Generosidade

Ao final do programa, a menina inteligente, mas chatinha ou chatinha, mas inteligente foi até o menino física e mentalmente deficiente (não estou ofendendo, estou sendo literal!) e deu-lhe o dinheiro que ganhou. Todo mundo aplaudiu e muita gente chorou.

A corredora cega, ao receber sua medalha de ouro, tirou do peito outra e deu a seu guia, dizendo que era uma forma de agradecer a dedicação de seu guia. Alguém deve ter chorado.

Enquanto isso ex-governadores digladiam com a imprensa defendendo seu “direito” de receber aposentadoria vitalícia pelo tempo (varia de quatro anos a dez dias, numa imensa gama de “tempo”) de “serviço”.

Mais deixo de dizer…

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Retorno

 

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Depois de longo período sem vontade de escrever, resolvi voltar. Em parte, por conta do primeiro “paredão” de ontem… Três negros (Mulatos? Crioulos? Pretos? De cor? Mestiços? Qual seria, na opinião do “politicamente correto – ai que nojo – a expressão menos depreciativa?) indicados. Para encurtar conversa: preconceito – uma mulher, um transexual e um homossexual outed of the closet. Nada mais a declarar…

O meu retorno é por outra causa, mais “nobre”, mais carinhosa e surpreendente… para mim mesmo! Em resposta a mensagem recebida de um amigo, sentei-me diante do laptop e escrevi, sem pensar em ficar elaborando ideias. Vou resguardar a confidencialidade do diálogo e vou omitir nomes, claro. Gostei tanto do que escrevi que resolvi retornar com essa texto que escrevi assim, num rompante! Deixei a falsa modéstia pra trás, faz muito tempo…

“Poish…

Estou vivendo um momento que eu chamaria de sui generis: sem a menor sombra de presunção. O que se passa é que não acredito mais que a atração entre duas pessoas tenha explicação. De fato, ao que tudo indica, jamais teve, mas o gênero humano insiste em, soberbamente, intitular-se capaz de "explicar" o que se passa à sua volta. Famigerada petulância.

Outra coisa em que acredito piamente é no fato de que o ser humano não é, definitivamente, um ser grupal. Quando muito, gregário. Mas não sou antropólogo, logo… Uma terceira convicção é a de que estou me tornando um chato, acabado! Essa história de estereótipos, de politicamente correto, de estar "na moda", de ser globalizado e quejandos já está mais desandado que leite azedo. Não tem volta. Mas como disse, sou um chato. Meu ceticismo está me mostrando que não há mais muita possibilidade de acreditar na "gratuidade" das "coisas". Você me entende.

Eu poderia dizer a você que você mesmo está equivocado. Outra coisa que eu poderia dizer é que você está se iludindo. Uma terceira coisa a dizer, seria que você vai se dar mal. Não digo nenhuma das três coisas por acreditar que o equívoco está em tentar explicar o inexplicável: o desejo. Este, sim, é soberano. Ditador rigoroso e atento, de uma atenção sagaz e mordaz (ops, uma rima… paupérrima!), virulento como a fome, o desejo não dá tréguas a ninguém e – ou eu muito me engano -, ele é a única verdade da espécie humana – exatamente porque não se deixa explicar. Rios de tinta já correram, Freud perdeu parte do rosto fumando, enquanto pensava sobre o assunto. Lacan deve ter tido cólicas horrendas tentando desvendar o mistério. Enquanto isso, incólume, o desejo continua a corroer – por dentro – a existência mesma do bicho homem.

E la nave va!

(…)  não vai deixar, jamais, de ser seu amigo. Ainda que não procure você com tanta frequência, quanto a demandada por seu desejo. Ele é seu amigo e nada vai mudar isso, mesmo que sua curiosidade e ansiedade (ai, ai, outra rima pobre!) fique caraminholando em sua cabeça. Dê tempo ao tempo. Atenha-se a confabular com sua eterna e absoluta companheira: a solidão. Sábia e tranquila, ela reina incólume, ao lado do desejo. Casal perfeito: o inferno da humanidade. O ser humano precisa aceitar a insofismável verdade de que a solidão é companheira inseparável do homem. Sem plagiar o poeta…

Quanto ao sexo, propriamente dito, a cada dia, acredito mais e mais que não passa de uma tentativa rasteira e insatisfatória, inglória mesmo – sempre e mais insatisfatória -, de dar vazão às fantasias que o bicho homem cria para si mesmo, acreditando, com isso, poder fazer feliz ao que à infelicidade está condenado: o corpo. A fantasia, prima do desejo, mora ao lado. O palácio não é tão vistoso e reluzente, mas o poder se compara.

A esfinge estava certa ao precipitar-se no abismo. Ao decifrar o enigma, Édipo não apenas demonstrou sua sagacidade, como deixou expressa sua igualmente sagaz incapacidade de superar os limites impostos pelo desejo. Sim, ele é uma "faca de dois legumes", como costumo dizer!

Portanto, meu amigo, depois de nosso papo, você está certo. Na língua de Shakespeare, você o disse bem: "Let it go!".

Estou na torcida!