Cidade

Ao acordar, não penteie os cabelos.

Coloque uma meia calça da cor da pele e sobre ela uma meia arrastão, de preferência, branca.

Use botas de cano alto. Se não tiver muitas amarras, não tem problema. Basta que não haja nenhuma combinação entre as botas e a roupa. Caso contrário, use aquelas botas sem sola e sem salto, próprias para o inverno, arrastando os passos, isso vai dar uma idéia de sua indiferença em relação à vida!

Duas blusas, bem coloridas, fazendo um composê surrealista: nada combina.

Nào se esqueça de mexer nos cabelos para despenteá-los um pouco mais.

Use uma bolsa enorme. De preferência, com taxas e muitas franjas de couro. A cor não interessa, quanto mais berrante, mais apropriado! E não se esqueça de usar a bolsa dependurada no antebraço que deve estar rigidamente colocado em ângulo reto, perpendicular em relação ao corpo. Como uma haste a apontar sempre para a frente… A bolsa dependurada… um must!

Ande como se cavalgasse sobre os saltos. Faça bastante barulho. Bata os “tacões” sobre o chão e ande depresa, em passos curtos e rápidos. Isso vai dar um toquer “moderno”, “globalizado”, à sua performance.

Eis a mulher croata, entre os 15 e os 30 anos de idade…

Vai vendo!

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Encontros

“Luizum e Luizoutro se encontraram, assim por acaso. Não sabiam da existência um do outro. O abraço, na porta do banheiro, depois do almoço. Um ficou sereno e direto, com intenção mais que clara! Suspense… Outro, mais que deslumbrado. Os braços de um, cordas grossas de músculos retorcidos, harmoniosa e sensualmente enovelados, deixou o outro quase sem fôlego. Aperto de carnes no calor de quase verão. Arfar de pulmões excitados pelos cheiros que evolavam. Desejo. A conversa correu solta durante o resto da tarde. A euforia do grupo não deixava dúvidas sobre o sucesso do encontro, afinal, era a primeira vez que acontecia assim, desse jeito, nestas circunstâncias. Mais que mil motivos para comemorar. O jantar anunciava! Papo vai, papo vem, um começou a contar sua história ao outro. Fui casado e tive duas filhas. A vida corria solta e não havia mais que os motivos “normais” para pensar que estava tudo bem. Estava tudo bem. Num sábado, passeando com minhas filhas pelo shopping, notei que um rapaz olhava insistentemente. O riso solto, quando o sorvete da mais nova caiu. O cartão que deixou na minha mão quando passou. Se eu soubesse… Estranho encontro aquele. Mas não me perturbei e fui pra casa. Dias depois resolvi telefonar, pois não sabia explicar a curiosidade. Estamos juntos desde então. Chamei meus pais, minhas filhas e a mulher. Fomos jantar fora e contei tudo, assim de supetão. Um choque, claro. Um dia, depois outro. Faz quinze anos e nem sei mais o que dizer a respeito. A gente se dá bem e minhas filhas não se abalaram muito. Meus pais se assustaram e, depois do impacto, a mulher se acostumou com a ideia. E você, contou para seus pais? E onde é que está escrito que eu tenho que contar? Por acaso há alguma lei que obrigue o cidadão a se colocar um rótulo e sair mostrando em público? Não. Não me preocupo com isso. Você então vive uma vida dupla, escondida. Negativo. Não. Mas então “tem” que contar! Meu amigo, chamei meus pais e lhes disse que eu não podia realizar seus sonhos, que eu era um homem diferente dele e que ela não podia cobrar de mim uma atitude que eles tomaram juntos. Não ia querer fazer infelizes a uma mulher, a possíveis filhos e a mim mesmo. Não! Não “contei”. Repeti que tinha sido educado para ter responsabilidade sobre meus atos. Lembrei a eles que eu podia contar com eles em caso de necessidade, segundo a mesmo educação. Logo, eles que respeitassem a minha individualidade. Não é pelo fato de que meu avô desejou que meu pai se casasse, que eu ia me casar. Eu não gostava da idéia. Jamais me senti capacitado a “criar” alguém. Não, não contei, mas deixei bem claro, despudoradamente claro, que eu era uma pessoa dierente deles e que isso era suficiente para que eles continuassem desejando a minha felicidade. Não contei. Não foi preciso. Mas você tem que contar! Olha só, não contei e não vou contar. Se você fez o que fez e se sente bem com isso, que bom pra você. Eu não preciso fazer o mesmo, eu não “tenho” que fazer o mesmo! Se a conversa vai por aí, o papo fica por aqui!

Mais dois dias transcorreram com o mesmo entusiasmado clima. Um e outro se cruzaram muitas vezes e não houve constrangimento. A não ser no momento da fotografia. Olha o passarinho! Sorria! Você “deve” mostrar “orgulho”! Orgulho de quê?!”

Alexandre

Dizem que é, mesmo, de autoria de Alexandre, o grande. Na dúvida, pro reu, diz o ditado. Mas que faz pensar, ah, isso faz sim!!!

alexandre_o_grande Dê a quem você ama asas para voar,
raízes para voltar e motivos para ficar.

Os 3 últimos desejos de ALexandre, o grande (por isso era assim chamado):
1. que seu caixão fosse transportado pelas mãos dos médicos da época; 
2. que fossem espalhados, no caminho e até seu túmulo, os seus tesouros conquistados, como prata , ouro,  e pedras preciosas ; 
3. que suas duas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos.
Um dos seus generais, admirado com esses desejos insólitos, perguntou a Alexandre quais as razões desses pedidos. Ele explicou: 
1. Quero que os mais eminentes médicos carreguem meu caixão para mostrar que eles não têm poder de cura perante a morte; 
2. quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem;
3. quero que minhas mãos balancem ao vento para que as pessoas possam ver que de mãos vazias viemos e de mãos vazias partimos.

Alerta

Retorno, 21 de janeiro

Depois de quase um mês sem eescrever uma linha sequer… Muito tempo… Muita água rolou debaixo de um monte de pontes. Na mesma medida, muita neve caiu. Faz duas semanas, Zagreb parou por conta da neve. Só se andava a pé. Nada mais se movia… Deve ter sido uma coisa pra se observar, quase se admirar. Mas eu não vi, não observei, mas me admirei de saber que isso ocorre, e de maneira inesperada. Nenhuma novidade até aqui…

Mal cheguei, já saí de novo. Hoje e amanhã vivo uma verdadeira torre de babel, ao vivo e acores, sem o colorido sarcástico de Saramago em Caim, seu útlimo romance. Delicioso. Deliciosamente irônico: o velho retomou a sua própria verve… Pois! Estou em Viena, aquela que já foi a cidade-coração de uma Europa que hoje habita os livros e museus e álbuns de fotografia. Claro, também resiste na memória de miríades de sujeitos perambulando mundo afora! Viena, a cidade de Freud; em parte, de Mozart também, e da inesquecível Sissi, a Imperatriz. Uma cidade charmosíssima que hoje, quarta-feira, quase submergiu na neve que não deu trégua até as quatro da tarde, desde a madrugada anterior. “Uma brancura Rinso”. Bem… nem tanto: nas cidades a neve logo escurece e fica suja, sem charme. Participo de um colóquio lusófono. Gente de todo o canto do mundo. Tem uma menina de Luxemburgo, filha de carioca com espanhola, que viveu na Alemanha e trabalha em Luxemburgo – sua terra natal – hoje está em Viena, com um namorado alemão e quer se mudar pra cá. Um outro veio de Fortaleza para Lisboa, cuidar dos negócios da família, na indústria têxtil, praticamente ameaçada pelos chineses que vêm tomando conta da Europa, aos pouquinhos, quase em silêncio absoluto. Há também um carioca, metido a besta, locupletando-se de alguma “bolsa de estudos” a falar bobagens sobre os viajantes europeus que visitaram o Brasil entre os séculos 18 e 19: um monte de bobagens, com aquele sotaque irritante… Mas há o matogrossense que vive em Niterói, que roteirizou delicadamente e brilhantemente vários versos de Manoeld e Barros. Tanspôs em linguagem fílmica, o universo poético-ecologico desde senhor que, “de repente, não mais que de repente”, brilha nos umbrais da “academia”, como solar maginificência da originalidade. O danado é mesmo original. Faz em verso, o que Guimarães Rosa fez em prosa, sem demérito para nenhum dos dois. Um nome a se lembrar e, claro, a se ler! Para completar, sem esgotar o dramatis personae desse “evento” com dezesseis participantes – isso é para dar uma cutucada naqueles que adoram o gigantismo dos congressos de “associações” – o português que terminou seu doutorado em terras austríacas: hilária e divertida análise de “falsos cognatos” e suas consequências… na vida dos falantes de Português mundo afora. A imagem de Santo Antônio em Literatura Infanto-juvenil portuguesa; estatísticas de ocorrências da elisão do “d” em formas verbais do século 18; a subjetividade e a autoridade no discurso da academia e mais, um pouco mais. Amanhã a segunda rodada, e a saudade que já vai ficar desses momentos nevados numa cidade charmosa da Europa, mais uma … Evoé!!!

Viena, janeiro, 23

Ontem foi dia de descobrir, por acaso, o local em que Beethoven está enterrado. Bem ao lado do Hotel, numa igrejinha pequena, dedicada a Santo Antônio, na Alsen Strasse. No mesmo prédio, mas em local diferente – uma pequena capela interma, no claustro do mosteiro franciscano que existe no mesmo prédio, o sítio em que Schubert compôs uma de suas canções. Assim, ao acaso, descobri duas referências que os turistas em geral não se preocupam em procurar. É pena…

Ficheiro:Beethoven.jpg                  Franz Schubert

Hoje, sentindo um frio que variou entre os três graus e os dez graus… negativos, estive no mesmo espaço que ouviu as notas da primeira exeucção p;ublica de uma sinfonia de Mozart… executada pelo próprio, então um menino de oito anos que, ao final, correu ao colo da Rainha, Maria Teresa, e apertou-lhe um abraço no corpete armado, deixando-lhe respeitosamente um beijo ao colo. As mesmas paredes, o mesmo piso que ele pisou, quase toquei a cadeira em que a rainha esteve sentada oucvindo, talvez mais que encantada, o fenômeno que se apresentava bem debaixo de seu nariz. Percorri salas e corredores em uqe Sissi, a legendária princesa também caminhou. Ela e seu marido, usando aquela mobília, comendo com talheres imensos de prata, todos, marcados com a chancela da coroa (com o famoso “K.K.” – Kayser und König – Rei e Imeprador)… herança material e simbólica de séculos passados. O imponente salão em que Kennedy e Krushov deram-se as mãos, ainda que protocolarmente – quem pode dizer? – está lá, guardando sua imponência e alimentando os ecos mudos de uma História que não se repete, apesar de certas aparências dizerem o contrário. Dizem as bocas pequenas que SIssi pode ter sido anoréxica. As máquinas de suas ginásticas diárias, a notícia sobre as constantes doses de um prato de sopa e uma laranja, dieta, dizem, adotada pela Imperatriz para manter sua esbelta silhueta: licitação do fone de ouvuido,c edido coo guia virtual de um tour lento e deliciosamente arrastado pelos corredores do tempo!); tudo isso é documento de um momento vividopor pessoas que hoje são apenas lembranças, nomes, imagens pintadas.

Anteontem, Bergasse 19. A falta que faz um divã – em viagem de amostra por ondres, ara sorte dos visitantes de lá. Por que será… “sorte”??? Mas fez falta. O pequeno museu ficou um pouco mais vazio. Ainda assim,e stavam lá as notas, os papéis, os livros. Via Gradiva, nem tão grande, nem tão pequena. Outras esculturas ainda vivem protegidas por fina parede de vidro, refugiadas, contra o toque desgastante da mão dos curiosos. Os sofás, as cadeiras, um guarda-chuva, a bengala e dois chapéus. O baú que resiste ao tempo e o clima preservado num espaço exíguo, ainda guarnecido com os tapetes pisados pelos pacientes do criador da psicanálise. Visita praticamene inescapável, pelo menos, para certo grupo de turistas… Um filme velho, em que um homem alquebrado fisicamente, com o rosto um tanto deformado, acompanhado por uma mulher de semblante tranquilo, sobe tropegamente três degraus de uma pequena escada casa adentro. A tela fica preta. A voz de Anna murmra alguma coisa num alemão incompreensível…