Poesia

“Hoje estou com preguiça de escrever.

Quando é que não estou com preguiça?

Quando…

Hoje eu estou com preguiça de escrever.”

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O texto que segue é fragmento de outro, maior, chamado “Três cartas da memória das Índias”, de um poeta português conhecido como Al Berto. Assim mesmo, separado. Esse é o psudônimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares (*Coimbra, 1948 /+Lisboa, 1997). Um homem feio. Porcurei uma foto dele mais bonitinho, mas não teve jeito: feio, para o meu gosto, feio. Mas isso não é nada. O danado escreve bem demais e faz uma poesia que eu ainda não consegui “rotular” (mania didática, pra facilitar a vida de quem me ouve… Como se isso fosse mesmo possível!). As ditas cartas são, mesmo, três: uma dirigida à mulher, outra ao pai, outra ao amigo. Como estou a preparar um artigo sobre ele, decidi colocar aqui o início da terceira carta, a que vai ser objeto do meu artigo. Mas disso eu posso vir a falar outra hora. Dizem tanta coisa sobre esse poeta, teve fama de maldito, frequentava a noite da cidade alta (também!), gostava da companhia dos jovens. Eu gosto da poesia dele, isso é o que mais interessa. Bom proveito!

PS: os versos entre aspas não são do Al Berto!

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3
CARTA DA FLOR DO SOL
(a meu amigo)

Há ainda outra árvore de natureza mui singular, chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se pões; o que é o contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas.
Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vou partir
como se fosses tu que me abandonasses
o último sonho que tive era estranho
via o fundo límpido de uma rua estreita
que desembocava num largo iluminado
havia leões empalhados nos passeios em areia solta
já não me lembro bem
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão
estendia-mo e gritava
mas eu não conseguia perceber
insultava-me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado
apenas via a sua enorme boca abrir-se
e furiosamente engolir a púrpura do ar
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões
ouvia o buzinar nervoso dos carros
exactamente como se ouvem agora
mas não conseguia vê-los
depois
um rapaz pareceu a uma esquina e reconhecia-te
uma voz gravada na memória acompanhava-nos
quando nos dirigimos um para o outro
em câmara lenta
ouvíamo-la sussurrar: procuro-te
no interior das penumbras no esquecido sal
das casas abandonadas à beira-mar
procuro-te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras
vem
mergulha as mãos nos troncos das árvores
suspende a noite da longa viagem
estás a naufragar
o espelho quebrou-se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou-se

tua presença só é visível nas fotografias dos barcos
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias
vai
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas
a cidade espera-te com o cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios
agarra-os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade
inundando um breve instante a noite de nossos desastres
só longe daqui
terás a consciência da quotidiana morte de Deus

repentinamente a voz cessou de se ouvir
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais
depois a voz fez-se ouvir a espaços irregulares: pobres unhas
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos
barcos
velas sem sol papel pintado deslocando-se das paredes
silêncio espesso sarro da noite
uma viatura boceja no asfalto
o corpo treme cintila
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches
buenas noches mi amor
lençóis floridos ranho cabeças de cafres
pingue-pingue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches
barcos despedaçadpos bolor da memória
da memória da memória da memória

tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou
a mulher ria
eu corria para ti sem conseguir alcançar-te
sentei-me na cama
veio-me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar-me a meio da noite e escrever-te esta carta

Uma resposta para “Poesia”.

  1. Gostaria muito de ler seu artigo sobre Al Berto. Adoro as poesias dele e, certamente, gostarei de seu artigo. Obrigado pela gentileza, Rodrigo da Costa Araujo

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