Lapsos de lógica

Acabo de receber a notícia do falecimento de Márcia Hope Navarro. Uma mulher que conheci em Santa MariaRS, com quem me encontrei algumas vezes ao longo dos anos e que admirava, mesmo à distância. Uma mulher bonita. Ela se foi, num momento de muito sofrimento, mas com muita serenidade, segundo a notícia que recebi. Falar de morte é complexo, pois a gente sempre se diz “preparado”, sempre acreditar estar “se preparando”, mas ela sempre noa apanha um momento inesperado, por mais anunciada que se faça. A perda é um choque, sempre. Depois da notícia triste, recebo mensagem eletrônica de Criz Otoya, que repassa comentário de uma amiga sua. As duas coisas me tocaram, cada uma a seu modo, mas instaurando a certeza de certa “lógica”, ainda que oculta, ou implícita. Abaixo, o texto da mensagem repassada, para reflexão…

“Regina é uma pessoa altamente qualificada. Não é qualquer uma “achando” isso ou aquilo. Voltei da Coreia, e ainda estou sob o impacto da viagem…Pra mim que fui olhar educação regular e profissional foi um choque… Uma massa de menininhos sendo super bem formada sobretudo em matemática e ciência. Escolas publicas super estruturadas, professores muito bem qualificados e remunerados decentemente, museus de ciência maravilhosos e super
interativos, muiiiito estudo (tudo bem que tem o apoio e ate a pressão da família, mas eles gostam de estudar, a verdade e essa. Não ninguém triste na escola, nem com cara de bunda, ao contrário do que a gente gosta de supor pra desqualificar a revolução educacional que eles fizeram como mero fruto de autoritarismo. Acho que a gente confunde disciplina com autoritarismo, e liberdade com bundalele. Os garotos tem o projeto de ler 1000 livros ate o fim do Ensino Médio… Ah… A maioria das crianças tem pai e mãe, coisa boa pra ao menos ter somente os conflitos neuróticos típicos, ao invés de ser largado no mundo e cair na violência como nossos meninos pobres. Fora isso, contam com suas praticas milenares de alimentação, pra nos estranhas mas saudáveis. E engraçado ver os caras comendo e dizendo: isso e bom pros hormônios, aquilo
e bom pra memória, aquilo outro pra concentração, etc, etc. Comida tem que ser boa para o pensamento… Ainda de quebra são budistas, uma religião menos obscurantista e mais conciliada com a investigação individual sobre a vida e as descobertas cientificas, não essa nossa patética religião ocidental de Inquisição pra defender a terra quadrada, pra negar o evolucionismo, etc, etc. Alias, lindos templos budistas … Nunca consegui achar um que prestasse aqui, yoga e budismo viraram pastiche na Barra da Tijuca e Zona Sul. Sabe que até a delicadeza das mulheres me pareceu delicadeza mesmo?
Ou seja prezado, como diriam os antropólogos, a gente se conhece pelo outro, e nunca tive uma visão tão clara do quanto a sociedade brasileira adora viver só de ilusão, de uma certa fantasia sobre virtudes que já passaram do ponto há muito tempo, e obviamente mudaram de sinal: liberdade e informalidade que virou falta de respeito por tudo, tipo se achar revolucionário porque sai, xinga e bate a porta na cara do professor, ou coisas que o valha (achei o máximo ver os garotos correndo e brincando na escola, mas também sendo capazes de abaixar a cabeça pra cumprimentar o professor, lindo isso, sabe, humano, civilizado, to de saco cheio dessa rebeldia sem causa no Brasil, todo mundo se achando revolucionário porque
manda recadinho achincalhando tudo e todos na internet). E o que dizer do jogo de cintura, que acabou levando a essa ideologia de todo mundo se virando e do vale tudo pra se dar bem, corrupção de cima abaixo? (quem dera fosse só na política…). Sem falar no dinheiro fácil, a grande meta acenada pros pobres, todo mundo virar jogador de futebol e ganhar rios de dinheiro, mesmo sendo analfabeto e matando a namorada… Coisa primitiva… E o que dizer da classe media tranformando tudo em pizza, consumindo livro de auto ajuda achando que e filosofia?


Eu juro que to legal, cansei de toda essa idealização da brasilidade, e
dessa vocação do Brasil de ser o pais pra inglês ver, tudo no papel, tudo pela rama, legislação avançada, e na realidade nada, Idéias lindas… realidade feia ou superficial… Desculpe o pessimismo, mas e que trabalho com educação, e a coisa não esta fácil, tudo por fazer, talvez estivesse vendo as coisas mais coloridas se estivesse em outra área. Agora eu pergunto, será que vamos passar por outro período de crescimento em tantas áreas, industria, cultura, cinema, tecnologia, sobretudo no RJ, sem mudar nada, ficando só no clássico pagodinho e na contravenção? Não vamos aproveitar pra civilizar mais esse pais? E os negros, ficarão fora novamente das oportunidades? Alguém tem duvida de que haverá imigração? Ora, virão muitas empresas, e claro, o pais e a bola da vez com esse
mercadao inexplorado e esse mundo de recursos naturais… E virão hordas de estrangeiros também pra trabalhar… sobretudo orientais… hordas…
Escreve o que eu estou dizendo…
Sei lá, sei lá…
Beijo
Regina”

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Uma semana

 

Falta apenas uma semana para 2011 terminar. O começo de 2012 vai ser o mesmo, como sempre: os votos, as esperanças, as reflexões, as experiências, as decepções… tanta coisa! Recebi a mensagem abaixo de um amigo e compartilho para quem quiser gastar uns segundos lendo… Não é muita gente, eu sei, mas há olhos curiosos espalhados pela face do planeta. E a gente não é capaz de mensurar isso… Depois, uma curiosidade, também recebida de um amigo (daí a ausência de fontes, recebi do jeitinho que repasso!). Vamos ver se escrevo mais alguma coisa antes do ano findar!

Feliz Natal!

“Olá! como vai? Dentro de alguns dias, um Ano Novo vai chegar a esta estação. Se não puder ser o maquinista, seja o seu mais divertido passageiro. Procure um lugar próximo à janela e desfrute cada uma das paisagens que o tempo lhe oferecer, com o prazer de quem realiza a primeira viagem.
Não se assuste com os abismos nem com as curvas que não lhe deixam ver os caminhos que estão por vir. Procure curtir a viagem da vida, observando cada arbusto, cada riacho, beirais de estradas e tons mutantes de paisagens.
Desdobre o mapa e planeje roteiros. Preste atenção em cada ponto de parada, e fique atento (a) ao apito da partida. E quando decidir descer na estação onde esperança lhe acenou não hesite.
Desembarque neles seus sonhos… Desejo que sua viagem pelos dias de 2012 seja de Primeira Classe.”

“Durante a Idade Média os livros eram escritos à mão pelos copistas. Precursores dos taquígrafos, os copistas simplificavam seu trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido (tempo era o que não faltava, naquela época!). O motivo era de ordem econômica: tinta e papel eram valiosíssimos.

Assim, surgiu o til (~), para substituir o m ou n que nasalizava a vogal anterior. Se reparar bem, você verá que o til é um enezinho sobre a letra.

O nome espanhol Francisco, também grafado Phrancisco, foi abreviado para Phco e Pco – o que explica, em Espanhol, o apelido Paco, comum a quase todo Francisco.

Ao citarem os santos , os copistas os identificavam por algum detalhe significativo de suas vidas. O nome de São José, por exemplo, aparecia seguido de Jesus Christi Pater Putativus, ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde, os copistas passaram a adotar a abreviatura JHS PP, e depois, simplesmente, PP. A pronúncia dessas letras em sequência explica por que José, em Espanhol, tem o apelido de Pepe.

Já para substituir a palavra latina et (e), eles criaram um símbolo que resulta do entrelaçamento dessas duas letras: o &, popularmente conhecido como e comercial em Português, e ampersand, em Inglês, junção de and (e, em Inglês), per se (por si, em Latim) e and.

E foi com esse mesmo recurso de entrelaçamento de letras que os copistas criaram o símbolo @, para substituir a preposição latina ad, que tinha, entre outros, o sentido de casa de.

Foram-se os copistas, veio a imprensa – mas os símbolos @ e & continuaram firmes nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço. Por exemplo: o registro contábil 10@£3 significava 10 unidades ao preço de 3 libras cada uma. Nessa época, o símbolo @ significava, em Inglês, at (a ou em).

No século XIX, na Catalunha (nordeste da Espanha), o comércio e a indústria procuravam imitar as práticas comerciais e contábeis dos ingleses. E, como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses davam ao símbolo @ (a ou em), acharam que o símbolo devia ser uma unidade de peso. Para isso contribuíram duas coincidências:

1 – A unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba, cuja inicial lembra a forma do símbolo;

2 – Os carregamentos desembarcados vinham frequentemente em fardos de uma arroba. Por isso, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registro de 10@£3 assim: dez arrobas custando 3 libras cada uma. Então, o símbolo @ passou a ser usado por eles para designar a arroba.

O termo arroba vem da palavra árabe ar-ruba, que significa a quarta parte: uma arroba (15 kg , em números redondos) correspondia a ¼ de outra medida de origem árabe, o quintar, que originou o vocábulo português quintal, medida de peso que equivale a 58,75 kg .

As máquinas de escrever, que começaram a ser comercializadas na sua forma definitiva há dois séculos, mais precisamente em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar seus originais datilografados), trouxeram em seu teclado o símbolo @, mantido no de seu sucessor – o computador.

Então, em 1972, ao criar o programa de correio eletrônico (o e-mail), Roy Tomlinson usou o símbolo @ (at), disponível no teclado dessa máquina, entre o nome do usuário e o nome do provedor. E foi assim que Fulano@Provedor X ficou significando Fulano no provedor X.

Na maioria dos idiomas, o símbolo @ recebeu o nome de alguma coisa parecida com sua forma: em Italiano, chiocciola (caracol); em Sueco, snabel (tromba de elefante); em Holandês, apestaart (rabo de macaco). Em alguns, tem o nome de certo doce de forma circular: shtrudel, em iídisch; strudel, em alemão; pretzel, em vários outros idiomas europeus. No nosso, manteve sua denominação original: arroba.”

Natal

Como faço todos os anos, dias antes do Natal, saio com minha mãe para ver a decoração da cidade. Pampulha, centro, Praça do papa, Cemig. Neste ano, perdi a avenida Brasil que, diz um amigo, está linda. A decepção foi grande com a escuridão total do bairro ao redor da praça do papa. Uma pena, pois a vista da cidade que de lá se tem ficava ainda mais bonita com as luzes e as cores da decoração. Mesmo a pipoca com queijo que lá experimentei pela primeira vez, perdeu um pouco do charme. Uma pena…

Além disso, incompreensível – apesar de, com toda a certeza, explicável pelos “compreensivos” de plantão – a opção da BHTrans em fechar o acesso à praça, para quem vem subindo a Cristóvão Colombo e à continuação da Gonçalves Dias, obrigando o retorno pela avenida João Pinheiro. Incompreensível, além de impedir a vista, em trânsito, das maravilhas que a engenharia da luz consegue produzir. Outra pena…

Em compensação, a avenida Barbacena, nos quarteirtões ocupados pela Cemig, ficou mais uma vez deslumbrante. O vermelho da avenida, contrastando com o verde-prateado das árvores e com o colorido das estrelas de Belém, ao longo das quatro faces do majestoso prédio da sede da companhia… Por aí se pode ver onde vai boa parte do dinheiro que se paga mensalmente pela energia elétrica da/na cidade. E isso não é justificativa que caiba…

Enfim, é Natal e as ruas, maios umavez, como os shopping centrers, apinhados de gente sobraçando sacolas e fazendo poses de “modernos” na cada vez mais descatacterizada comemoração do calendário gregoriano. Confesso que não gosto mais desta festa, mas das luzes…

Dúvidas e sonhos

 

Não sei o que fazer com ele. Aos vinte anos, quase vinte e um, ainda não parece ter definido o que deseja da própria vida. As horas passam, os dias se vão, e a ladainha é a mesma. Um silêncio de esfínge e um olhar vago como o de um oráculo que não deseja revelar seu segredo. Aos vinte anos, eu á queria sair de casa. Não sabia bem como, mas o desejao latejava insatisfeito… Mas isso é um pleonasmo… Neste período, era comum sonhar que estava numa sala de espetáculos. O show termina, cai o pano – expressão deliciosamente perfeita, em sua explicitude visual. Todos se levantam e aplaudem, Eu, no entanto, era o único que estava nu: motivo de vergonha, embaraço e, às vezes, acabava de dormir molhado…

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De outra feita, como eu era nadador, também foram muitas as vezes que sonhei que, na virada dos cinquenta metros, na minha especialidade, nado de costas, eu não conseguia sair da água. Quando fui atleta – amador, coisa que os “ atletas”  de hoje não sabem reconhecer, porque não fazem ideia do que seja praticar esporte pelo prazer de praticar esporte. Quase ninguém se preocupava em ganhar dinheiro, antes de tudo e acima de qualquer coisa – o tempo passa… Pois a falta de ar, na virada dos cinquenta metros, me deixava sem fôlego e eu acordava, angustiado, claro.

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Mais comum ainda era o sonho em que eu corria desesperado na beira de um precipício, fugindo de alguma coisa, de alguém, que me perseguia. Jamais soube quem era meu persecutor… Ui, que palavra difícil!

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Mais tarde, já com alguns anos rodados, e bem rodados, comecei a sonhar com ruínas, ou ruelas sujas, escuras e úmidas. Sempre à entrada de um casario confuso, de onde não conseguia sair. Não faz tanto tempo assim que comecei com esses sonhos…

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O mais estranho de tudo isso é que na última quinta-feira sonhei que tinha morrido. Uma sensação de leveza, torpor e medo, tomou-me enquanto eu me via subindo, subindo, no famigerado corredor de uz, acima dos corpo. E ao chegar em algum lugar – não ouso inventar um nome ou, mesmo, utilizar um dos mais comuns, sob pena de falsear a sensação ainda nítida – comecei a chorar. Não sabia bem porque, mas vi algumas pessoas queridas que já desencarnaram e chorava, copiosamente. Sentia um misto de alívio, medo, prazer e temor. Sem possibilidade de definir exatamente em palavra a experiência…

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Freud usou a mesma fonte etimológica para cunhar os conceitos de “trauma” e de “sonho”. Em Português, essa sutileza se perde, mas em alemão… Ainda bem que não tive de aprender alemão para ler Freud. Melhor ainda é saber que ainda sou capaz de me lembrar de alguns sonhos…

Gosto – final

A última condição do amor descrito por Freud requer que a mulher seja desacreditada sexualmente de alguma maneira. Pode ser uma prostituta ou simplesmente uma mulher casada e um tanto frívola. Este aparente para­doxo de uma mãe-substituta que é moralmente impecável e também ma­culada reflete a descoberta pela criança da sexualidade adulta e da cum­plicidade da mãe no ato. O resultado é uma dicotomia na imagem que a criança tem da mãe e que logo perturbará as relações do homem com ou­tras mulheres. Elisa é, claramente, a figura composta da mãe. Ela simboliza a “madona virginal”, a inacessível divindade do altar, durante os dez anos de matrimônio com Matos Miranda. Esta época representa o primeiro con­ceito da mãe como a imagem da pureza. Com seu casamento com Torres Nogueira, porém, Elisa comete um ato de infidelidade que a deixa desa­creditada sexualmente, ou profanada. Depois, ela confirma sua nova iden­tidade como mulher licenciosa ao aceitar um amante. Esta nova relação, porém, não atormenta José Matias apesar de que desta vez a ligação é ilí­cita e, portanto, de significado mais sensual. E precisamente a existência do aspecto predominantemente físico que explica a segunda mudança na atitude de José Matias. Ao passo que Torres Nogueira era igualmente rival e ideal ina­tingível – a quintessência do homem integral que José Matias não é – o Apontador de Obras Públicas representa o lado exclusivamente físico do amor. Nem tem nome particular. O amante é, como Matias, incapaz de cum­prir todos os aspectos do papel masculino. Ele representa o lado suprimido de José Matias, seu alter ego físico. Os dois não competem; complementam-se. O gesto do amante no cemitério expressa homenagem, mas também sim­boliza o encontro e a integração, por fim, da alma e do corpo polarizados quando, ironicamente, a união já não pode ter lugar.

Apesar de “José Matias” exemplificar um caso quase clinicamente per­feito de impotência psíquica, nada deve a Freud. Não se pode falar de ne­nhuma influência freudiana porque Freud não publicou nada sobre o pro­blema até duas décadas depois de aparecer o conto português. “José Ma­tias é a criação de Eça de Queirós – criação original e de aguda percepção psicológica, embora provavelmente represente uma proje­ção da subconsciência do autor e não uma percepção consciente. A literatura frequentemente serve de depósito para motivos e im­pulsos que o ser humano não quer ou não pode confrontar abertamente na vida verdadeira. “José Matias” é, antes de tudo, obra literária na qual Eça emprega com maestria todos os recursos mais característicos de sua arte estética e narrativa – linguagem viva e espirituosa, acerto nos traços descritivos, originalidade imaginativa das personagens e da intriga, e fino humor que dá o tom tão especial à composição. Possui, porém, valores para além dos puramente literários ou técnicos.

Por meio da elaboração de uma história singular de amor cortês no século XIX, Eça consegue expor os diversos aspectos recônditos de uma aberração psicológica ainda não reco­nhecida nem estudada pelos especialistas médicos da época. José Matias é, de fato, um “doente”, como afirma o narrador, mas sua enfermidade pro­vém da sua incapacidade de oferecer o amor completo que Elisa lhe ins­pira. Ele não foge das materialidades do casamento mas do terrível peca­do que a união física representa para ele. Vive e morre atormentado por uma natureza enfezada e por um amor desequilibrado. Não é o amor que o destrói, é a falta de amor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COELHO, Jacinto Prado. As ideias e as formas. Ocidente. Lisboa, v. XXVIII, n. 95, p. 40-43, maio 1946.

QUEIRÓS, José Maria Eça de. Contos. Porto: Lello & Irmão, s/d.

FERRO. Túlio Ramires. O conceito de civilização nos contos de Eça de Queirós. Porto: Porto Editora, s/d.

FREUD, Sigmund. On creativity and the uneonscious. New York: Harper, 1958.

MARTINS, António Coimbra. Eça e ETA. Bulletin des études français. Lisboa, n. 5, 1967, p. 287-325.

ROUGEMONT, Denis de. Love in the Western World. Trad. Montgamcry Belgion. New

York: Pantheon, 1956.

SIMÕES. João Gaspar. Eça de Queirós: o homem e o artista. Lisboa: Rio dc Janeiro, Dois Mundos, 1946.

Gosto – terceira parte

Quando José Matias recusa casar-se com Elisa depois da morte de Matos Miranda, o narrador confessa, com rara honestidade, sua confusão total e sua inabilidade de encontrar uma explicação psicologicamente válida. Em breve, porém, vence sua perplexidade e declara que o ato de José Matias é devido a um excesso de espiritualismo e ao receio das materiali­dades do casamento e das realidades fortes da vida. Quando, depois do ca­samento de Elisa e Torres Nogueira, Matias não consegue recobrar a subli­me felicidade dos primeiros dez anos de sua paixão, o narrador não vacila em explicar a razão: José Matias vê na mocidade, força e paixão física de Torres Nogueira uma ameaça contra seu ideal espiritual, em contraste com Matos Miranda, figura velha e doente e portanto sem força varonil. Se é verdade, porém, que Torres Nogueira é um distúrbio porque in­troduz um elemento erótico na abstração espiritual que Elisa representa para José Matias, então a situação com o Apontador de Obras Públicas deveria produzir um trauma muito pior. Não obstante, sucede tudo ao contrá­rio. Em vez de hostilidade, José Matias só parece sentir curiosidade e sim­patia. De novo, o narrador está pronto com sua explicação:

Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na alcova de Elisa publicamente, pela porta da igreja, e para outros fins humanos além do amor — para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas este era meramente o amante, que ele nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que os dois cor­pos se unissem. (p. 256)

Primeiro o narrador estabelece uma distinção entre os dois maridos, usan­do como base o poder físico de cada um: Matos Miranda é velho, doente e fraco; Torres Nogueira é o epítome de juventude e força bruta. Agora, po­rém, aparecem aliados em oposição ao Apontador, que assume um papel puramente sexual. Anteriormente, o sofrimento de José Matias fora atri­buído à intromissão do fator sexual. Agora, numa inversão total, o narra­dor decide que José Matias aceita gostosamente a nova situação porque quer que o corpo de Elisa seja tão bem servido como sua alma. São contra­dições que provam a confusão do narrador com respeito ao caráter e à conduta de José Matias. Não o compreende, mas para não desmentir a imensa estima que tem de si mesmo como pensador altamente racional e lógico, vê-se obrigado a fingir uma certeza que em realidade está bem lon­ge de sentir.

Então, porque é que Eça o escolhe como narrador? Porque, por exem­plo, não escreveu como autor onisciente ou usando o ponto de vista de Nicolau da Barca, amigo íntimo de José Matias e portanto possuidor de um conhecimento mais profundo do protagonista? A conclusão plausível é a de que Eça não quis oferecer uma revelação mais penetrante do seu protagonista, e que o narrador serve, em parte, para afastar o leitor de José Matias e, talvez, o autor mesmo de sua criação literária. De fato, a viva personalidade do nar­rador funciona frequentemente como distração, desviando a atenção do lei­tor de maneira que examine menos cuidadosamente as ações de José Ma­tias e aceite como certas as conclusões do narrador. Em realidade, porém, essas conclusões contêm contradições que não são resolvidas e provo­cam perguntas que precisam ser esclarecidas se o conto vai ceder todas as riquezas de sua temática complexa.

Na sua teoria da evolução psicológica das emoções do amor, Sigmund Freud afirma que o instinto do amor é o resultado de um desenvolvi­mento gradual que tem origem na infância. Essa evolução começa quando a criança se dá conta de que existe um mundo alheio, de outros seres, e focaliza seu carinho sobre a mãe. Porque a mãe ama o pai, este se torna não só num ideal que deve ser imitado, como também num rival que ins­pira ciúmes e hostilidade. Estas atitudes mudam devido à educação e à bar­reiras impostas pela sociedade, e, gradualmente, o objeto original de amor é substituído pela irmã e depois por outras mulheres parecidas com a mãe e com a irmã. Com a transferência do afeto a evolução normal fica com­pleta. Quando, porém, algum estorvo interrompe esta progressão natural, o resultado é uma desordem erótica que emerge mais tarde, na pessoa já adulta, como no caso de José Matias, que ilustra manifestações neuróticas características de impotência psíquica. Esta condição anormal é definida por Freud como a dissociação das duas correntes da emoção erótica – a ternura e a sexualidade. O homem, que oculta na subconsciência um amor incestuoso e portanto proibido, não pode ter uma relação completa com ne­nhuma mulher digna de respeito porque com esse tipo de mulher só é ca­paz de expressar sentimentos de ternura. A relação fica eroticamente Ine­ficaz, sem o estímulo sexual que o completaria.

Não é preciso salientar as manifestações de semelhante desligamento no amor de José Matias por Elisa. Os diversos exemplos, ao discutir o tema do amor cortês, estão aí! O amor de José Matias é “pura adoração”, “transcendentalmente desmaterializado”. Para o narrador, o amor platônico de Matias prova que ele é “desvairadamente espiritualista”. Para Freud, seria uma manifestação da resposta emocional restrita que Elisa inspira nele devido a sua neurose. Como ela é uma substituta pelo objeto de amor inces­tuoso reprimido, a satisfação sexual é impossível. Puxado por um amor pu­ro e um amor carnal, José Matias tem que procurar um objeto sexual me­nos estimável para satisfazer os impulsos sensuais que não pode expressar com a mulher amada. Durante o casamento de Elisa e Torres Nogueira, José Matias leva uma vida dissoluta, não só porque é uma maneira de fugir, mas porque assim afirma sua natureza física. Num ato culminante de abandono, ele aparece numa cena curiosa, à frente de um grupo de mulheres com quem não sente nenhuma inibição erótica:

Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais tor­pes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancolicamente, posto na frente, sobre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do Sol! (p. 248)

Matias conduz as mulheres à colina onde fica a Igreja da Braça, num ato sim­bólico que deverá reconciliar sua natureza dividida. Mas o gesto fracassa. Nas palavras do narrador, “todo este alarido não lhe dissipou a dor”. Também não o ajudou a estabelecer uma relação normal com Elisa.

Freud também fala das condições subconscientes que determinam a es­colha da amada. A condição mais Importante exige a presença de um par­ticipante ofendido. A mulher substitui a mãe, e o partícipe ofendido representa o pai. É evidente que Matos Miranda é um modelo pa­terno. O narrador fala da vida resguardada de Elisa “por imposição paternal do marido” e, em outro lugar, menciona o “regime paternal do Matos Mi­randa”. Torres Nogueira também representa a figura do pai, mas ao con­trário de Matos Miranda que a velhice elimina como ameaça, Torres No­gueira exemplifica o pai novo e viril, rival pelo afeto da mãe. É também o ideal que o filho tenta imitar. Estas fantasias da subconsciência explicam o sofrimento de José Matias durante os anos do segundo casamento de Elisa. Ele compreende que não pode competir com Torres Nogueira, o ho­mem completo que oferece a Elisa o elemento sexual do amor que ele não lhe pode dar. Torres Nogueira força José Matias a dar-se conta de sua insuficiência, e a confrontação com essa realidade o devasta. Ele se vê, co­mo devia ser, em Torres Nogueira. Realmente os dois homens só se dife­renciam na cor dos cabelos: José Matias é louro e Torres Nogueira é moreno, um recurso literário bem convencional que Eça emprega frequentemente nas suas obras para contrastar o predomínio de aspectos físicos ou espirituais nas perso­nagens. Do resto, José Matias e Torres Nogueira são reflexos um do outro em tudo, tanto em caráter como em posição social. Ainda que se já possível perceber, implícita, certa oposição, de ordem comportamental, entre eles.