De um romance qualquer – 2

“Num momento de pura desatenção, desvio o olhar da tela da TV e fixo o olhar na sola dos meus pés. Tenho, no momento exato do olhar, a certeza de que dificilmente alguém ainda vai tocar os meus pés. A única exceção, além de mim, é claro, é a podóloga, que deles cuida a cada 40 adias. Ela cobra caro, apesar de um serviço competente e limpo. Mas a micose da unha do dedo mínimo, do pé esquerdo, principalmente, não tem jeito. Continua lá. Quem é que poderia se interessar por isso? Quem vai pensar nisso quando olha pra mim, se é que alguém ainda olha pra mim. Modéstia falsa de lado, sei que as mulheres olham, sei que elas me desejam. Quando estou bem vestido e tudo mais (vou morrer sem saber, exatamente, o que significa este tal de “tudo o mais”). Elas não interessam. Nunca interessaram. Muitas delas ficam no mesmo lado da rua, na mesma calçada, só para passar do lado. Desvio do caminho, troca de calçada. A intenção é ser altivo e demonstrar desdém. Será que alguma delas já percebeu? Elas nunca interessaram. Será que alguma delas já percebeu isso também? Se isso já aconteceu, por que nenhuma delas nunca disse diretamente que havia percebido o desdém, o descaso? A indiferença? Não há nada que incomode mais o ser humano que a indiferença. Sempre repito isso e não sei de onde, exatamente, esta idéia me surgiu… Será que li em algum lugar? Será que alguém disse isso e meu inconsciente gravou, como desculpa para me livrar de certos constrangimentos? Nunca vou saber… Olho para os meus pés e sei que, muito dificilmente, alguém vai tocar neles, de novo. Não adianta a preocupação com a limpeza das unhas, a maciez da pele. Não vão tocar nele de novo. Por vezes, esta certeza me assusta. Em outros momentos, a mesma certeza faz com que eu perceba que não há como mudar o ritmo do tempo. Cronos é absoluto. Nada de resignação passiva. Ceticismo. Ceticismo em sua melhor acepção. A certeza de que existe uma verdade, ainda que seja impossível identificá-la e comprovar sua existência. Sabe-se desta existência e pronto! Há uma possibilidade muito remota, como remota é sua possibilidade. Crescer. M. é infantil, apesar de sua idade, apesar de sua experiência de vida, apesar de sua segurança e de suas responsabilidades. Sua reações são infantis, sua afetividade é tão infantil que chega a doer. Da mesma forma que F. Esta sim, uma profissional, até onde eu posso saber, competente, mas igualmente incapaz de separar certas coisas, em certas ocasiões. Com faca e o queijo na mão ela, literalmente, não consegue enxergar o fio de corte e visualizar a espessura a fatia de queijo que acaba por não comer. Sempre assustada com a morte, sempre às voltas com o fantasma de seu pai a quem sempre foi tão ligada. Foi companheira por muitos anos. Acompanhei a sua ‘evolução’, as suas primeiras ‘experiências’ e sempre me perguntei porque ela era incapaz e vencer certas ‘dificuldades’. Por que não conseguia enxergar o óbvio que, repetidas vezes, se apresentou diante de seus olhos? F. Uma pessoa igualmente despreparada para vencer a dificuldades que a convivência – aquela que se nutre dos percalços do tempo que não pára, apresenta a cada um de nós. De todo o grupo ficou uma saudosa lembrança: T. Não vou gastar meu tempo falando de D. Não vale a pena. Virginiano compulsivo, astrologicamente falando, nunca conseguiu enxergar além de seu próprio nariz. Sempre confundiram seu egoísmo com equilíbrio de auto-centramento. Não vale a pena comentar, sequer mencionar qualquer outro detalhe. Não vale a pena. T. deu certo! Esta é a melhor forma de expressar o que se pode perceber dele e a respeito de toda a sua trajetória. Desde cedo ele foi objeto de minha admiração. Mesmo longe, ele dá sinais de que ‘deu certo’. Apesar de repetir que, como todos o demais, vive com uma mala pronta no corredor, ao lado da porta principal de casa, ele deu certo. Não volta mais, não tem que voltar. Não precisa voltar, vai desperdiçar todo o ‘investimento’ que fez a troco de nada. Só por conta de uma axiomática experiência natal? Só porque suas raízes não se convencem a aprofundar caminhos em terra estrangeira? Não vou desistir de sempre de aconselhar T. A ficar, exatamente onde está. No entanto, contrariando meu desejo, fico sabendo que se aposentou. Fico sabendo que anda reclamando de solidão. Fico sabendo também que anda pensando em voltar. Agora não vou mais dar conselho, a relatividade de tudo me aconselha a escutar. É bom olhar para os próprios pés de vez em quando. O pensamento flui, as idéias aparecem se tornam um pouco mais suportáveis. Exatamente por este caráter obtuso e desencontrado que marca o ato tão banal e sem sentido de olhar para os próprios pés. Ainda que se chegue à cruel conclusão: é muito difícil que alguém ainda venha a tocar neles…”

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