Mais surpresas

O texto abaixo não foi escrito por mim. Emocionado, li num blog alheio. Blog de um ex-aluno que hoje aproveita as possibilidades criadas pela “mobilidade acadêmica”, no âmbito do projeto Erasmus, fruto, imagino eu, da inventiva “Carta de Bologna”. Inventiva e criticada, para mim, ainda desconhecida em sua intrincada totalidade. De qualquer maneira, o autor do texto está na Europa, estudando, como parte de integralização de créditos em sua formação acadêmica. Que bom pra ele! Foi meu aluno de Literatura Comparada, se não me engano. Foi quase bolsista de iniciação científica. E escreveu esse texto que me emocionou. A emoção, sincera, levou-me a escrever e registrar no seu blog, o seguinte comentário: Faz tempo que não leio um texto tão abrangente sobre crise de identidade. Que capacidade de percepção, que sintonia “fina”, que acuidade! Um detalhismo chinês para uma questão que se torna, a cada dia um verdadeiro "buscar agulha no palheiro". Pragmaticamente uma impossibilidade. O sentimento da solidão, a constatação da absoluta necessidade de tolerância, a relativização das diferenças e o afeto escondido que a língua deflagra, sem haver a mínima possibilidade de controle… Seu texto é emocionante, Wendel. E eu não consigo controlar o lugar comum do "orgulho" de um dia ter-me sentado à frente de uma turma de alunos em que você estava. Ali não havia como prever, aqui há como constatar. Obrigado por sua sinceridade!

descontrolados(1)

Espero que os olhos que estão me seguindo até aqui, compreendam, reflitam e se emocionem também!

Portugal e Europa

“Em Barcelona lê-se: Nenhum ser humano é ilegal

Vivo no continente do descontentamento há um ano. Estou nessa Europa entorpecida, em crise de identidade, à margem dela. Você resolve as ambiguidades do texto.

Eu falo de um continente que vive, hoje, um sentimento romântico de vitimização. São vitimados pelo multiculturalismo em próprio solo.

Cá em Portugal – esse pedacinho de terra, não só geograficamente mas também sentimentalmente longe do resto da Europa – há uma necessidade de garantir a existência de uma cultura que tem sido abandonada há séculos pelos seus. Diz-se muito por aqui que mais de quarenta por cento da população portuguesa está no estrangeiro.

No Porto, segundo maior centro urbano deste país, não é difícil deparar-se com inúmeros edifícios e casas abandonadas. Mas é um número relevante. E esse abandono de residências é um reflexo do deserto que aqui tem se tornado. E o deserto já não é só territorial.

É certo que Portugal não vive e nunca viveu uma situação de imigração como vive e viveu países como França, Alemanha, Espanha ou Inglaterra. Não há aquela onda massiva de imigrantes aqui, mesmo os africanos da região metropolitana de Lisboa não são os africanos magrebinos de Île-de-France.

É certo que historicamente a península ibérica foi colonizada em vários momentos por mouros, que aqui estabeleceram-se, e um leigo em genética diria: “o que dá para perceber na pele e nos rostos dos portugueses”. Eu digo colonizada, talvez diacronicamente, mas somente para enfatizar a ironia e levar o termo adiante. Porque a Europa diz-se sempre invadida.

Por séculos a Europa vendeu a ideia de continente civilizador. Foi preciso o contemporâneo Levi Strauss para superarem a ideia romântica de interlocutores de Deus. Mas para os habitantes, em geral, essa ideia ainda é viva.

Portugal, que não participou da segunda guerra mundial, mas, hoje, vez ou outra, manda umas dezenas de militares para Iraque ou Afeganistão, sente saudades. Também pudera, de potência proeminente para desolamento e abandono. Portugal sente nostalgia de ter sido dona do Brasil.

Aqui, parece me que consomem mais da nossa cultura de massa que nós mesmos. É claro que ainda estamos longe de ver no Brasil emergir uma sociedade menos interessada no trivial. Em Portugal o trivial é luxo. Digamos que o trivial brasileiro, repudiado pelos intelectuais no nosso país e estigmatizado desde sempre mas mesmo assim consumido, é tão comum em Portugal como azeite ou futebol. Mas aqui consome-se mais havaianas que vinho do Porto no Brasil, digo em escalas proporcionais. Talvez só Saramago não se interesse pelas novelas no Leblon. Mas convenhamos que ele não se interessa pelo Mosteiro dos Jerônimos também.

Quando abrimos um jornal no Brasil nunca esperamos encontrar uma notícia de Portugal. Isso devia ser uma rotina mais frequente em 1800, para falarem alguma coisa sobre os novos impostos da corte portuguesa ou da família real, que devia ser o mais perto que temos de celebridades. Nos dias em que estamos a nossa pátria-mãe tornou-se tão relevante quanto saber o que acontece em Andorra. Talvez na Páscoa vemos uma ou outra notícia sobre o preço do bacalhau ou receitas novas com frutas tropicais e junto disso venha uma breve, sucinta, lacônica referência a Portugal. Mas nem por pastel de Belém brasileiro se interessa e bacalhau não chega a mesa de todos.

A gente, ou seja, nós, costumamos ter mais coisas para nos preocuparmos. Embora as partes que ainda são mais buscadas pelos brasileiros tenham a ver com futebol e novelas.

Eu vivo um dilema conceitual aqui. É parecido com o sentimento que Baudelaire e seus contemporâneos tiveram quando inventaram a modernidade e o modernismo. (pretencioso)

O meu dilema é reconhecer que meu sobrenome me diz que eu não sou índio, mas saber que tenho mais em comum com um índio do que com um português. No entanto, como ocidental, tenha mais em comum com um português do que com um índio. O dilema está nessa base de negação e de reconhecimento. Enquanto colonizado. Enquanto colonizador. Enquanto ocidental.

Eu, que me interessava por Fernando Pessoa e Saramago tanto quanto por Mia Couto ou Clarice Lispector. Sem pátrias por detrás. Sobretudo pelo fato de que brasileiro só vincula o mito da nacionalidade eventualmente duas ou três vezes por década. Ou, nas piores hipóteses, quando saem do Brasil. Mas essa parte não nos ensina como a outra.

Aqui na Europa eu aprendi a ser brasileiro. Não que eu tenha alguma coisa a ver com capoeira ou bucho de bode ou chimarrão. Não que eu tenha alguma coisa com futebol ou novelas. Mas aqui eu entendi porque melancolia não faz sucesso no Brasil. Porque Samba não soa bem em francês ou português de Portugal.

Mas eu disse tudo isso – e talvez não tenha sido completamente útil, porque ao meio me perdi com esses devaneios sobre meu ponto de vista anterior e não sobre minha experiência empírica e metafísica – para refletir a realidade que recai sobre mim, dia após dias – para dizer vos, em bom português de Portugal, como sobrevive-se um imigrante anónimo, em meio a situação alienada dos indivíduos das grandes cidades ocidentais, geralmente tensa e inadaptada a um mundo representativo e inautêntico, que nos despersonaliza e nos delineia.

Eu disse tudo isso para quando eu voltar eu poder saber exatamente o que eu estava sentindo hoje. Quando no computador da faculdade o corretor do Word me diz que eu devo escrever exactamente.

Hoje, indo pra universidade, eu li numa pixação. “Morte a Maitê Proença e seus conterrâneos”. Mais adiante numa igreja protestante que comemora 100 em Portugal eu li: “Geração a geração nós nos reconfortamos em Deus”. Esta ultima, muito mais enigmática para mim do que a primeira. Às vezes eu queria ter aquele olhar de quando começava a aprender a ler. Que enxergava cada palavra como um mistério a ser decifrado. Eu, que saía com minha mãe na feira de sábado e lia cada palavra, cada propaganda, cada sinal gráfico que fosse decifrável, como sendo o maior êxito da minha existência. Pouco a pouco torna-se natural ler e as palavras perdem a magia para a maioria das pessoas. Ou talvez nunca tenha havido magia nenhuma nas pessoas.

Eu, nos meus delírios, arranjei outros modos para enxergá-las, mas nunca mais tive aquelas sensações de quando ia a feira aos sábados. Aqui em Portugal ainda é possível ler, para além dessas interessantes manifestações, coisas do tipo: actriz, reflectir, loiça… tudo isso pelo fato de que, embora os inúmeros acordos, os portugueses sempre mantiveram-se tradicionais em relação as mudanças e rupturas, e não só as ortográficas.

E eu não digo que são aqueles que nada percebem sobre língua. No Brasil, para o Zé da Farmácia, pouca coisa importa se não vão usar mais o hífen em antisséptico. Mas em Portugal, dos Zés das Farmácias aos professores de literatura, escrever atuar e não actuar é algo na mesma ordem de uma blasfêmia. É dizer brasileiro e não português embora dizer e escrever também tenha muito pouco em comum para um brasileiro. De facto, desculpem, de fato, é difícil perceber essa discussão que se passa aqui. Se é daqui também que surgem os acordos “ortográficos”, diga-se de passagem.

Mas parafraseando a Maria das Sardinhas: “isso é uma tontice” e brasileiro sabe muito bem. Nossa soberania não fica ameaçada, já que também não está em causa algum título da Copa do Mundo. Nossa cultura permanece a mesma multicultural, difusa em milhões de identidades. E por certo que daqui uns anos vamos atingir o mesmo grau de descontentamento dos nossos pais europeus e mergulhar na melancolia de um passado esplendoroso. Claro que precisamos de chegar a este presente de esplendor ainda.

Eu posso assegurar-vos, vamos ter saudades também de ter sido o que nunca fomos.”

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Mais uma parábola

Houve uma vez dois amigos. Eles eram inseparáveis, eram uma só alma. Por alguma razão seus caminhos tomaram dois rumos distintos e se separaram.

Isto iniciou assim:
“Eu nunca voltei a saber do meu amigo até o dia de ontem, depois de 10 anos, quando, caminhando pela rua me encontrei com a mãe dele. Cumprimentei-a e perguntei por meu amigo. Nesse momento seus olhos se encheram de lágrimas e ela me disse: morreu ontem… Não soube que dizer, ela seguia me olhando e perguntei como ele tinha morrido. Ela me convidou a ir a sua casa, ao chegar, me chamou para sentar na velha sala onde passei grande parte de minha vida, sempre brincávamos ali, meu amigo e eu. Sentei e ela começou a contar-me a triste história. Faz 2 anos, diagnosticaram uma rara enfermidade, e sua cura dependia de receber todo mês uma transfusão de sangue durante 3 meses, mas… Recorda que o sangue dele era muito raro? Igual ao seu… Estivemos buscando doadores e por fim encontramos um senhor mendigo. Seu amigo, como você deve se lembrar, era muito cabeça dura, não quis receber o sangue do mendigo. Ele dizia que a única pessoa de quem receberia sangue seria de você, mas não quis que procurássemos por você. Ele dizia todas as noites: não o procurem, tenho certeza que amanhã ele virá… Assim passaram os meses, e todas as noites se sentava nessa mesma cadeira onde você está agora, sentado, orava para que você se lembrasse dele e viesse na manhã seguinte. Assim acabou sua vida e na última noite de sua vida, estava muito mal, sorrindo, me disse: mãe, eu sei que logo meu amigo virá, pergunta pra ele por que demorou tanto e entrega a ele esse bilhete que está no minha gaveta.

A senhora se levantou, regressou e me entregou o bilhete que dizia:
‘Meu amigo, sabia que você viria. Você demorou um pouco mas não importa, o importante é que você veio. Agora estou esperando por você em outro lugar, espero que você demore a chegar aqui, mas enquanto isso quero dizer que desde o céu tem um amigo cuidando de você, meu querido melhor amigo. Ah, por certo, você se recorda do porquê de nós nos distanciarmos? Sim, foi porque não quis emprestar minha bola nova pra você, rsrs, que tempos… Éramos insuportáveis, bom pois quero dizer que dou a bola de presente e espero que goste muito. Amo você: seu amigo para sempre.’

“Não deixes que teu orgulho possa mais que teu coração…
A amizade é como o mar, vê-se o princípio, mas não o final!”

Simplicidade

Ando um tanto sensível a coisas aparentemente bobas, sem sentido, até banais. Há quem diga que isso é coisa de velho. Outros hão de dizer que se trata de falta do que fazer. Tanto faz, como tanto fez. Não me importo com o que “possam dizer”! O adagiário popular está certo: os cães ladram e a caravana passa! Interprete como quiser! O fato é que acabo de receber uma mensagem eletrônica com uma parábola simples, verdadeira, profunda e que me tocou: quero compartilhar!

Sejamos como um lápis !!
O menino olhava a avó escrevendo uma carta. A certa altura, perguntou:
– Você está escrevendo uma história que aconteceu conosco? E por acaso, é uma história sobre mim?
A avó parou a carta, sorriu, e comentou com o neto:
– Estou escrevendo sobre você, é verdade. Entretanto, mais importante do que as palavras, é o lápis que estou usando. Gostaria que você fosse como ele, quando crescesse.
O menino olhou para o lápis, intrigado, e não viu nada de especial.
– Mas ele é igual a todos os lápis que vi em minha vida!
Tudo depende do modo como você olha as coisas. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir mantê-las, será sempre uma pessoa em paz com o mundo.
Primeira qualidade: você pode fazer grandes coisas, mas não deve esquecer nunca que existe uma Mão que guia seus passos. Esta mão nós chamamos de Deus, e Ele deve sempre conduzi-lo em direção à Sua vontade.
Segunda qualidade: de vez em quando eu preciso parar o que estou escrevendo, e usar o apontador. Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas no final, ele está mais afiado. Portanto, saiba suportar algumas dores, porque elas o farão ser uma pessoa melhor.
Terceira qualidade: o lápis sempre permite que usemos uma borracha para apagar aquilo que estava errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos manter no caminho da justiça.
Quarta qualidade: o que realmente importa no lápis não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você.
Finalmente, a quinta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca.
Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida irá deixar traços, e procure ser consciente de cada ação.

Bom final de semana!

Blokada

Por aqui, imamo blokada opet! (= temos bloqueio de novo! Não é greve, štraik – lê-se “ishtraique”). Os alunos resolveram bloquear o prédio da faculdade, de novo, como no início do ano. Mais uma vez, em período imediatamente prévio a eleições: em dezembro escolhe-se o novo presidente desta república de presidencialismo parlamentar (ele têm primeiro ministro também, na verdade primeira ministra – Jadranka Kosor, lê-se “iadranca cossor”). Pode um nome desses???!!! Imagina… Uma mulher com nome de mar: Jadran é o nome do Adriático, em croata. O nome dela poderia significar, mais ou menos, “do adriático”… um adjetivo… Qualquer coisa como “Adriática Kosor”… Vai vendo…! Uma mulher muito interessante, nos limites estreitos que a língua local impõe à minha débil compreensão das coisas e das pessoas…

Os estudantes levam a sério essa história de blokada. Dão entrevistas, programam atividades por toda a cidade. Dois a dois, qual Cosme e Damião, ficam de plantão nos corredores de salas de aula. Só não estão bloqueados os gabinetes dos professores, a administração, a cantina e a biblioteca. Uma coisa quase nazista, na opinião de alguns, mas que funciona! Bem… Pena que o objetivo seja utópico: ensino superior gratuito para TODOS. Não vão conseguir jamais, infelizmente…

No mais, oito “monografias” de alunos croatas sobre a infância, a partir da leitura que os concorrentes fizeram do conto “Menino pequeno”, de Raquel de Queiroz. Ônus de ser leitor: presidência da comissão julgadora do concurso promovido pela Embaixada do Brasil em Zagreb. O que vale é que vamos receber a visita de uma amiga muito querida, que passa o final de semana comigo… Muita fofoca!

Nomes e…

Nome de autor de livro é uma coisa popular. Às vezes, não se sabe muito bem sobre a obra, mas escuta-se o nome do autor e uma enxurrada de idéias invade o cérebro do vivente e ele começa a acreditar que “pode”… Vai vendo! Surpresa boa foi encontrar um livro sobre o qual jamais tinha ouvido falar antes, nesta minha curta vereda “acadêmica” – Memórias de uma nota de banco. Isso mesmo! Machado de Assis inventou o “defunto autor”, Brás Cubas, celebérrima personagem. Pois em Portugal, Joaquim Paço D’Arcos inventou que uma “nota” de quinhentos escudos que tinha memória – a febre da União Européia ainda não tinha sido pintada sequer como miragem no horizonte de expectativas dos portugueses! E mais, a nota narra as suas memórias. Não é piada de português! É um romance! E um romance muito bom, tecnicamente instigante e narrativamente muito divertido e, até, elucidador!

A história se passa nas primeiras décadas do século vinte e se arrasta por uns trinta e cinco anos. Não parei de ler para anotar as referências cronológicas e fazer as contas… Todo o relato, ficcional, é claro (!), é apresentado na perspectiva da nota, como se ela fosse uma viajante no/do tempo. Há dois ou três aspectos muito interessantes. Comento apenas um para deixar quem quiser saber mais com água na boca – daí é procurar o livro e ler! A nota de quinhentos escudos tem opiniões próprias, sentimentos e desejos. Ela “analisa” o comportamento de cada pessoa que a tem em seu poder, de maneira sarcástica, contundente, às vezes, emocionante. Vale mais do que a pena ler!

PS: claro está que alguém há de pensar em criticar a minha ignorância, condenar mesmo a minha honestidade em admitir, publicamente, que jamais tinha ouvido falar em tal romance. Eu pergunto: adiantaria alguma coisa eu desmentir e fingir que já sabia, posando de erudito… ???!!! Ai, ai…

Palavras

Desde que eu me lembro, sou curioso… E uma de minhas curiosidades é sobre o significado das palavras. Às vezes, esqueço de que nem todas as palavras têm um significado. Já irritei uma amiga, porque perguntava o significado de cada palavra que via nas placas de sinalização de uma auto-estrada francesa. Neste “campo do conhecimento” (!) porta de banheiro público é uma enciclopédia… Quando se está num lugar desconhecido, qualquer coisa chama a atenção. Ontem, um quadro anunciando a especialidade do dia de um pequeno restaurante ao lado da “feira” do bairro onde moro, aqui em Zagreb, foi a bola da vez. Nele, eu li: Sarma + prilog = 50,00 kn.

Sarma, é uma delícia. Trata-se do nosso popular “charuto” ou “mafunfo” – se não me falha a memória, é assim que a gente chamava o prato feito com folhas de parreira, ou repolho, com recheio de uma mistura que podia levar de tudo um pouco, com base em arroz. Aqui, a sarma – todapalavra croata terminada em “a” é do gênero feminino! – é feita só com a folha de repolho. O recheio é uma pasta compacta de arroz com carne de ovelha e de vaca, raladas e misturadas. A delícia particular do prato está no molho, ultra-picante. Uma iguaria… A outra palavra, a que realmente despertou minha curiosidade – sempre como sarma na casa de minha senhoria, aqui! – é a palavra “prilog”, que significa “acompanhamento”, no Menu de qualquer retaurante croata. Daí me lembrei de que já conhecia a palavra, mas em outro contexto – as aulas croata, no ano passado. No livro que tínhamos como método, e na gramática da língua croata, prilog significa “advérbio”!

Saudade(s)

Conheci um professor/escritor português que apresentou uma conferência bastante instigante sobre a “saudade”. Metáfora de coisa passageira que fica. Paradoxo que forma e informa sobre o imponderável, porque não se pode prever quando se vai sentir…

Palavrinha difícil essa… A sua tradução para outras fronteiras além da língua de Camões é alguma coisa que atormenta tradutores, ainda hoje. Há camadas e camadas semânticas que se sobrepõem num caleidoscópio de nuances e peculiaridades. Mas como bom português que é, ele estabeleceu uma rota rumo ao “sentido” desse ícone cultural da lusitanidade. Saudade… A gente sente saudade de tanta gente e de tanta coisa. A gente fala de saudade. A gente sofre por saudade. A gente goza com saudade (Viva Lacan!). Às vezes, essa “coisa”, a saudade, aparece assim, de repente… sem avisar. Foi isso o que eu senti quando recebi a mensagem da Katia, comentando uma crônica da Ana Marina, no Estado de Minas. Só não sei qual foi o dia da publicação. Recebi a autorização para copiar e colar aqui. Não digo mais nada…

“Há um tempo que deixei de mandar-lhe meus comentários. Pudera, CADÊ o tempo???

Somos bombardeados com tantas informações ao mesmo tempo que vou dar um PITI a qualquer hora. Já preveni aos meus entes queridos (maridão e filhas) que preciso URGENTEMENTE de férias de tudo, inclusive deles, que amo tanto. Preciso ficar comigo uns dias, sem TV a cabo, sem jornais, talvez um bom e leve livro.

Mas ainda não concebo que isto que estamos vivendo é VIDA. Sinto falta da minha infância e adolescência apanhando legumes e verduras no quintal de casa, acompanhar a ninhada de pintinhos crescendo, de decorar os nomes das constelações no céu, dos pijamas de flanela, do café de coador de pano (enooooorme), da broa do fogão de lenha, do uso de tacho para doces infinitivamente mexidos.

Alías, tinhamos relógio??? nem lembro. Lembro do sino da igreja, pelo qual me guiava.

Atualmente moro no Bairro São Pedro, e estou me deliciando, ninguém imagina quanto: tenho padeiro, PADEIRO NA porta de casa, com seu balaio, buzinando em sua bicicleta. Tenho um verdureiro que vem toda quinta-feira às 8:30h, já com tudo separadinho em saquinhos pequenos, um pouquinho de tudo. Ao lado do prédio tem uma pequena mercearia que mata frango na hora, queijos fabricados por eles e que ainda usa caderneta de anotações e não tem máquina de cartão de crédito… ACREDITA??? TÔ NA ROÇA, a dois quarteirões da Av. do Contorno!!! Um papagaio da vizinha me acorda às 7h da manhã (pontualmente) chamando, “vó, dá café, ô vó!”. E o mais incrível, Anna, é que daqui não se houve NADA, NADINHA, nem de carro, nem de nada. Minto, apenas alarmes de carros: alías, aproveitando o ensejo, não dá para fazer uma crônica sobre estes IDIOTAS de alarmes de carros, que só servem para incomodar TODOS, menos o tal proprietário, que NUNCA aparece??? e os latidos de cachorros? não incomoda o dono, só os vizinhos???”

Minha amiga Katia, minha “tia torta” (!), no melhor dos sentidos, foi demais! Pôs todos os pingos nos “is” e deixou tudo em pratos limpos… principalmente para quem já é sócio vitalício do clube dos 3.0, 4.0, 5.0 e alhures…