Mais um trecho

Ele se sente fora do mundo, algo assim como um quadro que sai de seu lugar próprio numa casa e se perde pelos descaminhos do tempo e do espaço, nas andanças do destino. A internete não funciona. Pela televisão o tempo escorre em paisagens – algumas conhecidas – da cidade do Porto. Sotaque português que faz recordar os dias que passou na terra de Camões e Eça, também depois de grave e caudaloso curso de tempo. Memórias. O corpo não muda mais, não é mais possível recuperar um tônus que, amiúde, antes de se perceber a passagem do tempo, enchia de energia cada movimento e, como quê, exigia compensação – não raro da ordem do sexual – para se fazer continuamente em movimento, não necessariamente lascivo. Mas movimento que, junto à língua, faz pensar na possibilidade do amor entre falantes de línguas absoluta e radicalmente afastadas fonética, ortográfica, sintática e semanticamente. O corpo se deforma: não mais a moldura nodosa de carne, qual serpente de corda grossa a envolver a ossatura que não perde seu tônus. Não mais a mesma flexibilidade lépida e ágil dos verdes anos, que dourados passaram, numa vitalidade que agora é memória conservada na sabedoria dos movimentos contidos e mais sensatos que a “saúde” – fruição, alegria/felicidade, qual vinho rubro envelhecido em tonéis de carvalho: mais “encorpado” – demanda. Na velocidade do pensamento, respirando com o ritmo do coração, a memória faz enxergar palavras que questionam valores que, antes, mais que lemas, eram obrigações éticas. Andre Gide diz: O primeiro dever dos discípulos é jogar fora a lição dos mestres”. O tempo passa, as lições se aprendem. O tempo passa…

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4 comentários sobre “Mais um trecho

  1. Muito lindo! Alguém que me faz companhia ao longo da vida acabou de ouvir a leitura que fiz desta postagem e falou que urge você escrever um romance. Tenho conjecturado sobre o tempo também, numa outra perspectiva, mas sempre do ponto de vista da passagem dos melhores anos. Há que fruir, para compensar. Vamos? Beijinhos, Angel Face

    1. Pois é… Um aluno tem insistido comigo para escrevermos um romance a quatro mãos. Estou bastante curioso e um tanto entusiasmado com a ideia. Tenho um romance que considero “quase” escrito, mas… A autocrítica é muita e a preguiça não ajuda. Mas sinto que a qualquer hora alguma coisa vai sair. Afinal, o planeta abarca um muitos escritores de “vocação tardia”…
      beijinh

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