Teias no/do olhar

O Cirque du soleil é um espetáculo para os olhos. Para os olhos e outros sentidos também. O colorido das fantasias e do cenário. Os truques e ilusões dos efeitos de luz. A sofisticação dos acrobatas e da contorcionista. Ah, a sofisticação… Um circo sofisticado. Isso é o que é… Imperdível. Por falar nisso, esta qualidade, a sofisticação me leva a pensar no filme A pele que habito, do Almodóvar. Um filme imperdível.

De começo, a impressão que se tem é de que nada vai ser muito diferente do que já se viu na filmografia desse enfant terrible do cinema internacional. Sim, internacional. Apesar da peculiaridade da língua, da marca registrada das cores, do tratamento personalíssimo de questões complexas e espinhosas, paira alguma coisa no ar. Alguma coisa que não é possível detectar de antemão. Alguma coisa que não vai sendo construída linearmente pela narrativa fílmica. Alguma coisa que não vai sendo organizada a partir de cacos de caleidoscópio. Alguma coisa…

O entrecortado cronológico das sequências episódicas foge um pouco ao padrão do cineasta. A crítica conterrânea dele disse e maldisse muita coisa. Andei lendo que os “locais” torceram o nariz, chegando a afirmar que o cinema de Pedro havia acabado. Que ele já estava se repetindo. Bobagem… Os filmes dele são sustentados numa sequência bastante sensata de… repetições. Isso não é defeito, é arte! Há que ser artista para saber se repetir sem ser “repetitivo”. Há difertença semântica nisso. Ouso afirmar que Almodóvar, com este filme, se superou, sem deixar de ser ele mesmo. É o filme mais inesperado dele, na minha modesta opinião. É o filme mais “diferente” no conjunto de sua filmografia, mas a sua assinatura é indelével. É radicalmente outro, mas ele está lá. Talvez seja difícil de entender, como, às vezes, penso que é explicar. Mas é isso mesmo: é totalmente outro, mas é ele!!!

Do aparente estupro da filha do médico ao assassinato de sua mãe (prestem atencão a este “episódio” no/do filme). Do retorno de um suposto irmão, ao retorno ao brechó (Penso eu que o “pomo da discórdia é este… mais não digo). Os retalhos e as máscaras que com eles são feitos, a escrita nas paredes do quarto de Vera, a mãe que busca seu filho já abandonado ao descaso policial depois de seu desaparecimento súbito. Claro está que não é filme de suspense. Mas o suspense se faz presente, mais no filme que no livro. Aliás, perto da leitura de Almodóvar, a narrativa do romance fica muito aquém das expectativas. O filme é mais denso, mais ricamente intrincado, mais provocante, mais sedutor, mais intrigante, mais impactante, mais… mais… mais… O fio narrativo do filme, a meu ver, baseia-se numa decisão polêmica do médico que pesquisa a produção de pele humana. Neste aspecto, o filme atinge um grau de polêmica, com tal sutileza, que a “surpresa” que causa a certa altura faz a gente dar um salto na cadeira e quase gritar: ó! Vejam e se deliciem…

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