Incômodo

 

“Eu fico mal todas as vezes que tenho que falat dele do jeito que fiz hoje. Aos vinte anos, eu já sabia tanta coisa mais, já fazia tanta coisa mais, já sonhava tanta coisa mais. Claro está que não havia computador. Também é claro que existia esporte amador, mas “amador” de verdade. A prática se dava por prazer de praticar, sem ganhar nada para isso. As disputas eram saudáveis e não se submetiam a mercado, ibope, patrocínio, estatísticas, imagem e quejandos. Esporte amador não existe mais. O computador substituiu o papel de carta e o envelope e o selo. Ele tem só vinte anos e passa os dias como aqueles autômatos que perambulam pelas ruas das cidades, com fones de ouvido “plugados” a telefones celulares, falando, falando, falando. Autômatos. Ele jamais sabe de alguma coisa. Perde documentos, não se interessa por convovências familiares, sempre tem a tranquilidade de dizer que, no fim, há sempre alguém para levá-lo onde ele quiser e/ou precisar. Isso me irrita e me amedronta. A falta de paciência e de interesse dele também me irrita. Já pensei que fosse egoísmo ou desdém, mas é menos, bem menos. Desatenção não diz tudo, mas aponta para a direção mais certa. Faz calor agora e eu estou incomodado, muito incomodado com mais uma cena, repetida, igual. O embate das idades na minha cara. De um lado a velhice, de outro, uma juventude que parece ao mesmo tempo tranquila e perdida. Perdida em seus horizontes. Nada interessa, apenas a tela do monitor, os jogos eletrônicos, a conversa “virtual” com pessoas que, as vezes, aparecem por aqui e, como vândalos, devoram quilos de salsicha cozida numa sopa grossa de tempero enlatado, litros de coca-cola (assim mesmo, com minúsculas… afinal, não é uma metonímia…). Eles chegam, educados, tímidos, muito tímidos, como a gente não estava acostumado a ser quando dos vinte anos que já ficaram pra trás. Timidez era na adolescência… Aos vinte, a gente já trabalhava, já saía sozinho à noite, fazia noitadas, viajava sozinho, tinha sonhos e adorava dizer que viver em casa dos pais era babaquice, coisa de gente imatura. A rebeldia estava no ar como oxigênio, numa mistura explosiva com os hormônios. Hoje, aos vinte, ele me provoca e me faz ficar incomodado com o que eu digo… Muito incomodado… Mas comigo mesmo!”

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Um pouco de graça

 

Meus humores andam um tanto alterados: calor, impaciência, a loucura de algumas pessoas, a irresponsabilidade de médicos que não atendem no horário marcado (todo mundo sabe que se a gente atrasa, perde a vez!)… Pra não retomar minhas postagens nesse “clima”, resolvi colocar aqui uma postagem (nossalinguabrasileira.wordpress.com) alheia que li agorinha… É divertida! Aí vai:

 

“Língua brasileira

autor: Kledir Ramil

Outro dia eu vinha pela rua e encontrei um mandinho, um guri desses que andam sem carpim, de bragueta aberta, soltando pandorga. Eu vinha de bici, descendo a lomba pra ir na lancheria comprar umas bergamotas…’ Se você não é gaúcho, provavelmente não entendeu nada do que eu estava contando.

No Rio Grande do Sul a gente chama tangerina de bergamota e carne moída de guisado. Bidê, que a maioria usa no banheiro, é nome que nós demos para a mesinha de cabeceira, que em alguns lugares chamam de criado-mudo. E por aí vai. A privada, nós chamamos de patente. Dizem que começou com a chegada dos primeiros vasos sanitários de louça, vindos da Inglaterra, que traziam impresso ‘Patent’ número tal. E pegou.

Ir aos pés no RS é fazer cocô. Eu acho tri elegante, poético. ‘Com licença, vou aos pés e já volto’. Uma amiga carioca foi passear em Porto Alegre e precisou de um médico. A primeira coisa que ele perguntou foi: ‘Vais aos pés normalmente, minha filha?’ Ela na mesma hora levantou e começou a fazer flexão.

O Brasil tem dessas coisas, é um país maravilhoso, com o português como língua oficial, mas cheio de dialetos diferentes. No Rio de Janeiro é ‘e aí merrmão! CB, sangue bom!’ Até eu entender que merrmão era “meu irmão” levou tempo. Pra conseguir se comunicar, além de arranhar a garganta com o ‘erre’, você precisa aprender a chiar que nem chaleira velha: ‘vai rolá umasch paradasch inschperrtasch.’.

Na cidade de São Paulo eles botam um ‘i’ a mais na frente do ‘n’: ‘ôrra meu! Tô por deintro, mas não tô inteindeindo o que eu tô veindo’. E no interiorr falam um ‘erre’ todo enrolado: ‘a Ferrrnanda marrrcô a porrrteira’. Dá um nó na língua. A vantagem é que a pronúncia deles no inglês é ótima.

Em Mins, quer dizer em Minas, eles engolem letras e falam Belzonte, Nossenhora. Doidemais da conta, sô! Qualquer objeto é chamado de trem. Lembrei daquela história do mineirinho na plataforma da estação. Quando ouviu um apito, falou apontando as malas: ‘Muié, pega os trem que o bicho ta vindo’.

No Nordeste é tudo meu rei, bichinho, ó xente. Pai é painho, mãe é mainha, vó évóinha. E pra você conseguir falar com o acento típico da região, é só cantar a primeira sílaba de qualquer palavra numa nota mais aguda que as seguintes. As frases são sempre em escala descendente, ao contrário do sotaque gaúcho.

Mas o lugar mais interessante de todos é Florianópolis, um paraíso sobre a terra, abençoado por Nossa Senhora do Desterro. Os nativos tradicionais, conhecidos como Manezinhos da Ilha, têm o linguajar mais simpático da nossa língua brasileira. Chamam lagartixa de crocodilinho de parede. Helicóptero é avião de rosca (quedeve ser lido rôschca). Carne moída é boi ralado. Se você quiser um pastel de carne, precisa pedir um envelope de boi ralado. Telefone público, o popular orelhão, é conhecido como poste de prosa e a ficha de telefone é pastilha de prosa. Ovo eles chamam de semente de galinha e motel é lugar de instantinho. Dizem que isso tudo vem da colonização açoriana, inclusive a pronúncia deliciosa de algumas expressões, como ‘si quéisch quéisch, si não quéisch, disch’.

Se você estiver por lá, viajando de carro, e precisar de alguma informação sobre a estrada pra voltar pra casa, deve perguntar pela ‘Briói’, como é conhecida a BR-101.

Em Porto Alegre, uma empresa tentou lançar um serviço de entrega a domicílio de comida chinesa, o Tele China. Só que um dos significados de china no RS é prostituta. Claro que não deu certo. Imagina a confusão, um cara liga às duas da manhã, a fim de uma loira, e recebe como sugestão Frango Xadrez com Rolinho Primavera e Banana Caramelada.

Tudo isso é muito engraçado, mas às vezes dá problema sério. A primeira vez que minha mãe foi ao Rio de Janeiro, entrou numa padaria e pediu: ‘Me dá um cacete!!!. Cacete pra nós é pão francês. O padeiro caiu na risada, chamou-a num canto e tentou contornar a situação. Ela ingenuamente emendou: ‘Mas o senhor não tem pelo menos um cacetinho?

(N. do T. – mandinho é garoto, carpim é meia, bragueta é braguilha, pandorga é pipa, bici é bicicleta, lomba é ladeira, lancheria é lanchonete.)”

Absurdo

 

Repassando…

Porto Alegre (RS), 16 de julho de 2011

Caro Juremir (CORREIO DO POVO/POA/RS)

Meu nome é Maurício Girardi. Sou Físico. Pela manhã sou vice-diretor no Colégio Estadual Piratini, em Porto Alegre , onde à noite leciono a disciplina de Física para os três anos do Ensino Médio. Pois bem, olha só o que me aconteceu: estou eu dando aula para uma turma de segundo ano. Era 21/06/11 e, talvez, “pela entrada do inverno”, resolveu também ir á aula uma daquelas “alunas-turista” que aparecem vez por outra para “fazer uma social”. Para rever os conhecidos. Por três vezes tive que pedir licença para a mocinha para poder explicar o conteúdo que abordávamos.

Parece que estão fazendo um favor em nos permitir um espaço de fala. Eis que após insistentes pedidos, estando eu no meio de uma explicação que necessitava de bastante atenção de todos, toca o celular da aluna, interrompendo todo um processo de desenvolvimento de uma idéia e prejudicando o andamento da aula. Mudei o tom do pedido e aconselhei aquela menina que, se objetivo dela não era o de estudar, então que procurasse outro local, que fizesse um curso à distância ou coisa do gênero, pois ali naquela sala estavam pessoas que queriam aprender’ e que o Colégio é um local aonde se vai para estudar. Então, a “estudante” quis argumentar, quando falei que não discutiria mais com ela.

Neste momento tocou o sinal e fui para a troca de turma. A menina resolveu ir embora e desceu as escadas chorando por ter sido repreendida na frente de colegas. De casa, sua mãe ligou para a Escola e falou com o vice-diretor da noite, relatando que tinha conhecidos influentes em Porto Alegre e que aquilo não iria ficar assim. Em nenhum momento procurou escutar a minha versão nem mesmo para dizer, se fosse o caso, que minha postura teria sido errada. Tampouco procurou a diretoria da Escola.

Qual passo dado pela mãe? Polícia Civil!… Isso mesmo!… tive que comparecer no dia 13/07/11, na 8.ª (oitava Delegacia de Polícia de Porto Alegre) para prestar esclarecimentos por ter constrangido (“?”) uma adolescente (17 anos), que muito pouco frequenta as aulas e quando o faz é para importunar, atrapalhar seus colegas e professores’. A que ponto que chegamos? Isso é um desabafo!… Tenho 39 anos e resolvi ser professor porque sempre gostei de ensinar, de ver alguém se apropriar do conhecimento e crescer. Mas te confesso, está cada vez mais difícil.

Sinceramente, acho que é mais um professor que o Estado perde. Tenho outras opções no mercado. Em situações como essa, enxergamos a nossa fragilidade frente ao sistema. Como leitor da tua coluna, e sabendo que abordas com frequência temas relacionados à educação, ”te peço, encarecidamente, que dediques umas linhas a respeito da violência que é perpetrada contra os professores neste país”.

Fica cristalina a visão de que, neste país:

Ø NÃO PRECISAMOS DE PROFESSORES Ø NÃO PRECISAMOS DE EDUCAÇÃO

Ø AFINAL, PARA QUE SER UM PAÍS DE 1° MUNDO SE ESTÁ BOM ASSIM

Alguns exemplos atuais:

· Ronaldinho Gaúcho: R$ 1.400.000,00 por mês. Homenageado pela “Academia Brasileira de Letras”…

· Tiririca: R$ 36.000,00 por mês. Membro da “Comissão de Educação e Cultura do Congresso”…

TRADUZINDO: SÓ O SALÁRIO DO PALHAÇO, PAGA 30 PROFESSORES. PARA AQUELES QUE ACHAM QUE EDUCAÇÃO NÃO É IMPORTANTE: CONTRATE O TIRIRICA PARA DAR AULAS PARA SEU FILHO.

Um funcionário da empresa Sadia (nada contra) ganha hoje o mesmo salário de um “ACT” ou um professor iniciante, levando em consideração que, para trabalhar na empresa você precisa ter só o fundamental, ou seja, de que adianta estudar, fazer pós e mestrado? Piso Nacional dos professores: R$ 1.187,00… Moral da história: Os professores ganham pouco, porque “só servem para nos ensinar coisas inúteis” como: ler, escrever, pensar,formar cidadãos produtivos, etc., etc., etc….

SUGESTÃO: Mudar a grade curricular das escolas, que passariam a ter as seguintes matérias:

Ø Educação Física: Futebol;

Ø Música: Sertaneja, Pagode, Axé;

Ø História: Grandes Personagens da Corrupção Brasileira; Biografia dos Heróis do Big Brother; Evolução do Pensamento

das “Celebridades”

Ø História da Arte: De Carla Perez a Faustão;

Ø Matemática: Multiplicação fraudulenta do dinheiro de campanha;

Ø Cálculo: Percentual de Comissões e Propinas;

Ø Português e Literatura: ?… Para quê ?…

Ø Biologia, Física e Química: Excluídas por excesso de complexidade.

Está bom assim? … eu quero mais!…

ESSE É O NOSSO BRASIL

Vejam o absurdo dos salários no Rio de Janeiro (o que não é diferente do resto do Brasil)

Ø BOPE – R$ 2.260,00………………….. para …….. Arriscar a vida;

Ø Bombeiro – R$ 960,00…………………para …….. Salvar vidas;

Ø Professor – R$ 728,00…………………para …….. Preparar para a vida;

Ø Médico – R$ 1.260,00………………….para …….. Manter a vida;

E o Deputado Federal?…..R$ 26.700,00 (fora as mordomias, gratificações, viagens internacionais, etc., etc., etc., para FERRAR com a vida de todo mundo, encher o bolso de dinheiro e ainda gratificar os seus “bajuladores” apaniguados naquela manobrinha conhecida do “por fora vazenildo”!).

IMPORTANTE:

Faça parte dessa “corrente patriótica” um instrumento de conscientização e de sensibilização dos nossos representantes eleitos para as Câmaras Municipais, Assembleias Estaduais e Congresso Nacional e, principalmente, para despertar desse “sono egoísta” as autoridades que governam este nosso maravilhoso país, pois eles estão inertes, confortavelmente sentados em suas “fofas” poltronas, de seus luxuosos gabinetes climatizados, nem aí para esse povo brasileiro. Acorda Brasília, acorda Brasil !…

P.S.: Divulgue logo esta carta para todos os seus contatos. Infelizmente é o mínimo que, no momento, podemos fazer, mas já é o bastante para o Brasil conhecer essa “pouca vergonha”. As próximas eleições estão chegando!

Surpresas

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Aranha. Substantivo feminino. Aqui já existe uma provocação. A personagem que leva esse nome é homem. Estabelece-se certa fantasia e um fantasma se concebe: o médico e o monstro(?). A aranha aprisiona um homem e depois começa a “conviver” com uma mulher. Mulher? Bem… há controvérsias. A experiência a que Tarântula submete seu prisioneiro resulta na transformação deste: transgender. Ou seria mais politicamente correto dizer “transsexualidade”. Os sentidos se movem e podem distorcer a comunicação. Isso fica a critério de quem lê. De fato, a narrativa, aparentemente leve e descompromissada, enseja trama quase diabólica, para ultrapassar o estreito limite do “incômodo”. O itálico para fazer falar o protagonista cede lugar ao tipo comum de letra, como se a narrativa seguisse os trâmites do dejà vu. Ledo engano. Nada é linear. Nada é superficial. As sugestões se elevam à enésima potência fazendo com que uma “historinha” simples se transforme numa narrativa intrincada em que segredos e artimanhas do desejo se manifestem. Basta ter “olhos de ver”…

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Aranha é um aracnídeo da família dos licosídeos, que se movem rapidamente e possuem coloração marrom ou negra. Seu nome científico é Lycosa narbonensis, mede mais ou menos 25 mm de comprimento, vive em cova e caça no solo. Um insetoperigoso, aparentemente. As associações que se fazem a partir do nome desse bicho são inumeráveis. O dia a dia está coalhado de exemplos e as situações se multiplicam às miríades. Aqui, porém, a situação é única. O substantivo comum nomeia uma personagem da trama de ficção homônima: Tarântula, de Thierry Jonquet, tradução de André Telles, publicação da Record. Jamais tinha ouvido falar no nome deste senhor… já falecido. Fico imaginando que reação e que pensamentos foram suscitados na mente de Pedro Almodóvar, quando ele leu este livro. Sim. Informa a capa do livro (de gosto discutível, diga-se de passagem) que o texto do romance “deu origem ao filme A pele que habito, de Pedro Almodóvar”. Vale conferir.

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Dar origem. Ser baseado em. Adaptação. Três expressões diferentes que se tomam por iguais e que diuturnamente são usadas como se nada houvesse de diferente entre elas. A chatice acadêmica poderia entrar em campo agora e discorrer sobre as diferenças “teóricas”. Vou deixar isso de lado. Anuncio apenas, para um próximo passo, meus comentários obre o filme. Quem não viu… DEVE ver!!!

Cinismo

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Li, por estes dias, no jornal Estado de Minas, nota escrita por um leitor, dizendo de sua apreensão quanto ao fato de encontrar os assentos localizados junto às saídas de emergência de um avião da TAM vazios. Perguntada que foi a aeromoça, candidamente – inferi esta reação pelo tom do texto da nota –, respondeu que o acontecido se deveu ao aumento do preço da tarifa cobrada pela companhia aérea para o uso desses assentos. Se a moda pega, daqui a pouco, todas as companhias aéreas vão aumentar o seu faturamento, por conta desse absurdo. Na nota, o passageiro, comenta sobre a dificuldade de locomoção dos atendentes de voo, no caso de necessidade de acionar as referidas portas de emergência. Esquisito.

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Um ano depois, parte da região serrana do Rio de Janeiro continua da mesma maneira que ficou depois das chuvas: entulho, restos, e miríades de corpos desaparecidos ainda soterrados. Um garoto perdeu mãe, irmão e casa (com tudo dentro…). O governo anuncia que casas “serão” construídas pelo programa “Minha casa, minha vida” (Tenho dúvida sobre o nome do programa…). Pergunta: como esse garoto vai “provar”, na “justiça”, que perdeu família, para ter direito ao “benefício” se não foram encontrados restos mortais de seus familiares e/ou os próprios documentos? Outra pergunta: por que a “autoridade” não disse exatamente “quando” as casas vão ter sua construção iniciada? Salve o “aluguel social”, mais um sócio da patuscada que vige no manuseio da “coisa pública”.

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A televisão, em Minas Gerais, tem veiculado mensagem da Câmara de vereadores (assim mesmo, em minúsculas… adivinhe o porquê!). Na peça, “garantem” que o mais que abusivo reajuste do salário dos “vereadores” (precisa explicar as aspas?) vai “beneficiar” apenas aqueles “eleitos” para a próxima legislatura. Que cândido! Penso logo no meu avô que, faz muito tempo, foi vereador em Contagem-MG e, junto aos demais, contribuía com um pouco de seu suado dinheirinho, para uma “caixinha” responsável por parte da realização dos projetos da vereança de então. Tenho vergonha de ter sido professor de um dos “vereadores” de Belo Horizonte, muita vergonha… E pensar que parte de seu nome remete a figura importante da Literatura Brasileira…