Opiniões

De uma amiga virtual a queme stou aprendendo a admirar!

“Eu podia estar lendo Machado, Aluizio de Azevedo, Alencar ou até mesmo Macedo! Mas escolhi ler o único romance de Taunay para Desafio Literário deste mês, que contempla os clássicos brasileiros. (As escolhas são sempre um sinal de “afinidades eletivas”. Quanto a estas, nada a questionar. A liberdade é o principal signo da literatura!) Inocência é daqueles livros que são incensados pelos acadêmicos de plantão e odiados pela turma que vai fazer vestibular. Tanto uns quanto outros têm razão. (Concordo com você, ainda que não me sinta muito à vontade para subscrever o “incenso”… No fundo, isso não passa de uma convenção falaciosa…) Esta é a terceira vez que leio o livro, da primeira leitura tenho poucas lembranças e provavelmente não gostei, na segunda vez que li, fiz isso por que estava na lista de livros do vestibular (jamais escolheria por livre e espontânea vontade) mas diria que apreciei um pouquinho mais, mas isso se deve a um excelente professor de literatura que destrinchou o livro para um bando de adolescente que só engoliu tudo aquilo para passar na prova do vestibular. (Você acertou na mosca: sinceridade e reconhecimento. Com o tempo, a gente vai escolhendo as leituras e perdendo o receio de se posicionar quanto a estas escolhas. Por outro lado, penso que o professor de literatura não tem outra função a não ser esta: ‘destrinchar’ o texto. Uso a expressão ‘instrumentalizar a leitura’ – de fato, é o que fazemos. Mais que isso é o acréscimo da experiência da própria leitura que vai fazendo amadurecer a acuidade crítica – que não se ‘ensina’. Também sou sincero…) Essa leitura de agora foi mais madura, mas… porque eu não escolhi um Machado? Um Lima Barreto? (Viu só… de certa forma eu tenho razão! O que não é vantagem alguma…)

Inocência conta a história de um prático-farmacêutico, Cirino, que nos cafundós do sertão de Mato Grosso é recebido numa fazenda para cuidar e medicar Inocência que sofre de maleita, lógico que ele se apaixona, lógico que o pai não gosta, lógico que ela está prometida para outro e lógico que acaba em tragédia ou não seria um livro do Romantismo. (A lógica do Romantismo é um tanto perversa pois, ao mesmo tempo que sublima uma série de valores e aspectos culturais, deixa escapar, eu diria, inconscientemente, tantas outras da ordem da instintivo, do animal. Amor e desejo é a dicotomia, penso que, que reina” sobre o universo representacional desse período da História da cultura ocidental. Isto entre outras coisa, é claro!) O livro tem qualidades, por isso os acadêmicos gostam (Há acadêmicos e acadêmicos, segundo o adagiário…), ele não é puramente romântico nem puramente realista, está no meio termo. (Será mesmo? Sei não… Minha chatice não deixa de implicar com essa expressão “meio termo”.) Como Taunay (nosso único Visconde) era um engenheiro militar, inclusive tendo lutado na Guerra do Paraguai, descreve o sertão como ninguém – ele conhecia de perto do que estava falando e tinha alma de geógrafo – mas por que, meu Deus! descrever em páginas e mais páginas uma estrada! (Claro que você se lembra de Os sertões. Lá também eu vejo motivo para fazer a mesma pergunta. Toda a primeira parte do “romance” é recheada de descrições geográfico-geológicas. Praticamente uma chatice. Mas quando chega na cena em que o narrador compara o azul do céu com o dos olhos do soldado morto, eu chego quase às lágrimas com tanta beleza e lirismo… Vai entender!) Nosso Visconde também foi um pioneiro em escrever os diálogos em linguagem coloquial e regional, o que empresta aos seus personagens uma verdade no tempo e no espaço, mas torna o livro, hoje, bem complicado de ser lido! (Eu diria que a “complicação” se deve muito à falta de “treinamento” em leitura do que do texto em si. Se nossa cultura de leitura – hum… que eco horroroso! – não nos forma como “leitores”, a dificuldade é certa. O texto é matéria viva que corresponde a uma série bem intrincada de fatores. Mas a leitura é mestra que vence obstáculos, desde que bem consolidada, antes de mais nada… A pensar!) Principalmente para os pobres vestibulandos (Pobres??? Agora eu me arrepiei, mas como já disse, sou um chato!), eu gostei da linguagem, vejam só que graça: “não há menina que hoje não deixe de ir à fonçonatas com vestidos abertos na frente como raparigas fadistas e que saracoteiam em danças e falam alto e mostram os dentes por dá cá aquela palha com qualquer talufão… pois pelintras e beldroegas não falta…” juro que não é ironia! (O vocabulário é mesmo alambicado. Mas tente uma brincadeira: substitua os termos “antigos” pela gír1a da jeneusse dorée de hoje. Você verá que transparece algo de absolutamente fresco, atual, mais que conhecido nowadays!) Eu poderia dizer que meu personagem inesquecível desse livro é Cirino o moço romântico, ou Inocência e sua beleza meio doentia ou até mesmo seu pai, Pereira com suas ideias retrogradas e sua certezas gravadas em pedra, mas nenhum deles me marcou, desde a primeira leitura eu me indigno, fico com raiva e tenho vontade de dar uns tapas em Tico, o anão mudo e raquítico, que de guardião de Inocência passa a ser seu algoz. Ao se falar desse livro sempre me lembro desse tipinho! (A Sociologia do romance agradece, envaidecida, a sua observação mais que arguta!)

Inocência é um clássico da literatura brasileira que merece ser lido (Harold Bloon, Italo Calvino, George Steiner e Cristóvão Tezza fazem coro aqui!), com paciência e tempo, para se poder apreciar o que ele tem de bom, pois os tipos humanos são bem característicos da época e do sertão, temos até mesmo um naturalista alemão que só pensa em borboleta, vemos como o comportamento social é rígido e as regra familiares são imutáveis, palavra dada nunca é retirada mesmo que isso leve a uma tragédia.(Estes não são alguns dos fundamentos do Romantismo/Realismo?) Em certo sentido é um romance regionalista, uma novidade na época, pois Taunay soube unir seu profundo conhecimento da natureza pura dos rincões do país e a sua aguda observação da vida social do sertão em um livro romântico. (Depois de algum tempo lendo e estudando Literatura Brasileira eu ousaria afirmar que o substrato dela é a noção de regionalismo – em amplo espectro. Concorda? A situação colonial, penso eu, é a responsável pela elaboração do processo de constituição e manutenção de um espírito “nativista” que, ao fim e ao cabo, não deixa de ser uma das metáforas do próprio regionalismo ou Regionalismo, either way) Existe um filme sobre este livro de 1983, dirigido por Walter Lima Jr, tendo o Edson Celulari e a Fernanda Torres como protagonistas, eu vi na época e gostei, fica aqui a indicação.”

Gostei do que ela disse. Concordo com muita coisa e penso que Literatura ainda é fundamental! Os parênteses são todos meus!!!

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2 comentários sobre “Opiniões

  1. Ei moço!
    Então, li lá na Jussara a postagem. Ela não poderia ter escolhido ninguém tao chique como vc para fazer as devidas homenagens! Eu, simplinha messs, deixei fluir as lembranças de uma escola onde tive verdadeiros mestres…lembro de todos, até daqueles “bravos” que colaboraram pra neurose alheia rsrs. E digo mais: não tinham essas titulações tooodas de hoje em dia e como ensinavam a pensar!!! Bons tempos…muito bons mesmo.
    Beijuuss, amado, cheim de sôdades docê n.a.

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