Domingo no parque

A Feira da ladra, em Lisboa; le marhé aux puces, em Paris; a Feira de Acari, no Rio de Janeiro… Em cada parte do mundo tem um nome. Em Zagreb, tem uma assim também, mas não tem nome – pelo menos, que eu saiba. A gente a conhece como a feira dos ciganos! Ela acontece aos domingos e é uma dificuldade para tirar fotos: os “locais” não gostam. Em sua maioria são habitantes de Zagreb e região, mas originários da Sérvia, da Albânia, da Macedônia e ainda guardam muito ressentimento por conta da guerra étnico-religiosa que culminou com a dissolução da Iugoslávia. Numa palavra: “ciganos”. Sem o charme que Hollywood imôs (como sempre o faz!). O Marechal Tito deve se revolver no túmulo quando um estrangeiro como eu diz essas coisas… Mas ele não pode mais fazer nada contra mim, logo…solto a língua!

Vale a pena o esforço. Em domingo friozinho, com direito a uma chuvinha renitentemente fria e ao vento que sopra, como se o inverno se esforçasse em dizer que ainda está presente, já na beira da avenida que dá acesso ao parque de estacionamento mais adiante, nota-se o movimento. Carros indo e vindo e uma euforia esquisita de cores e sacolas e gente falando essa língua quase incompreensível: o croata. Graças ao Croaticum, curso de croata como língua estrangeira, para estrangeiros (!), algumas coisas não me escapam aos ouvidos já acostumados a essa falta de eufonia linguística: ouvidos sul americanos de um leitor perdido no vale ao pé dos Bálcãs…

Nessa feira, vende-se de tudo. Troca-se tudo. A ordem é regatear. Sinto-me deslocado, pois ainda não aprendi, aos 53 anos de idade, a regatear. Uma vergonha, mas fazer o quê? Pois… O único cheiro de que se tem notícia nesse lugar são dois: o do alho que paira no ar, vindo dos transeuntes e a nuvem de odores que vem do čevapi de que já falei aqui. O sabor é uma delícia, mas o cheiro que fica no ar, na roupa, nos cabelos… “Cruzes”, como diria uma amiga minha… Ela sabe que estou falando dela! Pois… Há pequenas vendas de pães, de doces, de refrigerantes, de cerveja – universal ! – e a rakija (lê-se “raquiia”, em croata, o “jota” pronuncia-se como um “i” um pouqinho mais demorado, mas só um pouquinho!). É a cachaça local. Quando bem feita, artesanalmente, é uma delícia… Uma “bomba”, mas uma delícia! Logo na entrada, vendem-se carros, peças, acessórios e pneus. Hoje havia uma promoção: quatro pneus por 100 kunas, algo em torno de R$60,00. Inacreditável! Oferta por conta e risco do freguês. Um dos jornalistas portugueses, com quem fui visitar, a feira comentou que se comprássemos esses pneus, corríamos o risco de não conseguirmos chegar ao posto de gasolina mais próximo para calibrá-los. O vendedor ficou a olhar para nós, com cara de “meu Deus que isso?”. Entenda como quiser!

Há o setor das roupas, dos sapatos, das peças de coleção, das quinquilharias – retratos, miçangas, meias e luvas, chapeus, óculos velhos e/ou de plástico, rádios e antenas de televisão, microfones estragados, bichinhos de plástico, cd’s e parafusos; livros, cadernos usados, coleção de canetas hidrocor e fitas; cordas, faqueiros desfalcados, etc., etc., etc. Vai passando o tempo e as pechinchas começam. Mas há que ter cuidado. Fomos testar a “veracidade” de uma dessas ofertas e caímos no conto do vigário. O vendedor gritava que era tudo por 5 kunas: “Sve za pet kuna! Sve za pet kuna! Sve za pet kuna! Gritava como se brigada militar estivesse chegando com metralhadoras armadas. Peguei um telefone velhíssimo do meio da montanha de bugigangas. Já fui dando uma moeda de cinco kunas – nota de papel, aqui, só de 12, 20, 50, 100, 200, 500 e 1000 kunas; pra baixo… só moeda! (As moedas são de 5, 2 e 1 kunas e 50, 20, 10, 5, 2 e 1 lipas, os “centavos” dos locais!).  Que nada… Fez que não com a cabeça e disse, peremptório: To je deset kuna! Tentando traduzir quase literalmente: “Este é dez kunas“. Vá se entender a “lógica” do cigano. Sim, todos eles parecem ciganos, daqueles que a infância da gente se fartou de imaginar, ajudada pelas ilustrações que hoje eu chamaria de xenófobas. Mas fazer o quê? É domingo. Eu estava à toa. Os jornalistas estavam aqui a filmar o cotidiano de cidadãos portugueses. Eu estava ali de coadjuvante, convidado pela Sofia, leitora do Instituo Camões, minha amiga, a “estrela” do documentário dominical. Um divertimento mais que diferente… instrutivo e engraçado! Valeu apena. Afinal… “tudo vale a pena…”.

5 comentários em “Domingo no parque

  1. Se a alma não é pequena… Deve ser o máximo essa feira – pra quem sabe falar croata e fica lá, pechinchando, pechinchando… Adoro essa coisa de reciclar: o que não lhe serve mais, pode servir para mim e não se faz tanto lixo, né não? Prum domingo frio até que não foi mal. Você vai ter que escrever mesmo o livro, contando essas coisas todas do pé dos Balcãs… Bjs demorados

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