para casa e pensar, mais uma vez, antes de dormir, no rapaz de camiseta branca, de perfil quase etrusco, o que dançava e olha para trás, suponho…”

Os maias

Um dos romances mais impactantes que já li. Isso não quer dizer muito, mas é o que sinto, depois de assistir aos quatro monumentais cd’s da série homônima, adaptação da Rede Globo. Pode não ser muito, mas é o que é. O romance é tido e havido como um dos representantes mais importantes do Realismo português, mas é uma obra romântica. Não vou tentar provar isso aqui, pois ia ser muito maçante, mas sinto que não há escapatória para essa constatação! Sem deixar de ser Realista, Os maias é um romance romântico de excelência: todos os “mecanismos” se fazem sentir, na ponta da pena irônica, quase melancólica de Eça. Não chega a ser melancólica “de fato” porque o “retrato” que ele pinta atinge impiedosamente o cume da crítica a uma sociedade enviesada pelo francesismo das letras e pelo anglicismo de costumes – melhor seria dizer manias, mas… Um romance romântico sim, com todos os ingredientes em dose adequada para tanto. A receita não “desanda”!!! Todos os instrumentos mais rechaçados pelos Realistas de plantão estão lá: o preconceito, a carolice, a intuição, a força implacável do destino, as reviravoltas da paixão, as tragédias e as futricas… Uma bela receita romântica. A adaptação está muito, muito boa. A versão que foi exibida comercialmente peca pela extensão e pela inserção de elementos de outras obras de Eça – o Lobão de “A relíquia”, algumas pesronagens secundárias de “O primo Basílio”, e outros passagens do autor português. A versão em cd é FIEL ao romance, o que, para mim, é seu maior valor! A fidelidade traz grandeza épica às imagens da série, à parte o fato de que a lentidão de algumas sequências chega a entediar um pouco. Leonardo Vieira, Fábio Assunção, Valmor Chagas, Marília Pêra, Elaine Giardini estão SOBERBOS em seus papéis. Depois de ver a série, ao reler o romance, não consigo descolar a imagem desses atores da imagem que a leitura cria em minha imaginação. Um novo paradigma… Escolheram os atores certos e a performance deles é estupenda. Uma delícia de se ver!

De um romance qualquer – 2

“Num momento de pura desatenção, desvio o olhar da tela da TV e fixo o olhar na sola dos meus pés. Tenho, no momento exato do olhar, a certeza de que dificilmente alguém ainda vai tocar os meus pés. A única exceção, além de mim, é claro, é a podóloga, que deles cuida a cada 40 adias. Ela cobra caro, apesar de um serviço competente e limpo. Mas a micose da unha do dedo mínimo, do pé esquerdo, principalmente, não tem jeito. Continua lá. Quem é que poderia se interessar por isso? Quem vai pensar nisso quando olha pra mim, se é que alguém ainda olha pra mim. Modéstia falsa de lado, sei que as mulheres olham, sei que elas me desejam. Quando estou bem vestido e tudo mais (vou morrer sem saber, exatamente, o que significa este tal de “tudo o mais”). Elas não interessam. Nunca interessaram. Muitas delas ficam no mesmo lado da rua, na mesma calçada, só para passar do lado. Desvio do caminho, troca de calçada. A intenção é ser altivo e demonstrar desdém. Será que alguma delas já percebeu? Elas nunca interessaram. Será que alguma delas já percebeu isso também? Se isso já aconteceu, por que nenhuma delas nunca disse diretamente que havia percebido o desdém, o descaso? A indiferença? Não há nada que incomode mais o ser humano que a indiferença. Sempre repito isso e não sei de onde, exatamente, esta idéia me surgiu… Será que li em algum lugar? Será que alguém disse isso e meu inconsciente gravou, como desculpa para me livrar de certos constrangimentos? Nunca vou saber… Olho para os meus pés e sei que, muito dificilmente, alguém vai tocar neles, de novo. Não adianta a preocupação com a limpeza das unhas, a maciez da pele. Não vão tocar nele de novo. Por vezes, esta certeza me assusta. Em outros momentos, a mesma certeza faz com que eu perceba que não há como mudar o ritmo do tempo. Cronos é absoluto. Nada de resignação passiva. Ceticismo. Ceticismo em sua melhor acepção. A certeza de que existe uma verdade, ainda que seja impossível identificá-la e comprovar sua existência. Sabe-se desta existência e pronto! Há uma possibilidade muito remota, como remota é sua possibilidade. Crescer. M. é infantil, apesar de sua idade, apesar de sua experiência de vida, apesar de sua segurança e de suas responsabilidades. Sua reações são infantis, sua afetividade é tão infantil que chega a doer. Da mesma forma que F. Esta sim, uma profissional, até onde eu posso saber, competente, mas igualmente incapaz de separar certas coisas, em certas ocasiões. Com faca e o queijo na mão ela, literalmente, não consegue enxergar o fio de corte e visualizar a espessura a fatia de queijo que acaba por não comer. Sempre assustada com a morte, sempre às voltas com o fantasma de seu pai a quem sempre foi tão ligada. Foi companheira por muitos anos. Acompanhei a sua ‘evolução’, as suas primeiras ‘experiências’ e sempre me perguntei porque ela era incapaz e vencer certas ‘dificuldades’. Por que não conseguia enxergar o óbvio que, repetidas vezes, se apresentou diante de seus olhos? F. Uma pessoa igualmente despreparada para vencer a dificuldades que a convivência – aquela que se nutre dos percalços do tempo que não pára, apresenta a cada um de nós. De todo o grupo ficou uma saudosa lembrança: T. Não vou gastar meu tempo falando de D. Não vale a pena. Virginiano compulsivo, astrologicamente falando, nunca conseguiu enxergar além de seu próprio nariz. Sempre confundiram seu egoísmo com equilíbrio de auto-centramento. Não vale a pena comentar, sequer mencionar qualquer outro detalhe. Não vale a pena. T. deu certo! Esta é a melhor forma de expressar o que se pode perceber dele e a respeito de toda a sua trajetória. Desde cedo ele foi objeto de minha admiração. Mesmo longe, ele dá sinais de que ‘deu certo’. Apesar de repetir que, como todos o demais, vive com uma mala pronta no corredor, ao lado da porta principal de casa, ele deu certo. Não volta mais, não tem que voltar. Não precisa voltar, vai desperdiçar todo o ‘investimento’ que fez a troco de nada. Só por conta de uma axiomática experiência natal? Só porque suas raízes não se convencem a aprofundar caminhos em terra estrangeira? Não vou desistir de sempre de aconselhar T. A ficar, exatamente onde está. No entanto, contrariando meu desejo, fico sabendo que se aposentou. Fico sabendo que anda reclamando de solidão. Fico sabendo também que anda pensando em voltar. Agora não vou mais dar conselho, a relatividade de tudo me aconselha a escutar. É bom olhar para os próprios pés de vez em quando. O pensamento flui, as idéias aparecem se tornam um pouco mais suportáveis. Exatamente por este caráter obtuso e desencontrado que marca o ato tão banal e sem sentido de olhar para os próprios pés. Ainda que se chegue à cruel conclusão: é muito difícil que alguém ainda venha a tocar neles…”