Qual dos dois?

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Um contador de histórias é um escritor? Invertendo os termos: um escritor é um contador de histórias? Isso depende… de tanta coisa… Há quem diga que são dois tipos de atividades diferentes. Isto está certo. Há também que considere que são absolutamente iguais, mudando apenas os “meios”. Ambos dependem da linguagem, ora escrita, ora falada. Mas um texto escrito não fala? E o texto falado não pode ser gravado e transcrito? Por que será, então, que alguém cismou de afirmar que s ão diferentes? Será que apenas para causar celeuma e poder inaugurar  mais um capítulo naquilo que se convencionou chamar de Teoria da Literatura? Sei não…

Depois de muitas horas de espera e muita energia elétrica consumida, consegui “baixar” os nove capítulos da série televisiva O tempo e o vento, adaptação do romance homônimo de Erico Verissimo. Li os sete volumes da saga, pouco tempo antes de me mudar para Santa Maria-RS. Qual não foi minha surpresa quando, em lá chegando, sedento por satisfazer minha curiosidade visual, perguntei, para deboche geral, onde ficava Santa Fé. Não contente, ainda acrescentei que queria muito conhecer a cidade em que “tudo” ocorreu. Mais risadas… Santa Fé não “existe”, de fato. cruz Alta é o nome da cidade que, em certa medida, de certo modo, serviu de “base” para a criação romanesca da Santa Fé, cenário de parte importante da saga relatada pela pena do escritor gaúcho, Minha impressão foi muito intensa, muito forte. AP final da leitura, queria muito pisar o mesmo chão de Bibiana, já velha. Rodear a famosa figueira. Olhar para o horizonte embaçado pela névoa, companheira inseparável nas manhãs dominadas pelo minuano. Quem já viveu lá, ou passou por lá no inverno, sabe muito bem do que estou falando… No entanto, Santa Fé não existe. Nas páginas dos sete tomos (três volumes do romance/saga) ela está incólume, assistindo, entre aterrada e esperançosa o desdobramento de uma rixa mais que secular, visceral. Bento e Licurgo encarnam a fase madura de uma luta que começou silenciosa num descampado gaúcho, varrido pelo vento, quando uma menina dos cabelos escorridos e olhar forte respirava a vontade de se ver num espelho de verdade. O índio explicita a sina: quando ela se vir no espelho, ele morre. Dito e feito. Pedro Terra é o primeiro de uma série de homens e mulheres que vão “povoar” o rincão gaúcho, guiados pela mão firme de Ana Terra. Depois vêm Bibiana, Rodrigo, Pedro Terra, Juvenal, Alice, Valéria, Licurgo, Padre Romano e Dr. Winter. Uma galeria de tipos que, na “telinha” ganha carnadura de talento. Lélia Abramo, impecável como a Bibiana velha e um tanto confusa com suas lembranças. José Lewgoy (apesar de não ser muito fã dele) grandioso como Bento Amaral, aquele que ficou se vangloriando pela ausência da perninha do “erre”. Insuperável, o Rodrigo vivido por Tarcísio Meira. Galeria de tipos consistentes e fortes. Cast de respeito, que soube encarnar com delicadeza, sensibilidade, força e determinação a personalidade daquele povo gaúcho, no “raiar” de sua gente, sua terra.

E a pergunta continua sem resposta. Erico Verissimo escreveu o romance. Para mim, mais que isso, ele contou uma história. Ambas as atividades, com mão firme e senso de beleza e realidade. Ele foi escritor ou foi contador de histórias? Terá sido ambos? Foi nenhum dos dois? Quem saberá, mesmo, responder? Continuo desconfiando de que, no momento em for possível responder definitivamente a perguntas como estas, a Literatura vai perder a sua “graça”. Já não será preciso decidir entre “isto ou aquilo”. Saudades de Cecília…

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2 respostas para “Qual dos dois?”.

  1. É mesmo: que importância tem essa discussão diante do prazer de uma boa história, de uma boa leitura? Acho que estou ficando beeeeeem velha: tanta coisa boba anda perdendo completamente o sentido para mim… Fico com os prazeres, mesmo que não sejam ‘elegantes’ para os pernósticos de plantão. Beijinhos.

  2. Estamos ficando “velhos” na visão estreita e tacanha dos dias que correm. De fato, o tempo passa e a “velhice” chega, mas essta outra vai-se embora com a inteligência, a tolerância e a busca da saúde estável que aumentam na medida de nosso próprio esforço. Tanta coisa já não mais chama a minha atenção… que fico até espamtado. Mais uma vez me envergonho… não tenho ido a seu blog…
    Bom final de semana!
    beijinho
    😉

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