Gosto

Há livros e textos e filmes e músicas dos quais a gente jamais se esquece. Seja por dever de ofício, seja por algum incidente “negativo”, seja simplesmente porque a gente gostou deles. Punto i basta. Na obra de Eça de Queriós, encontrei dois textos que até hoje me tocam profundamente – “José Matias”, conto, e O crime do Padre Amaro, romance. Os motivos são vários. Os aspectos quase inumeráveis, as explicações múltiplas. Aqui escrevo um texto sobre o conto. Da primeira leitura, ficou impressão estranha; das demais, o apuro do escritor ofereceu-me momentos de reflexão e delícia. Sim, delícia. O conto é delicioso. Vai aí, então, o que eu escrevi sobre ele!

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JOSÉ MATIAS: amores impossíveis(?)

Tem-se escrito muito com respeito à visão pessimista do amor ex­pressa por Eça de Queirós nas suas obras de ficção. Segundo Túlio Ramires Ferro, o amor nas obras de Eça causa perturbação social e conduz à dege­neração. João Gaspar Simões opina que o amor em Eça é criminal, condenatório ou impossível e que Eça manifesta uma “estranha apreensão quanto à legitimidade do amor sexual”. (SIMÕES, 1945, p. 531) A interpretação mais negativa, porém, é dada por Antônio Coimbra Martins, que atribui a Eça um conceito salubre e destrutivo do amor:

Para o romancista, em resumo, o verdadeiro apelo do amor é degradante. Um obstáculo de natureza social, religiosa ou mes­mo material afasta-nos do fruto proibido e baixamento convida­tivo. Outros, mais ou menos disfarçados, vão colher o fruto às escondidas… mas o verdadeiro resultado do amor são traições, mortes, incestos, heranças perdidas… Toda a obra de Eça o diz: o amor é o pecado original. (MARTINS, 1967, p. 324)

Para Coimbra Martins os contos são igualmente representativos dessa atitude acrimoniosa, com a exceção de “O defunto” que ele considera a única com­posição em toda a obra fictícia de Eça onde o amor se salva. O juízo, porém, é inexato, pelo menos com respeito aos contos. Nos contos, Eça não desacredita o amor; o que condena é a incapacidade do ho­me de aceitar o amor como compromisso total de todo seu ser, físico e es­piritual. É verdade que em alguns dos contos o amor conduz à infelicidade ou à degradação, mas unicamente porque a emoção que sentem os persona­gens é incompleta. Carece do equilíbrio sadio que provém do desenvolvimen­to simultâneo das duas facetas da natureza humana – o espírito e a matéria. Já nas Prosas bárbaras Eça se refere à divisão de alma e corpo. Mais tarde, em contos como “No moinho”, “Um poeta lírico” e “As singularidades duma rapariga loira” ele elabora temas de amores frustrados e relações falha­das por lhes faltarem um dos dois elementos vitais. O conto mais interessan­te, porém, em que Eça trata da polarização completa dos duplos aspectos humanos e das consequências do desequilíbrio resultante é “José Matias”, sem dúvida uma das obras mais complexas e mais originais de Eça.

O conto, inicialmente publicado em 1897, três anos antes da mor­te de Eça de Queirós, relata o caso intrigante de um homem que, durante vin­te anos, se prostra espiritualmente diante da mulher amada, consagrando a vi­da à sua paixão, mas recusando implacavelmente a posse física do objeto de tanta devoção . Por duas vezes, a divina Elisa se encontra viúva e pronta a premiar o admirador dedicado e, por duas vezes, José Matias foge dela, re­gressando só depois de ela voltar a ser esposa ou amante de outro homem.

A narração, escrita na primeira pessoa, apresenta a perspectiva de um antigo condiscípulo universitário de José Matias. A ponto de sair para o fu­neral de José Matias, o narrador encontra um amigo a quem convence de acompanhar o cortejo ao cemitério. Enquanto a procissão avança, o narra­dor fala com seu companheiro. Não se trata tanto de um diálogo como de um monólogo dramático. Só se ouve a voz do narrador. O companheiro per­manece invisível e silencioso durante todo o conto, embora se dê a com­preender que ele também toma parte na conversa. O narrador frequentemen­te comenta sobre as aparentes observações e reações do amigo. Como resultado desta técnica, o leitor transcende o seu papel passivo e parece participar diretamente na história que está a ouvir, como se tomasse o lu­gar do companheiro. Ê o narrador também que interpreta os acontecimentos e os personagens do conto. Ele define Jo­sé Matias como “um doente, …atacado de hiper espiritualismo … um ultra-romântico” que só aceita um amor espiritual porque reconhece a relação incompatível que existe entre os sonhos e a vida, entre a imagem Ideal do amor e o desengano que encerra a realização do amor.

 

Amanhã tem mais!

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