De antes…

Já tentei algumas vezes. Quem é que não faz algumas tentativas e sempre recomeça? Se a gente está vivo é porque a dinâmica da existência exige que a gente mude. Ainda que a estabilidade seja um ponto a alcançar, no horizonte, a mudança revela, como disse, o dinamismo. Estar vivo é muito bom! Ter saúde e trabalho também. A família e os amigos temperam a experiência. Então pronto! Vou tentar mais uma vez. Pra começar uma pequena citação do Pessoa, sempre o Pessoa! Apesar de poder ser considerado um tanto “sério” ou mesmo “triste”, o tema da morte, na poesia não perde em beleza.

“[40]

Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte… Ou seja, uma vaga doença, que se não materializa em dor e por isso tende a espiritualizar-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um sono tão profundo que o dormir lhe não basta – o certo é que sinto como se, no fim de um piorar de doente, por fim largasse sem violência ou saudade as mãos débeis de sobre a colcha sentida.

Considero então que coisa é esta a que chamamos morte. Não quero dizer o mistério da morte, que não penetro, mas a sensação física de cessar de viver.

A humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras vezes olha com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo. Tudo isso é falta de imaginação. Nem há nada menos de quem pensa que supor a morte um sono. Por que o há de ser se a morte se não assemelha ao sono? O essencial do sono é o acordar-se dele, e da morte, supomos, não se acorda. E se a morte se assemelha ao sono, deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso, porém, o que o homem normal se figura: figura para si a morte como um sono de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei como pode alguém assemelhar a morte a qualquer coisa, pois não pode ter experiência dela, ou coisa com que a comparar.

A mim, quando vejo um morto, a morte parece-me uma partida. O cadáver dá-me a impressão de um trajo que se deixou. Alguém se foi embora e não precisou de levar aquele fato único que vestira.”

Esse fragmento é parte do Livro do desassossego, de Bernardo Soares, um dos heterônimos. Impressionante!

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