Gosto–segunda parte

Para expressar esta dicotomia em “José Matias”, Eça ressuscita um dos mitos capitais da literatura ocidental, de origem na poesia provençal do século XII. Essencialmente, ele escreve uma versão moderna de amor cor­tês. Todos os elementos principais que denotam o caráter especial do amor cortês aparecem neste conto escrito, aliás, na época em que preva­leciam os conceitos intelectuais contrários do naturalismo e do positivismo. A primeira regra na prática de amor cortês era obediência à sua lei por cima das outras, incluindo a promessa matrimonial e a lealdade feudal. O amante assumia a posição subserviente de vassalo e prometia homenagem eterna a sua dama. Assim procede José Matias desde o momento em que avista Elisa e sente um amor que ó “forte, profundo, absoluto, submisso e su­blime”. Por todo o resto da sua vida ele dedica-se total e exclusivamente à sua paixão. Mesmo quando não vê a mulher amada, José Matias sente sua presença espiritual.

Janta sozinho, mas com velas e flores na mesa, escutando a voz da invisível Elisa. Adorna quarto, carruagens e camarote na ópera com luxo digno da companheira ausente. Todas as ações que revelam outro as­pecto de amor cortês – a importância da ausência no desenvolvimento do amor cortês é, essencialmente, amor de nostalgia que vive do próprio poder entusiasta e nem precisa conhecer a amada. O único contato pessoal entre José Matias e Elisa acontece durante os primeiros dez anos da sua rela­ção, quando se encontram no jantar dos domingos na casa da tia de José Matias. O resto do tempo, vivem separados pelo muro que divide suas casas vizinhas – uma convenção que já existe no século XIII como símbolo do amor impedido. A distância é essencial para que o amor possa atingir a mais alta espiritualidade sem a ameaça devastadora de realização. José Matias ama Eli­sa com um amor que se não desilude nem se farta, porque permanece “sus­penso, imaterial, insatisfeito”.

Segundo Denis de Rougemont, o amor passional na Europa surgiu como reação à doutrina matrimonial do Cristianismo. O casamento representava uma transação meramente material por meio da qual um nobre adquiria a riqueza da mulher e a mulher conseguia segurança e proteção. Era um con­trato que só implicava uma união física. No conto de Eça, todas as referên­cias ao matrimônio compreendem uma associação física ou procriadora. Tor­res Nogueira, segundo marido de Elisa, aparece como simples possuidor car­nal, um “bruto”. Falando da recompensa que José Matias vai receber depois da morte de Matos Miranda, o primeiro marido de Elisa, o narrador antecipa “um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos…” Mas José Ma­tias recusa as materialidades do casamento, “as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis mess, os meninos berrando no berço molhado”. Em resumo, o matrimônio representa uma relação material, física, totalmente incompatível com os ideais do amor puro, do amor espiri­tual que não se realiza.

No amor cortês, portanto, é preciso evitar a consu­mação do amor e por isso tem que existir alguma obstrução. Paradoxalmen­te, apesar do menosprezo com que é visto, o estado matrimonial da amada funciona como o obstáculo mais eficaz. Casada, Elisa é inacessível e, por conseguinte, é o objeto perfeito do amor cortês. Quando cai a barreira pro­tetora encarnada por Matos Miranda, José Matias fica sem defesa. Imedia­tamente abandona sua posição vulnerável e só regressa quando Elisa, repu­diada por ele, casa com Torres Nogueira e restaura o impedimento indispen­sável. Então José Matias pode recomeçar a adorar a mulher ideal livre do pe­rigo de possessão. Na verdade, o verdadeiro objetivo do amor cortês não era a mulher como ser humano, mas como ente ideal, símbolo do conceito da perfeição mais pura. Visto que tal sublimação da mulher incitava um amor contrário ao casamento, a partir do século XII a Igreja lutou contra essa ameaça, ten­tando desviar a corrente para um canal mais aceitável – para a adoração da Virgem Maria. A diversão triunfou, em parte porque a poesia lírica já então expressava o sentimento religioso da época, empregando a retórica devocional. Os objetos profanos eram idealizados em termos religiosos, com a pala­vra “adorar” no lugar de metáfora predominante e sinônimo de “amar”. A atitude de José Matias para com Elisa é descrita sempre em termos devocionais, e ela é constantemente associada com a Virgem sublimada. Usa-se a mesma figura para descrever a reação de José Matias quando Elisa se casa com Torres Nogueira.

O sentimento deste extraordinário Matias era o de um mon­ge, prostrado ante uma imagem da Virgem em transcendente en­levo – quando, de repente, um bestial sacrílego sobe no altar e ergue obscenamente a túnica da imagem.

A angústia de José Matias a partir das segundas núpcias de Elisa é outro exemplo do mito, visto o sofrimento constituir uma parte capital do ri­tual do amor cortês. Para alcançar plena consciência de si mesmo, o amor-paixão tinha que incluir padecimento, ainda mais talvez do que êxtase. É a ex­periência paradoxal da doença que deleita, da “ferida que dói e não se sente”, de Camões e Petrarca. Segundo Rougemont, Tristão, o paradigma do amante cortês, não ama Isolda, mas o amor mesmo. Para além do amor, ama a morte. Isolda é só um pretexto. O instinto de morte é transfigurado pelo mito que lhe confere um fim espiritual. Destruir-se, desprezar a felicidade, é o caminho para a salvação e para alcançar uma vida superior. Portanto, o amor cortês tem que seguir o rumo do padecimento para atingir sua verda­deira meta – a morte. José Matias, de fato, renuncia toda a possibilida­de de felicidade mundana e, finalmente, a própria vida. Não se destrói du­ma maneira rápida ou dramática, mas por um processo lento de degenera­ção. Ele próprio levanta os obstáculos contra seu amor e rejeita a vida. No final, fica apenas a morte para oferecer à sua paixão como ato de preito.

Jacinto do Prado Coelho afirma que no fim do conto Eça “exalta liri­camente o idealismo amoroso, depois de tê-lo aviltado com diabólica sere­nidade”. Ê verdade que a última imagem que permanece na mente do leitor é a do amante carnal de Elisa colocando um ramo de violetas na cova do amante espiritual – a matéria prestando a homenagem final ao espírito. A última impressão que é dada de Matias – magro, alcoólico, esfarrapado, sub-repticiamente a manter sua vigília no­turna frente a casa de Elisa, enquanto o Apontador de Obras Públicas faz sua visita diária “enfiando regaladamente o portão, bem vestido, bem cal­çado, de luvas claras, com aparência de ser infinitamente mais ditoso na­quelas obras particulares do que nas Públicas”. Finalmente, é a rela­ção ilegítima e física que goza um contentamento sereno. O amante espiri­tual, ao contrário, leva uma existência sórdida e clandestina e sofre uma morte degradante.

E óbvio que o tom do conto é ambivalente, como se Eça não estivesse certo de sua própria atitude para com José Matias. Existem várias ambigui­dades que não são resolvidas, apesar de que o narrador dá a impressão de que a história de José Matias, embora singular, fica completamente escla­recida por ele. É uma impressão errônea. O primeiro enigma que se deve salientar diz respeito à perspectiva empregada por Eça. Falta completa­mente o ingrediente capital de revelação confidencial principalmente porque o narrador não é amigo íntimo de José Matias. Suas explicações represen­tam geralmente interpretações subjetivas de um homem cuja vaidade o obriga a julgar-se sabedor de tudo, mesmo do que realmente não compre­ende. Cada vez que José Matias faz alguma coisa inesperada, o narrador fa­brica uma nova teoria que ele então considera a única, a perfeita explica­ção lógica do caso. A verdade, porém, é que ele nunca compreende José Matias.

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