De um romance qualquer – 3

“Ele era baixinho. Estava vestido de maneira casual: tênis, jeans uma camiseta com frisos vermelhos nas mangas e na gola. Não era bonito. Não. Era um tipo comum, um… chaveirinho mesmo! Tinha um nariz reto, perfil quase etrusco e dançava como um gogoboy enlouquecido pela música que, alta, movimentada uma parafernália enorme de luzes. Ilusão de modernidade, sonho e delírio de prazer movido a álcool, água mineral, talvez ecstasy ou cocaína. O que importa? Na verdade, ele sorriu como Gioconda, revirando os olhos que pareciam negros – à distância – quando a música acelerava o ritmo. Malabarismo de um corpo em êxtase musical. Reviravoltas dos braços. Um relógio grande bem visível, desses que andam na moda, no pulso esquerdo. Um rapaz comum, que mexeu com “brios”. Depois dos 40, o ânimo de dançar all night long se esvai rapidamente, como éter. Não dá mais pra segurar uma onda como esta. Não vale a pena. Mares já navegados: o lugar da praia não muda. Mas é bom olhar. Olhar e sonhar. Sonhar e sorrir. Olhar e esperar, para nada acontecer, de novo. Ele dançava e, de vez em quando, olhava para trás. Havia muita gente junto dele. Havia outro rapaz, da mesma estatura, mais bonito, bem mais bonito. Este chegara com um casal straight. (Não é bom ficar fora da moda. Há que usar o jargão da moda: mostrar que se sabe Inglês…). Camiseta regata azul, corpo bem mais “trabalhado”. Cabelos compridos e um sorriso fácil, destes que conquistam a qualquer um, de imediato. Dançava também, muito. Muito e gostoso. Sempre sorrindo, na dele. Não fixava o olhar em nada, em ninguém, quase um típico clubber, a não ser pela aparência comum, de rapaz de cidade, de homem que, ainda jovem, entrava pela primeira vez (será mesmo?) numa boate gay (nossa, esta expressão cheira a idade, a tempo passado, a velhice…). Acompanhado de um casal que queria se divertir num lugar… diferente! Animado! Alternativo! A música era estridente. Demais para conversar, ou tentar ouvir direito o que o outro dizia. Ambos estavam ali debaixo do nariz de todo mundo. Do outro lado do parapeito recheado de grandes almofadas que já serviam de piso macio para os passos cambiantes de uma trouppe desconhecida e, ao mesmo tempo, por demais vista, revisitada. Todos os finais de semana. O mesmo ritual. Nada de ir embora, mas não queria ficar (Dá pra entender?). No meio da confusão, por várias vezes, o rapaz de camiseta branca e relógio grande olhou para trás. Não o suficiente para despertar mais desejo. Não muito, o suficiente, para fazer ficar. Não tinha mais ilusão. A água com gás acabou. Poucos degraus até a portaria. Pagar a conta e sair. Automaticamente, sem olhar para trás. Não era tarde, mas a rua estava deserta. As mesmas caras sonolentas dos motoristas de táxi, esperando os fregueses que poderiam ir para qualquer lugar. Uns para a zona sul, outros para a estação do metrô, outros para um motel. E havia os que iam andando pelas ruas da cidade, no meio da madrugada, como personagens dos contos de Caio Fernando Abreu. O clima é sempre o mesmo, o cenário é sempre o mesmo. Mesmas as ilusões. O tempo passa e parece estar cristalizado em imagens ofuscadas pelo álcool e pelo sono, pelo desespero… nunca! Isso não. Ir para casa e pensar, mais uma vez, antes de dormir, no rapaz de camiseta branca, de perfil quase etrusco, o que dançava e olha para trás, suponho…”

3 respostas para “De um romance qualquer – 3”.

  1. Jose Luiz, esses retratos vivos da noite, tempo de danca e imaginacao fertil, desejo e desterro, me fazem pensar como me e’ cara a liberdade para conhecer e reconhecer as pessoas anonimas, num momento em que quase todos agitam os corpos e a gente agita a mente: percebe, cria historias, sonha, as vezes quase exaspera, e depois vai dormir. Recentemente passei horas num bar dancante em Dublin, onde se via claramente a presenca massica de tchecos. Vi homens e mulheres bonitos, sensuais, com lindos trejeitos, e pensei muito (alem de dancar muito). Tua historia me traz muitas lembrancas. Gosto do tom e dos detalhes de forma e cor. Gosto das especulacoes tambem. Tudo danca ao som de nervos e neuronios ocupados. Obrigado por mais essa. Dario

  2. Incrível: quase vi o rapaz de camiseta e perfil etrusco dançando feito um louco…

  3. muda os personagens, mas os cenários estão sobrepostos…

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