Encontros

“Luizum e Luizoutro se encontraram, assim por acaso. Não sabiam da existência um do outro. O abraço, na porta do banheiro, depois do almoço. Um ficou sereno e direto, com intenção mais que clara! Suspense… Outro, mais que deslumbrado. Os braços de um, cordas grossas de músculos retorcidos, harmoniosa e sensualmente enovelados, deixou o outro quase sem fôlego. Aperto de carnes no calor de quase verão. Arfar de pulmões excitados pelos cheiros que evolavam. Desejo. A conversa correu solta durante o resto da tarde. A euforia do grupo não deixava dúvidas sobre o sucesso do encontro, afinal, era a primeira vez que acontecia assim, desse jeito, nestas circunstâncias. Mais que mil motivos para comemorar. O jantar anunciava! Papo vai, papo vem, um começou a contar sua história ao outro. Fui casado e tive duas filhas. A vida corria solta e não havia mais que os motivos “normais” para pensar que estava tudo bem. Estava tudo bem. Num sábado, passeando com minhas filhas pelo shopping, notei que um rapaz olhava insistentemente. O riso solto, quando o sorvete da mais nova caiu. O cartão que deixou na minha mão quando passou. Se eu soubesse… Estranho encontro aquele. Mas não me perturbei e fui pra casa. Dias depois resolvi telefonar, pois não sabia explicar a curiosidade. Estamos juntos desde então. Chamei meus pais, minhas filhas e a mulher. Fomos jantar fora e contei tudo, assim de supetão. Um choque, claro. Um dia, depois outro. Faz quinze anos e nem sei mais o que dizer a respeito. A gente se dá bem e minhas filhas não se abalaram muito. Meus pais se assustaram e, depois do impacto, a mulher se acostumou com a ideia. E você, contou para seus pais? E onde é que está escrito que eu tenho que contar? Por acaso há alguma lei que obrigue o cidadão a se colocar um rótulo e sair mostrando em público? Não. Não me preocupo com isso. Você então vive uma vida dupla, escondida. Negativo. Não. Mas então “tem” que contar! Meu amigo, chamei meus pais e lhes disse que eu não podia realizar seus sonhos, que eu era um homem diferente dele e que ela não podia cobrar de mim uma atitude que eles tomaram juntos. Não ia querer fazer infelizes a uma mulher, a possíveis filhos e a mim mesmo. Não! Não “contei”. Repeti que tinha sido educado para ter responsabilidade sobre meus atos. Lembrei a eles que eu podia contar com eles em caso de necessidade, segundo a mesmo educação. Logo, eles que respeitassem a minha individualidade. Não é pelo fato de que meu avô desejou que meu pai se casasse, que eu ia me casar. Eu não gostava da idéia. Jamais me senti capacitado a “criar” alguém. Não, não contei, mas deixei bem claro, despudoradamente claro, que eu era uma pessoa dierente deles e que isso era suficiente para que eles continuassem desejando a minha felicidade. Não contei. Não foi preciso. Mas você tem que contar! Olha só, não contei e não vou contar. Se você fez o que fez e se sente bem com isso, que bom pra você. Eu não preciso fazer o mesmo, eu não “tenho” que fazer o mesmo! Se a conversa vai por aí, o papo fica por aqui!

Mais dois dias transcorreram com o mesmo entusiasmado clima. Um e outro se cruzaram muitas vezes e não houve constrangimento. A não ser no momento da fotografia. Olha o passarinho! Sorria! Você “deve” mostrar “orgulho”! Orgulho de quê?!”

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3 comentários sobre “Encontros

  1. Como sempre, seu texto é muito interessante. Já estava com saudade. Teu texto me remete a outros tempo, a histórias contadas. Tua visão vai ao encontro do que penso a respeito do que é panfletário, como se empunhar uma bandeira dissesse mais de quem se é.
    Só se tem que ter orgulho de ser gente, meu amigo, no mais amplo sentido da palavra.
    Meu carinho de sempre.

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