Impressões para romance

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Sou pretensioso. Quero escrever um romance. Quem sabe um dia. Enquanto isso, como agora, registro passagens. Escrevo trechos. Penso migalhas para, quem sabe um dia, vir a transformar tudo isso em “matéria narrativa”, ainda que, ao fim e ao cabo, a gente jamais seja capaz de dizer e-xa-ta-men-te o vem a ser isso, mesmo com todas as leituras, teorias e elucubrações dos mais renomados e eminentes medalhões. Nesse enlevo de devaneio em tarde modorrenta, encontrei, num banco de praça, um caderno. Fiquei um tempo na dúvida: pego ou não pego? Ninguém me conhecia naquela cidade (fica ao norte de Minas e não é lá muito grande). Ia ficar por ali apenas dois dias e o primeiro já se tinha ido. Mais dúvida e insegurança. Fiz hora, olhei para os lados. Demorei mais um pouco e, finalmente, venci a vergonha, o embaraço, o medo de ser pilhado. Peguei o dito cujo. Não havia muita coisa escrita. Na verdade, estava quase em branco, a não ser pelas últimas páginas – fato estranhíssimo – que mostravam alguns parágrafos que transcrevo abaixo. Resolvi copiar, entre sôfrego e amedrontado. Já não era tão cedo, a luz escasseava e eu tinha esquecido meus “olhos de ler” no hotel. Copiei. Deixei o caderno no banco da praça e corri para o hotel. Guardei a cópia que abaixo segue. Depois voltei à praça, como quem não quer nada, e fiquei no passeio, à frente de um bar – numa dessas mesinhas esdrúxulas de plástico. Observava o cair da noite. Entre um chope e outro, tentei vislumbrar o banco em que fiquei sentado, copiando. Não consegui divisar o caderno – talvez por fraqueza de foco visual, talvez pelo enevoamento leve e gostoso do álcool. Até hoje estou na dúvida: o dono o reencontrou? Alguém foi mas corajoso que eu e o levou para casa? As “margaridas” o recolheram ao serviço de limpeza urbana? Uma alma caridosa – geralmente senhora ou senhor de certa idade – o entregou para um policial que, porventura por ali passava? O que terá acontecido, meu Deus, com aquele caderno? De quem seria? Por que fora deixado ou esquecido ali? Perguntas e mais perguntas e nenhuma resposta.Penso que é um incidente interessante para constar de um romance. Eu e minha pretensão ficamos satisfeitos! Segue a cópia!

“Faz algum tempo, numa escola em que trabalhei, os alunos do segundo ano reclamavam comigo sobre a obrigatoriedade de uso de uniforme na escola. Diziam que era feio, que a camiseta tinha uma cor horrorosa e que o logotipo do colégio era medonho. A única “vantagem” que viam era poder usar o tal “uniforme” (na verdade, apenas a camiseta) com jeans. As freiras não exigiam o mesmo calçado. Comecei a rir. Quando me deram chance, pedi a eles que se olhassem uns aos outros, atentamente. Depois de alguns segundos perguntei: o que vocês usam para carregar o material de vocês? Resposta uníssona: mochila. Que tipo de calçado vocês preferem usar? De novo, a uma só voz: tênis. Por fim, arrisquei: que tipo de calça estão usando? Uníssono, para gáudio da “galera” (ops… um anacronismo…): jeans. Deixei que ficassem me olhando, em silêncio – entre interrogativos e superiormente gozadores, como soe acontecer com boa parte dos “aborrescentes” do planeta – e disse: e são vocês a reclamarem de uniforme???

Agora, lembrando disso, fico pensando nos “rapazes” e “moças” – entendam estas aspas como quiserem – que estudam onde dou aulas. A cada dia que passa, firma-se mais a minha convicção de que estamos parados no tempo, em certo sentido. Um ex-colega costumava dizer que havia uma cabeça de burro enterrada embaixo do prédio magnífico. Prédio mais que centenário, que guarda em suas paredes histórias que linguagem alguma é capaz de contar. Os documentos existenciais ali arquivados ficarão eternamente no oblivium,por impossibilidade de expressão. Os que ali viveram, os que por ali passaram e os que estão ali agora já fazem parte desta memória que vai ser, um dia, como é hoje, praticamente ancestral. Pois… É nesse lugar que corrijo a assertiva do colega. Penso que não uma cabeça de burro apenas, acredito – cada dia mais – que há cabeças de uma manada de burros. Magotes e magotes dos mamíferos que ali ficaram, soterrados, puxando para baixo as energias que mantêm viva a arquitetura barroca, tombada pelo patrimônio. Digo isso não sem alguma tristeza, pois seria mais que interessante, nesse lugar, plasticamente e visualmente deslumbrante – pela antiguidade – poder contar com todos os confortos científicos em seu interior. Mas não é bem assim. À parte isso, causa-me espanto, para não dizer ojeriza – ó… disse! – a estética do proletariado tardio, dos hippies sonolentos e dos revolucionários renitentes. Essa estética que mistura a falsa impressão de desobediência civil, a camuflada aventura da aprendizagem, o superficial verniz das benesses em falácia didático-pedagógica e o fulgor da vaidade acadêmica. Ao lado desse dramatis personae, voeja, qual mariposas em postes de iluminação pública em dias de forte calor e pouca chuva por vir, aqueles que andam de chinelos de dedo, carregam sacolas de pano e ou mochilas penduradas nos ombros, usam bermudas e camisetas surradas, cabelos despenteados – nisso não são pós-modernos: com a graça de Deus não enfiaram o dedo na tomada para eletrificar os cabelos e/ou empastaram a cabelama com goma arábica, fazendo imagem e semelhança de cacatuas falantes e muito, mas muito eruditas, interdisciplinares, neo-politizadas e muito descoladas, fashion mesmo!”

Hoje, relendo essas linhas, penso na sua autoria. De quem será? Como é que vive ele ou ela nos dias que correm, se é que vive. Se for professor de ensino médio, pode ter sido ameaçado por algum aluno mais exaltado, filho de pai importante na cidade, ameaçando a autoridade pedagógica caso fosse reprovado. Se de ensino superior, pode até ter sido assassinado por um estudante desequilibrado, como aconteceu na capital. Vai ver, participou e um movimento de apoio a alguma estudante mais ousada que resolveu ir às aulas já pronta para a “balada”. Ou então é alguém que não se nota, que entra e sai do prédio em que trabalha sem ao menos ser notado. Terá sido alguém que ainda tem família, ou já vivia só, sem mais parentes, quando escreveu aquelas linhas. Onde ela ou ela estará agora? O que estará fazendo? Dorme vestido(a)? Quantas perguntas meu Deus, quantas dúvidas, quanta curiosidade…

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8 comentários sobre “Impressões para romance

  1. Acho legítima a pretensão: tantos anos dedicados à literatura e não escrever um romance? Coragem, homem! É como parir: dói um pouco, mas quando sai, prontinho, é puro gozo.
    Também fiquei curiosa a respeito desse autor anônimo cujos escritos você violou, com ética, estética e pudor. Quem seria?… e todas as demais perguntas ficam pelo ar, vagando…
    Adorei esta postagem e, se me julgar suficientemente confiável, gostaria de ler o romance em primeira mão, fazendo a revisão de texto, porque a você caberá apenas contar as histórias. Metida eu, né? Beijinhos, Angel Face

  2. Eu já imaginara. Lembro-me de cartas que você me enviava quando morava lá no sul contando histórias interessantíssimas,puramente ficcionais… Um dela começava assim: “Eles eram um casal mais que perfeito…” Seria, pois, o autor deste texto um alter ego? Ninguém jamais saberá. Beijinhos.

  3. ALter ego ou não, ninguém jamais saberá. Nem mesmo eu, depois de certo tempo. Duvido que os escritores, mesmo os mais “renomados”, não tenham a mesma impressão que tenho quando leio alguma coisa que escrevi muito tempo atrás: mas fui eu que escrevi isso (ou eu quem escrevi isso… Salve gramática!). Duvido que eles não tenham esta mesma impressão, esta surpresa… Será?!
    beijinho
    😉

  4. Gostaria de ir em uma apresentaçao do seu romance aqui na España, pois, seguramente, lhe apresentaríamos em uma editorial, com direito a três beijinhos y copitas de cava.
    Vou em tantas apresentaçoes de libros, estou com eles todos os dias folheando as novedades, passeando pelos contemporâneos e clássicos, e vejo tantas palavras novas no mercado… mais de verdade sao poucas as palavras que aportao vontade verdadeira de escrever, por isso, acho que você nao deveria duvidar, comece a escrever já. Adoraria leer um romance teu.

    Beijo grande

    1. Obrigadíssimo pelo incentivo, querida. Lembrei-me, mais uma vez, de você hoje! Recebi uma notificação de uma editora portuguesa que começa a editar livros de escritores catalães em Português. Não li tudo, mas pereceu-me interessante!
      Boa semana de Páscoa para você!
      beijinho!

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