Silêncio

O poder de sedução de uma anedota é infinito. Quando bem contada, consegue fazer todo mundo rir. Quando bem escrita, pode fazer pensar. É o caso do texto que segue. É uma anedota (desconheço a fonte) um tanto longa para esse gênero de texto, mas que diz a que veio. Faz pensar que nem tudo é do jeito que dizem que deve ser e que muita gente acredita que tem de ser. A outra “lição” é que nem tudo que se aprende funciona do jeito que os “manuais” ensinam… Cabe a cada um interpretar a seu modo. Mas a piada é (até) boa!

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A Executiva bem sucedida

Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou. Quando voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal. Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas. Todas vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos passantes:

– Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório, porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida para cá por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?

– No céu.

– No céu?

– É.

– Tipo assim… o céu, CÉU MESMO! Aquele com querubins voando e coisas do gênero?

– Certamente. Aqui todos vivemos em estado de felicidade permanente.

Apesar das óbvias evidências, nenhuma poluição, todo mundo sorrindo, ninguém usando telefone celular, a executiva bem-sucedida custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva.  Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana ela iria receber o bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de presidente do conselho de administração da empresa. E foi aí que o interlocutor sugeriu:

– Talvez seja melhor você conversar com Pedro.

– É? E como é que eu marco uma audiência? Será que tem espaço na agenda? Ele tem secretária?

– Não, não, aqui tudo é muito simples, basta estalar os dedos e ele aparece.

– Assim? (…)

– Pois não?

A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. Bem na sua frente, imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o próprio Pedro.  Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para situações inesperadas e reagiu rapidinho:

– Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva sucedida e…

– Executiva? Que palavra estranha. De que século você veio?

– Do 21. O senhor vai me dizer que não conhece o termo “executiva”?

– Já ouvi falar, mas não é do meu tempo.

Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição hierárquica celestial na organização, e partiu para o ataque:

– Sabe, meu caro Pedro, se você me permite, eu gostaria de lhe fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo e andando à toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes oportunidades para promover um upgrade na produtividade sistêmica.

– É mesmo?

– Com certeza, tenho Ph.D. em reengenharia e sou especialista em logística. Por exemplo, não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem aqui, e quem faz o quê?

– Ah, não sabemos.

– Entendeu o meu ponto de vista? Sem controle, há dispersão, e dispersão gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma anarquia. Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho implementando um simples programa de targets individuais e avaliação de performance.

– Interessante…

– É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização e um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de perfis psicológicos não consigam resolver.

– !!!…???

– Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do investimento do Grande Acionista… Ele existe, certo?

– Sem dúvida, sobre todas as coisas.

– Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico, por exemplo, seria extremamente produtivo aqui.

– Incrível!

– É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que nomear um board de altíssimo nível, com um pacote de remuneração atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos, delegações de competência  e todos os fringe benefits de praxe. Porque, agora falando de colega para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O desafio que temos pela frente vai resultar em um turnaround radical.

– Impressionante!

– Isso significa que estou nomeada vice-presidente e podemos partir para a implementação?

– Não. Significa que vou te transferir e você terá um futuro brilhante trabalhando com nosso concorrente. Porque você acaba de descrever exatamente como funciona o Inferno.

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4 respostas para “Silêncio”

  1. Não acredito! As coisas vêm caminhando de tal modo que os ‘executivos do cão’ têm seu tempo contadinho: não vai caber gente assim no mundo que está sendo preparado. Mistério… Beijos

    • Pois é… Fiquei tão chocado com a babaquice “da” personagem, que não resisti e coloquei no blog. Lamentável saber que há muita gente que pensa exatamente assim…
      Mistério (na voz de Joanna Fomm, toda de preto, com sotaque falso de nordestina! Boa atriz, mas o sotaque era falso!.
      Ai como su chato!
      😉
      beijinho

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