Um ano depois

Hoje é doze de junho, dia dos namorados. Parece que no calendário litúrgico o dia de Santo Antônio é amanhã, mas vai tudo na mesma leva. Deve ser dia de muitas outras coisas, que a sabedoria popular não se cansa jamais. ALém disso, cada um sabe o que significa cada dia, sem a necessidade “globalizada” (?) de marcar a data com alardes comerciais e propaganda, muita propaganda,mas bota propaganda nisso.

Desse nicho particular, íntimo, pessoal, o dia de hoje marca um ano do meu retorno à terra brasilis, depois de dois anos vivendo num outroe xtremo do planeta. Foram dois anos em Zagreb a capital de um milhão de corações. Bem, um ano depois, esse milhão deve ter aumentado… Vai saber… Assim, o texto que segue é duplo. Um relato solicitado pela embaixada brasileira em Zagreb, para publicação em sua página oficial – eu fui o primeiro (mais uma vez nesses quase 55 anos de existência – e um texto lido na Universidade de Zagreb, um mês antes de meu retorno, durante o Dia da Cultura Brasileira, iniciativa do International Cooperation Office, comandado pela doce e querida Tamara Sveljo, quem colaborou comigo no encaminhamento de um convênio de cooperação acadêmica entre a univesidade croata e a UFOP. Saudades de muitas pessoas queridas que lá conheci e de muitas situações que lá vivi…

PS; não se assustem com os olhos arregalados na foto… eue stava irritado pois a plateia não se calava e o grupo de capoeira (pasmem, eles têm lá um grupo… e grande!), comandado por dois brasileiros, ajudava na agitação.

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O texto que aqui começa tem a pretensão de relatar o meu percurso como primeiro leitor brasileiro em Zagreb. Claro está que se trata de texto precário, por impossível que é relatar a totalidade dos fatos. Por outro lado, o que aqui se lê é apenas uma apresentação de percurso, sem outra pretensão, como a de “analisar” os fatos, dando-lhes interpretação definitiva. Ainda não é tempo…
Tudo começou em 24 de setembro de 2007, quando recebi o telefonema do Fábio Meneghetti Chaves, do Itamarati, informando que meu curriculum vitae fora pré-selecionado e que seria enviado a Zagreb. Perguntava, àquela altura, se era de meu interesse continuar disputando o posto. Respondi que sim e, algumas semanas depois, recebi a informação de que fora escolhido para ser Leitor de Português, na Universidade de Zagreb, na Croácia.
O processo referente ao visto de trabalho – com o qual eu deveria entrar na Croácia – foi muito tumultuado. Houve mudança na legislação da Croácia sobre o assunto. Isso levou quatro meses. A minha chegada a Zagreb estava prevista para fevereiro de 2008. No entanto, só conseguir vir para cá apenas em maio, devido aos problemas com o referido processo. Durante esse tempo, por meio eletrônico, trocando mensagens diárias, comecei a enviar atividades de escrita e de leitura para aqueles que seriam os meus alunos: estudantes de terceiro ano do curso de Português, na Faculdade de Filosofia, da Universidade de Zagreb. Finalmente, cheguei e dei aulas intensivas até o meio de junho. Contrato assinado. Visto reconhecido. Trabalho começado.
O trabalho do Leitor é, basicamente, ministrar aulas de Língua Portuguesa, na sua variante brasileira. Os alunos, no terceiro ano, já tiveram aulas de Língua Portuguesa, na variante europeia. A presença de apenas um leitor brasileiro e um português fez com que o grupo de professores do Curso de Português optasse por colocar as atividades com a variante brasileira apenas a partir do terceiro ano. Havendo dois leitores, de cada um dos países, haveria possibilidade técnica de trabalhar com as variantes brasileira e europeia desde o início do processo de “alfabetização” dos alunos croatas em Língua Portuguesa, como eu costumo falar. Isso ofereceria a oportunidade de trabalhar com essas variantes durante todo o curso. O ideal seria que houvesse também leitores de outras variantes, notadamente a africana e a asiática. Quem sabe, num futuro próximo, os países dos governos envolvidos consigam promover esta integração.
As aulas, na faculdade, seguem o esquema proposto pela “carta” de Bolonha que, no caso do curso de Língua Portuguesa (um bacharelado) se realiza no que se convencionou denominar de esquema 3+2. Três anos com disciplinas obrigatórias e algumas optativas, o que constituiria a formação básica (mais ou menos o equivalente à graduação no Brasil); acrescidos de dois anos com mais disciplinas optativas e duas obrigatórias. Nesta fase, os estudantes devem preparar uma monografia final, a ser defendida publicamente, o que constituiria o grau de “mestrado”, guardadas as devidas proporções. O currículo do curso, atualmente, está passando por um processo de reavaliação e reformulação, em vista dos resultados dessa fase inicial de implementação. O leitorado brasileiro contribuiu na execução das atividades da primeira turma no novo “esquema”. Daí a necessidade de se reavaliar e fazer as necessárias modificações e adaptações.
Administrativamente, na faculdade, a relação do leitorado é tranquila. As instalações são mais que adequadas, o material de trabalho, disponível, e o pessoal de apoio é atencioso e igualmente disponível. Correlativamente, quanto à relação coma Embaixada do Brasil em Zagreb também não há o que tenha que ser criticado. Como se trata do primeiro leitorado, ambos os lados – leitor e embaixada – passaram por um processo de exercício e descoberta, uma espécie de treinamento compulsório. Tenho certeza de que o prosseguimento do convênio para o leitorado só terá sucesso. Entendo que houve integração entre os dois pólos e que as atividades comuns foram coroadas de êxito. O então embaixador do Brasil, Sr. Haroldo Teixeira Valladão Filho, recebeu-me simpaticamente com um almoço e deu-me o prazer de uma visita à Faculdade, para assistir a uma de minhas aulas, juntamente com sua esposa e com Helga Dworschak Arantes, do setor cultural da embaixada. As alunas, então, sentiram-se muito importantes! Penso que tal atitude demonstrou o interesse da embaixada em manter o leitorado e de se integrar com ele.
A convite do setor cultural da embaixada, apresentei conferência em sua sede, pelas comemorações dos 200 anos de chegada da família real ao Brasil. Outras promoções, como a apresentação de filmes brasileiros na última quarta-feira de cada mês, contaram com minha presença e de minhas alunas. Sempre as levei, fazendo do evento uma aula, a partir da qual elas tinham que escrever um pequeno “relatório” comentando a exibição. Mais um ponto para a integração!
A experiência vivida, social e profissionalmente na Croácia, foi coroada de sucesso. Claro está que há problemas “internos” a serem resolvidos, junto à administração da faculdade. No entanto, penso que as relações acadêmicas entre o governo brasileiro – aqui representado pela embaixada – e a Universidade de Zagreb, através do meu trabalho como leitor, estabeleceram um patamar razoavelmente consistente para o prosseguimento do convênio. Eu espero que, sinceramente, o(a) professor(a) que vier a me substituir como leitor tenha a oportunidade de desfrutar de tudo de bom que experimentei nesses dois anos muito gratificantes.
Até aqui, tentei apresentar uma espécie de relato mais analítico sobre a experiência do leitorado. Foi o primeiro – espero que de uma série longa e duradoura. Gostaria, então, de dar um toque mais “pessoal” a este relato, para expressar a subjetividade que marca cada uma das experiências humanas. Fica o desejo de continuar, de uma forma ou de outra, contribuindo para o enriquecimento dessa relação acadêmico-diplomática. Aí vai:

O Brasil não é longe daqui! Basta um clique na tela do Windows Explorer ou do Firefox, ou qualquer outro browser e você chega lá! Rapidinho!

O Brasil é longe daqui. São exatos 9452 quilômetros entre Zagreb e Belo Horizonte, a cidade em que nasci. É muito longe!

Como qualquer país do mundo, o Brasil é diferente. Assim como a China é diferente do Sudão, a França é diferente do Alaska, a Rússia é diferente do Paraguai. Assim mesmo, diferente, nem melhor nem pior, apenas diferente.

No Brasil, porém, a gente tem o carnaval que o resto do mundo admira. Lá come-se galinha com angu e quiabo, sem medo; tucunaré na brasa, parrillada gaudéria, sarapatel e pato no tacacá; pão de queijo, pé de moleque e papo de anjo com baba de moça. Em lugar algum do mundo se come isso. Em outros lugares do mundo se comem outras coisas e se lá eu estivesse, diria a mesma coisa. Tudo é uma questão de perspectiva.

O Brasil tem Drummond, Vinícius e Guimarães Rosa; Ângela Maria, Elis Regina e Adriana Calcanhoto; Portinari, Niemayer e Iberê Camargo; Garrincha e Pelé; Fernando de Noronha e Ilha do mel.

No Brasil, a gente vê a pororoca, visita as ruínas jesuíticas, passeia pelas ruelas do barroco colonial e desemboca na contemporaneidade de Brasília.

O português é uma das línguas mais falados no mundo, mas nem por isso o Brasil tem mania de grandeza. Não há necessidade de mania: o Brasil é grande… Oito milhões de quilômetros quadrados: é muita terra, é muito mar, é muito mato.

Selva amazônica, Pantanal, Pampa, Sertão: o Brasil é quase um continente inteiro. Não é a perfeição, mas é onde eu nasci, onde eu me criei, para onde estou voltando. O Brasil é muito bom e muito ruim. Já tive vontade de abandoná-lo de vez: foram delírios adolescentes. Nada como a terra da gente!

Eu gosto de ser brasileiro!

José Luiz Foureaux de Souza Júnior

Zagreb, maio de 2010

7 respostas para “Um ano depois”.

  1. Quem acompanhou a saga lê o relato com gosto! Apesar de todas a loucuras ao longo dos dois anos. Nunca vi você de terno e a foto ficou ótima: você ficou bonito e mesmo com a fornalidade da ‘idumentária’ ainda se vê a verve e a fina ironia. Muito bom! Beijinhos. Angela

    1. Fiquei de olho arregalado, isso sim!
      beijinho
      😉

  2. Ui! Ato falho! Fornalidade em vez de formalidade! Antesala do inferno! kkkkkkkkkkk

    1. Bom voltar a ler teus textos depois de uma longa ausência – uma parte de mim ainda está ausente. Já faz um ano! O tempo que voa, escorre pelas mãos…

      Beijos, querido

      1. Márcia, querida
        Que bom que você voltou… É assim mesmo, aprender com a passagem do tempo. Não foi o que Fernando Pessoa tenteou fazer com a poesia dele? Com menos glamour e mais “realismo”, nós podemos aprender também! Boa semana para você!
        beijinho
        😉

  3. Como é bom reencontrá-lo “depois de um longo e tenebroso verão”. Essa frase foi usada por você em uma das cartas que me enviou quando estava em Santa Maria – RS. Provavelmente não se lembra mais de mim, porém, eu CÁ, nunca me esqueci do meu maior mestre. Fui sua aluna e sou eterna admiradora desse gênio da Literatura Brasileira. Bjs

    1. Oi Eunice. Que bom que você gostou do blogue. Fico lisonjeado com seus comentários/elogios. seja muito bem vinda! Tenho saudades de algumas coisas/pessoas do período gaúcho de minha vida… Você me fez experimentar de novo essa alegria! abraço e Boas festas!

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