Semelhanças

Numa das muitas sequências narrativas de Os maias, o narrador de Eça de Queirós aproxima Maria Eduarda e Calos da Maia. A sutileza ferina do autor envolve as duas personagens em eflúvios românticos para, num golpe fatal, “cortar o barato” do casal com a revelação de que são irmãos. Isto não se dá logo no começo desta “célula” dramática. Aos poucos, insidiosamente, a pena do autor evoca a voz narrativa para, bem ao sabor romântico/naturalista, enunciar a terrível revelação. Na adaptação televisiva, coube a Marília Pera o papel de Maria Monforte, a que volta para fazer desandar o enlace do casal de protagonistas. Tudo muito elegante, trágico, solene. O tempo que envolve as escolas concorrentes na construção do romance não deixa de explicitar suas marcas mais recorrentes, de maneira única, inconfundível: o estilo de Eça. Verdadeira delícia, gozo lento e saboroso que cai, como vaso de procelana da mão de faxineira estabanada ou criança traquinas. Paf… Miríades de cacos se espalham e o “que era vidro se quebou”! A deceoção é grande, mas não supera o prazer da revelação e do ritmo da própria narrativa. Romance é isso.

Em outro momento, do lado de cá do Atlântico, algumas décadas depois de Eça, há passagem semelhante em outro romance. Apenas isso, semelhante. A menina “danadinha” envolve o primo numa cena de sedução em plena festa de noivado deste. A noiva é sua prima também. O mal está feito e tudo parece caminhar para um dramalhão sem final melancólico quando, do nada, Dr. Arnaldo, o pai da moça devassa, revela, abruptamente, que o suposto primo é, na verdade, irmão desta. Já adivinharam? Pois é… Nelson Rodrigues. O romance é o primeiro volume (de dois) de Engraçadinha. Diminutivo, no mínimo, ambíguo na pena do ferino Nelson. A sua marca é a esta “diferença”. Não há elegância, como em Eça, mas não há vulgaridade. É tudo rasgado. O leitor se divide entre o susto quase envergonhado e a gargalhada sacana… Escritor danado esse Nelson Rodrigues. Romance digno de ser comparado com Eça, sim senhor, sem a menor pretensão de estabelecer níveis hierárquicos de “valor”, como os mais sisudos da academia gostam de fazer. Falo por prazer de falr, pelo prazer de ler e comentar. se isso não é um passo de crítica, digam-me, por caridade, o que é…

O que os dois têm em comum? Eu diria que, entre tantas outras qualidades, o talento de criar uma cena, de imprimir ritmo e clima adequados para o que desejam dizer, cada um a seu modo. Uma coisaa os une, arriscaria afirmar… O naturalismo de sua “dicção” narrativa. Ambos são naturalistas, cada um a seu modo. Os dois dissecam o ser humano e a sociedade de maneira impiedosa. Um de maneira elegante, outro de maneira descarada (será que existe antonímia entre esses dois adjetivos? preguiça de consultar o “pai dos burros”!). Um cria o clima e, ao final, revela o que mais interessa, quebrando esse mesmo clima, sem destoar no tom da melodia narrativa. O outro não tem papas na língua e reproduz o mais corriqueiro e coloquial “deixa que eu falo”. Ambos são implacáveis. Ambos são impagáveis. Admiro os dois!

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4 comentários sobre “Semelhanças

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