Certa(s) literatura(s) I

Como é possível pensar em “estéticas”, de qualquer natureza? Hipergeração é possível como termo que identifica o homoerotismo em condições que tendem a desaparecer
(ou atenuar-se)? Isso se a gente deixar de lado a possibilidade de acrescentar o prefixo “pós” para tentar dizer algo de novo e/ou diferente!

É inquestionável a idéia da criação da personagem homossexual em meados do século XIX, no âmbito do pensamento de Foucault. O que não passavam de práticas eróticas que não definiam especialmente um indivíduo torna-se, a partir de então, “sintoma” externo desse novo “enfermo” que é o “homossexual”, uma personagem que a “Ciência” passa a estudar, analisar, dissecar. Há que lembrar sempre da ambiguidade que, por vezes (como aqui!), as aspas imprimem sobre as palavras que circundam…

Casos patológicos, mas também depravados morais ou criaturas endemoninhadas, os homossexuais sofreram desde então uma perseguição tanto mais implacável quanto mais numerosa era a mão de obra de que dependia a segurança da sociedade cristã, ariana, androcêntrica e heterosexista. Por outras palavras: a ameaça à prosperidade burguesa. Isso já justificou o assassinato de pessoas que recebem o nome “científico” de “homossexuais”.

A História desse crime merece um espaço que excede uma nota de rodapé, como soe acontecer. No entanto, deve-se destacar a colaboração que a Psicanálise presta, com frequência, à condenação “consentida” do homossexual e também aos genocídios praticados desde os anos 30 por Hitler e por Stalin. Até hoje os  homossexuais estigmatizados com a estrela rosada, deportados e assassinados nos campos nazistas de concentração, como os ciganos, são frequentemente esquecidos na/pela História dos genocídios que continuam a acontecer, ainda que metaorizados ou alegorizados: subterfúgios…

Stalin trai os ideais de liberdade sexual praticados pela revolução soviética durante os anos 20. A traição se concretiza no assassinato e no confinamento de homossexuais em asilos psiquiátricos, sinistramente emblemática aliança da repressão com a psiquiatria. Há várias acepções para esse tipo de terminologia: 1869, invenção da palavra “homossexual”; 1968, “liberalização” de costumes, i tako dalje!

O século que se circunscreve entre estas duas datas, por exemplo, pode ser chamado de “século obscuro”. Como faz Alfredo Fressia. Ele explica que “No terreno literário não se trata, obviamente, de tomar a imensa produção do tema homossexual anterior ao século 19 como um bloco monolítico e idílico. Mais que isso, esse é um modo metafórico e sem dúvida prático de deslindar o século em que essa literatura conheceu a pior repressão.” A repressão literária adquiriu algumas “formas”: a proibição, a manipulação e a mutilação de obras de tema homoerótico. Lembrem-se, com Michelangelo: “Resto prigionier d’un cavaliere armato”. Dizendo de outra forma, a de sua deformação tradutória: “Sou prisioneiro de um coração armado de virtude”.

O verso acima foi extraído do ensaio La rapt de Ganymède, de Dominique Fernandez (Grasset, Paris, 1989). O autor francês diz, literalmente, à página 222: Les poèmes de Michel-Ange ne sont publiés qu’après sa mort. Le plus célèbre de ses vers, ‘Resto prigionier d’un cavaliere armato’, est une allusion on ne peut plus claire à la passion du poète pour le jeune Tommaso dei Cavalieri. L’arrière-petit-neveu de Michel-Ange, qui s’est chargé de la publication posthume, dénature ce vers, qui devient: ‘Je reste prisionnier d’un coeur armé de vertu’. Il a fallu attendre jusqu’à 1897 pour qu’un érudit allemand examinât les manuscrits et restituât le jeu de mots provocant.

Há traduções e “traduções”. Entre muitas outras, as da lírica grega e latina mutilaram sistematicamente nomes e pronomes reveladores; as francesas de Walt Whitman, mstram o poeta se dirigindo a uma destinatária feminina, manipulação denunciada por André Gide.

Outro modus operandi da repressão literária se revela por uma dupla imbatível: a censura e a autocensura. Por obra e graça “delas”, Proust transforma Alberto em Albertina (a mudança do gênero da segunda pessoa é prática freqüente, feliz ou infelizmente; Jean Cocteau publica O livro branco, em 1928, eliminando o nome do autor; Edward-Morgan Forster termina Maurice em 1913, mas sua publicação se dá post mortem, segundo consta, obedecendo o prurido autoral; Herman Melville cria seu Billy Budd (começado em 1888, publicado por seus herdeiros somente em 1924), com sutileza impressionista: despiste alambicado para os leitores mais desavisados… (Sim, a maioria deles é desavisada, ainda que o neguem!).

Não falo sozinho. Aqui vem, de novo, o eco de Dominique Fernandez, quando diz que os autores dessa literatura nasceram em meados do “século obscuro”: Les fondateurs de
cette culture sont tous nés -ce n’est pas un hasard- entre 1844 et 1880: Verlaine en 1844, Loti en 1850, Eekhoud, Rimbaud et Wilde en 1854, Gide en 1869, Proust en 1871, Thomas Mann en 1875, Montherlant en 1876, Forster en 1879, Martin du Gard et Zweig en 1881. Tous liés entre eux par la solidarité secrète des parias, tous errant une ‘lumière à la main’ dans les catacombes de la civilisation industrielle, à la recherche d’un impossible salut
.

Esses autores constituem aquilo que muita gente nomeia de “literatura gay”, seja lá o que isso venha a significar. Há quem afirma que se trata de uma literatura criada sobre jogo duplo: culpa e justificação. Esse binômio urde uma rede infinita de alusões agenciando máscaras e travestimentos, comprazendo-se em remissões ao universo mítico, com frequência greco-romano, que “milita” explícita e/ou implicitamente. No fundo, é estratégia discursiva que obscurece (e às vezes alegoriza) o significado: burla da censura. Por outro lado, faz sentido para o público disposto a “entendê-la”! Balzac não joga esse jogo ao criar Vautrin e Lucien de Rubempré. Em princípio, os autores que hoje em dia criam literatura de tema homoerótico seguem essa lição do mestre francês. As ferozes condições da  repressão no “século obscuro” deram a esses produtos culturais características de corpus coerente. Será isso a “literatura gay”?

Uma resposta para “Certa(s) literatura(s) I”

  1. A se deixar levar pelo preconceito, provavelmente teremos uma literatura ‘doente mental’, uma outra ‘portadora de necessidades especiais’, uma dos ‘aglomerados urbanos’ e ainda uma dos ‘povos das ruas’, ou ‘dos povos da floresta’… è muito eufemismo e hipocrisia. Parabéns, ZéLu

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