Eros e Tânatos: a vida, a morte, o desejo I

 

A primeira ideia que me ocorre para desenvolver a apresentação deste livro (ALMEIDA, Rogério Miranda de. Eros e Tânatos: a vida, a morte, o desejo. São Paulo: Edições Loyola, 2007, 341 p.) é a de maniqueísmo. De acordo com os dicionários, maniqueísmo é o nome que se dá a certo dualismo religioso que se originou na Pérsia. Tal dualismo prevê e defende a existência de um princípio conflituoso cósmico entre o reino da luz (o bem) e o das sombras (o mal). Esta dicotomia se estende na compreensão de que a matéria, a carne, o corpo, eram elementos constitutivos do reino do mal e que caberia ao indivíduo o dever de vencer o mal por meio de práticas ascéticas. Por via de consequência, este mesmo princípio se impõe a todo o momento quando o sujeito se depara com situações em que tem de escolher entre uma coisa e outra. Em outras palavras, prevalece (ainda?!) a ideia de que “tudo” se conforma entre dois princípios opostos e incompatíveis, excludentes. Numa visão um pouco mais detalhista, uma primeira conclusão se apresenta a este raciocínio: a matéria é “essencialmente”, “intrinsecamente” má, por princípio, por definição. Cabendo o papel de “bom” ao espírito, para não deixar de fazer o princípio maniqueísta. Esta seria a “mão” do pensamento. A contramão é o que diz Rogério Miranda de Almeida, em seu delicioso e fascinante livro.

A segunda ideia que me ocorre é a de perceber que, como diz o adagiário popular: há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha nossa vã filosofia. Ora, guardadas as devidas proporções, mesmo sem (eruditamente) citar a fonte de tal ditado, a frase explicita a ideia de que nada pode ser percebido em sua totalidade, de maneira simultânea e cabal. Ou seja, não se pode ter absoluta certeza de nada, por conta da inequívoca e eterna existência de “outra” coisa, subsistente a tudo. Esta é a trilha que o autor esboça e persegue ao longo de seu texto, para gáudio de seus leitores.

Uma terceira colocação inicial, diz respeito a certas práticas (ditas acadêmicas) de compartimentar o pensamento em “áreas do saber”, em “disciplinas”, em “setores”. Evoé Foucault! Essa “administração do conhecimento”, por si só, já define ignorância prévia e tacanha: aquela que aponta para a tentativa (sempre frustrada) de negar a universalidade do conhecimento. De certa maneira, as palavras que se cunham, ao longo do tempo, para tentar identificar o movimento dos saberes, são exemplo acabado de que a inquestionável falibilidade da linguagem ainda prevalece na sua subsistência atávica. Dizendo de outra forma: é no fracasso da palavra que as “verdades” se revelam, aí mesmo, nos interstícios do pensamento revelado pelos torneios verbais. Estes, sim, são os atores que constroem os discursos que não podem ser “departamentalizados”, circunscritos a “áreas”, contidos em “disciplinas”, por que universais, amplos em demasia, na sua própria “natureza”. É dessa “natureza” de que trata o livro em epígrafe.

2 comentários em “Eros e Tânatos: a vida, a morte, o desejo I

  1. Análise pra lá de interessante: departamentalizar o conhecimento gera a ideia de poder, se é que me entende. ‘Cada qual com seu cada qual’, mais ou menos isso. Ou seja, o conhecimento passa para dentro de determinados domínios a que só teriam acesso os ‘iniciados’, se é que me entende de novo. A natureza – desta obra ou em si mesma – não aceita cabrestos, menos ainda os do maniqueísmo, que opõe ideias apenas divergentes como se excludentes fossem, eliminando elementos importantes na construção do saber. Esperando pela próxima postagem. Beijos

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