Certa(s) literatura(s) III

O que haveria de gay no tal de “neo-barroco”? Talvez a revolta homossexual que é uma espécie (tentativa frustrada?) de ataque a famigerada transcendência denegada, em sua especificidade, em sua imanência. Talvez seja a cultura provocantemente superficial: escarnecimento de papéis e atitudes, perda de seriedade, revolução carnavalesca que altera a ordem da razão social, dissolução de ritual gratuito de máscaras e aparências. Nesse novo “neo”, seria, então, possível, perceber a tradução de um ataque à razão poética patriarcal. Na minimização do significado, reduzido a puro significante, inverte-se o sistema: a carne linguística não está a serviço de um conceito superior – a razão está no próprio corpo, na “pele fônica”.

Importante ainda é destacar outra característica dessa “etapa pós-gay”, ainda que um tanto extrínseca à criação estritamente literária. Se nenhum fenômeno cultural é totalmente autônomo com relação aos outros fatos sócio-culturais, a citada “etapa” organiza-se a partir da dinâmica dialógica da “contaminação”. Esta, por sua vez, envolve os produtos culturais de consumo massivo, o que se constata com facilidade nos meios criadores de imagens, em particular a televisão e a moda. O fenômeno não é exatamente novo, devido, sem dúvida, à relativa novidade da própria inflação de informações da atualidade. Em outras palavras, se sempre existiram gays entre os grupos formadores de opinião, essa presença é, hoje, funcional: elemento constitutivo da estrutura da dinâmica cultural. O fenômeno traz consigo o desenvolvimento do consumo de produtos específicos, indústria que não se limita a camisetas ou a danceterias “da moda”. Inclui também a estética de atitudes comportamentais – um problema que suscita outra etapa na abordagem que apresentei aqui.

Fica pra próxima!

Uma resposta para “Certa(s) literatura(s) III”.

  1. Apesar de neo, nada de novo: permanecem, como você diz, “as máscaras e aparências”. Ótima análise, em três postagens. Conclui-se que uma suposta cultura gay foi engolfada pela indústria cultural. Estou certa? Bjs

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