Delírio

Era pra ser anedota, mas não consegui rir. Reproduzo literalmente aqui o que recebi no corpo de uma mensagem eletrônica. Não sei quem é o autor.

ASSALTO

– Alô? Quem tá falando?
– Aqui é o ladrão.
– Desculpe, a telefonista deve ter se enganado, eu não queria falar com o dono do banco. Tem algum funcionário aí?
– Não, os funcionário tá tudo refém.
– Há, eu entendo. Afinal, eles trabalham quatorze horas por dia, ganham um salário ridículo, vivem levando esporro, mas não pedem demissão porque não encontram outro emprego, né? Vida difícil… Mas será que eu não poderia dar uma palavrinha com um deles?
– Impossível. Eles tá tudo amordaçado.
– Foi o que pensei. Gestão moderna, né? Se fizerem qualquer crítica, vão pro olho da rua. Não haverá, então, algum chefe por aí?
– Claro que não mermão. Quanta inguinorânça! O chefe tá na cadeia, que é o lugar mais seguro pra se comandar assalto!
– Bom… Sabe o que é? Eu tenho uma conta…
– Tamo levando tudo, ô bacana. O saldo da tua conta é zero!
– Não, isso eu já sabia. Eu sou professor! O que eu queria mesmo era uma informação sobre juro.
– Companheiro, eu sou um ladrão pé-de-chinelo. Meu negócio é pequeno. Assalto a banco, vez ou outra um sequestro.. Pra saber de juro é melhor tu ligá pra Brasília.
– Sei, sei. O senhor tá na informalidade, né? Também, com o preço que tão cobrando por um voto hoje em dia… Mas , será que não podia fazer um favor pra mim? É que eu atrasei o pagamento do cartão e queria saber quanto vou pagar de taxa.
– Tu tá pensando que eu tô brincando? Isso é um assalto!
– Longe de mim pensar que o senhor está de brincadeira! Que é um assalto eu sei perfeitamente; ninguém no mundo cobra os juros que cobram no Brasil. Mas queria saber o número preciso: seis por cento, sete por cento?
– Eu acho que tu não tá entendendo, ô mané. Sou assaltante. Trabalho na base da intimidação e da chantagem, saca?
-Ah, já tava esperando. Você vai querer vender um seguro de vida ou um título de capitalização, né?
– Não… Já falei… Eu sou… Peraí bacana… Hoje eu tô bonzinho e vou quebrar o teu galho.
(…um minuto depois)
– Alô? O sujeito aqui tá dizendo que é oito por cento ao mês.
– Puxa, que incrível!
– Incrive por quê? Tu achava que era menos?
– Não, achava que era mais ou menos isso mesmo. Tô impressionado é que, pela primeira vez na vida, eu consegui obter uma informação de uma empresa prestadora de serviço pelo telefone em menos de meia hora e sem ouvir ‘Pour Elise’.
– Quer saber? Fui com a tua cara. Acabei de dar umas bordoadas no gerente e ele falou que vai te dar um desconto. Só vai te cobrar quatro por cento, tá ligado?
– Não acredito! E eu não vou ter que comprar nenhum produto do banco?
– Nadica de nada, já tá tudo acertado!
– Muito obrigado, meu senhor. Nunca fui tratado dessa…
(de repente, ouvem-se tiros e gritos)
– Ih, sujou! Puliça!
– Polícia? Que polícia? Alô? Alô?
(sinal de ocupado…)
– Droga! Maldito Estado: quando o negócio começa a funcionar, entra o Governo e estraga tudo!

Enquanto isso…

O Kadafi morreu… assim é o que os jornais e a internete alardeiam…

A FIFA sorteia os estádios onde serão realizados jogos dessas coisas que vão acontecer em 2012, 2013, 2014… até o final dos tempos e a patuleia grita, entre enraivecida e jubilosa…

A Savassi é tomada de assalto por vândalos com curso superior, invadindo jardins e estacionando seus carrões em canteiros e locais proibidos: nenhuma novidade…

Três médicos são condenados em Taubaté por extirparem criminosamente os rins de pacientes falsamente diagnosticados com morte cerebral: vão responder “em liberdade”…

Ivete Sangalo é homenageada na Assembleia Legislativa, em Belo Horizonte, e consegue mais mais alguns minutos de celebridade. Celebridade?…

O prêmio Jabuti é dado a um “escritor” que escreveu (desculpem!) alguma coisa a que deu o nome de “Ribamar”. Sintomático…

O Ministro dos Esportes está sendo “frito em pouca banha” (saudade dos pampas gaúchos)… Por que será??? Alguém sabe??? A cara do “policial” que o acusa é mais “acusadora”…

Turistas do mundo todo devem estar se sentindo no meio do Armagedon, enquanto tehntam visitar Atenas… sede/fonte da cultura ocidental: epicentro da ganância mundial disfarçada em crise…

Teresa Cristina destila veneno do alto de seu salto agulha como se fosse o arauto da “sofisticação, do berço e da elegância”. Ela é linda, mas convenhamos…”

Quantas pessoas acabaram de morrer e quantas nasceram neste exato instante???

Caos

 

Li com a referência de que a fonte é a coluna do José Simão, na Folha de São Paulo. É triste e engraçado ao mesmo tempo. E o pior é quem bem pode ser assim mesmo… Ai que vergonha!

 

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Previsões de Pai J osé Simão (Colunista Folha de São Paulo), para as Olímpíadas no Rio – 2016.

De 2010 a 2015
1. ONGs vão pipocar dizendo que apóiam o esporte, tiram crianças das ruas e as afastam das drogas. Após as olimpíadas estas ONGs desaparecerão e serão investigadas por desvio de dinheiro público. Ninguém será preso ou indiciado.
2. Um grupo de funk vai fazer sucesso com uma música que diz: vou pegar na tua tocha e você põe na minha pira.
3. Uma escola de samba vai homenagear os jogos, rimando “barão de coubertin” com “sol da manhã”. Gilberto Gil virá no último carro alegórico vestido de lamê dourado representando o “espírito olímpico do carioca visitando a corte do Olimpo num dia de sol ao raiar do fogo da vitoria”.
4. Haverá um concurso para nomear a mascote dos jogos que será um desenho misturando um índio, o sol do Rio, o Pão de Açúcar e o carnaval, criado por Hans Donner. Os finalistas terão nomes como: “Zé do Olimpo”, “Chico Tochinha” e “Kaíque Maratoninha”.
5. Luciano Huck vai eleger a Musa dos jogos, concurso que durará um ano e elegerá uma modelo chamada Kathy Mileine Suellen da Silva.

Abertura dos jogos
1. A tocha olímpica será roubada ao passar pela baixada fluminense. O COB vai encomendar outra com urgência para um carnavalesco da Beija flor.
2. Zeca Pagodinho, Dudu Nobre e a bateria da Mangueira farão um show na praia de Copacabana para comemorar a chegada do fogo olímpico ao Rio. Por motivo de segurança, Zeca Pagodinho será impedido de ficar a menos de 500 metros da tocha.
3. Durante o percurso da tocha, os brasileiros vão invadir a rua e correr ao lado dela carregando cartolinas cor de rosa onde se lê “GALVÃO FILMA NÓIS”, “100% FAVELA DO RATO MOLHADO”.
4. Pelé vai errar o nome do presidente do COI, discursar em um inglês de merda elogiando o povo carioca e, ao final, vai tropeçar no carpete que foi colado 15 minutos antes do início da cerimônia.
5. Claudia Leite e Ivete Sangalo vão cantar o “Hino das Olimpíadas” composto por Latino e MC Medalha. As duas vão duelar durante a música para aparecer mais na TV.
6. O Hino Nacional Brasileiro será entoado a capella por uma arrependida Vanuza, que jura que “não bota uma gota de álcool na boca desde a última copa”. A platéia vai errar a letra, em homenagem a ela, chorar como se entendesse o que está cantando, e aplaudir no final como se fosse um gol.
7. Uma brasileira vai ser filmada varias vezes com um top amarelo, um shortinho verde e a bandeira dos jogos pintada na cara. Ela posará para a Playboy sem o top e sem o shortinho e com a bandeira pintada na bunda.
8. Por falta de gás na última hora, já que a cerimônia só foi ensaiada durante a madrugada, a pira não vai funcionar. Zeca Pagodinho será o substituto temporário já que a Brahma é um dos patrocinadores. Em entrevista ao Fantástico ele dirá que não se lembra direito do fato.
9. Setenta e quatro passistas de fio-dental vão iniciar a cerimônia mostrando o legado cultural do Rio ao mundo: a bala perdida, o trafico, o funk, o sequestro-relâmpago e a favela.
10. Durante os jogos de tênis a platéia brasileira vai vaiar os jogadores argentinos obrigando o árbitro a pedir silencio 774 vezes. Como ele pedirá em inglês ninguém vai entender e vão continuar vaiando. Galvão Bueno vai dizer que vaiar é bom, mas vaiar os argentinos é melhor ainda. Oscar concordará e depois pedirá desculpas chorando no programa do Gugu.
11. Um simpático cachorro vira-lata furará o esquema de segurança invadindo o desfile da delegação jamaicana. Será carregado por um dos atletas e permanecerá no gramado do Maracanã durante toda a cerimônia. Será motivo de 200 reportagens, apelidado de Marley, e será adotado por uma modelo emergente que ficará com dó do pobre animalzinho e dirá que ele é gente como a gente.
12. Adriane Galisteu posará para a capa de CARAS ao lado do grande amor da sua vida, um executivo do COB.
13. Os pombos soltos durante a cerimônia serão alvejados por tiros disparados por uma favela próxima e vendidos assados na saída do maracanã por “dois real”.

Durante os jogos
1. Caetano Veloso dará entrevista dizendo que o Rio é lindo, a cerimônia de abertura foi linda e que aquele negão da camiseta 74 da seleção americana de basquete é mais lindo ainda.
2. Uma modelo-manequim-piranha-atriz-exBBB vai engravidar de um jogador de hóquei americano. Sua mãe vai dar entrevista na Luciana Gimenez dizendo que sua filha era virgem até ontem, apesar de ter namorado 74 homens nos últimos seis meses, e que o atleta americano a seduziu com falsas promessas de vida nos EUA. Após o nascimento do bebê ela posará nua e terá um programa de fofocas numa rede de TV.
3. No primeiro dia os EUA, a China e o Canadá já somarão 74 medalhas de ouro, 82 de prata e 4 de bronze. Os jornalistas brasileiros vão dizer a cada segundo que o Brasil é esperança de medalha em 200 modalidades e certeza de medalha em outras 64.
4. Faltando 3 dias para o fim dos jogos, o Brasil terá 3 medalhas de bronze e 1 de ouro, esta ganha por atletas desconhecidos no esporte “caiaque em dupla”. Eles vão ser idolatrados por 15 minutos (somando todas as emissoras abertas e a cabo) como exemplos de força e determinação. A Hebe vai dizer que eles são “uma gracinha” ao posarem mordendo a medalha, e nunca mais se ouvirá deles.
5. A seleção brasileira de futebol comandada por Ronaldo Fenômeno vai chegar como favorita. Passará fácil pela primeira fase e entrará de salto alto na fase final, perdendo para a seleção de Sumatra.
6. A seleção americana de vôlei visitará uma escola patrocinada pelo Criança Esperança. Três meninos vão ganhar uma bola e um uniforme completo dos jogadores, sendo roubados e deixados pelados no dia seguinte.
7. Os traficantes da Rocinha vão roubar aquele pó branco que os ginastas passam na mão. Um atleta cubano será encontrado morto numa boate do Baixo Leblon depois de cheirá-lo. O COB, a fim de não atrasar as competições de ginástica, vai substituir o tal pó pelo cimento estocado nos fundos do ginásio inacabado.
8. Um atleta brasileiro nunca visto antes terminará em 57º lugar na sua modalidade e roubará a cena ao levantar a camiseta mostrando outra onde se lê: JARDIM MATILDE NA VEIA.
9. Vários atletas brasileiros apontados como promessa de medalha serão eliminados logo no inicio da competição. Suas provas serão reprisadas em ‘slow motion’ e 400 horas de programas de debate esportivo vão analisar os motivos das suas falhas.

Após os jogos
1. Um boxeador brasileiro negro de 1,85m estrelará um filme pornô para pagar as despesas que teve para estar nos jogos e por não obter patrocínio.
2. Faustão entrevistará os atletas brasileiros que não ganharam medalhas. Não os deixará pronunciar uma palavra sequer, mas dirá que esses caras são exemplos no profissional tanto quanto no pessoal, amigos dos amigos, e outras besteiras.
3. No início do ano seguinte, vários bebês de olhos azuis virão ao mundo e as filas para embarque nos voos para a Itália, Portugal e Alemanha serão intermináveis, com mães “ofendidas”, segurando seus rebentos…

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Opiniões

De uma amiga virtual a queme stou aprendendo a admirar!

“Eu podia estar lendo Machado, Aluizio de Azevedo, Alencar ou até mesmo Macedo! Mas escolhi ler o único romance de Taunay para Desafio Literário deste mês, que contempla os clássicos brasileiros. (As escolhas são sempre um sinal de “afinidades eletivas”. Quanto a estas, nada a questionar. A liberdade é o principal signo da literatura!) Inocência é daqueles livros que são incensados pelos acadêmicos de plantão e odiados pela turma que vai fazer vestibular. Tanto uns quanto outros têm razão. (Concordo com você, ainda que não me sinta muito à vontade para subscrever o “incenso”… No fundo, isso não passa de uma convenção falaciosa…) Esta é a terceira vez que leio o livro, da primeira leitura tenho poucas lembranças e provavelmente não gostei, na segunda vez que li, fiz isso por que estava na lista de livros do vestibular (jamais escolheria por livre e espontânea vontade) mas diria que apreciei um pouquinho mais, mas isso se deve a um excelente professor de literatura que destrinchou o livro para um bando de adolescente que só engoliu tudo aquilo para passar na prova do vestibular. (Você acertou na mosca: sinceridade e reconhecimento. Com o tempo, a gente vai escolhendo as leituras e perdendo o receio de se posicionar quanto a estas escolhas. Por outro lado, penso que o professor de literatura não tem outra função a não ser esta: ‘destrinchar’ o texto. Uso a expressão ‘instrumentalizar a leitura’ – de fato, é o que fazemos. Mais que isso é o acréscimo da experiência da própria leitura que vai fazendo amadurecer a acuidade crítica – que não se ‘ensina’. Também sou sincero…) Essa leitura de agora foi mais madura, mas… porque eu não escolhi um Machado? Um Lima Barreto? (Viu só… de certa forma eu tenho razão! O que não é vantagem alguma…)

Inocência conta a história de um prático-farmacêutico, Cirino, que nos cafundós do sertão de Mato Grosso é recebido numa fazenda para cuidar e medicar Inocência que sofre de maleita, lógico que ele se apaixona, lógico que o pai não gosta, lógico que ela está prometida para outro e lógico que acaba em tragédia ou não seria um livro do Romantismo. (A lógica do Romantismo é um tanto perversa pois, ao mesmo tempo que sublima uma série de valores e aspectos culturais, deixa escapar, eu diria, inconscientemente, tantas outras da ordem da instintivo, do animal. Amor e desejo é a dicotomia, penso que, que reina” sobre o universo representacional desse período da História da cultura ocidental. Isto entre outras coisa, é claro!) O livro tem qualidades, por isso os acadêmicos gostam (Há acadêmicos e acadêmicos, segundo o adagiário…), ele não é puramente romântico nem puramente realista, está no meio termo. (Será mesmo? Sei não… Minha chatice não deixa de implicar com essa expressão “meio termo”.) Como Taunay (nosso único Visconde) era um engenheiro militar, inclusive tendo lutado na Guerra do Paraguai, descreve o sertão como ninguém – ele conhecia de perto do que estava falando e tinha alma de geógrafo – mas por que, meu Deus! descrever em páginas e mais páginas uma estrada! (Claro que você se lembra de Os sertões. Lá também eu vejo motivo para fazer a mesma pergunta. Toda a primeira parte do “romance” é recheada de descrições geográfico-geológicas. Praticamente uma chatice. Mas quando chega na cena em que o narrador compara o azul do céu com o dos olhos do soldado morto, eu chego quase às lágrimas com tanta beleza e lirismo… Vai entender!) Nosso Visconde também foi um pioneiro em escrever os diálogos em linguagem coloquial e regional, o que empresta aos seus personagens uma verdade no tempo e no espaço, mas torna o livro, hoje, bem complicado de ser lido! (Eu diria que a “complicação” se deve muito à falta de “treinamento” em leitura do que do texto em si. Se nossa cultura de leitura – hum… que eco horroroso! – não nos forma como “leitores”, a dificuldade é certa. O texto é matéria viva que corresponde a uma série bem intrincada de fatores. Mas a leitura é mestra que vence obstáculos, desde que bem consolidada, antes de mais nada… A pensar!) Principalmente para os pobres vestibulandos (Pobres??? Agora eu me arrepiei, mas como já disse, sou um chato!), eu gostei da linguagem, vejam só que graça: “não há menina que hoje não deixe de ir à fonçonatas com vestidos abertos na frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em danças e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquela palha com qualquer talufão… pois pelintras e beldroegas não falta…” juro que não é ironia! (O vocabulário é mesmo alambicado. Mas tente uma brincadeira: substitua os termos “antigos” pela gír1a da jeneusse dorée de hoje. Você verá que transparece algo de absolutamente fresco, atual, mais que conhecido nowadays!) Eu poderia dizer que meu personagem inesquecível desse livro é Cirino o moço romântico, ou Inocência e sua beleza meio doentia ou até mesmo seu pai, Pereira com suas ideias retrogradas e sua certezas gravadas em pedra, mas nenhum deles me marcou, desde a primeira leitura eu me indigno, fico com raiva e tenho vontade de dar uns tapas em Tico, o anão mudo e raquítico, que de guardião de Inocência passa a ser seu algoz. Ao se falar desse livro sempre me lembro desse tipinho! (A Sociologia do romance agradece, envaidecida, a sua observação mais que arguta!)

Inocência é um clássico da literatura brasileira que merece ser lido (Harold Bloon, Italo Calvino, George Steiner e Cristóvão Tezza fazem coro aqui!), com paciência e tempo, para se poder apreciar o que ele tem de bom, pois os tipos humanos são bem característicos da época e do sertão, temos até mesmo um naturalista alemão que só pensa em borboleta, vemos como o comportamento social é rígido e as regra familiares são imutáveis, palavra dada nunca é retirada mesmo que isso leve a uma tragédia.(Estes não são alguns dos fundamentos do Romantismo/Realismo?) Em certo sentido é um romance regionalista, uma novidade na época, pois Taunay soube unir seu profundo conhecimento da natureza pura dos rincões do país e a sua aguda observação da vida social do sertão em um livro romântico. (Depois de algum tempo lendo e estudando Literatura Brasileira eu ousaria afirmar que o substrato dela é a noção de regionalismo – em amplo espectro. Concorda? A situação colonial, penso eu, é a responsável pela elaboração do processo de constituição e manutenção de um espírito “nativista” que, ao fim e ao cabo, não deixa de ser uma das metáforas do próprio regionalismo ou Regionalismo, either way) Existe um filme sobre este livro de 1983, dirigido por Walter Lima Jr, tendo o Edson Celulari e a Fernanda Torres como protagonistas, eu vi na época e gostei, fica aqui a indicação.”

Gostei do que ela disse. Concordo com muita coisa e penso que Literatura ainda é fundamental! Os parênteses são todos meus!!!

“O dia”

 

Aqui, agora, à toa, dando tratos à bola. Dia do professor. São todos os dias, uai! Como dia dos pais, das mães, das crianças e todos outros mais dias que passam céleres, explorados pela ganância e pela estupidez humanas. Tanta energia desperdiçada, tanto tempo perdido, tanta imaginação a serviço de nada… Dia dos professores… Recebi algumas mensagens (pelo Facebook) que me fizeram pensar que, em alguns momentos – lampejos de tempo – um outro ser se ilumina e devolve seu brilho, lustrado pela gratidão: paz na alma. Essas poucas pessoas sabem que estou falando de si. Meu primeiro cumprimento hoje veio de minha mãe, também professora. Retribuição. Se começar a falar sobre o que significa isso, não paro mais, e esta postagem vai ficar chatinha, chatinha. Pouca gente já a lê, depois do que eu poderia escrever, menos ainda leria… Vou apenas reproduzir um pequeno texto escrito por um ex-aluno que, além de bonito, me fez pensar, ainda que por vias indiretas, mais uma vez (antes de que o famigerado hoário de verão comece) no dia do professor. Hoje! Aí vai:

“É-me tão desgastante recolher as conchas e juntar tantas madrepérolas para produzir joias que se perderão em meio às mudanças e aos delírios de nossas separações. Por que você insiste em juntar a paina para fazer florir nosso lar justamente quando a chuva desponta na serra? Boy, mesmo que você insista em partir para sempre, eu continuarei a ver as gaivotas fazendo voos razantes em alto-mar. Já é setembro em mim e a primavera ainda não chegou.”

Acasos

 

Uma semana depois. Parece que tem mais tempo. Hora do almoço. A letargia do início da tarde do dia mais bobo da semana não dava sinais de arrefecimento. Comida no carro e, de repente, não mais que de repente… bum! O rapaz voou sobre o carro e caiu. Bateu três vezes no chão, como uma bola murcha. Susto. Morto! Não, ele se mexia e já queria se levantar. Não! Quieto. Você não sabe o que aconteceu! Fica quieto! Num piscar de olhos magotes de motoqueiros cercavam a cena. Carro arrebentado. Motocicleta apenas arranhada e com um dos faroletes arrancado. A expressão era de indignação, Fiquei quieto. Pedi auxílio a um dos passantes: chamar SAMU, Polícia. Ofereceram chamar os bombeiros. Agradeci. Pedi para chamarem meu irmão. Tudo ao lado de casa. Susto, mas calma. Impressionante e inexplicavelmente, calma. Os olhares acusadores continuavam. Apenas uma dupla de garotos perguntou como eu estava, se havia me machucado. Agradeci. Obserrvaram que o motociclista devia estar correndo. Concordei. Mais transeuntes curiosos. Trânsito lento. Música alta, de mau gosto, retumbando nos autofalantes automotivos. Será que tem hífen aqui? Ai que preguiça de estudar o novo acordo da Língua Portuguesa. Ai que calor. A senhora falava sem parar, sua preocupação era com quem iria pagar: remédios, hospital, cirurgia, conserto, enterro. O policial entregou os pontos: “perdi o fio, não sei mais o que escrever”. Minutos depois ocorrência registrada, almoçar. Um susto. Daí a burocracia: sinistro, seguradora, posto policial sem internete: não há como entregar o boletim. Não fosse a cordialidade do oficial presente ainda estaria esperando, uma semana depois. Tenho certeza quase absoluta. Uma semana depois, nenhum notícia do carro. O seguro contra terceiros acionado. Alguma vergonha em admitir responsabilidade para prestar assistência e se livrar da chatice do processo em tribunal de pequenas causas? Não se trata de “poder” aqui, mas de bom senso. Não quero confusão, gente falando, reclamações, exigências: “quero os meus direitos”! Ai como tenho nojo dessa frase… Um acidente. Apenas isso, um acidente, nada mais. Preço final: incontáveis dias sem carro, sem saber quando vou dirigir de novo, quando vou poder voltar a uma vida “normal”. Normal?

Línguas…

 

O POLIGROTA

“É verdade matemática que ninguém pódi negá,

que essa história de gramática só serve pra atrapaiá.

Inda vem língua estrangêra ajudá a compricá.

Mió nóis cabá cum isso pra todos podê falá.

Na Ingraterra ouví dizê que um pé de sapato é xu.

Desde logo já se vê, dois pé deve sê xuxu.

Xuxu pra nóis é um legume que cresce sorto no mato.

Os ingrêis lá que se arrume, mas nóis num come sapato.

Na Itália dizem até, eu não sei por que razão,

que como mantêga é burro, se passa burro no pão.

Desse jeito pra mim chega, sarve a vida no sertão,

onde mantêga é mantêga, burro é burro e pão é pão.

Na Argentina, veja ocêis, um saco é um paletó.

Se o gringo toma chuva tem que pô o saco no sór.

E se acaso o dito encóie, a muié diz o pió:

‘Teu saco ficô piqueno, vê se arranja ôtro maió!’

Na América corpo é bódi. Veja que bódi vai dá.

Conheci uma americana doida pro bódi emprestá.

Fiquei meio atrapaiado e disse pra me escapá:

Ói, moça, eu não sou cabra, chega seu bódi pra lá!

Na Alemanha tudo é bundes. Bundesliga, bundesbão.

Muita bundes só confunde, disnorteia o coração.

Alemão qué inventá o que Deus criou primêro.

É pecado espaiá o que tem lugar certêro.

No Chile cueca é dança de balançá e rodá.

Lá se dança e baila cueca inté a noite acabá.

Mas se um dia um chileno vié pro Brasir dançá,

que tente mostrá a cueca pra vê onde vai pará.

Uma gravata isquisita um certo francês me deu.

Perguntei, onde se bota? E o danado respondeu.

Eu sou home confirmado, acho que num entendeu,

Seu francês mar educado, bota a gravata no seu!

Pra terminar eu confirmo, tem que se tê posição.

Ó nóis fala a nossa língua, ô num fala nada não.

O que num pode é um povo fazê papér de idiota,

dizendo tudo que é novo só pra falá poligrota.”

*(Autor desconhecido)*