Planos

Uma das coisas que pretendo fazer quando voltar para “a terrinha” é comprar uma bandeira do Brasil. Nos feriados nacionais e nas datas “históricas”, vou hasteá-la. Quando estive nos, Estados Unidos, pela primeira vez, constatei in loco o que já havia visto nos filmes: o “nacionalismo” ianque que faz com que praticamente a maioria da população norte-americana tenha uma baneira stars and stripes (ou é o contrário?… Bah!) hasteada em lugar visível – principalmente para quem está de fora ver! Aqui, na terra da gravata, é a mesma coisa. Ontem, dia mundial do trabalho, a cidade estava uma calma só: coisa diferente para esses dias de Primavera, que prenunciam dias ensolarados, para a delícia dos locais. Eu sempre ando à procura de sombra…! Em quase todas as janelas da rua em que moro eu via o escudo e os quadradinhos vermelhos espalhados na simetria azul, vermelha e branca da bandeira croata.

image image

Pois bem… parece até um ataque tradio de nacionalismo. Pode ser… Claro está que ainda não pensei se haveria necessidade de explicação. Deu-me a vontade. se puder satisfaço-a. E pronto!

A lembrança vem a propósito de um papo que tive com uma amiga, irritada com a estreiteza de visão dos croatas. Ela reclamava que, precisando de um pintor para retocar algumas paredes da casa que aluga – dado que vai se mudar para a Alemnha –, teve de ouvir comentários como: “os pintores daqui não gostam de ‘serviços pequenos’”. Ela não entendeu muito bem o porquê de tamanha asneira. Nem eu… Daí dei asas à imaginação – fundada na observação – e soltei o verbo.

Os croatas são um povo sui generis. recentemente alçados à categoria de nação democrática – com presidente e primeiro ministro, uma espécie de república parlamentarista ou parlamentarismo republicano (não consigo perceber os detalhes “teóricos” para a diferença!) –, sentem-se como adolescentes que saem sozinhos pela primeira vez, à noite, com os amigos: não sabem o que fazer, que atitude tomar, onde colocar as mãos, como proceder quando numa paquera i tako dalje (= e daí por diante!) . Eles não sabem o que fazer com a própria autonomia e não conhecem a espessura semântico-comportamental da palavra “liberdade”.  Absolutamente isolados do “mundo moderno”, durante décadas, graças à famigerada “cortina de ferro” (como outros rincões vizinhos d’aquém e d’além Balcãs), a Croácia começou, desde os anos 90 – década da conclusão de uma guerra étnico-religiosa que dividiu a Antiga Iugoslávia, já órfã de seu “grande pai”, o ditador Tito – a “modernizar-se democraticamente. De tradição agrícola e pastoril, com hábitos recatados, recobertos de uma ingenuidade quase religiosa e de índole absolutamente passiva, esse mesmo povo viu-se cercado por avenidas asfaltadas, prédios altos, música eletrônica, apresentação de shows de “divas” (ainda vou falar sobre a birra que tenho dessa palavra, em certos casos!), campeonatos mundiais de handebol, eleições livres e, at last but at least (de novo: será mesmo nessa ordem?), o projeto de entrada na União Europeia – a “zona euro”, jargão do economês desse lado do mundo. Também tenho dúvidas sobre a eficácia de tal “união” (mas sou quase absolutamente analfabeto em matéria de economês!). De um modo ou de outro, “de repente, não mais que de repente” (Evoé, Vinícius!), essa gente começou a viver em “cidades”, começou a adquirir hábitos “urbanos” e “modernos”… Em uma só palavra: ocidentais. Parece nada para quem ainda não saiu da própria toca, mas… a diferença é imensa.

imageAndam de cabeça baixa, enchem as mesas dos cafés para resolver tudo, misturam cores e padronagens nunca imaginadas antes, não penteiam os cabelos, não conseguem caminhar sem ter um celular na mão, morrem de medo de contato físico, sempre fazem cara de “meu Deus que isso?” quando a gente pergunta alguma coisa, por mais banal que seja. Estranham o fato de eu, um homem, parar na rua para observar uma vitrine com roupas feminias, acreditam que a Croácia é o melhor país do mundo e, nele, Zagreb, um paraíso de bem viver. O homem enytra primeiro deixa que a mulher se vire atrás, sempre atrás. As bolsas das moças são enormes. Os sapatos e tênis dos homens são SEMPRE três ou quatro números maiores (por que será?). A simplicidade e possível charme, que advém da ingenuidade de berço, acabam por serem recobertas por um falso verniz que se percebe no acabamento, nos detalhes, na voracidade do consumo de tudo o que significa moderno, fashion, in, chic e, mais uma vez, tako dalje! Não sei dar a necessária e completa versão verbal para o que percebo, mas tento. O resumo da ópera: um povo calorosamente sui generis! Tenho que assinalar que minhas modestas (e quase inúteis opiniões!) são baseadas pela experiência dde viver na capital e pouquíssimo contato com duas cidades vizinhas: Varazdin e Samobor. Não posso estender isso a todo o país, dourada e encantadoramente banhado pelo Adriático: o mar azul, mais azul que minhas retinas já um tanto cansadas viram e pelo qual o coração bateu um pouco mais acelerado. Nesta semana, faz dois anos que cheguei aqui: um lugar absolutamente desconhecido para mim. Fica aqui, ainda que por linhas tortas, a minha homenagem a esta cidade, por esta data, para mim, tão importante!

image

2 respostas para “Planos”

  1. Melancolia é um constituinte da psiquê, você sabe!
    Então… Saudade sempre está presente… Sou um melancólico, como Fernando Pessoa, mas (ainda) não tomo absinto, como ele… Deixa a dor do peito doer… faz bem à saúde afetiva! Volto em julho que, aliás, já está dobrando a esquina!
    Vamos “hastear” juntos as bandeiras, quaisquer que sejam!
    beijinho

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: