Certa(s) literatura(s) II

Vamos lá! Digamos que haja mesmo essa tal de “literatura gay”. Sem susto algum, a gente constata que já, já, aparece alguém sobraçando um ensaio cujo título já lança sua sucessora: a literatura “pós-gay”!!! Faz-me rir…

Com o nome “literatura pós-gay”, hão de designar produtos literários de tema homoerótico, posteriores ao “século obscuro”. O esclarecimento não é surpreendente: o “século obscuro” não se circunscreve aos estreitos limites de geoculturas “sociais”. Pode-se imaginar que todas as formas de repressão acabaram. Na América Latina, acredita-se no fim das perseguições contra os homossexuais em Cuba, no fim das leis repressivas às relações entre adultos no Chile, na aprovação sempre postergada da “união civil” entre pessoas do mesmo sexo no Brasil (e no resto do Continente). A Argentina, recentemente inaugurou o “clube”. Claro está que a “polêmica” está (ainda) instalada!

Desgraçadamente, a prática demonstra que está longe da “realidade desejada” – por oposição à repressão já referida. Tanto faz se na esfera jurídica, se na sócio-simbólica: o que está determinado é a oscilação entre gozo das liberdades adquiridas e reivindicação. Se, por um lado, tal literatura não apresenta sinais de dependência à censura (oficial ou não), deixando de se esforçar por burlá-la, carrega o fardo sombreado da necessidade de afirmação e, frequentemente, daquilo que se convencionou chamar de “militância”. Aí está impoluta a encruzilhada: há relatos ficcionais(?) que enveredam por essas sendas. Com quase toda a certeza, tais relatos ainda sabem a memória de crimes sofridos e cometidos. Como no Holocausto, assim parece, a tal “homocultura” (alguém sabe/pode mesmo defini-la?) é memória de perseguição.

Na outra face da moeda, nem todos os atores culturais vivenciam do mesmo modo essa etapa que deveria tender à liberdade expressiva: reflexo dos/nos “produtos culturais”. Na “literatura “pós-gay” constata-se certa dose de debilidade na narrativa. Atenção: a referência aqui é a poiesis. Na outra margem desse rio, está a exuberância na/da lírica. Acertado é afirmar que a Literatura desse/nesse diapasão conta com considerável contingente de “poetas” (Olha a referência!) que abordam o tema homoerótico. No entanto, sobrevivem aqueles que apenas o “encaram” de frente. Existe explicação?

Argumentar que se trata de obscura polissemia intrínseca à lírica, em que/pela qual os escritores se sentiriam com mais liberdade para expressar sem sofrer as sanções ordinárias numa sociedade homofóbica, é plausível? Seria então próprio do caráter de “gueto” caracterizar tal produção e correlato consumo nessas condições – limitação editorial, destinada a público de “conhecidos”?

Se qualquer dessas hipóteses revela-se adequada, se ambas o são, ficará ainda mais patente que a “literatura pós-gay” não ficcionaliza uma ruptura com os produtos do “século obscuro”. O peso dessa “tradição” revela-se igualmente em algumas características da estética “neo-barroca”. Desta feita, valho-me dos argumentos de Sarduy: kitsch, camp e gay – um enorme vespeiro! Fica patente, de fato, a exacerbação de procedimentos estéticos já presentes em muitos “produtos” anteriormente disponibilizados.

Uma resposta para “Certa(s) literatura(s) II”.

  1. O que seria literatura pós-gay? Aquela produzida por alguém que desistiu de ser gay e virou hetero? kkkkk
    Brincadeiras a parte, pode até haver espaço para o erótico e o homoerótico na literatura, mas, na vida real, ainda estamos na Idade das Trevas, com pouca probilidade de um novo Iluminismo. Ou não? Bjs

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