Exigências

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Li no jornal Estado de Minas, na semana que acabou ontem, numa notinha sobre a volta da obrigatoriedade do diploma em Comunicação Social para o exercício da profissão de jornalista. Parece-me que não é a primeira vez que isso acontece. Eu mesmo, em priscas eras, colaborei com o Estado de Minas, escrevendo uma coluna no famigerado suplemento “Gabarito”. Aqui em Contagem, também assinei uma coluna, num jornal chamado Perfil. Bem… Ao que parece, a “coisa” tem que ser aprovada em dois turnos, não sei se ainda na Câmara ou no Senado. De qualquer maneira, essa pequena nota me fez pensar em duas coisas…

Se um professor deve estudar e fazer as disciplinas pedagógicas para obter a “licenciatura” e, assim, poder “ensinar”; se um médico deve investir seis anos de sua vida estudando em tempo integral durante, praticamene, todo o seu curso, para depois fazer a “residência” e, então, poder “clinicar” e/ou “operar”; se um engenheiro civil deve se preparar durante cinco anos, para então poder “construir” os edifícios – industriais e/ou residenciais; se um advogado precisa mergulhar nos tratados de Direito e manter-se atualizado sobre a jurisprudência, para então poder “atacar” ou “defender”, nas “causas” em que trabalha; por que é que “qualquer” um pode se “candidatar” a um cargo público e “desempenhar” a função de “LEGISLADOR”? Há algo de muito, mas muito perverso nisso tudo. Uma situação como essa – independente da área de atuação profissional – é um paradoxo, mais que simples contradição. Certa feita, em conversa com um irmão, falávamos como seria a nossa atitude se fôssemos eleitos para um cargo público, no âmbito do poder legislativo. Eu disse que faria uma proposta: qualquer cidadão que alçasse a posição de  vereador, deputado ou senador, deveria receber o salário que recebia por sua atividade profissional, sem mais nenhum centavo de “auxílio”, “subvenção”, “verba” ou quejandos. Da mesma maneira que o dinheiro é minguado para a execução de muitos “projetos”, da mesma forma o seria para os salários dos legisladores. Tenho a impressão de que, à parte a possibilidade de eu ser vítima de assassinato, pelas “forças ocultas” ou a mando das “eminências pardas”, jamais seria eleito. Não conheço um só “político” que sequer invista alguns segundos de seu “precioso tempo” para pensar nisso… Explica-se!!!

O outro pensamento que me ocorreu, quando da leitura da nota, foi: quando se trata de assegurar a veracidade de qualquer coisa que seja, a gente se acostumou a oscilar entre duas possibilidades de acesso a esta mesma verdade – o “senso comum” e o “conhecimento científico”. Para explicitar o que penso sobre o assunto, faço uso de uma parábola que inventei durante um concurso para professor adjunto de “Literaturas de Língua Portuguesa”, numa das universidades “públicas, gratuitas e de qualidade” que se espalham pelo território nacional. Durante o concurso, fui questionado por um dos membros da banca, sobre a incoerência entre duas afirmativas que fiz num projeto de pesquisa, sobre o qual estava sendo sabatinado. Primeiro, comentei que não era possível acusar tal discrepância, dado que as frases utilizadas pelo “inquisidor” referiam-se ao mesmo tema, em circunstâncias discursivas diferentes, impossibilitando uma comparação em termos absolutos. Disse a ele o que segue: uma gata tem uma ninhada de dois filhotes; um médico veterinário, especializado em felinos, ganha um dos filhotes; um gari, sem nenhuma instrução, vivendo na faixa da miséria, ganha o outro filhote. A pergunta: quem trata melhor o gato? Do ponto de vista do senso comum, o gari não teria o preparo “profissional” para tratar do gato, mas poderia dar a ele o que fosse necessário para a sua sobrevivência. Por outro lado, o veterinário daria, sem dúvida, os melhores alimentos e medicamentos, o que garantiria a balanceada sobrevivência do felino. A resposta definitivamente à pergunta feita só pode ser dada pelo gato. Pelo menos, na minha parábola, se alguém trocar “gato” por “literatura”, vai poder entender o que eu queria dizer para quem me questionou sobre o pretenso equívoco crítico.

Num e noutro caso, a nota de jornal, para mim, coloca em questão a impossibilidade que quem quer que seja se auto-nomear “legislador da verdade”. Esta é uma imperatirz, absoluta e poderosa que, em sua relatividade, deixa confusos os seus súditos, para todo o sempre!

6 respostas para “Exigências”.

  1. Avatar de Elaine dos Santos
    Elaine dos Santos

    Amém!

  2. Ui! Adorei o ‘inquisidor’, com toda a riqueza do campo semântico! Uma informação: tem muito jornalista que não escreve uma linha sequer e ‘vende’ seu registro no conselho de classe para jornais diversos… Quanto aos legisladores, já desisti: dá preguiça até de falar. Não voto há tempos e, quando posso estar longe (fugir mesmo!), justifico. Minha irmã ainda faz mais: paga multa só para não ter que ir à ‘zona eleitoral’ – olha o campo semântico aí de novo! Pauvre pays…

    1. Pois é… O negócio é saber quando e como quebrar certas “superioridades”. No fundo, no fundo, ninguém está além ou acima: basta mudar de ideia e/ou tom, mas no fundo…
      beijinho
      😉

  3. Verdade verdadeiríssima. Aliás, como diria Neo, em Matrix, “QUE VERDADE?” O mito da caverna ainda está valendo… Beijos

  4. Pois é… ainda existem “seres” por aí que acreditam que haja “UMA”!!! Ledo engano!
    😉

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