Mais um conto

Hoje é dia da Mara!

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A vida de Romeu

Bom, meu nome é Rodolfo, morava em uma casinha aos fundos da casa do senhor Romeu, homem velho, solitário e amargurado. Meu pai, antes de mim, havia trabalho para o Sr. Romeu, de motorista, há alguns anos ele faleceu e eu assumi o lugar dele. Moramos eu, minha esposa Ângela, minha mãe Rosa e meus dois filhos, Ana Maria e Matheus. Minha mãe trabalha na cozinha da casa, minha esposa é secretária do Sr. Romeu. Ele é um bom homem, salvo seus acessos de loucura, pelo menos uma vez na semana. Minha mãe, como de costume, prepara um chá de 7 ervas e dá a ele, para que se acalme. Ele bebe o chá e vai dormir. Nunca compreendi o porquê de aquele homem estar sozinho e amargurado. Não tem filhos, não tem mulher, não tem ninguém. Certa vez minha mãe me contou uma história, disse que um dia eu entenderia porque o Sr. Romeu havia se tornado o homem que é. Tinha mais ou menos 15 anos, demorou muito, mas hoje eu compreendo.

Lembro-me da minha mãe contando que o Sr. Romeu havia se refugiado naquela estranha casa, no alto de uma colina, aqui na Pensilvânia. Ela me disse: é o amor, Rodolfo, só ele é capaz de transformar um homem dessa maneira. Ele tinha mulher e filho, morava em uma casinha próxima ao lago Mississipi, mas aí houve uma tragédia e só ele sobreviveu, sua casa pegou fogo, ele estava trabalhando, sua mulher e seu filho estavam na casa e não conseguiram sair. Depois disso ele mandou construir essa casa e se enclausurou, não deu mais chance pra vida, quando se mudou pra essa casa ele contratou seu pai e eu para trabalharmos pra ele, e estamos desde então.

Sempre fui muito grato ao Sr. Romeu por tudo o que ele fez para a minha família, por ter nos acolhido e nos dado trabalho, e depois que meus filhos nasceram, ele permitiu que continuássemos na casinha dos fundos. Desde que eu compreendi o sofrimento dele, compreendi também toda aquela estrutura estranha da casa que ele mandara construir, por que o telhado fica na parte debaixo da casa? Por que a casa é sustenta por uma pilastra? Porque o jardim é sobre a garagem? – Ele simplesmente não queria sair da casa!

O Sr. Romeu é um homem muito precavido, amedrontado até. Em sua casa há elevadores, escorregadores – opção para sair da casa o mais rápido possível –, as portas e janelas abrem para baixo, para facilitar sua abertura, há saídas de emergência em todos os cômodos da casa, há uma piscina que nunca foi usada, há guincho, caixas e mais caixas de primeiros socorros, há um tablado rolante, boias. O Sr. Romeu construiu quase uma fortaleza contra os ataques repentinos da falta de destreza e dos efeitos da natureza. Não seria o fogo, nem a chuva que o levariam desta vida. Eu, no lugar dele, preferiria já ter ido, pois não aguentaria viver nessa solidão, principalmente por ter perdido mulher e filho.

Todos os dias ele me dava dinheiro e me pedia para comprar flores, rosas brancas, três dúzias delas, e todos os dias, à exceção dos dias em que ele tinha suas crises de loucura, ele despetalava as flores e jogava ao vento, sempre na direção sul, sempre às 21h, hora que, segundo a minha mãe, o filho dele havia nascido. As flores eram para eles, todos os dias, no mesmo horário, uma forma de mostrar que, embora eles tivessem partido, o momento em que a sua mulher havia dado a luz, este momento que seria lembrado e agraciado com flores, e não seus túmulos.

Romeu, a cada dia que se passava, se transformava em um homem mais e mais solitário, cada vez mais se excluía, se enclausurava em seu quarto, e qualquer um que tentasse um contato, tinha por vezes a cara atrás da porta.

Eu, como um simples motorista, nunca tinha me atrevido a perguntar qualquer coisa que fosse para ele. Temia o que ele pudesse pensar, temia a sua resposta. Temia a minha dispensa. Temia-o e simplesmente calava-me. Preferia o silêncio dele, mesmo que eu quisesse perguntar a ele de o culpado do incêndio havia sido ele, mesmo que ele não estivesse na casa, mas minha ínfima presença ali, naquele quarto não fazia nenhuma diferença, a não ser se eu não conseguisse encontrar as três dúzias de rosas brancas.

Certa vez, saí para comprar as rosas, fui às três floriculturas próximas a casa, em nenhuma delas encontrei as rosas, pensei: “Levo rosas amarelas, são quase brancas, indicam tranquilidade”. Não para o Romeu. Cheguei e entreguei as rosas, ele me olhou, como quem, se pudesse e conseguisse, mataria alguém, e nesse caso, eu. Ele despedaçou as rosas, não sobrou nem os espinhos, gritou dezenas de horrores e pediu que eu me retirasse. Minha mãe correu para ver o que estava acontecendo, minha mulher continha meus filhos para que eles não entrassem no quarto e vissem o Sr. Romeu naquele estado. Saí com os olhos estatelados, pernas bambas, boca seca, coração aos gritos e mãos frias. Ângela segurou-me. Levou-me para casa, preparou um chá. Tomei. Deitei. Dormi.

Quando amanheceu minha mãe veio ao meu quarto e me chamou. Contou-me que o Sr. Romeu havia machucado as mãos com os espinhos das rosas, e pediu-me que fosse a cidade tentar encontrar as tais rosas brancas. Estava destruído da noite anterior, mas não podia simplesmente dizer não.

Saí, fui a uma cidadezinha vizinha, encontrei as rosas. Três dúzias de rosas brancas. – Não, dê-me seis dúzias, compensaria o dia anterior. Andei mais um pouco pela cidadezinha, não a conhecia bem, mas sabia que era ali que os túmulos da mulher e do filho do Sr. Romeu estavam. Encontrei o cemitério. Encontrei os túmulos. “Mãe e Mulher amada”; “Filho e neto amado”. Havia flores novas, rosas brancas, por coincidência. Então depositei mais duas rosas nos túmulos. Quando estava indo embora ouvi uma voz: “Senhor…”. E mais uma vez, dessa vez mais próxima: “Senhor”. Olhei para trás e uma senhora já estava prestes a tomar-me pelo braço. “Foi o Sr. Romeu quem lhe mandou depositar as flores naqueles túmulos?”. Acenei que não com a cabeça. Ela abaixou a cabeça, como se sentisse não ser ele o mandatário das flores. Ela ia se virando quando eu disse que trabalhava na casa dele, e que embora não fosse ele quem mandara depositar as flores, de um jeito torto ele era o responsável. Ela sorriu amavelmente e começou a caminhar na direção dos túmulos. Não pude conter minha curiosidade e perguntei quem era ela. “Sou a mãe do Romeu”.

Não sabia que a mãe do Sr. Romeu ainda era viva. Uma bela senhora com seus noventa e poucos anos. Voltei pra casa e fiquei pensando nisso. Entreguei as rosas a minha mãe. Não poderia voltar ao quarto do Sr. Romeu depois do acontecido. Nenhuma palavra eu disse a ninguém sobre o que ocorrera naquela tarde. Tomei para mim uma promessa: descobriria o que havia acontecido se não fosse pelo Romeu, seria por sua mãe.

No dia seguinte voltei ao cemitério, e lá estava ela, sentada sobre a lápide. Vi que uma lágrima escorreu pela sua face. Aproximei-me e entreguei-lhe um lenço. Ela agradeceu. Então a convidei para um chá em um restaurante próximo dali. Disse que queria conversar sobre o seu filho. Ela acenou que sim com a cabeça, sorriu com aquele mesmo sorriso, deu-me o braço e acompanhou-me.

“Chovia muito quando Romeu saiu de casa. Ninguém sabia pra onde ele havia ido. Ele pegou o carro e saiu. Soube que ele e sua esposa brigaram antes, mas não sei como foi, sei o recado que estava em minha secretária. ‘Por favor, venha aqui, o Romeu enlouqueceu. ’ Não sei o que ele fez, só sei que não foi algo bom.”

Aconteceu tudo muito rápido. Disse ela. Recebi a mensagem e corri pra casa deles. Cheguei e a casa já estava em chamas. Liguei para os bombeiros. Não sabia se tinha alguém dentro da casa ainda, nem podia imaginar a possibilidade de realmente estar lá.

Será que ele sabia o que estava acontecendo? Passou essa pergunta em minha cabeça. Veio a resposta. Ela disse que tentou falar com ele, mas sem sucesso. Disse que tentou encontrá-lo de todas as maneiras, mas foi tudo em vão.

Poderia ele ter sumido assim? Sem se importar com nada? Sem se preocupar com sua esposa e seu filho? Conheço o Sr. Romeu há muitos anos, e sei que ele é um homem amedrontado, mas achava que isso ocorrera devido à perda da família. Não compreendi.

A senhora continuou a história. Disse que saiu a procura dele, na esperança de encontrá-lo. Ligou para o celular, para o trabalho dele. Foi aos bares em que ele costumava ir. Mas não o encontrou. Já se passara mais de 2 horas após o incêndio. E Romeu ainda estava sumido. Contou-me que ele só aparecera no dia do enterro. “Ele olhava de longe, sem coragem de chegar mais perto.” E eu estava lá. Esperando para poder segurar a sua mão e secar suas lágrimas. Completou.

Já estava tarde, eu precisava retornar à casa de Romeu. Despedi-me da senhora. Ao longo da estrada de volta a casa, fiquei refletindo sobre tudo o que aquela senhora havia me contado. Não conseguia acreditar em nada daquilo. Não me parecia ser lógico uma pessoa abandonar sua família dessa forma, mesmo que essa pessoa fosse o Sr. Romeu.

Chegando a casa, dirigi-me ao quarto do Sr. Romeu. Ele estava deitado em sua cama, com aquele fúnebre silêncio. Chamei-o. Ele respondeu, e disse que eu poderia entrar. Sentei-me em uma cadeira que se encontrava do lado esquerdo da sua cama. Então comecei a contar-lhe do meu dia. Contei-lhe sobre a senhora que encontrara nos túmulos. Contei sobre o incêndio e pedi que ele me contasse o que havia acontecido.

Jamais imaginei que eu tivesse essa conversa com o Sr. Romeu, mas eu fui acometido por uma vontade imensa de entender o que havia acontecido de fato na vida dele, que não pude me conter.

“Meu caro Rodolfo, seu pai, antes de você, foi meu motorista, um homem de minha inteira confiança. Meu único amigo. Ele nunca teve a coragem de me perguntar isso. Na verdade, ninguém nunca demonstrou coragem para me perguntar isso. Acho que eu vivi tanto tempo preso em mim mesmo que perdi a vontade de conversar com alguém, mas agora que você perguntou. Eu lhe contarei.”

A sua história foi parecida com a da senhora, ao menos no inicio. Ele disse que chegara a casa com muita chuva caindo do céu. Disse que quando entrara não avistara a sua mulher, apenas um bilhete dizendo que ela fora ao mercado com o filho para fazer compras. Disse que estava testando alguns complementos da fábrica onde trabalhava. Testou os complementos, deixou um bilhete pra esposa e saiu. Daí então não sabia de mais nada.

Assim, após rodar alguns quilômetros de carro, contando certo tempo, voltou a casa, mas quando chegou perto, viu a confusão. Bombeiros, polícia, os vizinhos, jornais locais. Era uma confusão total. Ele disse que entrou no carro e continuou a rodar, até que a gasolina do carro acabou. Ele parou perto de uma ribanceira. Chorou por horas a fio, tentou pular, mas algo o puxara para trás. Resolvera voltar.

Ao contrário do que a mãe dele achava, e que eu comecei a achar, Romeu não sumira por não saber ou por saber o que tinha acontecido, ele sumira por ser ele o culpado pelo incêndio em sua casa. Porque o que ele testava eram os mesmos complementos que hoje ele vendia, complementos para a rede elétrica. E como não podia testar na fábrica, levava para a casa.

Logo, Romeu não era a vítima, era o executor. Essa revelação chocou-me. Fiz como se fosse levantar-me da cadeira. Ele fez que não com a mão. Disse para que eu permanecesse ali. E então fiquei. Imóvel e atônito. Escutei as explicações da história. Que ele precisava ganhar dinheiro. Que tinha prometido à esposa e ao filho que eles teriam tudo do bom e do melhor. Que eles teriam a casa mais diferente do bairro. O carro mais luxuoso. Prometeu que a mulher teria muitas empregadas, e que assim ela seria tratada como rainha. E que seus planos tinham dado errado. Lágrimas começaram a escorrer do rosto dele. E ele concluiu. “E foi isso que aconteceu”. Era toda a história. Acabara. Mas não…

A final, eu ouvi outra parte da história, e nem tudo tinha se completado. Levantei-me, pus minha mão no ombro do Sr. Romeu e perguntei o que estava escrito no bilhete. E o porquê de sua esposa achar que ele estava ficando louco. E ele me disse. “É filho, achei que não perguntaria isso.” Aí ele me contou. E lágrimas escorreram do meu rosto. Disse que tinha escrito no bilhete pra esposa não se preocupar, porque ele já estava dando um jeito na vida deles, que ele tinha pegado alguns objetos na fábrica para pode completar o seu experimento e concluir os complementos de rede que ele estava montando. E que ele iria pedir demissão. Que ela não se preocupasse que tudo daria certo. Que não era pra ela mexer em nada. Que ele tinha ido dar uma volta de carro pra dar tempo de tudo funcionar perfeitamente. E que ele levaria pra ela uma coisa que ela gostava muito. E que ele a amava mais que tudo na vida. Perguntei o que ele estava levando pra ela, e ele me disse que eram as três dúzias de rosas brancas, rosas que ele nunca pôde dar a ela.

Saí do quarto. E tudo fez sentido. Ele em sua solidão e amargura. Não se perdoara pelo que acontecera com sua família. Fugiu de todos e de tudo que pudesse lembrar a mulher e o filho. Não tinha fotos na casa, nem nada que remetesse a alguma lembrança da vida dos três. Sabia que aquilo não me deixaria jamais.

Passado alguns meses, o Sr. Romeu me chamou e pediu que eu comprasse as rosas, pediu que eu prometesse comprar todos os dias sem falta, as três dúzias de rosas brancas. Disse que sempre fiz e que continuaria a fazer, e que não deixaria passar nenhum dia sem comprar as rosas, fosse dia de trabalho ou folga. Fui comprá-las. Quando voltei entrei no quarto dele e deixei as rosas sobre a mesa de cabeceira. Às 21h ele me chamou. Pediu ajuda para despetalar as rosas. Pegou um monte de pétalas e jogou para cima. E caiu. Caiu em meus braços. Partira dessa vida. Fora encontrar com o filho e com a mulher. Foi ser feliz.

E eu? Eu continuo no mesmo lugar. E todos os dias eu compro três dúzias de rosas brancas, tiro suas pétalas e às 21h eu as jogo na direção sul, para agraciar o momento do nascimento do filho do Sr. Romeu e de forma nenhuma para lembrar a morte dos três.

Outro conto

Continuando, apesar da descontinuidade, mais um conto… Desta vez, é o do Raoni!

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A Casa

– Sim, pois não? Moro sim. Logo vi. Quando é gente de outras bandas a gente sabe. Todo mundo conhece todo mundo aqui. Sei sim, pode dizer. Aquela ali em frente? Bem, já faz um tempo que… A moça vem sozinha, não é casada? Sei, as coisas andam mudadas, mas uma hora acaba acontecendo. O tempo vai passando e afinal, homem não muda, sempre foi tudo igual. O jeito é levar… Oh meu filho, não cumprimenta os outros não? Essa é… Como é que é? Renata, é? A Renata está querendo alugar a casa.

– A casa? Mesmo? Mas ela sabe que…?

– Não começa com história menino.

– Deixa disso, mãe! De qualquer jeito ela vai ficar sabendo.

– A moça não quer entrar pra uma xícara de café? Não, quê isso, imagina. Venha, a gente toma um cafezinho e eu te conto. É melhor tomar consciência dos fatos por nós do que dar ouvido às falácias dessa gente aí. Oh, filho, pegue um dinheirinho com o seu pai e vá buscar alguns biscoitinhos daqueles pra gente. Pode entrar, fica a vontade. Não repara a bagunça. Casa com muito menino não para em ordem. Esse é meu marido. Vida mansa, né meu bem. Aposentou, graças a Deus. Mais de 50 anos trabalhando duro nas estradas a fora. É, transportava de tudo. É, tempos difíceis, quatro meninos, lavando roupa pra fora… Ah, mas o que Deus tira Ele devolve em descanso. Senta aí querida, vou passar um cafezinho.

_ A moça gosta de televisão? Eu posso ligar. Deve estar passando a novela. Pra ser sincero eu não agüento novela. Tudo a mesma ladainha. Vez ou outra eu ligo pra passar o tempo, oh vida besta! He! He! Fico olhando algumas paisagens. Tem umas que passam em uns lugares bacanas, né. Me dá saudade da minha época de estradeiro, dias e noites nesse Brasil a dentro. Aquilo sim. Tomava todo o suor da gente, mas me sentia livre no mundo, cada dia num lugar. Essa vida agora só dá preguiça. Que saudade. É só preguiça. He! He! Mas a moça tem parente aqui no bairro? Não? É mesmo? Aqui na vizinhança? Mas qual casa, essa aqui do lado? Hum, sei. Bem, olha!Não gosto de me intrometer, nem de falar da vida alheia, mas é que…

_Com açúcar ou você prefere adoçante? Ah, sim, querida. Aqui está a colherzinha.

_ A moça, bem. Quer alugar a casa.

_ É, ela disse. Tem de saber com a imobiliária. Está sim, uma imobiliária do centro. “Sweet Home’, acho que é isso, né, bem. A casa estava sob a administração dela. Agora não sei mais se deve estar…

_ Vai saber. Não para ninguém naquela casa. Os últimos três moradores que vieram depois do sumiço deles não ficaram mais que uma semana. Disseram que recebiam ameaças, que havia alguma coisa na casa que devia valer muito, mas que não faziam ideia do que era. Mas tem alguém que queria muito essa coisa e ameaçou de tudo pra consegui-la. Acho que deve ser coisa do velho. Sem lucro, sei lá se essa imobiliária ainda quer alguma coisa com essa casa.

_ Não, como a moça viu, a casa é muito boa. Uma mansão mesmo. Tem de tudo, sauna, piscina, jardim de inverno…

_ É, eles sumiram. Foi pouco depois que o menino foi preso.

_ Poderia, ao menos, ter sido esclarecido o real motivo da vinda daqueles sujeitos engravatados. É tudo muito estranho e difícil de acreditar. Um menino de boa família, bem educado, novo, um menino ainda, ter feito o que disseram por aí.

_ Depois que o avô morreu as coisas desandaram. Sujeito bravo, com ele as coisas deviam ser no laço curto. Sim morava um casal, um menino e o avô. Ninguém nunca soube se o casal era pai do menino. Mas que a mulher era filha do velho, era. Ele foi político, corrupto, dizem. Mexeu com muita coisa errada, muita gente morreu por causa da cobiça dele. Veio fugido do nordeste, trouxe a neta com ele e mais o menino. Foi a única vez que ele conversou com a gente da vizinhança. Os caminhões de mudança parados aí na porta, atravancando a rua. Ele olhou pra gente e disse “não extravexe não minha gente, esse incomodo não passa de umas horas”. E a gente mal sabia que, dali pra frente, as coisas iriam só piorar. O homem chegou depois, já se comportando como marido da mulher.

_ Não gosto nem de lembrar. Da madrugada que tivemos de passar em claro, eu me apegava com a Nossa Senhora nos ampare, nos livre disso tudo… Ah, meu filho, que demora só para ir à padaria. Trouxe os biscoitos?

_ Trouxe mãe, os biscoitos e o tio que veio saber da moça que quer alugar a casa. Ele está vindo.

_ Dá o troco para o seu pai e faça um favor pra moça, vá buscar na casa de sua tia o telefone da imobiliária que está com a casa aqui do lado.

_ Boa tarde. Encontrei esse pestinha no caminho e vim. É ela? Ah, Renata. O prazer é todo meu. Então você quer alugar a casa… mas eles já te contaram? Não? Pois então vou te contar. Assim foi como tudo isso se sucedeu. Eu vi com os meus próprios olhos. Você precisava ver a cara deles. Sempre de narizes empinados, metidos a besta. Agora a família toda com a fuça na lama. Lembra quando deram aquela festa, irmã? Todos de terno, as mulheres, damas de longo chegando, descendo daqueles carrões. Aquelas limusines? Música fina, violinos, comida gostosa. Minha mãe – faro esperto – reconheceu todo o bufê, só pelo cheiro. E tiveram o despeito de não convidar ninguém da vizinhança. Nem o próprio primo, não, que mora ali na esquina. Sim, o dono do açougue. Foi há uns oito meses, os homens com as caras encapuzadas chegaram já arrombando a porta, depois entraram na casa procurando alguma coisa que não encontraram e ficaram putos e quebraram tudo o que viram pela frente, tudo. Sorte a deles que tinham ido ao cemitério velar o avô morto.

_ Pois é moça, aconteceu, para a nossa surpresa, o inesperado. Ele morreu. Morreu engasgado com uma bala toffe, sua sobremesa favorita. Veja bem, um homem do diabo aquele assassino que era gostar de adoçar a boca com balinhas de caramelo. Não estou dizendo que esses desalmados não podem apreciar prazeres adocicados, não! Mas é que dizem que ele, ao chegar ao recheio do dropes, não mastigava, mas o chupava com vagareza, e dizia: "isso é a coisa única que Deus fez de bom"- e cuspia o resto.

_ Morreu engasgado com uma balinha. Acredita? Quando chegaram estávamos todos na rua especulando aquela barbaridade. Reagiram friamente. Entraram e depois de meia hora saíram com alguns pertences e foram se hospedar num hotel. Quando terminou a reforma, eles voltaram colocaram cerca elétrica no muro. A única coisa boa nisso tudo é que eles compraram todos os filhotes da Mary killer, minha pity bull.

_ Sim, voltaram. E, pelo o que disseram, eles não podiam deixar a cidade porque estavam sob investigação da policia federal. E que eles estavam devendo até a alma, mas não se desfizeram da casa. Depois de muito tempo confinados na casa e vendido todo o patrimônio do velho, eles sumiram… Como foi que eles fizeram isso, ninguém comprova, mas gente pra dizer dou-minha-cara-a-tapa-se-não-for-verdade é o que mais tem. Eu até que gostava deles, nunca me fizeram mal nenhum, mas que tem coisa errada nesta história tem, sempre teve. Não levaram nem os móveis da casa, e os cachorros tiveram de soltar para não morrerem de fome. Eles uivavam tristes que dava dó. Coitados, os animais não têm culpa das barbaridades dos homens.

_ Só depois de alguns meses que chegou a notícia de que estavam, muito bem de vida, morando no exterior e iriam alugar a casa. Nós até pensamos em mudar para lá, mas não fomos, porque estavam cobrando um preço muito alto, e, também, não tem nada melhor do que viver sob o teto que é nosso. Como eu te disse, vieram três moradores que não chegaram a desfazer todas as malas. Não agüentaram a…

_ Oh mãe, a tia está vindo com o número do telefone.

_ Obrigado meu filho.

_ Boa tarde! É você a moça que quer alugar a casa?

_ É sim, ela se chama Renata. Esta é minha irmã, querida.

_ O prazer é meu. Quê isso, não foi nada. Precisando, estou às ordens. Aqui está o número do telefone da imobiliária. De nada meu anjo. Afinal, você muda quando?

Retorno

Depois do intervalo momesco – com direito a show de vandalismo e babaquice; assassinato na praia, outra morte de adolescente por (aparentemente) descaso de hospital e absoluto silêncio de militância médica e gay por conta dos absurdos veiculados pela “Vênus platinada” em horário nobre – segue mais um conto do seminário, desta vez, é o da Aline. A coisa vai devagar e sempre, pra não faltar a referência italiana: pianno, pianno se va lontano… Desculpem se a ortografia está errada…

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A espera

Eduardo era um jovem de 19 anos, tinha uma vida muito confortável, estudava no melhor colégio da cidade, morava no litoral e tinha tudo o que queria, porém era muito solitário, não tinha muitos amigos e nem muita relação com seus pais e familiares. Não ligava muito para isso, a vida que eles levavam, tanto sua família quanto as pessoas ao seu redor era muito fútil para o seu modo de ver a vida. Sua enorme paixão era a praia, passava todo o seu tempo livre ali, surfando horas e horas, ele tinha uma relação muito forte com o mar. E foi ali, no seu porto seguro, a praia que ele conheceu Manoela, surfava todos os dias assim como ele, sempre se encontravam mas nunca haviam se falado ate aquele dia, em que ela se aproximou dele e se apresentou. Ela era assim, espontânea e muito comunicativa, cheia de sonhos e idealizações,cabelos desgastados pelo sol, chegavam a ser brancos, e um sorriso embaraçador. Manoela era o seu inverso, falava muito e contava muito historias da sua vida e da sua comunidade, ela morava no subúrbio da cidade, mas não demonstrava infelicidade em relação a esse aspecto, pelo contrario, sempre trazia historias e alegrias de morar la.

Desde então era assim, Eduardo encontrava Manoela todos os dias na praia, conversavam e riam sobre tudo. Quando ele se deu conta já estava tomado por um sentimento muito forte em relação a Manoela, um sentimento que não sabia descrever e não sabia medir. O que lhe tirava o sono todas as noites era saber se ela sentia o mesmo por ele, tímido como só ele era não iria perguntá-la. Até que um dia Manoela, de forma impulsiva, sua principal característica , lhe deu um beijo e disse que ele era muito importante para a vida dela e que Eduardo já fazia parte da sua historia, desde então os dois não se largavam mais. Manoela era tudo que e Eduardo precisava, companheira e divertida, fazia de sua vida uma diversão, tirou ele daquele cubo escuro em que vivia, onde nada tinha sentido ou razão. Ele a deixava calma e serena e ela dava outro sentido a sua vida, enfim um completava o outro. E assim seguiram os anos, Eduardo já não sabia mais viver sem Manoela, e ela não sabia mais viver sem ele. Eram mais que namorados, se tornaram cada vez mais companheiros e confidentes um do outro.

Numa tarde de verão normal, os dois como sempre faziam, foram juntos surfar, o mar estava muito perigoso nesse dia, porem não impediu de que eles entrassem para o surf. Eduardo sentiu em um determinado momento que deveria sair, mas Manoela insistiu em ficar, ele acabou cedendo. Esse é o erro que ele leva com ele, o mar carregou sua doce Manu. O desespero lhe tomou conta, ele gritava seu nome , gritava ajuda mas era tarde demais, o seu porto seguro havia levado sua vida e não havia mais volta. E começam-se as buscas, passaram -se um mês de procura e nada foi encontrado. Aquele lugar que era o seu refúgio, onde os dois se encontraram e tiveram as sensações pela primeira vez, levou aquela que já era um pedaço dele mesmo.

Eduardo se pegou pensando o que seria da sua vida a partir daquele dia, sentiu-se perdido e sozinho novamente. Desde então sua vida foi uma eterna tristeza, aquele velho e obscuro cubículo de vida era a sua casa novamente. Manoela era a única que o entendia, que o fazia sorrir e chorar , era a razão para ele dormir e acordar, enfim de viver. O que faria então? Desistia de procurá-la?Esqueceria que ela existiu? Então decidiu ir atras da sua felicidade, pegou um barco e na primeira ilha distante da costa foi a que ele ficou, ali construiu uma pequena cabana e o que ele mais necessitava. Eduardo mora ate hoje nesse lugar, fica a espera dela, a sua felicidade, o seu sentido para viver e acredita que um dia o mar, esse que a trouxe para ele um dia , aquele que foi testemunha de tudo de bonito que eles viveram possa trazê-la de volta.

Seminário 2

Como prometido, começo a publicação de todos os contos, resultado do seminário de narrativa. Os textos estão LITERALMENTE intactos. Não fiz edição ou revisão. O primeiro é da Jeovânia. Parabéns pra ela!

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A casa amarela

Bem vindos à casa dos sonhos!

Quero dizer a vocês que sonhar é possível até mesmo acordado.

Pensando bem posso afirmar que meus sonhos começam quando estou dormindo, mas este acontecimento perdura durante o dia, quando o sonho vale a pena ser sonhado.

Tenho mais a dizer que são dias, meses intermináveis, os momentos de “fleches” que mostram copiosamente os detalhes realizados durante momentos valiosos a serem arquivados na nossa memória. Semana passada aconteceu, estava a passar próximo de um lago e veio a viagem gostosa do sonhar acordada, mas com um triz de observação senti que algo estava estranho aos nossos ouvidos, gente cantando música brasileira va o lago passava mal, ele vomitava, parecia compadecer da ressaca de alguns estrangeirismos, estranhos a nossa gente, saciar e vangloriar a língua dos outros, e a nossa língua? “Fala Brasil”, deu um “flash”, tive um “flashback” e fiz um “backup” de tudo que passava por ali, com tudo isso optei por flesches, copiei em pedaços a nossa musica, a nossa cultura, queremos embebedar dos importados na ilusão de ser gente chic, prefiro falar flesches, bem brasileiro em som e magia e na pronúncia rasteja o S de sol. Raiou outro dia na praça chega o contador de estórias, daqueles bons de piada de dar risada. Estes Aqueles favoritos a pque faz parar a correria das mulheres em vésperas de festas nas cidades interioranas. Você nem percebe, lá estão as crianças, jovens, idosos e as mulheres, contando suas anedotas e agente chora e ri e leva para dormir o riso, depois acorda e pode até mesmo dar uma de louco, ri só, sozinho. Bom! Afirmo, melhor ainda é sonhar com as estrelas, lua, sol, dia e noite e com gente fazendo festa. Ah! Não, não podemos reclamar até mesmo quando alguém permitir, isso não é fantástico?!

Bom dia a casa dos sonhos!

Quero dizer a vocês que sonhar é possível até mesmo acordado.

Pensando bem, posso afirmar que meus sonhos começam quando estou dormindo, mas este acontecimento perdura durante o dia, quando o sonho vale a pena ser sonhado.

Então, hoje voltei naquele lago e pesquei algumas peças do sonho, puxei da memória o desenho da minha casa no lago.

Um lugar perfeito para planejar a morada dos sonhos, rico em beleza natural, decoração para todos visitantes e aberta as sugestões de todos aqueles que permitem sonhar.

O projeto em fase de discussão abre para cada olhar observador uma tessitura de opiniões individuais, uma fonte de conclusões, trabalho e sugestões das melhores possíveis, para um empreendimento admirado por todos. Neste plano inicial, o canto direito do lago ficaria a casa e seus pertences decorativos equilibrados para recepcionar os amigos. A parte principal deste projeto a casa ficaria dentro do lago, lado direito e sustentada por fortes cabos de aço, que mais parecem braços gigantes para não deixá-la ir embora quando as chuvas chegarem com toda a sua bravura.

No sonho, a casa é desenhada com dois pavimentos, sendo o primeiro com cozinha e sala para visitantes, um banheiro e jardim e o segundo com três quartos confortáveis, com poucos móveis, permitindo mais leveza e comodidade para descansar e curtir este balanço de idéias. Para dizer dos detalhes mais sofisticados diria do teto todo transparente de vidro, para captar todos os mistérios que a natureza nos oferece. Pensa! Está chovendo, você vê a chuva chegar e sair escorregando pelo teto na maior brincadeira. Se estiver o tempo escuro, pode brincar de esconder atrás das nuvens, feito criança contando carneirinhos. Quando chegar o inverno o frio toma conta de esfumaçar todo o vidro do teto e janelas com seu bafo e desenha vários personagens de variados tamanhos. Quando o verão aparecer, é tempo de pular da cama bem cedinho e sair correndo para tudo acontecer, de brincadeiras á trabalho, pois o sol é como leão da selva, ele chega arrastando tudo, cheio de garra e energia.

E a noite também é bem vinda traz estrelas, lua e São Jorge o guerreiro montado em seu cavalo com espada e muita tranqüilidade.

A cada dia um sonho novo, uma pincelada diferente aqui e ali, cada um que comenta coloca seu dedo para produzir detalhes de uma casa amarela, que perambula na cabeça de muita gente do pequeno Vilarejo, perto de Sabará.

Outro dia uma amiga ligou, queria saber qual o melhor lugar para os livros e dizia eles são os preferidos dos cantinhos, dos lugares mais silenciosos.

Agora chegou o momento da consultoria maior, a pessoa preparada para tomar decisões que pode construir ou apagar sonhos…

Na próxima semana, já está marcado o encontro com o arquiteto, que o Sr.Oliveira indicou como o melhor para este tipo de projeto inédito, uma casa dentro de um lago sustentada por cabos de aço, plano perigoso. Mas, o nome cotado é o Sr. Justinis Franco, engenheiro, arquiteto ,

Formado na Universidade de Coimbra, conceituado por muitos profissionais como um dos melhores da região em projetos inusitados. Marcamos o primeiro encontro para acertamos detalhes da obra. Ao encontrarmos, primeiramente tomamos um café com sabores incrementados. Ele pediu a moça da “cafeteria Nosso Sabor”, um café sabor de menta, outro de gengibre, nada do nosso paladar costumeiro, o cafezinho com gosto de café brasileiro. E, foi o primeiro gole, elogiei falsamente, sem trégua para o segundo gole, veio logo á primeira pergunta? Qual é o tamanho da área para a construção da sua casa? Arregalei os olhos, senti um vermelho pular no meu rosto, fiz sinal de engasgo, para testar a voz, pois me senti muda e tonta, tudo embaralhava diante dos meus olhos. Pedi um instante… E, então não lembra? Meu Deus! Pensei; tenho de dizer e falei, Senhor Justinis Franco, não se trata de uma área de terreno, mas sim de um lago. Lago? Que lago? Um lago muito interessante Sr.Justinis, fica a dois quilômetros deste Vilarejo, lá encontro muita paz, inclusive nos meus sonhos… abasteço de felicidade ao sonhar com este projeto. Sim!. A senhora já disse tudo, eternamente em paz, pois já morreu antes mesmo de realizar este sonho, este projeto de gente louca, por acaso morar em cima de um lago é a solução para encontrar a paz? Pode responder, por favor: Confesso, é loucura demais, mas pensa bem, ser astronauta, não é louco, pular de pára-quedas é demais, fazer travessias, ser alpinistas… . Senhora! Por favor, esqueça este projeto maluco ou procure outro Arquiteto. Não! Sr. Justinis, por favor … Ele disse tchau! Saiu esbravejando; mando á conta das minhas horas perdidas… Não quero conversa, não tenho paciência com gente maluca. Mas, é apenas um orçamento. É? Meu orçamento tem preço. A conta vai chegar e a senhora trata de pagar. Afinal, até meu título de Doutor é de Coimbra. Quanto será? Meu Deus, realmente tenho que pagar? Aqui, nós pagamos até para apagar nossos sonhos, e caro!

Este Dr.Justini, amiga, disse á moça da cafeteria, é sem paciência, ele foi logo respondendo com maior indelicadeza á senhora, ás vezes os Doutores atropelam as pessoas.

Saí, fui caminhando em direção ao lago, ele estava longe, junto da minha futura casa amarela.

Vieram as férias e fui viajar para o nordeste, queria conhecer algumas praias lindas, mais lindas de tanto falar. E, os dias foram passando, desliguei um pouco do projeto da casa, que de certa maneira aborreci, o bastante. Eu aguardava pelos acontecimentos, na beira da praia uma verdadeira maravilha!. Estava silencioso o vento, mas ouvi vozes diferentes, prestei atenção, passavam por perto, um guia turístico com seus fregueses a comentarem de uma casa inédita, em cima da árvore. Suspirei! E, vieram os “flashes”, o sol já havia aquecido meu cérebro e trouxeram á tona a casa amarela, quis acompanhá-los para conhecer á casa construída na copa da árvore.

Árvore e casa, robustas e maravilhosas! Tudo estava perfeito por fora, pois infelizmente não conseguimos vê-la por dentro, o proprietário tinha viajado para sua terra natal, a Alemanha. Procurei saber seu nome: é o Sr. Wolff, como é conhecido por estes arredores baiano. Então, decidi adiar minha volta, para esperá-lo, quero poder entrar em cada canto misterioso desta casa azul. Azul? Ela é mesma azul, ou apenas imaginei por estar em direção ao céu da Bahia de todos os Santos. Seria vertigem ver um Senhor de cabelos grisalhos engolido pela altura da janela. Parei por algum momento e pus a imaginar que o Sr.Wolff, havia chegado, pensei o que fazer para que sentisse minha aflição de falar com ele.

Neste intervalo lembrei-me do telefone do rapaz, o guia turístico, aquele que decorava todas palavras em diversos idiomas que cabiam dentro da casa para levar ao conhecimento dos turistas. Assim completei a ligação, falei do meio anseio sobre o projeto da minha futura casa, amarela, exclusiva como morar juntos dos pássaros, seria morar ao lado dos peixes de várias cores e tamanhos. O rapaz, passou notícia e seu número de telefone. Sabe o quanto fiquei contente, ao testar o número do seu celular e logo ele atendeu. Como havia pensado seu idioma seria complicado para eu entender e poder contar o que pretendia conversar, e ele sem entender desligou. Pensei no interprete e ele, veio muito rápido. O rapaz precisava saber do assunto e eu contei com tanta mansidão que estranhei meu comportamento,sem ansiedade. Quando terminei, ele estava com tanta estranheza que perguntei, você está bem? Você acha que vou dizer ao Sr.Wolf, que seu próximo projeto de construir uma casa em um lago foi roubado. Mas, não, este projeto é só meu, inclusive nunca encontrei um projetista para realizar meu sonho, um que pudesse dizer que é possível, realizar este sonho. Vamos fale com ele, por favor! Liguei, expliquei tudo, ele deu um sorriso, maroto, até mesmo esquisito para gente muito séria. E, disse: Caro Osmar, diga a este sonhador que paguei caro pelo meu e seu sonho, já que vivemos na busca do mesmo ideal. Quando falei com você que ia para Alemanha, infelizmente tive que mentir, pois tive um pesadelo na noite anterior á viagem, este pesadelo mostrava exatamente a pessoa com o mesmo projeto da casa no lago, amarrada por forte cabo de aço, a casa tinha teto de vidro, portas largas e um jardim também flutuante, maravilha. Sabe amigo, o chuveiro, com energia solar e banheira também, talvez no inverno não funcione muito bem , pois é um lugar bem frio no interior de Minas Gerais. Olha, Sr. Wolff, lembra do nome da cidade, sim, fica num Vilarejo ao lado de uma pequena cidade Sabará. Sabará? Por quê tanto espanto? Você guia turístico não nunca ouviu falar desse local, este nome é inesquecível. Sr. Wolff este lugar já tem dono, não senhor, ele já esta pago. O quê? Conversa aqui, alô, alà, sai de lá, vem pra cá, vou pra lá, vamos dividir o sonho e nunca pararmos de sonhar. Fleches, o qual traduzo no meu português brasileiro, apenas escrevo como sai o som da boca de nos mestiços, mistura fina, mistura rara, samba no pé , fé e Nosso Senhor do Bonfim.

Intervalo

 

Sou leitor contumaz da coluna da Dad Squarisi, no Estado de Minas. Fã de carteirinha. Isso não me obriga a ficar de boca fechada. Ainda mais depois de ler duas de suas colunas. Fiquei deveras incomodado, não tanto pelo “conteúdo”, mas pelo “tom” do discurso. Para dar tratos à bola, fui apondo meus comentários (em negrito vermelho) sobre as assertivas da “jornalista e linguista” (?). Nada pessoal… O texto é longo, contradizendo alguns dos “princípios” nele exarados…

Mídias convergentes? Que bicho é esse?
Dad Squarisi

É mídias convergentes pra lá, mídias convergentes pra cá. Os suplementos de informática não se cansam de falar no assunto. Debates calorosos incendeiam universitários e professores de comunicação. Os Diários Associados puseram lenha na fogueira. Lançaram o Manual de redação e estilo para mídias convergentes. “Que bicho é esse?”, perguntam leitores curiosos. (É o bicho que pega e come quem não tece educação primária e ginasial que ensinava a ler e a escrever!)
O manual dos Diários Associados ajuda na resposta. A questão tem tudo a ver com a internet. A rede de computadores se parece com aquelas bonecas russas metidas uma dentro das outras. Conhece? A grande mãe é a web. Nela há de tudo—jornais, blogues, sites, portais, livros, revistas, enciclopédias, rádios, tevês, fotos, filmes, músicas. A matriarca virou o mundo da escrita e da leitura pelo avesso. (Será que virou mesmo? Ou isso é invenção de quem quer se livrar da “obrigação” de ler e escrever “corretamente”?) Quem escreve tem de ter em mente que o texto pode ter destinos muiiiiiiiiiiiiiito diferentes dos originais. (Os destinos da leitura sempre foram “muiiiiiiiiiiiiiito” diferentes… Qual a “novidade”??? E, por falar nisso, que destinos “originais” são esses???)
Redações escolares, provas de concurso, sentenças judiciais, artigos de jornal, discursos políticos, publicações do Diário Oficial—tudo alça voo. Podem ser lidos por um locutor e virar podcasts. Podem ser postados na internet. Podem ser vertidos automaticamente para outras línguas graças ao Google Translator. Eis o desafio: a linguagem original tem de estar atenta à nova realidade. (Estar atenta é uma coisa… submeter-se cegamente é outra bem diferente. Bem menos racional e/ou saudável!)

Admirável criatura nova
A relação autor-leitor se divide em dois tempos—antes da internet e depois da internet.(Quanta pretensão!) Antes da internet, o autor era dono e senhor do texto. (Isso é relativo… basta ler um ou dois volumes de História da leitura para verificar! mas é preciso LER!!!) Definia a introdução, as trilhas do desenvolvimento, a hora da conclusão. (E continua assim: alerta para os desavisados de plantão!) O leitor recebia o prato pronto. (O prato pode até estar pronto, mas quem o “come” é o leitor. Sempre foi assim, sempre será!!!) Ou o consumia, ou o deixava de lado. (E mudou alguma coisa? O sujeito pode ligar ou desligar o computador quando quiser, uai!) Nada mais podia fazer contra a ditadura da linearidade imposta pela página escrita. (Impor o inverso do que está posto não é a mesma ditadura?)
Depois da internet, a história mudou de enredo. (Será que “mudou” tanto assim mesmo?) A ordem perdeu o rumo. (Perdeu não… Não é bem assim…) O caminhar em linha reta deu a vez ao navegar. (E quem disse que LER é caminhar em linha reta?) Imprevisibilidade é a tônica. (Cadê a novidade?) Trechos de texto se intercalam com referências a outras páginas. (Uai… nos “textos” é do mesmo jeito!) Um clicar muda a sequência, o código, o enfoque. (Virar a página também!) O leitor assume o protagonismo. (Ele jamais foi alijado de seu “protagonismo”!) Escolhe o que ler, quando ler, por onde começar, onde interromper, em que hora parar. (De novo, a mesma cantilena…)
A planura da folha de papel cedeu o lugar a espaço plural. (A folha de papel, para a LEITURA jamais foi “plana”…) Ali o internauta tem acesso simultâneo a textos, imagens, vídeos, sons, animação. (Esta sim pode ser uma vantagem, um “avanço” uma vantagem: saudades de Italo Calvino!) Mais: pode brincar com eles. (Quem disse que o “papel” não é lúdico?) Modifica-os, reorganiza-os, interage com um, dois ou todos. (Tsk… tsk… tsk…) Em suma: rege os elementos da comunicação. (Hello!) Tanto poder gerou uma admirável criatura. (O sujeito que LÊ já é esta admirável criatura!) Conhecê-la é preciso. (Sempre foi. Continua sendo. Sempre será.) Dá senhora ajuda a quem quer escrever para ser lido. (“Há mais coisas entre o céu e aterra…”)

O internauta é…
Infiel: não comparece diariamente (O que é “comparecer diariamente”?) nem deixa de borboletear de site em site, de blogue em blogue. (É o mesmo que dizer “De página em página”…)
Inconstante: passa pelo site, mas não o lê com assiduidade. (Inconstância não é predicado de um LEITOR)
Proativo: busca mais informações em vez de aceitar passivamente o que lhe é oferecido. (LER é dialogar, não é resignar-se)
Arisco: não se deixa agarrar com facilidade. (Quem disse que o LEITOR não é assim?)
Receptivo: aprecia estilos não convencionais porque tropeça em muitas mesmices. (Não vejo diferença…)
Crítico: gosta de comentar a matéria. Elogia, desqualifica, faz sugestões. (Ô gente… Não é isso mesmo o que o LEITOR faz???!!!)
Exigente: quer ser ouvido, seja coma publicação do comentário, seja coma resposta rápida à pergunta que formula. (Todo e qualquer LEITOR é exatamente assim!)
Visual: faz a primeira avaliação com os olhos. A matéria tem de caber na tela do computador. (Isso me parece cerceamento e/ou amputação)
Multimídia: não aprecia notícias com cara das lidas no jornal. (O que há de errado, de mau, com elas?) Além de texto e imagens, exige vídeos, áudios, animação. (Essa “exigência” é que me incomoda por despótica que me parece) Nada de prato feito. (Um texto não é prato feito é cardápio variado!) Ele escolhe a ordem. (A LEITURA também!)
Apressado: falta-lhe tempo para abarcar o universo sem fim da web. Lê o texto em T—primeiro o título. Depois, as primeiras palavras do 1º parágrafo. Se quiser, prossegue. Só chega ao fim se lhe interessar. (Deixando de lado a mesmice repetitiva, o tempo é que é o dodói aqui… LER é mesmo prática que demanda tempo… para APROFUNDAMENTO NECESSÁRIO!)


Em bom português
As mídias eletrônicas viraram pelo avesso a função do autor escritor e a do usuário-leitor. (Essa virada é meramente mecânica, logística… O processo e a organicidade ainda são os mesmos!) Adeus, posse e autoria de um texto fisicamente ilhado. (O TEXTO jamais foi uma ilha!) Adeus, significado único e hierarquicamente superior aos comentários e notas que dizem respeito a ele. (Deus, quanta superficialidade… Ler qualquer texto “físico” é ter que se submeter a esses mesmos parâmetros ditos “inovadores”!!!) Adeus, poder absoluto. (Poder absoluto não “existe”. Quem ainda não ouviu falar em Foucault?)

Seminário 1

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Pois bem. A ideia surgiu durante uma oficina de “escrita criativa”, realizada em Zagreb, com o Gonçalo Tavares, escritor (de sucesso) em Portugal, nos dias que correm. Ele começou lendo um pequeno trecho de um de seus livros. A personagem que ele criou sai de casa para se encontrar com amigos usando um sapato preto no pé direito e um branco, no esquerdo. Chegando ao local do encontro, os amigos disseram que ela estava errada, por conta dos sapatos. Ela volta para casa e troca os pés e as cores: sapato branco no pé direito e o preto, no esquerdo. Mais uma vez, os amigos dizem que ela está errada. Depois disso, a tal personagem passa boa parte da narrativa “meditando” sobre o “erro”. Gonçalo parte dessa ideia: o erro. E pede que os participantes da oficina desenhem uma casa “errada”. Depois pede para que cada um dê explicações sobre o “erro”. Trocam-se os desenhos e cada dupla escreve dez coisas erradas sobre a casa desenhada pelo outro e dez coisas certas. Trocam-se os papeis. O próximo passo é escrever frases sobre as coisas erradas destacadas… I tako dalje

Resolvi partir da mesma “dinâmica” no semestre passado quando, pela segunda vez, ministrei o tal de seminário “pífio” de narrativa…). A ideia era fazer com que os estudantes “sentissem na pele” o que é o processo da “escrita criativa” e, a partir desta experiência, tentassem estabelecer parâmetros mínimos para uma escrita analítica. Tentei isso para substituir o lugar comum dos textos teóricos sobre narratologia… Não foi um sucesso, mas tamném não foi um fracasso. Começo hoje a publicar parte desse trabalho, começando com os desenhos das casas erradas…

Em tempo: o que vai aqui publicado recebeu autorização dos “autores”!

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Vejam os desenhos:

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Aquecendo os tamborins

 

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O carnaval está na esquina e boa parte da população brasileira se prepara para mais um feriado… como se fossem, poucos: os feriados! Mais um ano de exageros, descontrole, algazarra e até alegria… pouca, mas alegria… Nesse “clima” é que me intrometo para cumprir o prometido. Pouquíssimas pessoas irão ler, o que pode ser considerado sinal de insignificância… Cada um tem direito a uma opinião. Pra semana começo a publicar os contos que meus alunos escreveram no semestre passado como parte das atividades de um “seminário” de narrativa. As aspas se justificam. Afinal, chamar de “seminário” a dois pífios encontros semanais de hora e meia cada, durante três meses e meio é um tanto… um tanto… ah… deixa pra lá. Eu e minhas chatices. Mas numa de aquecimento, deixo duas “pérolas” (virão outras de quando em vez). Não faço a mínima ideia se existe autoria para elas, mas, aí vão:

“Antigamente as mulheres cozinhavam igual à mãe… Hoje , estão bebendo igual ao pai!”


“Antigamente os cartazes com rostos de criminosos ofereciam recompensas; atualmente, pedem votos”.

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