Tempos modernos…

Ele anda em velocidade elevada e diz que não se importa com os outros, que passam ou, no mínimo, que tentam passar. Não sinaliza todas as conversões, seja para direita ou esquerda. Nas ultrapassagens, segue sempre querendo provar que “pode mais”. Conversa com os demais, ainda que eles sequer saibam que estão sendo interpelados. Bem… Qualquer um pode fazer o que bem quiser, é fato; mas cada um também tem a responsabilidade e a liberdade para não concordar e/ou não gostar! Como dizia o mote daquela propaganda de cigarro: cada um na sua…

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Um jogador de futebol, casado, envolve-se num imbroglio que envolve o desaparecimento de sua amante e a busca de seu filho com esta. O avô protagoniza a guarda. A amante desaparece. O jogador continua atuando (muitos outros vão dizer que ele continua “trabalhando”: não vou dar vazão a esta bobagem… O que será desta criança? Como falar de seus pais no futuro? Será que esse rapaz dorme direito???

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O grupo pode fazer as escolhas que quiser. Junta-se e trabalha em equipe, consegue ultimar o tão esperado projeto. Começa a fase de espera. Não se sabe quem vai analisar a proposta, não se sabe se a aprovação virá. Alguns nomes ficaram de fora, mesmo que a colaboração, evidente, represente perda de pontos na avaliação. O ritmo normal da existência continua pulsando na vida de todos. Uma diferença apenas: os que ficaram de fora, para participar da “festa” (ainda há gente que acredita que se trata de uma festa), têm que “pedir” para entrar. É bom deixar claro que o estatuto é o mesmo, para todo o grupo…

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Casamento elegante, na recepção. A cerimônia foi… comum, com um ponto alto, quase hilário: o padre, jovem, depois de consagrar o matrimônio, anuncia que os pombinhos podiam se beijar, se assim o quisessem, enquanto a audiência aplaudia. Palmas e mais palmas, e os noivos trocam um selinho e dois beijos nas faces. O padre, com um sorrisinho de Gioconda estampado embaixo dos óculos de grossas lentes, comenta que de Cajuru (sua cidade natal e, coincidentemente, da noiva, no estado de São Paulo), “só vem coisa boa”. Daí a surpresa: ele comenta que o beijo não valeu porque era um selinho e pede, marotamente, aos pimpolhos, que trocassem um “beijo de verdade”, sob nova salva de palmas. Desta vez, os risos enriqueceram as palmas… Uma delícia! Na recepção, os noivos chegaram dançando, ao som de Gloria Gaynor – claro que não cantando “I will survive”… – Comida de altíssimo nível, com queijos finos e molhos suaves e saborosos… Vinho tinto chileno e pro seco do Rio Grande do Sul. Uma nota ruim: a cerveja era Skol… Argh!

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Já faz um tempinho, mas consegui recuperar os comentários de um amigo, ex-aluno, sobre a morte de José Saramago. Os tempos passam trazendo algumas surpresas e muitas confirmações do já sabido, cmo o talento do Gerson. É só ler para conferir:

“Dom José acabou de fazer a grande passagem! Foi uma grande perda humana e literária. Humana, pois perdemos o humanista inveterado e combativo que nunca dissociou a necessidade intervir com veemência naquelas situações em que a condição humana era aviltada. Literária, pois o mundo de língua portuguesa perde uma das suas mais significativas expressões artísticas da Literatura Portuguesa, desde sempre. Estou triste, pois o horizonte da espera do livro por vir de suas habilidosas mãos se fecha para sempre. Permanece agora a obra, como projeto escritural aberto, instigante e desafiador. A obra da vida se concluiu como livro que se fecha. Saramago não acreditava em horizontes outros, senão os da nossa condição do aqui e do agora. Seja como for, continua a existir como virtualidade, de forma semelhante a Blimunda, a Baltasar, a Ricardo Reis, a Lídia, Raimundo e Maria Sara, ao seu Caim e a tantos outros. Pego-me a pensar que a morte de Dom José foi um despregar-se da vontade. Blimunda talvez lá ao pé estivesse para dizer: Vem!”

Evoé Saramago!!!

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Atrasado

“O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa!”. Com este bordão, o Banco Bamerindus (que já não existe!) sustentava o reclame (ui, que antigo!) de sua caderneta de poupança nos canais de rádio e televisão Brasil afora. A ideia de tempo é que me traz aqui, hoje. Em tempo (ops!), vai, por tabela, uma homenagem a minha amiga Sofia, que criou o grupo de teatro “Lusco-fusco”, na/da Faculdade de Filosofia, da Universidade de Zagreb. Sua última apresentação, um dia antes de meu retorno quase épico (Sou exagerado e o epíteto se refere apenas ao tempo gasto no retorno e suas peripécias, dado que eu estava nas mãos de três companhias aéreas até recolocar meus pés na terra brasilis) para o Brasil, foi o remake de sua primeira peça Aqui, hoje. Esta última encenação, atualizada em suas referências, chamou-se Ali, amanhã. O título remete, coincidentemente, à ideia que tenho do meu encontro com esta portuguesa adorável, a Sofia. Eu sei que “ali” (em referência a qualquer lugar no/do planeta), “amanhã” (agora a referência é ao momento que vai ser qualquer um, quase inesperado) a gente vai se encontrar de novo. Bem… o tempo passa e com ele as lembranças. Com a “febre nacionalista” deflagrada com os prélios ludopédicos que têm lugar na África do Sul, nos dias que correm, lembrei-me da emocionante entrada de Antonio Candido, sobraçado por Cleonice Berardinelli, no auditório da congregação, na UFRJ, alguns anos atrás. Emocionante para mim, pois ali estavam duas figuras míticas no horizonte de expectativas de quem gosta de literatura, como eu. Ele, pela contribuuição insofismável ao processo de investigação e inquirição acerca do processo histórico de constituição do que se costumou chamar de “nacionalidade literária”. Ela, pela co-fundação dos estudos de Literatura Portuguesa no Brasil. Ela foi da primeira turma do curso de Letras da Universidade de São Paulo, iluminada por mentes igualmente iluminadas de portugueses aqui exilados por força da brutal ignorância do ditador Salasar (ou será Salazar? Estou com preguiça de consultar agora: vai assim mesmo!). Pois os dois octogenários desfilaram pelo corredor central da sala da congregação, sob aplausos efusivos e algumas lágrimas de pura admiração, as minhas, inclusas! Ela hoje é membro efetivo da Academia Brasileira de Letras. No jargão corrente, ela é imortal. Já era assim para seus alunos e amigos, parentes, chegados e admiradores. Tive a felicidade de entrevistá-la em sua casa, numa tarde outonal, no Rio de Janeiro: uma delícia. Em certa passagem, na abertura de um dos congresso da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portugfuesa, em Niteroi, ela foi convidada para a conferência de abertura, numa espécie de homenageme especular a ela mesma (o congresso foi esta homenagem). O orador que a apresentava disse que, diante de nós, estavam quase 80 anos de Literatura Portuguesa. Tomando a palavra, num piparote divertido, Dona Cleo, corrigiu seu apresentador, refazendo as contas e comprovando que, na verdade o tempo contava um pouco mais de cem anos. Risos e aplausos, como se ourviram ao final de sua prédica, sempre clara, doce e firme. Essas recordações, um tanto antigas, e a homenagem atrasada pelo acolhimento desta doce senhora pela ABL, vieram à mente com as notícias sobre a morte de Saramago e sua sequêncìa, nos cenários português e internacional. Mais uma vez, a própria vida nos ensina que “o tempo passa, o tempo voa”… As outras glórias são total e absolutamente vãs…

“Dom José”

Tomo de empréstimo, para título, a expressão que Gerson Roani (ex-aluno, amigo e colega de ofício) usou como “assunto” de sua mensagem comunicando a morte de José Saramago. Surpresa. Triste surpresa. Mais uma daquelas mortes que nos apanham à socapa, sem aviso – ainda que o escritor estivesse bastante debilitado. Uma daquelas mortes que re-afirmam a finitude do humano, diante do infinito que a existência  do mundo atesta. Triste, muito triste.

Muita gente já sabe da morte do autor de Manual de pintura e caligrafia, texto aparentemente contraditório, no conjunto da obra de Saramago. Ledo engano. Quase uma carta longa (lembro-me de Alexis, de Marguerite Yourcenar e De profundis, de Oscar Wilde), esse texto é de um primor poético incontestável e já aponta para algumas linhas temáticas que a história da escrita de Saramago vem, depois, confirmar. Dois romances “radicais” – O evangelho segundo Jesus Cristo e Caim –, equivocadamente lidos pela “santa madre” como blasfêmias, transmitem aquilo que mais salta aos olhos do leitor de “Dom José”, a acuidade com que olha o mundo e os homens, e nesse meio, Deus. O “ciclo histórico”, expressão que costumo usar em sala de aula e em escritos sobre o autor, reúne A história do cerco de Lisboa, Memorial do convento, O ano da morte de Ricardo Reis e Jangada de pedra. Polêmicas à parte, a esse ciclo instaura-se outro, o que eu chamo de “urbano”(?) – Ensaio sobre a cegueira, Ensaio sobre a lucidez, Todos os nomes, A caverna, As intermitências da morte e O homem duplicado. Em todos eles, a verve do socialista convicto, do cético arguto, do “comentarista” atento, revelam-se na escrita caudalosa e na aparente dificuldade de leitura. Um univerdso absolutamente peculiar e particular: o da escrita desse português do Ribatejo. Homem de fala fácil, vibrante e absolutamente fascinante, mas de temperamento volúvel; conferencista sedutor e brilhante, escritor “de marca”; estlista devoto ao humanismo, no que os dois epítetos têm de mais profundo, sério e radical – modismos e estereótipos fora de questão!

Gosto de Saramago, desde o primeiro romance – do conjunto deles, o de que menos gosto: Levantado do chão; talvez pela fatura neo-realista que ali se inscreve, sem prejuízo da ficção que evoca, mas de sabor carregado que não me sabe muito bem. Chatices… Como de tudo fica um pouco, graças a Freud, vamos agora passar uma fase de luto, em que alguma coisa há de mudar, obrigatoriamente, porque a sensibilidade humana não depende de definições e conceitos operacionais. Saramago não vai desaparecer, assim, como um corisco. De tudo fica um pouco, e desse tudo uma assertiva, de autoria alheia ao meu conhecimento pessoal:

“Creio que tenho outra coisa contra ti. Deus: o levastes” (Ángel)

Evoé, Saramago!

Idiota

Outra “anedota” (de fonte desconhecida) que ensina algumas coisinhas… Ando tão “pedagógico” ultimamente, que nem sei, ai… ai…!

image Quão idiota somos ?
Conta-se que numa pequena cidade do interior um grupo de pessoas se divertia com o idiota da aldeia, um pobre coitado de pouca inteligência, que vivia de pequenos biscates e esmolas.
Diariamente eles chamavam o bobo ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas moedas – uma grande, de 400 réis e outra menor, de dois mil réis. Ele sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos. Certo dia, um dos membros do grupo o chamou e lhe perguntou se ainda não
havia percebido que a moeda maior valia menos.
– Eu sei – respondeu não sou tão tolo assim – ela vale cinco vezes menos, mas no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar minha moeda.
Podem-se tirar várias conclusões dessa pequena narrativa:
1) A primeira: quem parece idiota, nem sempre é. Dito em forma de pergunta: Quais eram os verdadeiros tolos da história?
2) Outra: se você for ganancioso, acaba estragando sua fonte de renda.
3) Mas a conclusão mais interessante, a meu ver, é a percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma boa opinião a nosso respeito. Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas o que realmente somos.

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“O maior prazer de um homem inteligente é bancar o idiota diante de um idiota que banca o inteligente.”

Receitas…

Como todos que tem um site para cuidar, aperfeiçoar o talento natural para a escrita é sempre um desafio constante.  Apesar de toda a modéstia e a certeza de que há pouco a melhorar, continuamos sempre em busca de novos técnicas para aprimorar ainda mais os textos que publicamos! Continuando no espírito bem humorado, seguem abaixo algumas dicas sobre como escrever melhor.

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Observe que cada dica já é um exemplo contrário ao seu próprio conteúdo! Muito criativas estas 30 dicas de como escrever melhor!

01. A voz passiva deve ser evitada.
02. Anule aliterações altamente abusivas.
03. Analogias na escrita são tão úteis quanto chifres numa galinha.
04. Conforme recomenda a A.G.O.P., nunca use siglas desconhecidas.
05. Cuidado com a hortografia, para não estrupar a língúa portuguêza.
06. Deve evitar ao máx. a utiliz. de abrev., etc.
07. É desnecessário fazer-se empregar de um estilo de escrita demasiadamente rebuscado. Tal prática advém de esmero excessivo que raia o exibicionismo narcisístico.
08. Evite lugares-comuns como o diabo foge da cruz.
09. Evite repetir a mesma palavra, pois essa palavra vai ficar uma palavra repetitiva. A repetição da palavra vai fazer com que a palavra repetida desqualifique o texto onde a palavra se encontra repetida.
10. Evite frases exageradamente longas, pois estas dificultam a compreensão da idéia nelas contida e, por conterem mais que uma idéia central, o que nem sempre torna o seu conteúdo acessível, forçam, desta forma, o pobre leitor a separá-la nos seus diversos componentes de forma a torná-las compreensíveis, o que não deveria ser, afinal de contas, parte do processo da leitura, hábito que devemos estimular através do uso de frases mais curtas.
11. Estrangeirismos estão out; palavras de origem portuguesa estão in.
12. Evite o emprego de gíria, mesmo que pareça nice, sacou??…Então valeu!
13. Evite mesóclises. Repita comigo: “mesóclises: evitá-las-ei!”
14. Exagerar é cem milhões de vezes pior do que a moderação.
15. Frases incompletas podem causar
16. Frases com apenas uma palavra? Jamais!
17. Não abuse das citações. Como costuma dizer um amigo meu: “Quem cita os outros não tem idéias próprias”.
18. Não abuse das exclamações! Nunca!!! O seu texto fica horrível!!!!!
19. Nunca generalize: generalizar é um erro em todas as situações.
20. não esqueça as maiúsculas no inicio das frases.
21. Não seja redundante, não é preciso dizer a mesma coisa de formas diferentes; isto é, basta mencionar cada argumento uma só vez, ou por outras palavras, não repita a mesma idéia várias vezes.
22. Não fique escrevendo (nem falando) no gerúndio. Você vai estar deixando seu texto pobre e estar causando ambigüidade, com certeza você vai estar deixando o conteúdo esquisito, vai estar ficando com a sensação de que as coisas ainda estão acontecendo. E como você vai estar lendo este texto, tenho certeza que você vai estar prestando atenção e vai estar repassando aos seus amigos, que vão estar entendendo e vão estar pensando em não estar falando desta maneira irritante.
23. O uso de parêntesis (mesmo quando for relevante) é desnecessário.
24. Outra barbaridade que tu deves evitar tchê, é usar muitas expressões que acabem por denunciar a região onde tu moras! ..Nada de mandar esse trem…vixi..entendeu bichinho?
25. Palavras de baixo calão, porra, podem transformar o seu texto numa merda.
26. Quem precisa de perguntas retóricas?
27. Seja mais ou menos específico.
28. Seja incisivo e coerente, ou não.
29. Utilize a pontuação corretamente o ponto e a vírgula pois a frase poderá ficar sem sentido especialmente será que ninguém mais sabe utilizar o ponto de interrogação
30. Não permita que seu texto acabe por rimar, porque senão ninguém irá agüentar já que é insuportável o mesmo final escutar, o tempo todo sem parar.

Dicas escritas por: Professor João Pedro – Unicamp.(http://www.palpitedigital.com.br/wp/2010/04/19/30-dicas-bem-humoradas-para-escrever-bem/)

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Silêncio

O poder de sedução de uma anedota é infinito. Quando bem contada, consegue fazer todo mundo rir. Quando bem escrita, pode fazer pensar. É o caso do texto que segue. É uma anedota (desconheço a fonte) um tanto longa para esse gênero de texto, mas que diz a que veio. Faz pensar que nem tudo é do jeito que dizem que deve ser e que muita gente acredita que tem de ser. A outra “lição” é que nem tudo que se aprende funciona do jeito que os “manuais” ensinam… Cabe a cada um interpretar a seu modo. Mas a piada é (até) boa!

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A Executiva bem sucedida

Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal. Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas. Todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:

– Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?

– No céu.

– No céu?

– É.

– Tipo assim… o céu, CÉU MESMO! Aquele com querubins voando e coisas do gênero?

– Certamente. Aqui todos vivemos em estado de felicidade permanente.

Apesar das óbvias evidências, nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular, a executiva bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva.  Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa. E foi aí que o interlocutor sugeriu:

– Talvez seja melhor você conversar com Pedro.

– É? E como é que eu marco uma audiência? Será que tem espaço na agenda? Ele tem secretária?

– Não, não, aqui tudo é muito simples, basta estalar os dedos e ele aparece.

– Assim? (…)

– Pois não?

A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. Bem na sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.  Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu rapidinho:

– Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva sucedida e…

– Executiva? Que palavra estranha. De que século você veio?

– Do 21. O senhor vai me dizer que não conhece o termo “executiva”?

– Já ouvi falar, mas não é do meu tempo.

Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica celestial na organização, e partiu para o ataque:

– Sabe, meu caro Pedro, se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando à toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para promover um upgrade na produtividade sistêmica.

– É mesmo?

– Com certeza, tenho Ph.D. em reengenharia e sou especialista em logística. Por exemplo, não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?

– Ah, não sabemos.

– Entendeu o meu ponto de vista? Sem controle, há dispersão, e dispersão gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.

– Interessante…

– É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.

– !!!…???

– Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento do Grande Acionista… Ele existe, certo?

– Sem dúvida, sobre todas as coisas.

– Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por exemplo, seria extremamente produtivo aqui.

– Incrível!

– É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um board de altíssimo nível, com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos, delegações de competência  e todos os fringe benefits de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em um turnaround radical.

– Impressionante!

– Isso significa que estou nomeada vice-presidente e podemos partir para a implementação?

– Não. Significa que vou te transferir e você terá um futuro brilhante trabalhando com nosso concorrente. Porque você acaba de descrever exatamente como funciona o Inferno.

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Apropriações

As experiências humanas são absolutamente originais e, por isso mesmo, absolutamente iguais. A peculiaridade vai das circunstâncias, da personalidade de cada um, dos motivos e das condições… Mas elas são iguais porque são… experiências! E só!!! Mais uma vez, em ritmo de preparação para o “retorno”, aproprio-me de um texto que acabo de ler. Foi enviado como anexo de uma mensagem que recebi de uma amigz daqui de Zagreb: Diciane. Ela trabalha na embaixada do Brasil e escreveu-me a propósito de um texto que publiquei, sobre a minha experiência como leitor (http://www.brazilembassy.hr/cultural.php?g=89&p=0). O texto que ela me mandou fala dessa condição transitória de quem se dá o direito e o prazer de “experimentar”. Espero que vocês gostem!

PS: não fiz a revisão do texto…

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Por Andreas Kisser . 04.06.10 – 14h29

Deixa a música me levar!

Escrevo a minha coluna de hoje da cidade de Ekaterinburg, na Rússia. Acabei de chegar da cidade de Omsk, na Sibéria, depois de 10 horas de viajem de trem sobre os trilhos da ferrovia Trans-Sibéria. O trem saiu de Vladivostok em direção à Moscou, uma viagem que dura mais ou menos 8 dias e atravessa o território russo, até parece que estou dentro de um livro de Agatha Christie ou num filme de James Bond. Isso tudo eu devo à música, se não fosse por ela, provavelmente nunca teria a chance de fazer esta viagem.

Estou em turne com o prejeto HAIL!, é a primeira vez que passo por esta região que divide a Europa e Ásia, também chamada de Eurásia. O público por aqui ainda é bem carente de grandes shows e poucas bandas vieram mostrar o seu trabalho nesta parte do mundo, por isso os shows estão sendo espetaculares, com grande participação e máxima energia de todos. Eu estive na Rússia, Lituânia e Letônia em 1992, tocando com o Sepultura, logo depois da queda do muro em Berlim, tudo estava muito estranho e incerto, hoje a situação está bem diferente, a estrutura de tudo melhorou e o povo em geral se comporta com mais confiança, tem uma atitude mais positiva em relação a tudo.

Estas experiências têm um valor inestimável, conhecer outras culturas, maneiras de se ver o mundo, entender o porquê de certos costumes, por que vestem o que vestem, comem o que comem. A partir do momento que você conhece as coisas, por experiência própria, as fobias desaparecem, por que só se teme o desconhecido, aquilo que está na escuridão dando sempre um ideia obscura e geralmente errada das coisas. A tolerância e o respeito vêm do conhecimento e do entendimento. Apesar de parecer que cada país tem uma cultura totalmente diferente dos outros, no final somos todos iguais, não importa se você vive aqui na Eurásia ou na América do Sul, todos procuram pela mesma coisa e agem relativamente da mesma forma, ou seja, somos humanos vivendo neste planeta à procura de paz, da felicidade, seja qual o conceito que você tenha dela.

A perspectiva muda muito quando se sai do ninho pra voar longe de casa, é como se você fosse um astronauta vendo a Terra da Lua, os parâmetros mudam, tudo tem outro sentido e que é um sentido mais real, mais abragente, que te coloca no devido lugar. Isso aconteceu com o Sepultura em 1989, quando começamos a tocar fora do Brasil e vimos o nosso país de longe, de um outro ponto de vista. Aí começamos a perceber como o Brasil é um país riquíssimo na música, nas artes em geral e trouxemos estas características para a nossa própria música, especialmente a percussão brasileira que se encaixou perfeitamente no nosso estilo pesado de se tocar. Isto fez do Sepultura uma banda única no cenário pesado e nos diferenciou de outras bandas do estilo, inclusive influenciando artistas estrangeiros a usarem elementos percussivos brasileiros na suas composições.

A música, além de suas qualidades técnicas e espirituais, tem este fator de te levar à lugares que talvez você nunca tivesse imaginado, nem sonhado em estar, ela te faz crescer, acaba com as fobias, te faz mais tolerante, ela une as pessoas independentemente das convicções políticas ou religosas, é o remédio que tudo cura.

Acompanhe o site oficial do Sepultura e do HAIL! para saber mais informações dos shows e das aventuras que estamos vivendo neste ano de 2010. Saia do ninho, não tenha medo de conhecer as coisas, os lugares, as pessoas.

Abraço, play it loud!

Andreas Kisser

Fonte: http://colunistas.yahoo.net/posts/2546.html