Conto o milagre, mas não o santo!

Recebi mensagem de um amigo muito querido. Um desabafo. Ele diz coisas que também penso e com as quais concordo. Pedi a ele para colocar seu desabafo aqui. Ele autorizou com algumas restrições que vão marcadas pelas reticências entre parênteses. Se algum dia as pessoas citadas se reconhecerem na mensagem, talvez uma miríade de almas libertar-se-ão do purgatório…

“No meu modesto entendimento e muito modesto mesmo, pois não dou aulas na portentosa (…) ou em outras [instituições] mais prestigiosas. É triste constatar que a literatura pesarosamente vem perdendo terreno e as Letras, enquanto estudo, estão definitivamente mortas. Mortas e sepultadas pela impostura de plantão e o pior de tudo financiadas com o apoio das instituições do saber e manipuladas pelos vivaldinos de plantão.

Enfim, pertenço teimosamente à escola do pessimismo ressentido de um Steiner e de um Bloom, de um Benjamin e de um Adorno. Posso fazer uma ou outra concessão ao Bhabha, mas nunca ninguém me verá cortejar Deleuze, (…), Angel Rama, Derrida ou Beatriz Sarlo e todas as coisas ditas sobre o intelectual da e na América Latina. Só faltou eu mencionar o Silviano Santiago, que é a única coisa que aquele outro o (…) conhece bem. São exatamente as discussões enfadonhas sobre as margens e as fronteiras, sobre o escritor e a formação da América Latina, a cultura do colonizador, as assimetrias de poder, os grupos literários minoritários, de países pequenos etc., etc., que fazem a literatura da América latina (em espanhol) com exceção de Borges, Cortázar e Carpentier ser o que é: pobre. Os latino-americanos poderiam ter aprendido algumas coisas com esses três monstros, que sempre pensaram e agiram como escritores de fato e nunca se sentiram à margem de nada. Machado de Assis já prefigurava isso no século XIX. E ainda se fala de uma crítica literária e teoria latino-americana. O mundo vai de mal a pior e sem solução para os impasses. Vivemos tempos desgraçadamente enfadonhos. Quem me dera poder ver ressurgir um Balzac ou um Tolstói, um Flaubert ou Dostoievski. Infelizmente, morrerei e não verei. Nem ao menos terei o consolo de pensar na morte à maneira de Tolstói, com um aguçado senso de aprendizagem do agônico. Inicio amanhã um curso insignificante de Teoria da Literatura sobre a Literatura. A insignificância reside no fato de focalizar uma coisa fora de moda: literatura, pois será empreendido com base em Homero (Ilíada e Odisseia), Stendhal (O vermelho e o negro), Kafka (A metamorfose), Sophia de Melo (Dual), João Cabral de Melo Neto (O auto do frade) e A poesia de Konstantinos Kávafis. Ainda não descobri como encaixar nesses autores uma possibilidade de abordagem multiculturalista ou pós-colonial ou pós-moderna. Será um problema me deixar seduzir pelos avatares do pós-moderno. Vou modestamente oferecer um curso de crítica literária, pois sou da roça e a roça é sempre canônica, sem concessões. Só o cânone é passível de renovação, de rejuvenescimento, de causar deslumbre impactante. Mas essa é a modesta opinião de um professor da roça. Na roça, as modas literárias como as roupas e outros costumes chegam mais tarde. Enfim, não sou velho, mas pertenço a um tempo em que se estudava Literatura com Letras maiúsculas não esse emaranhado de autores sem irradiação ou de abordagens de ponta, de vanguarda, que nada mais fazem do que traduzir a nossa atávica mediocridade, a nossa preguiça de ler e de pensar. Tolstói dá muito mais trabalho do que José Mauro de Vasconcelos ou o Cerco de Paissandu da literatura uruguaia. Enfim, desculpe-me o desabafo,mas é assim que penso e pensarei.”

Assino embaixo das palavras do colega, ex-aluno e, acima de tudo e mais importante, amigo querido!

4 respostas para “Conto o milagre, mas não o santo!”.

  1. Imagino!…Por que será que acadêmicos afetados gostam tanto de pós-isso, pós-aquilo? A gente sabe que não adianta, os bons são todos pré-! Gentinha preguiçosa, que não quer ler os clássicos porque NÃO OS COMPREENDE! E olha que essa que vos fala nem da Literatura é… mas aprecia!
    Diga ao seu amigo, que eu desconfio quem possa ser, que uma vez que é professor em uma instituição pública e não corre o risco de levar um pontapé no traseiro, não transija jamais. Continue ‘medíocre’ e fiel ao que é bom. Beijinhos.

    1. A maior parte das pessoas parece não se dar conta que, etimologicamente, “medíocre” quer dizer “dentro da média”, o que, de fato, não é assim tão mal. O que acontece é que “ser da média”, para muita “gente”, é muito ruim. São pobres… Fazer o quê?!
      Evoé diversidade!
      beijinho

  2. eita penga! e a mim o que resta? se nesse tal “hoje” o melhor é ser medíocre no “antes”, eu que nao vivi esse “antes” de literatura com letras maiusculas faço o que Jose? hein? E agora José?

  3. Não se desespere… Pense que você pode fazer parte do time que vai renovar isso tudo, para uma dimensão nove e igualmente consistente. Os parâmetros sempre mudam!!!
    Adorei sua visita!
    Volte sempre!

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