O tempo passa!

O tempo passa… Cronos não dorme no ponto. Sempre foi uma divindade atenta implacável, em muitos sentidos… No entanto, num aspecto ele não consegue interferir: a sabedoria que se acumula com a passagem do tempo, é intocável por ele. Talvez seja de propósito, para que a própria divindade de Cronoa se submeta a alguma coisa bem superior. De um jeito ou de outro, a sabedoria popular, o bom humor e a ironia jamais fizeram, não fazem e jamais farão mal a alguém. Sendo assim, com algumas adptações, aproprio-me de reflexões soltas dela, a sabedoria popular, a que sempre vence Cronos, e subscrevo-me muitos de seus ensinamentos. Pode até servir de consolo para quem anda se sentindo “velho”… Sempre algumas vantagens a se considerar, em qualquer altura da vida.

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Quando se atinge uma certa idade:                                                        – os sequestradores não se interessam mais;                                       – de um grupo de reféns, provavelmente será um dos primeiros a ser libertado;                                                                                             – as pessoas telefonam às nove da manhã e perguntam: “te acordei?”;                                                                                                      – ninguém mais o considera hipocondríaco;
– as coisas compradas não chegarão a ficar velhas;
– é possível viver sem sexo, mas não sem os óculos;
– histórias das cirurgias alheias são interessantes;
– planos de aposentadoria começam a ser matéria de discussão acalorada;
– limites de velocidade não são mais um desafio;
– não importa quem entre na sala, a barriga não precisa mais ficar encolhida;
– a visão não vai piorar muito mais;
– o investimento em planos de saúde finalmente começa a valer a pena;
– cotovelos, joelhos e ombros e dedos passam a ser mais confiáveis do que serviço de meteorologia;
– os segredos passam a estar bem guardados com os amigos: eles sempre esquecem;
– “Uma noite e tanto”, significa não ter sido necessário se levantar para fazer xixi;
– o aviso para ir devagar vem do médico e não do policial;
– “Funcionou” significa que não é preciso ingerir fibras;
– “Que sorte!” significa encontrar o carro no estacionamento do shopping.

Como dizem por aqui: i tako dalje (= e assim por diante…)!

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*V*E*R*G*O*N*H*A*

A gente vive num tempo em que não se pode mais afiançar a legitimidade de quase nada. Pelo menos, não se pode fazê-lo sem uma certa dose de cautela. A questão é que, a cada dia, a dose aumenta… Ou tem que aumentar. Acabo de ler um e-mail com uma suposta crônica do Verissimo. Claro está que a “autenticação” da autoria escapa-me entre os dedos. Confio no remetente e reproduzo o texto do cronista gaucho. Em cada uma de suas palavras… assino embaixo!

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“A Vergonha”

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. A décima (está indo longe) edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB 10 é a pura e suprema banalização do sexo. Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros… todos na mesma casa, a casa dos “heróis”, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterosexuais. O BBB 10 é a realidade em busca do IBOPE.
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB 10. Ele prometeu um “zoológico humano divertido” . Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
Se entendi corretamente as apresentações, são 15 os “animais” do “zoológico”: o judeu tarado, o gay afeminado, a dentista gostosa, o negro com suingue, a nerd tímida, a gostosa com bundão, a “não sou piranha mas não sou santa”, o modelo Mr. Maringá, a lésbica convicta, a DJ intelectual, o carioca marrento, o maquiador drag-queen e a PM que gosta de apanhar (essa é para acabar!!!).
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados..
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia.
Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).
Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a “entender o comportamento humano”. Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros?
(Poderia ser feito mais de 520 casas populares ou comprar mais de 5.000 computadores )
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa… ir ao cinema… estudar… ouvir boa música… cuidar das flores e jardins… telefonar para um amigo… visitar os avós… pescar… brincar com as crianças… namorar… ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.

Luiz Fernado Verissimo

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Anedota linguística

Aproveitando a deixa de uma amiga, muito querida, que enviou para mim e, plageando-a, sou um a mais no meio do “povo que gostia de língua”. Vai aí… Salve a Língua Portuguesa!

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O Presidente de um Banco estava preocupado com um jovem e brilhante diretor que, depois de ter trabalhado durante algum tempo com ele, sem parar nem para almoçar, começou a ausentar-se ao meio-dia. Então o Presidente chamou um detetive e disse-lhe:
– Siga o Diretor Lopes por uma semana durante o horário do almoço.
O detetive, após cumprir o que havia sido pedido, voltou e informou:
– O Diretor Lopes sai normalmente ao meio-dia, pega o seu carro, vai a sua casa almoçar, faz amor com a sua mulher, fuma um dos seus excelentes charutos cubanos e regressa ao trabalho.
Responde o Presidente:
– Ah, bom, antes assim. Não há nada de mal nisso.
Logo em seguida o detetive pergunta:
– Desculpe. Posso tratá-lo por tu?
– Sim, claro! – respondeu o Presidente surpreendido!
– Bom, então vou repetir:
– O diretor Lopes sai normalmente ao meio-dia, pega o teu carro, vai à tua casa almoçar, faz amor com a tua mulher, fuma um dos teus excelentes charutos cubanos e regressa ao trabalho…
Entendeu agora?


A Língua Portuguesa é mesmo fascinante.

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Brasília, 50 anos

As fotografias, em preto e branco, de Belo Horizonte, Dourados, Rio de Janeiro e Campinas são um total delírio. As tomadas das obras de construção da “novacap” são de uma perfeição que arrisco-me a dizer que, se fosse possível voltar no tempo, Zelito Viana o teria conseguido com essas imagens. Não tenho a certeza de que as cenas interiores do Palácio do Catete foram efetivamente filmadas “in loco”. O que interessa é que Marcos Palmeira encarna soberbamente o Carlos Lacerda combativo, mas sensato – por favor, não estou a defender ideologias, mas performances, ainda que ficcionalizadas, tanto em palavras como em imagens! José de Abreu consegue captar um pouco da “mineirice” que marca o emblema reconhecido mundialmente por duas letras: JK. Isso. Trata-se aqui de Bela noite para voar (Vejam a ficha técnica, ao final). Julia Lemmertz, em pouquíssimas palavras, mas com gestos delicada e precisamente ensaiados, faz uma operfeita dona de casa na passagem dos 50 para os 60, ainda no século 20. ) O drama reconstroi passagem contundente da vida nacional, de sua História e dos embates íntimos e políticos de um homem que, definitivamente, marcou indelevelmente a existência desse “país continental”, o Brasil. A trilha sonora é uma delícia. Há porém, creio eu (não se esqueçam de que sou um chato!) um erro de continuismo (será esse mesmo o termo “técnico”?). Na sequência do baile, logo no início do filme, aparece m copo de champagne que, acredito, não era usado à época a que a cena remete. Detalhes… Fato é que percebi duas coisas de que minha memória não se lembrava: a “Princesa” e o fato de que Maristela, a segunda filha do protagonista, ter sido adotada! Surpresa ou esquecimento? Dona Sarah não aparece, mas é mencionada… e muito! Não há sequer um comentário sobre as “puladas de cerca” do “presidente bossa-nova”. Uma constante é a marca “pessoal” e personalíssima – com o devido  pedido de licença para a redundância – que JK inscreve em sua trajetória. Personalidade não tão tragicômica como a de Jânio Quadros que, na película, é deliciosa, maliciosa, perfeita e exuberantemente interpretada por Cássio Scapin. A sequência com o Chivas Reagal, presente de JK a Jânio, é de-li-ci-o-sa! O ator é talentosíssimo e, salvo engano, reproduz a idiossincrática prolação do “vassourinha”…! Não li o livro (ainda?). Tendo como pano de fundo as revoltas da Aeronáutica (Jacareacanga, em 1956; Aragarças, 1959), um jornalista reescreve, na forma de folhetim, o roteiro “Perigo nos céus do Brasil!”, de autoria de um menino admirador do presidente Juscelino Kubitschek e principalmente dos aviões. Nos cinco anos que quiseram ser 50, JK é objeto de duas conspirações fracassadas, e desta outra, ficcional, em que traição e perigo voam pelos céus do Brasil. E a sedução também, porque o presidente talvez esteja enamorado! A sinopse diz quase nada sobre a película. Será necessário agir como São Tomé: ver para crer!

image O filme abriu o III Ciclo de cinema brasileiro, uma promoção do Setor Cultural, da Embaixada do Brasil, em Zagreb. Parabéns pala a Helga(brasileira) e a Ivana (croata), responsáveis pela impecável organização desta terceira edição! Uma abertura em grande estilo, com direito ao inflamado opening speech, do novo embaixador, Luiz Fernando de Athaíde, um sujeito super simpático, bem articulado, risonho, dinâmico. Seria coincidência o fato de ser ele formado em letras? Ai que maldade… A plateia, em sua maioria croata, não deve ter percebido muito bem a espessura histórico-afetiva da narrativa fílmica, ainda que tenha havido legenda em inglês e na língua local, o quase impronunciável croata. Ai que língua feia! O interesse se voltava para a já famosa caipirinha – generosamente servida em copos transparentes, no qual se entrevia a claridade da cachaça 51, of course! – e os olhinhos dos locais brilharam, mais uma vez. O pão de queijo ficou em segundo plano, mas acabou-se, literalmente, em menos de 15 minutos! Devo confessar que minha vaidade obriga a afirmar que o “meu” pão de queijo é bem mais gostoso. Mas o apresentado à famigerada plateia cumpriu seu papel. Uma noite a mais para as minhas memórias croatas!

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  • título original:Bela Noite Para Voar
  • gênero:Drama
  • duração:01 hs 27 min
  • ano de lançamento:2009
  • site oficial:http://www.belanoiteparavoar.com.br/
  • estúdio:Caribe Produções Ltda. / Focus Films
  • distribuidora:Paramount Pictures
  • direção: Zelito Vianna
  • roteiro:Zelito Vianna, baseado em livro de Pedro Rogério Moreira
  • produção:Cláudia Furiati e Daniel Sroulevich
  • música:Sílvio Barbato
  • fotografia:Alziro Barboza
  • direção de arte:Alexandre Meyer
  • figurino:Kika Lopes
  • edição:Diana Vasconcellos
  • efeitos especiais:Teleimage

De volta

Nada como recomeçar em boa companhia!

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Depois de quase quatro dias em comunicação como cyber world, eu estou de vola. Na verdade, deve haver muito pouca gente que vai se alegrar com essa notícia, mas isso não interessa. O que vem “ao caso” é que vou recomeçar. Um danado de um vírus resolveu se alojar no hard drive do meu laptop (ai, quantas palavras chiques, meu Deus!) e impediu o completo funcionamento do windows (Saravá Bill Gates! Argh!). Às vezes, eu penso que ele é a mesma pessoa que financia uma troupe de nerds para produzir vírus que ele usa para promover a maioria dos programas que prometem “matar” os vírus, sem o conseguir, of course! Nada como viver num mundo neo-liberal globalizado, em que tudo é possível, as always!

Pois… para recomeçar, vai o poeta dos poetas da “última flor do Lácio, inculta e bela”!

XVI
Quem me dera que a minha
[vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar,
[manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde
[veio volta depois
Quase à noitinha
[pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças
[ — tinha só que ter rodas…
A minha velhice não tinha rugas
[nem cabelo branco…
Quando eu já não servia,
[tiravam-me as rodas
[E eu ficava virado e partido
no fundo de um barranco.

(Álvaro de Campos)

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Pílulas

Há momentos na vida em que a gente perde muito por não ficar calado. Ou, dizendo de outra forma: o peixe morre pela boca.Literalmente! Não fosse a sedução da isca… Pois é… Nesse mundinho que a cada dia fica mais estranho e um tanto inesperado (apesar de eu ser fiel ao princípio de que “a cada ação corresponde uma reação igual e contrária”), pode acontecer de tudo. Uma amiga me disse, certa feita, que ao morrer, queria que seus olhos fossem doados, pois ela ainda não tinha visto tudo… Imagina… Hoje recebi o texto que segue e me fez pensar. Nada como a gente saber o próprio lugar e perceber quando é que está falando demais…

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Uma moça escreveu um email para uma revista financeira pedindo dicas sobre “como arrumar um marido rico”. Contudo, o mais inacreditável é que o “pedido” da moça, foi a disposição de um rapaz que, muito inspirado, respondeu à mensagem, de forma muito bem fundamentada! Sensacional!

Mensagem/email da MOÇA:
Sou uma garota linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Estou querendo me casar com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de
dólares por ano. Tem algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste site? Ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que possa me dar algumas dicas? Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não vão me fazer morar em Central Park West. Conheço uma mulher (da minha aula de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem é inteligente. Então, o que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correta? Como eu chego ao nível dela? (Rafaela S.)

Mensagem/resposta do RAPAZ:
Li sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação. Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou tomando o seu tempo a toa… Isto posto, considero os fatos da seguinte forma: Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que você procura), o que você oferece é simplesmente um péssimo negócio. Eis o porquê: deixando as firulas de lado, o que você sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas : Você entra com sua beleza física e eu entro com o dinheiro. Mas tem um problema. Com toda certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará aumentando. Assim, em termos econômicos, você é um ativo sofrendo depreciação e eu sou um ativo rendendo dividendos. E você não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre aumenta! Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando você se comparar com uma foto de hoje, verá que virou um caco. Isto é, hoje você está em “alta”, na época ideal de ser vendida, mas não de ser comprada. Usando o linguajar de Wall Street , quem a tiver hoje deve mantê-la como trading position (posição para comercializar) e não como buy and hold (compre e retenha), que é para o quê você se oferece… Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um buy and ho ld) com você não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim! Assim, em termos sociais, um negócio razoável a se cogitar é namorar. Cogitar…Mas, já cogitando, e para certificar-me do quão “articulada, com classe e maravilhosamente linda seja você, eu, na condição de provável futuro locatário dessa “máquina”, quero tão somente o que é de praxe: fazer um test drive antes de fechar o negócio… podemos marcar?

Quem enviou esta mensagem foi um amigo, que ainda não conheço pessoalmente. Ele recebeu do “degas” cujo nome aparece aqui: JOÃO PEREIRA GOMES NETTO // Pretti & Altoé Advogados Associados. Pronto! Coloquei os créditos!

Domingo no parque

A Feira da ladra, em Lisboa; le marhé aux puces, em Paris; a Feira de Acari, no Rio de Janeiro… Em cada parte do mundo tem um nome. Em Zagreb, tem uma assim também, mas não tem nome – pelo menos, que eu saiba. A gente a conhece como a feira dos ciganos! Ela acontece aos domingos e é uma dificuldade para tirar fotos: os “locais” não gostam. Em sua maioria são habitantes de Zagreb e região, mas originários da Sérvia, da Albânia, da Macedônia e ainda guardam muito ressentimento por conta da guerra étnico-religiosa que culminou com a dissolução da Iugoslávia. Numa palavra: “ciganos”. Sem o charme que Hollywood imôs (como sempre o faz!). O Marechal Tito deve se revolver no túmulo quando um estrangeiro como eu diz essas coisas… Mas ele não pode mais fazer nada contra mim, logo…solto a língua!

Vale a pena o esforço. Em domingo friozinho, com direito a uma chuvinha renitentemente fria e ao vento que sopra, como se o inverno se esforçasse em dizer que ainda está presente, já na beira da avenida que dá acesso ao parque de estacionamento mais adiante, nota-se o movimento. Carros indo e vindo e uma euforia esquisita de cores e sacolas e gente falando essa língua quase incompreensível: o croata. Graças ao Croaticum, curso de croata como língua estrangeira, para estrangeiros (!), algumas coisas não me escapam aos ouvidos já acostumados a essa falta de eufonia linguística: ouvidos sul americanos de um leitor perdido no vale ao pé dos Bálcãs…

Nessa feira, vende-se de tudo. Troca-se tudo. A ordem é regatear. Sinto-me deslocado, pois ainda não aprendi, aos 53 anos de idade, a regatear. Uma vergonha, mas fazer o quê? Pois… O único cheiro de que se tem notícia nesse lugar são dois: o do alho que paira no ar, vindo dos transeuntes e a nuvem de odores que vem do čevapi de que já falei aqui. O sabor é uma delícia, mas o cheiro que fica no ar, na roupa, nos cabelos… “Cruzes”, como diria uma amiga minha… Ela sabe que estou falando dela! Pois… Há pequenas vendas de pães, de doces, de refrigerantes, de cerveja – universal ! – e a rakija (lê-se “raquiia”, em croata, o “jota” pronuncia-se como um “i” um pouqinho mais demorado, mas só um pouquinho!). É a cachaça local. Quando bem feita, artesanalmente, é uma delícia… Uma “bomba”, mas uma delícia! Logo na entrada, vendem-se carros, peças, acessórios e pneus. Hoje havia uma promoção: quatro pneus por 100 kunas, algo em torno de R$60,00. Inacreditável! Oferta por conta e risco do freguês. Um dos jornalistas portugueses, com quem fui visitar, a feira comentou que se comprássemos esses pneus, corríamos o risco de não conseguirmos chegar ao posto de gasolina mais próximo para calibrá-los. O vendedor ficou a olhar para nós, com cara de “meu Deus que isso?”. Entenda como quiser!

Há o setor das roupas, dos sapatos, das peças de coleção, das quinquilharias – retratos, miçangas, meias e luvas, chapeus, óculos velhos e/ou de plástico, rádios e antenas de televisão, microfones estragados, bichinhos de plástico, cd’s e parafusos; livros, cadernos usados, coleção de canetas hidrocor e fitas; cordas, faqueiros desfalcados, etc., etc., etc. Vai passando o tempo e as pechinchas começam. Mas há que ter cuidado. Fomos testar a “veracidade” de uma dessas ofertas e caímos no conto do vigário. O vendedor gritava que era tudo por 5 kunas: “Sve za pet kuna! Sve za pet kuna! Sve za pet kuna! Gritava como se brigada militar estivesse chegando com metralhadoras armadas. Peguei um telefone velhíssimo do meio da montanha de bugigangas. Já fui dando uma moeda de cinco kunas – nota de papel, aqui, só de 12, 20, 50, 100, 200, 500 e 1000 kunas; pra baixo… só moeda! (As moedas são de 5, 2 e 1 kunas e 50, 20, 10, 5, 2 e 1 lipas, os “centavos” dos locais!).  Que nada… Fez que não com a cabeça e disse, peremptório: To je deset kuna! Tentando traduzir quase literalmente: “Este é dez kunas“. Vá se entender a “lógica” do cigano. Sim, todos eles parecem ciganos, daqueles que a infância da gente se fartou de imaginar, ajudada pelas ilustrações que hoje eu chamaria de xenófobas. Mas fazer o quê? É domingo. Eu estava à toa. Os jornalistas estavam aqui a filmar o cotidiano de cidadãos portugueses. Eu estava ali de coadjuvante, convidado pela Sofia, leitora do Instituo Camões, minha amiga, a “estrela” do documentário dominical. Um divertimento mais que diferente… instrutivo e engraçado! Valeu apena. Afinal… “tudo vale a pena…”.