Brasília, 50 anos

As fotografias, em preto e branco, de Belo Horizonte, Dourados, Rio de Janeiro e Campinas são um total delírio. As tomadas das obras de construção da “novacap” são de uma perfeição que arrisco-me a dizer que, se fosse possível voltar no tempo, Zelito Viana o teria conseguido com essas imagens. Não tenho a certeza de que as cenas interiores do Palácio do Catete foram efetivamente filmadas “in loco”. O que interessa é que Marcos Palmeira encarna soberbamente o Carlos Lacerda combativo, mas sensato – por favor, não estou a defender ideologias, mas performances, ainda que ficcionalizadas, tanto em palavras como em imagens! José de Abreu consegue captar um pouco da “mineirice” que marca o emblema reconhecido mundialmente por duas letras: JK. Isso. Trata-se aqui de Bela noite para voar (Vejam a ficha técnica, ao final). Julia Lemmertz, em pouquíssimas palavras, mas com gestos delicada e precisamente ensaiados, faz uma operfeita dona de casa na passagem dos 50 para os 60, ainda no século 20. ) O drama reconstroi passagem contundente da vida nacional, de sua História e dos embates íntimos e políticos de um homem que, definitivamente, marcou indelevelmente a existência desse “país continental”, o Brasil. A trilha sonora é uma delícia. Há porém, creio eu (não se esqueçam de que sou um chato!) um erro de continuismo (será esse mesmo o termo “técnico”?). Na sequência do baile, logo no início do filme, aparece m copo de champagne que, acredito, não era usado à época a que a cena remete. Detalhes… Fato é que percebi duas coisas de que minha memória não se lembrava: a “Princesa” e o fato de que Maristela, a segunda filha do protagonista, ter sido adotada! Surpresa ou esquecimento? Dona Sarah não aparece, mas é mencionada… e muito! Não há sequer um comentário sobre as “puladas de cerca” do “presidente bossa-nova”. Uma constante é a marca “pessoal” e personalíssima – com o devido  pedido de licença para a redundância – que JK inscreve em sua trajetória. Personalidade não tão tragicômica como a de Jânio Quadros que, na película, é deliciosa, maliciosa, perfeita e exuberantemente interpretada por Cássio Scapin. A sequência com o Chivas Reagal, presente de JK a Jânio, é de-li-ci-o-sa! O ator é talentosíssimo e, salvo engano, reproduz a idiossincrática prolação do “vassourinha”…! Não li o livro (ainda?). Tendo como pano de fundo as revoltas da Aeronáutica (Jacareacanga, em 1956; Aragarças, 1959), um jornalista reescreve, na forma de folhetim, o roteiro “Perigo nos céus do Brasil!”, de autoria de um menino admirador do presidente Juscelino Kubitschek e principalmente dos aviões. Nos cinco anos que quiseram ser 50, JK é objeto de duas conspirações fracassadas, e desta outra, ficcional, em que traição e perigo voam pelos céus do Brasil. E a sedução também, porque o presidente talvez esteja enamorado! A sinopse diz quase nada sobre a película. Será necessário agir como São Tomé: ver para crer!

image O filme abriu o III Ciclo de cinema brasileiro, uma promoção do Setor Cultural, da Embaixada do Brasil, em Zagreb. Parabéns pala a Helga(brasileira) e a Ivana (croata), responsáveis pela impecável organização desta terceira edição! Uma abertura em grande estilo, com direito ao inflamado opening speech, do novo embaixador, Luiz Fernando de Athaíde, um sujeito super simpático, bem articulado, risonho, dinâmico. Seria coincidência o fato de ser ele formado em letras? Ai que maldade… A plateia, em sua maioria croata, não deve ter percebido muito bem a espessura histórico-afetiva da narrativa fílmica, ainda que tenha havido legenda em inglês e na língua local, o quase impronunciável croata. Ai que língua feia! O interesse se voltava para a já famosa caipirinha – generosamente servida em copos transparentes, no qual se entrevia a claridade da cachaça 51, of course! – e os olhinhos dos locais brilharam, mais uma vez. O pão de queijo ficou em segundo plano, mas acabou-se, literalmente, em menos de 15 minutos! Devo confessar que minha vaidade obriga a afirmar que o “meu” pão de queijo é bem mais gostoso. Mas o apresentado à famigerada plateia cumpriu seu papel. Uma noite a mais para as minhas memórias croatas!

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  • título original:Bela Noite Para Voar
  • gênero:Drama
  • duração:01 hs 27 min
  • ano de lançamento:2009
  • site oficial:http://www.belanoiteparavoar.com.br/
  • estúdio:Caribe Produções Ltda. / Focus Films
  • distribuidora:Paramount Pictures
  • direção: Zelito Vianna
  • roteiro:Zelito Vianna, baseado em livro de Pedro Rogério Moreira
  • produção:Cláudia Furiati e Daniel Sroulevich
  • música:Sílvio Barbato
  • fotografia:Alziro Barboza
  • direção de arte:Alexandre Meyer
  • figurino:Kika Lopes
  • edição:Diana Vasconcellos
  • efeitos especiais:Teleimage

2 respostas para “Brasília, 50 anos”.

  1. Imagina… que crítico qu enada. Dei uns pitacos e falei o que penso e senti do filme, sem “dourar” a pílula! Legal você ter gostado! Obrigado pelo elogio. Essa história de blog tem me dado muito prazer, tenho exercitado imaginação, criatividade, sinceridade e acima de tudo/antes de mais nada: liberdade! Bom demais!
    beijinho

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