Dignidade é tudo

Gostei tanto do texto que recebi em mensagem de uma amiga que o transcrevo aqui. A fonte está na última linha! Tomara que gostem.

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DIGNIDADE INTELECTUAL

Nas “Memórias do Cárcere” conta Graciliano Ramos um episódio que mostra até que ponto levava o escritor a noção de sua dignidade intelectual. É o caso que vem narrado no capítulo 22 do vol. III e que se passou mais ou menos da seguinte maneira. Um certo Alfeu, que o memorialista descreve como sendo “o cafuso de olhar sangrento que, à noite da chegada, espancara e rolara a ponta-pés um homem, perto de mim”, dando-nos, assim, um incisivo retrato de que espécie de policial se tratava, lembrou-se de Graciliano Ramos para um singular obséquio. Aniversariava o diretor da prisão; e o cafuso de olhar sangrento, que devia ser um dêsses pobres homens curvados até aos pés diante dos prepotentes e dos mandões, pretendeu que a data fôsse “condignamente” celebrada. Até aí nada demais, porque para uma criatura de tal espécie a data, com efeito, devia representar algo de muito importante não apenas na vida do presídio – onde a pessoa humana foi tão estùpidamente humilhada – mas na própria vida nacional. Foi quando êsse famigerado Alfeu, que tanto se distraía em fazer valer, no presídio, o primado da violência sôbre qualquer direito ou prerrogativa, recorreu ao romancista para lhe pedir que escrevesse o discurso com que, naquele momento solene, como se costumava dizer em mofada retórica do tempo, devia significar ao diretor a alegria – o júbilo decerto nacional – que enchia tôdas as almas pelo transcurso de tão importante data.

Ora, o romancista sabia perfeitamente onde estava. Sabia quem era Alfeu, as atrocidades que havia cometido o beleguim quando pensava que nas suas mãos, como nos seus pés, estava a segurança do Estado e o que naquela hora lhe podia valer – a êle, pobre homem lançado ao cárcere como um rebutalho da sociedade – uma recusa. Recusar alguma coisa a Alfeu, naquele instante, era desservir duplamente à autoridade: a de quem pedia e a de quem se dirigia a homenagem. Com a agravante, já se vê, de estar desservindo ao Estado e ás instituições, se não se prestava a elogiar o diretor do presídio…

O dilema – ou escrever o discurso, ou ter talvez de suportar o castigo da recusa – entretém a imaginação do leitor, sequioso de ver que solução podia o escritor dar ao problema; se bem que pela maneira como se comporta o sr. Graciiano Ramos, agindo com invariável dignidade intelectual, não nos possamos tomar do receio de ver o romancista afundar na degradação, escrevendo a peça que se pretendia de exaltação do algoz. Fôsse o memorialista do estôfo moral de uns tantos, para os quais o anonimato pode de fato acobertar ações dessa natureza, e, decerto, não teria hesitado em redigir as louvaminhas e zumbaias que lhe eram solicitadas. Haveria de dizer – se fôsse um cínico, um disfarçado, um complacente moral – que não era êle quem ia ler nem assinar tal coisa; e pensaria que, naquele ajuntamento de detentos, se muitos não julgavam Alfeu capaz de um discurso, nem todos atribuiriam ao romancista a autoria de palavra tão mesureira, como seria a daquela homenagem à autoridade suprema no presídio.

Que faz Graciliano Ramos, diante do convite? Entretém com Alfeu um diálogo que, diga-se de passagem, honra aos dois: o primeiro recusando, o segundo aceitando a recusa. Num dado momento, em que o raciocínio pede tudo ao escritor, diz êle:

– E então? Ponha-se no meu lugar. Se você estivesse aqui preso e soubesse escrever, fazia êsse discurso?

Ao que responde Alfeu, dignamente: –

– Não fazia, murmurou o soldado.

E tudo remata, um tanto filosòficamente: –

– Está aí. Você mesmo reconhece. É impossível.

Tenho para mim que nunca êsse soldado, que o memorialista pinta como das figuras mais torvas do presídio, recebeu lição tão eloquente quanto esta, que certamente não esqueceu jamais. E nós outros tiramos uma conclusão: muitos se arrebitam em violência e desmandos porque são a isso chamados e impelidos por homens sem formação e sem dignidade. Quando a consciência moral é despertada; quando em meio à degradação surge uma voz que clama pela verdade; quando a sensibilidade é ferida e colocada diante do instinto como sua fôrça reguladora e disciplinadora, o bom senso se restabelece. E dois homens – como no caso – se livram de atos sem nenhum mérito e que no escritor manchariam para sempre sua consciência intelectual, preservada em hora tão difícil, que a outros teria talvez arrastado na voragem da covardia.

– NILO PEREIRA

Fonte: USP – IEB – Arquivo Graciliano Ramos – Série Recortes – Folha da Manhã – Recife PE – 4-março-1954

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